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FERNANDO MORAIS oLGA edição ilustrada 7 edição EDITORA   Size:0 | View:362 | Page:110

FERNANDO MORAISoLGAedição ilustrada7 ediçãoEDITORA ALFA-OMEGASão Paulo1986Planejamento gráficoe produçãoEliane R. PereiraCapaCarlos GrassettiCadernos deilustrações (diagramação)Cetso Calixto RiosPreparação de textoClaudio MarcondesRevisãoLuiz Roberto deGodoi VidalSilviv DonizeteChagasLeni SoaresE...  
FERNANDO MORAISoLGAedição ilustrada7 ediçãoEDITORA ALFA-OMEGASão Paulo1986Planejamento gráficoe produçãoEliane R. PereiraCapaCarlos GrassettiCadernos deilustrações (diagramação)Cetso Calixto RiosPreparação de textoClaudio MarcondesRevisãoLuiz Roberto deGodoi VidalSilviv DonizeteChagasLeni SoaresEliane R. Pereira Composição - LinoartDireitos ReservadosEDITORA ALFA-OMEGALTDA. 05413 - RuaLisboa. S00 - Tel. (011) 2520100São Paulo - SPImpresso no BrasilPrittted in Brazit Sobre o autor ... IXDedicatória ... XIApresentação ...XIIIHerlim, Alemanhaabril de 1928 ....  1Buenos Aires,Argentina abril de 1928 ...  71. Na"Fortaleza Vermelha" ... 152. Frieda Behrendt épresa ... 273. A sua frente, o"Cavaleiro da Esperançá" ... 394. Luade-mel em NovaYork ... 535. Do mundo inteiro,rumo ao Rio. .. 676. Começa aconspiração ...  777. "A Revoluçãoestá nas ruas" ... 918. Um espião entreos comunistas ... 1019."Mister" Xanthaky entra em cena .... 11710. "Miranda"e Ghioldi vão falar ... 13111. Diante deFilinto, um nome: Olga de tal ... 14112. A políciasuicida Barron ... 15313. O embaixador doBrasil na Gestapo ...  16914. Uma"estrangeira nociva" ... 18715. Rebelião na"Praça Vermelhá " ... 20116. Nos porões daGestapo ... 21717. Dona Leocádiaenfrenta a Gestapo ...23318. Com "Sabó", na fortaleza nazi ... 24519. Escravidão emRavensbrück ... 25920. A caminho damorte ... 275São Paulo, Brasiljulho de 1945 ... 285Epílogo ... 295Depoimentos tomadospelo autor ... 297Fontes pesquisadas...299Bibliografia ... 303Indice anomástíco... 307  Sobre o autorFernando Morais tem39 anos e nasceu em Mariana,Minas Gerais.Começou a trabalhar aos 13 anos, em umjornal de bairro, emBelo Horizonte, e um ano depois,jáprofissionalmente, era redator de um "house orgati"local. Em 1965mudou-se para São Paulo, onde foi colaborador; repórter,redator, repórter especial, chefe dereportagem e editor,até 1978, das seguintes publicações:A Gazeta, Jornal daTarde, Suplemento Feminino de OEstado de S. Paulo,Folha de S. Paulo, TV Cultura, Bondinha, EX, Opinião,Movimento, Versus, Siatus, Playboy,Visão, Aqui SãoPaulo, Repórter Três e Veja. Junto comRicardo Gontijo ganhouo Prêmio Esso de Reportagemde 1970, com a série"Transamazônica", publicada peloJornal da Tarde(depois transformada em livro pela Editora Brasiliense).Recebeu duas vezes o Prêmio Abril deJornalismo: em 1976na revista Veja, junto com AugustoHIunes, pelaeobertura das eleições municipais daqueleano; em 1978 com umareportagem publicada em Ptayboy sobre ainfiltração de espiões  eubanos na CIA. Alémde Transamazônica,escreveu A Ilha, Socos tta Porta, Nãoàs usinas nuclearese Primeira Página (estes editadospela EditoraAlfa-Omega). A Ilha foi editado, além doBrasil, na Alemanha,Porto Rico, México, Argentina, Espanha e Venezuela, ejá vendeu até agora mais de 250mil exemplares. Em1978 foi eleito deputado estadualpelo MDB e em 1982foi reeleito pelo PMDB. E candidatoà AssembléiaNacional Constituinte como deputadofederal. FernandoMorais é divorciado e tem uma filha,chamada Rita. Apresentação A reportagem quevocê vai ler agora relata fatos queaconteceram exatamentecomo estão descritos neste livro; a vida de OlgaBenarío Prestes, uma história que mefascína e atormentadesde a adolescência, quando ouviameu pai referir-se aFílinto Müller como o homem quetinha dado a Hitler,"de presente", a mulher de LuísCarlos Prestes, umajudia comunista que estava grávidade sete meses.Perseguido por essa imagem, decidi quealgum dia escreveriasobre Olga, projeto que guardei comavareza durante osanos negros do terrorismo de estadono Brasil, quandoseria inimaginável que uma históriacomo esta passasseincólume pela censsura.Logo que iniciei ainvestigação para escrever estelivro, há quase trêsanos, percebi que as dificuldades pararecompor o retratode Olga seriam muito maiores do quesupunha. No Brasilnão  havia praticamente nada sobre opersonagem - esurpreendi-me a descobrir que até mesmo a historiografiaoficial do movimento operário brasileiro, produzida porpartidos ou pesquisadores marxistas,relegarainvariavelmente a ela o papel subalterno de"mulher dePrestes" - e nada mais do que isto. Em tudoo que pude ler nãoencontrei mais do que alguns parágrafos vagos esuperficiais. A esta circunstância se somava outro obstáculo: seestivesse viva, Olga teria hoje 77 anos XIV - e como suamilitância política se deu muito precocemente, a maioria dospersonagens que conviveram comela estavam mortos.Os poucos sobreviventes que testemunharam sua saga -na Alemanha ou no Brasil - eram,no mínimo,octogenários, nem todos com memória oucondições de saúdepara desenterrar detalhes de episódios acontecidos hápelo menos meio século.Minha primeira eóbvia investida foi sobre LuísCarlos Prestes. Astardes de sábado que lhe roubei no Riode Janeiroproduziram páginas e páginas de preciosasinformações, muitasdelas inéditas. E ao lutar para romper a barreira queele se impunha para evitar falar dequestões pessoais,muitas vezes me comovi ao perceberque o rígidocomunista que transmitia a imagem de umhomem de aço nãoescondia sua emoção ao revelar minúcias dapersonalidade de sua falecida mulher ou rememorarpassagens da curta eemocionante vida em comumque tiveram. Dono dememória prodigiosa, Prestes foicapaz de reviver comprecisão a hora de um embarqueou as exataspalavras de um diálogo ocorrido há cinqentaanos. Foram poucosos casos de informações dadas porele que, compulsadascom processos e documentos oficiais da época,resultaram incorretas. Dos rolos de fitagravada de seusdepoimentos surgiram novos fatos e personagens da revoltacomunista de 1935, em cuja buscaparti em seguida.Simultaneamente o jovem advogado ebibliófilo AntonioSérgio Ribeiro (um dos maiores estudiosos de CarmemMiranda em nosso país) vasculhavacoleçôes de jornaise revistas da época. O passoseguinte envolveu uma viagem à RepúblicaDemocrática Alemã,onde, ao contrário do que ocorrerano Brasil, localizeium verdadeiro tesouro. Heroína nacional cujo nomebatiza dezenas de escolas e fábricas,Olga teve suamemória carinhosamente preservada peloscomunistas de suaterra. Nos arquivos do Instituto deMarxismo-Leninismo,no Comitê de Resistentes Antifascistas ou nospequenos museus montados no campo deconcentração deRavensbrück e no campo de extermínio XV de Bernburg (ambospreservados tais como foram encontrados pelas tropasaliadas), obtive cópias de todos os documentos efotografias referentes a Olga Benario. Com apreciosa ajuda deAlexandre Fischer e Katharina Schneider, intérpretes destacados pelo governo daRDA paraauxiliar-me napesquisa, não só selecionei e reproduzitodo o materialdisponível, como entrevistei creio quetodos os velhosmilitantes que tinham convivido comOlga na JuventudeComunista, nos anos 20 e, uma décadadepois, nas prisõese campos de concentração nazistas.Não me esquecereijamais das lágrimas que a entrevistaarrancou dos olhosde Gabor Lewin, já velhinho, em cujacasa esvaziamosjuntos, a dez graus abaixo de zero, umagarrafa de conhaquefrancês. Quando perguntei se seconfirmava a lendade que Olga despertava paixões fulminantes em seuscompanheiros da Juventude Comunista, Lewin pôs-se achorar. Foi Herta, sua mulhervelhinha como ele,quem desfez meu desconforto ao dizer,sorridente:"Olga foi a grande paixão da vida do Gaboi".No modestoapartamento de Ruth Werner, tenentecoronel honorária do Exército VermelhoSoviético e umadas maioresescritoras alemãs, obtive cópias de depoimentos que elatomara no fim dos anos 50 de sobreviventes de Neukõlln,Barnimstrasse, Lichtenburg e Rávensbrück (muitosdos quais já faleceram) e não utilizara integralmenteem seu livro "Olga Benario".Meu trabalho emBerlim Oriental teria sido infinitamente mais difícilsem a ajuda do jovem ítalo-germanobrasileiro Dario. Canale (que eu haviaentrevistado em1967 no Brasil, quandoele esteve preso nos icadrezes daPolícia Federal soba acusação de "subversão"). Darioajudou-me na busca eseleção de material sobre Olga eOtto Braun, levou-meaconhecer a prisão de Moabit emBerlim Ocidental, eacabou por obrigar sua sogra Elfriede Brüning, a convidar suas amigas,militantes comunistas desde o começodo século, para jantares em sua casa,onde eu as esperavade gravador na mão.Além dos documentosobtidos, as entrevistas feitaspor mim na RepúblicaDemocrática Alemã com pessoas XVI que conviveram comOlga sob o nazismo foram valiosíssimas para areconstituição de sua passagem pelo Brasil.Durante os anos quepassou em Barnimstrasse, Lichtenburg e Ravensbrück, ela contou com pormenoresàscompanheiras deprisão sua experiência brasileira: apaixão por Prestes,o deslumbramento com o Brasil, aexpectativa seguidada frustração com a revolta fracassada, a emoção que lheprovocara a solidariedade doscompanheiros nopresídio da rua Frei Caneca, no Rio.Como sua passagempelo Brasil se tornara, para mim,a parte mais obscurada investigação, pressionei os amigos de Olga emBerlim até a irritação com perguntassobre cada momentode seus 17 meses no Rio de Janeiro- e em alguns casosobtive depoimentos torrenciais.De Berlim parti paraMilão, onde dei tempo integralno "ArchivioStorico del Movimento Operaio Brasiliano" (mantidopela Fundação Giangiacomo Feltrinellie guardado pelasunhas e os dentes de José Luís delRoio), onde estádepositada boa parte da memória operáriae comunistabrasileira. As entrevistas e investigações feitas naEuropa e no Brasil remetiam-me a outrosendereços: oNationat Archives e os arquivos do Departamento de Estado,em Washington - e o primeiro recessoparlamentardisponível foi dedicado às pesquisasnos Estados Unidos.Com a ajuda de Ralph Waddey, funcionárioanglo-baiano do Departamento de Estado, e abusandoda infindávelpaciência de Richard Gould diretordo DepartamentoLegislativo e Diplomático do NationalArchives, fiz umfascinante mergulho na papelada queme eustou a modestaquantia de 50 centavos de dólarcada cópiaxerográfica: além de incontáveis documentossecretos referentesà vida de meus personagens, haviamaterial abundantesobre a repressão à revolta comunista de 1935 noBrasil. Ironicamente eu iria encontrar,no coração deWashington, relatos copiosos sobre astorturas infligidaspela polícia brasileira ao dirigentecomunista alemãoArthur Ewert, pistas indiscutíveis sobrea ação de espiões nadireção comunista e detalhes sobreo desmantelamento darevolta de 1935 - tudo isto escrito XVII por um agente dogoverno norte-americano. Para meuespanto, pude verdepositados em Washington (e disponíveis a 50 eents)documentos internos do PC brasileirodesconhecidos aqui eque tinham sido misteriosamentebaldeados para osEstados Unidos.De volta ao Brasil,retomei as entrevistas, revi datase dados com LulsCarlos Prestes e com outros entrevistados e continuei àcata de sobreviventes de 1935 quepudessem dardepoimentos ou, pelo menos ajudar-me aconferir asinformações de que dispunha. Foi nessa época que me lembrei deuma frase de um antigo chefe dereportagem, quecostumava dizer que "ao repórter, comoao goleiro, nãobasta trabalhar direito - é preciso tersorte". Eutive, e muita. Foram meros golpes de sorte,por exemplo, quelevaram-me a dois personagens destahistória, Tuba Schore Celestino Paraventi. Ela eu descobri easualmente: seufilho Nelson foi o médico que realizou o parto de minhaex-mulher, quando nasceu Rita,minha filha - e aosaber que eu escrevia sobre a vidade Olga, colocou-meem contato com a mãe. Quanto aParaventi, foi eleguem me descobriu: ao assistir umaentrevista que eudera ao repórter Ney Gonçalves Dias,na TV Manchete,sobre o livro em curso, ele procurouseu sobrinho JoséGregori, meu colega de bancada naAssembléiaLegislativa, para oferecer-me seu deliciosodepoimento sobre apassagem de Olga por São Paulo.No Rio de Janeiro, ofotógrafo e pesquisador PauloCésar de Azevedo, quejá vinha colaborando com o meutrabalho através depesquisas em arquivos públicos decidiu requereroficialmente ao Ministério das RelaçõesExterioresautorização para consulta a documentosreservadosreferentes à deportação de Olga. Um ano deespera e dereiteradas reclamações, entretanto, não foramsuficientes para queas portas da burocracia do Itamaratyse abrissem. Eu jáhavia recebido do professor Ricardo Maranhãocópias de documentos que comprovavam ocomprometimento de diplomatas brasileiros coma Gestapo, massenti-me no direito de obter, oficialmen te, toda acorrespondência sobre o assunto. Foi preciso XVIII que interviessepessoalmente na demanda o próprio chancelerRamiro SaraivaGuerreiro para que eu pudessereceber, ainda quepreviamente censsurado, o materialsolicitado,Ao contrário do queocorrera no Itamaraty até aintervenção deSaraiva Guerreiro, obtive do Superior Tribunal Militar todasas facilidades para pesquisar nos seus arquivos.  Apartir da intermediação de seusobrinho e meu velhoamigo Flávio Bierrenbach, o almirantede esquadra Júlio deSá Bierrenbach, presidentedo STM, determinouque se liberasse rigorosamente tudoo que havia nosarquivos do Tribunal sobre a revolta de1935, incluindo aí documentaçãoinédita, que se encontrava lacrada desdeo encerramento do processo n.° 1do Tribunal deSegurança Nacional. Vladimir Sacchetta,meu grandecolaborador na parte brasileira deste livro,passou uma semana emBrasília vasculhando 70 volumespara selecionarcentenas de documentos .e ilustraçõesque, dias depois,seriam fotografados e reproduzidos porPaulo César deAzevedo. Sacchetta, além disso, já mefranqueara o arquivode seu pai, Hermínio Sacchetta, etoda a documentaçãosobre o tema que havia recolhidoem Londres, noPublic Record O f f ice.A leitura de todaessa papelada me obrigaria a umanova viagem, destavez a Buenos Aires, onde a boa vontade docorrespondente da revista Veja, Tosé MeirellesPassos, aproximou-mede Rodolfo Ghioldi, o velho dirigente do PCargentino e do Comintern. Apesar de devastado por um enfisemapulmonar que quase o impediade falar (e que omataria meses depois), Ghioldi recebeume em companhia de sua mulher, Carmen,para cincohoras de entrevistagravada, ao fim das quais presenteoume com uma verdadeira relíquia que guardavano fundode um cofre: umenvelope contendo fotografias inéditas,feitas no Brasil em1935.A falta de dinheiroe de tempo para empreendernovas viagensobrigou-me a utilizar o correio e o telefone internacionalpara conferir dados ou buscar novasinformações - foiassim que recorri ao professor BorisXIXKoval, do Tnstitutodo Movimento Operário, em Moscou,ao Memorial YadVashem, em Israel, e, por mais duasvezes, a RichardGould, do Narional Archives. Simultaneamente, minhaconta de telefone engordava com interurbanos dados avários pontos do país para reconfirmar datas e dados oumesmo para buscar a exata precisão das palavrasusadas num determinado diálogo. Atudo istoacrescentei documentos que chegavam àsminhas mãos,remetidos por anõnimos militantes comunistas de vários pontosdo país, que, alertados por notasde jornais ounotícias de televisão sobre meu trabalho,generosamentetomavam a iniciativa de procurar-me,interessados não sóem ajudar-me, mas em enriquecer averdadeiraarqueologia em que me meti para reconstituircom a maiorfidelidade possível esta história de amore de intolerância.Este livro não é aminha versão sobre a vida de OlgaBenario ou sobre arevolta comunista de 1935, mas aquela que acreditoser a versão real desses episódios. Nãovai impressa aquiuma só informação que não tenha sidosubmetida ao crivopossível da confirmação. Qualquerincorreção que forlocalizada ao longo desta história,entretanto, deve serdebitada exclusivamente à minhaimpossibilidade deconfrontá-la com versões diferentes.E certamente haveráincorreções, até porque eu própriocheguei a avançarinvestigações a partir de versões aparentementeverdadeiras, mas que depois seriam desmentidas por novaspesquisas ou entrevistas. Um exemplo:tenho em minhas mãoso depoimento de uma sobrevivente de Ravensbrückque jura ter visto Olga ser fuzilada naquele campode concentração. A segurança dasdeclarações leva-mea erer que ela de fato viu algumamulher sendofuzilada lá e supôs tratar-se de Olga. A verdade, no entanto, éque Olga não joi fuzilada em Ravensbrück. Outroexemplo: um eminente historiadorbrasileiroassegurou-me que Paul Gruber não passou deum personagem deficção inventado pelo Comintern paraconfundir osserviços de inteligência capitalistas. De novo,fatos, documentos etestemunhos comprovaram que Gruber  XX não só existiu emcarne e osso como jogou um papelimportante nodesfecho da revolta de 1935. E houve,ainda, situações emque, colocado diante de versôes contraditórias sobredeterminado episódio, fui levado porinvestigações eevidências a optar por uma delas. Nãoapenas comoreferencial, nesses casos, mas para introduzir-me por inteirona época em que esta história sepassa, recorri àextensa bibliografia que vai ao final destevolume, deimportância capital para quem pretendaconhecer melhor essaépoca. As raras passagens destelivro em que foinecessária a recriação referem-se semprea eenários dedeterminados fatos - nunca a fatos em si.E, ainda assim, arecriação se deu a partir de depoimentos de testemunhas.Antes de entregar osoriginais à gráfica, submeti meutrabalho aos olhosde três dos mais brilhantes e impiedosos jornalistasdeste país - Luís Weis, Raimundo Rodrigues Pereira eRicardo Setti - e à mão vigilante deVladimir Sacchetta,indiscutivelmente úma das maioresautoridades noestudo da memória do movimento operáriobrasileiro. E, porfim, recebi a ajuda do talentosoClaudio Marcondes, aquem a Editora Alfa-Omega atribuíra o trabalho dehomogeneizar a grafia de palavras ede fazer apreparação do texto que iria para a camposição. Claudio acaboupor propor alterações essenciais paraa clareza destelivro. Roubei deles preciosas horas de trabalho e lazer - enão me arrependi: a partir de suas críticas, observações eobjeções, sentei de novo à máquinapara corrigir oserros.Embora aresponsabilidade por tudo o que você vailer agora sejaexclusivamente minha. eu devo este livroà colaboraçãogénerosa dos entrevistados (cujos nomesvão relacionados aofinal), de cada um dos nomes citados ao longo destaapresentação, e a Abelardo Blanco,Abel Cardoso Júnior,Alberto Dines, Alexandre Lobão,Ali Ahmad, Ana Mariade Castro, Beatriz Sardenberg,Bernd Wünning,Birgit Koyne, Bruno Kiesler, Célia Valente, ChristianeBarckhausen Daphne F. Rodger, DieterKoyne, Edith Heise,Edmond Petit, Eric Nepomuceno,XXIFlávio Kothe,Gerhard Desombre, Giocondo Dias, HeitorFerreira uma,Herbert R&sser, Horst Brasch, Inês Etienne Romeu, Jamile Salomão, JasminaBarckhausen, JohnW. F. Dulles, JoséAntonio Penteado Vignolli, José CarlosBruni, José Eduardode Faro Freire, José Sebastião Witter, Karen Elsab Barbosa, Karl Burkert, KerryFraser,Le6ncio MartinsRodrigues, Lothar Günther, Lutz EIlrodt, Manoel Moreira, Marco Aurélio Garcia,Marcia Madrigali, MariaBeatriz Paula Dias, Maria da Guia Santiago,Maria VitóriaMenezes Camargo, Marisa Teixeira Pinto,Marisa Zanatta,Martina John, Moacir Werneck de Castro,AIicolau Tuma, PedroAlves de Brito, Peter SkomrochRégis Barbosa, RégisFratti, Ricardo Gontijo, Ricardo Zarattini, RitaMagalhães Marques, Roberto Braga, RobertoDrumond, SamuelKrakowski, Samuel Soares SérgioMicelli, SieglriedKtillner, Silvia Oliva Araújo, Silvio Tendler, Suely CamposCardoso, Susana Camargo, TibérioCanuto, Vera MariaTude de Souza, Werner Btinecke eWerner Thiele.1..Agosto de 1985 1 Berlim, AlemanhaAbril de 1928Tudo aconteceu emmenos de um minuto.Pontualmente às novehoras da manhã de 11 de abrilde 1928, o guardaGunnar Blemke atravessou o salão deaudiências revestidode mogno da prisão de Moabit, nocentro de Berlim,levando pelo braço, algemado, o professor comunistaOtto Braun, de 28 anos. Não que OttoFosse considerado umpreso perigoso; as algemas se justificavam por ser umacusado de "alta traição à pátriá,encarcerado havia umano e meio, aguardando julgamento. O guardacaminhou com ele em direção à mesa ondese encontrava osecretário superior de Justiça, ErnstSchmidt, que deveriainterrogar Otto Braun. A seu lado,o escrivão RudolphNekien lutava para não cochilar sobrea máquina deescrever. Na outra ponta do salão, bem emfrente à mesa deSchmidt, um pequeno auditório destinado ao público eaos advogados e isolado por um balaústre de madeira,estava ocupado por meia dúzia deadolescentes, moçase rapazes. "Pensei que fossem estudantes deDireito", diria o guarda mais tarde. Blemkeestufou o peitodiante da autoridade e anunciou:- Apresentando opreso Otto Braun.Nesse instante elesentiu algo doro encostado em suanuca. Virou a cabeçae viu uma pistola negra apontada 2 contra seu rosto poruma linda moça de cabelos escurose olhos azuis, queexigiu com voz firme:- Solte o preso!No auditório, osjovens dividiram-se em dois grupose se atiraram sobreo secretário Schmidt e o escrivãoNekien, que foiderrubado com violência. Schmidt deuum salto, conseguiubater a ponta do sapato sobre obotão de alarmeínstalado no chão - e recebeu umacoronhada no rosto,dada por um garoto enorme, debarba ruiva e cabeloescorrido até quase os ombros. Ajovem de olhos azuísque camandava o grupo mantinhaa pistola apontadapara a cabeça do guarda. Depois dedesarmá-lo, caminhoude costas em direção à porta,cobríndo o preso comseu corpo e gritando para seus companheiros:- Para a rua! Para arua! Quem se mexer levachumbo!O guarda e os doisFuncionários foram colocados decara contra aparede. Com gestos rápidos, a moça mandou que o gruposaísse. O bando já disparava rumo aoportãoprincipal,levando o preso para a calçada, quandoseu último gritoecoou na sala:- O primeiro a semover leva chumbo!E sumiu pelocorredor. Ao saltar os degraus da escada na porta daprisão, o grupo se díspersou, cada umfugindo por uma ruadiferente. A jovem guardou a pistola na sacola de lãa tiracolo e atravessou correndo oparque Fritz-Schlosspara, no outro extremo ao lado deum ginásio deesportes, atirar-se num pequeno furgãoverde que a esperavade portas abertas. À direção ia umjovem narigudo eatrás, sentado no fundo da carroceriae com as mãos aindaalgemadas, estava Otto Braun, encolhido e assustado.O calhambequeameaçava desmontar pelas ruas deBerlim. Agoraprecisavam sair das imediações da prisão,cujas sirenes dealarme podiam ser ouvidas a quarteirões.O carro tomou o rumosul da cidade. Evitando as ruasmais movimentadas,margeou o pequeno cemitério Blücher e eruzou oeanal Schiffarts. Quando entrou no bairrode Neuktilln, amoça, Otto e o narigudo puderam afinalrespirar aliviados.Em Neuktilln estavam em casa.Na hora do almoço,uma edição extra do diário Bertiner Zeitung amMittag já dava detalhes, sob escandalosa manchete, doque chamava de "ousada cena defaroeste"ocorrida de manhã em Moabit. O jornal anunciavaem primeira mão onome da linda jovem que camandara"o assaltocomunistá ": Olga Benario.- "Ousadacena...A noite, no pequenoapartamento que a JuventudeComunista conseguirana rua Zieten para escondê-los, aolado de seu namoradoOtto Braun, Olga lia e relia o noticiário dos jornais eparava sempre na mesma expressão.,De fato, ousadiaera o único substantivo capaz de traduzirnão apenas o quehavia feito naquela manhã, mas o sentimento que movia amaioria dos adolescentes comunistasdo bairro operáriode Neukülln. Olhando para a rua através das cortinas doquarto à meia-luz, ela contemplavamais umamanifestação desse estado -de espírito. Meiahora antes as tropasdapolícia haviam percorrido aregião, colando nospostes e muros o enorme cartaz que opromotor superior deJustiça da Alemanha mandara imprimir às pressas,oferecendo a recompensa de 5 mil marcos a quem desseinformações sobre o paradeiro do escritor Otto Bran e dadatilógrafa Olga Benario. Agora elapodia ver láembaixo, na rua, o nanico Gabor Lewin e aagitada Emmy Handke,seus companheiros, arrancandotodos os cartazes.Que outro nome dar,senão ousadia, para o que acontecia a poucasquadras dali, no salão dos fundos da eervejaria Müller?Indiferentes ao cerco que a polícia montara em Neukóllnpara apanhar os dois, os militantes doRot Front, a"Frente Vermelha" da Juventude Comunista,decidiram fazer umato político para comemorar a libertação de Braun. Aprimeira a falar foi uma garota detrancinhas. Ascentenas de pessoas que se aglomeravamno salão - moças,rapazes, velhos operários com suas 4mulheres e criançasde colo - ela comunicou que todosos envolvidos nalibertação de Braun estavam em segurança,e arrancou aplausosdemorados quando revelouque a ação forarealizada com armas descarregadas.- Não tínhamos aintenção de ferir ninguém. .. Sehouvesse algumareação por parte dos fascistas de Moabit,certamente a estahora estaríamos pensando em libertar,além do professorBraun, nossos companheiros que invadiram a prisão. Averdade é que um bando de garotoscom armasdescarregadas colocou de joelhos os fascistasque mantêm na prisãomilhares de trabalhadoresalemães . . .As onze horas danoite, uma tropa de choque invadiua cervejaria Müllere evacuou o salão a golpes de cassetete. De seu quarto,Olga podia ver o alvoroço que a escaramuçaprovocou na ruaZieten. Ao seu lado, Otto dormia,indiferente àexcitação que tomava conta da companheira.O noticiário dorádio ligado em volume quase inaudívelaumentou a insôniada moça: todos os programas da madrugada comentavam ofato do dia - a invasão da prisãode Moabit. Mas tantoos jornais como o rádio transmitiam uma certezatranqüilizádora: de todos os participantes da ação, sóela fora identificada pela polícia.Sobre os outroshavia, no máximo, vagas descriçõesfísicas. Assim, RudiKõnig era apresentado como "ummoreno forte, decabelo escovinha, que agarrou o escrivão bIekienpelagargantá"; Margot Ring era "uma ruivagordinha, de 15 anosno máximo"; aquele que as testemunhas identificavam como "ograndalhão de cabeloslongos que deu aeoronhada na cabeça do secretário daJustiça era o doceErich Jazosch; um funcionário dotribunal que seencontrava à porta da prisão na hora dafuga descrevera ErikBombach como "uma criança deum metro e meio dealtura, carregando uma pistola emcada mão "; amagrela Klara Seleheim, por causa do eabelo aparado rente,era tratada como "alguém que nãosabemos se é umamocinha ou um rapaz", como dizia umlocutor.Se a políciadesconhecia a identidade daqueles jovens,sobre Olga e Ottosabia tudo. Por isso, as semanas seguintes foram de grandetensão para os dois. O cerco policialapertava e, pormaior que fosse a solidariedade das famílias operárias deNeuktilln, aumentavam também osriscos de prisão.Pacatas casas de metalúrgicos e padeiroseram transformadasem aparelhos para que os jovenspudessem esconder-sepor quatro, cinco dias. A segurançadeles ficou a cargodo Departamento de Ordem, umaseção geheim -secreta - e semimilitarizada da Juventude Comunista.Experimentados em proteger a organização contra ataquesterroristas de direita ou da polícia,o Departamento deOrdem funcionava como uma célulaclandestina dentroda Juventude Comunista legal. Eramseus membros que seencarregavam de arranjar semprenovos aparelhos e detransferír Olga e Otto de uma casapara outra, quandopressentiam a aproximação da polícia.As sessões de cinemaem Berlim passaram a serprecedidas, assimque as luzes se apagavam, da exibição deum slidereproduzindo o cartaz com as fotos de Olga eOtto e a ofertade  mil marcos a quem informasse sobreo paradeiro deles. Opúblico, invariavelmente, explodiaem aplausos para osdois jovens - e, invariavelmente,acendiam-se as luzese o cinema era ocupado por gruposde policiaisarmados. Quando a escuridão retornava, começavam as vaias, os assovios e as bolasde papel voando.O que mais intrigavaa polícia é que ninguém apareceupara candidatar-se auma recompensa equivalente a doisanos de salário deum trabalhador.Nos primeiros diasde julho, o juiz Franz Vogt, doSupremo TribunalFederal, convocou a imprensa em seugabinete - ao ladodo salão de audiências que havia sidoinvadido três mesesantes - para apresentar um novocartazcomunicado,assinado pelo promotor superior deJustiça da Alemanha.Nele, o Poder Judiciário retirava arecompensa de 5 milmarcos, "pois, segundo informaçõesfornecidas pelapolícia, as citada pessoas conseguiramfugir, dirigindo-separa o exterior". 6Desta vez a políciaacertara: dias antes, Olga e Ottohaviam viajado decarro, acompanhados por membros doDepartamento deOrdem da Juventude, até a cidade deStettin, nafronteira com a Polônia. De lá embarcaramnum trem rumo aMoscou.No momento em que o juizVogt recebia osrepórteres em Berlim, o casal encontrava-se dentro de umtrem, na fronteira da Polônia com aRússia, exibindopassaportes falsos a um jovem soldadorusso de traçosorientais, que ostentava um capacetebranco com a estrelavermelha. Emocionada por estar"entrando emterritório proletário", Olga não resistiu àtentação de um acenocarinhoso para aquele "soldado dopovo". Para suadecepção, o soldado fingiu que não viu.O trem arrancoulentamente em direção a Moscou. Buenos Aires,ArgentinaAbril de 1928 Após duas semanasmontado no lombo de um boi,atravessando opantanoso Chaco paraguaio, o capitão LuísCarlos Prestes, de30 anos, aproximava-se em uma balsado porto de BuenosAires. Miúdo, com menos de 1 60 m,os doze meses queacabara de passar na cidadezinha deLa Gaiba, no Oesteboliviano, haviam deixado Prestes compéssima aparência. Abarba longa e cerrada escondia orosto magro, demaçãs saltadas, ainda ressentido de  repetidascrises de impaludismo. A chegada à capital portenha marcavadecididamente o fim de uma aventura queficaria gravada parasempre na história do seu país, oBrasil.Um ano antes,levando nos ombros a divisa de generalrevolucionário, etendo ao lado seu companheiro de epopéia, o generalMiguel Costa Prestes conduzira até oexílio boliviano suatropa de 620 homens. Lá entregaraseu arsenal ao majorCarmona Rodó, representante dogoverno de La Paz:90 fuzis Mauser quatro metralhadoraspesadas (uma dasquais inutilizada) dois fuzis-metralhadorasdescalibrados e cerca de 8 mil balas. Com adeposição voluntáriadas armas, lavrada numa pequena atasubscrita pelo majorboliviano e os dois militares brasileiros, chegava aofim uma campanha de dois anos e seismeses de duração, emque foram percorridos, a pé ou em 8 lombo de burro, nadamenos que 25 mil quilômetros atravésde doze estadosbrasileiros. Embora exilados e desarmados, todos, semexceção, sabiam que entravam para aHistória de cabeçaerguida. Ao cabo da jornada, aqueleexército deesfarrapados ficara conhecido em todo o continente como "ainvicta Coluna Prestes" - o contingenterebelde queafrontara as tropas bem armadas e os generaisdo presidente ArturBernardes sem sofrer uma únicaderrota. Para ascentenas de milhares de brasileiros quecom ela travaramcontato direto ou que dela tiveramnotícia, seu chefe,o general Luís Carlos Prestes, era o"Cavaleiro daEsperançá".O mineiro Artur daSilva Bernardes tomara posse naPresidência daRepública em 1922 sob Estado de Sítio provocado pelo levante militar do Fortede Copacabana,no Rio de Janeiro,conhecido como "Os dezoito do Forte"- e sob Estado deSítio governaria durante os quatroanos de seu mandato.Extremamente autoritário, Bernardes afastou do poderas oligarquias descontentes, decretoua intervençãofederal nos Estados da Bahia e do Riode Janeiro, e seurelacionamento difícil com a corporaçãomilitar acabou porgerar  conspirações que explodiramdurante todo o seugoverno. A repressão aos movimentosrebeldes quasesempre era pretexto para adoção demedidas autoritáriasde caráter geral - como a duríssimaLei de Imprensa assinadaem novembro de 1923 conhecidacomo "LeiInfame" - que alingiam as Liberdadesdemocráticas como umtodo.Foi nesse clima quesurgiu a Coluna - embora Prestes,pessoalmente, não ativesse visto nascer. Quando ogeneral Isidoro DiasLopes e o então major Miguel Costalevantaram suastropas em São Paulo, no dia 5 de julhode 1924, ele serviacomo capitão engenheiro no BatalhãoFerroviário de SantoAngelo, cidadezinhá do Rio Grandedo Sul próxima àfronteira com o Uruguai. Os dois militares paulistas pretendiammarchar contra a capitalfederal - então noRio de Janeiro -, buscar apoio entreos militares dasguarnições cariocas e depor o governoBernardes. Acuadosem São Paulo por tropas federais,os dois seguem parao Sul à frente de 2 mil homens, emdireção a Foz doIguaçu, no Paraná. Pela madrugada de 28para 29 de outubro,o capitão Prestes deixa um curto bilhete despedindo-seda mãe, dona Leocádia, e camanda ainsurreição doBatalhão Ferroviário de Santo Angelo emapoio aos revoltosospaulistas, articulando rebelião simultânea no 3 °Regimento de Cavalaria da cidade de SãoLuís, a 80quilômetros de distância.Alertado a tempo, ogoverno consegue apagar partedo rastilho que seespalhava pelo estado e aborta oslevantes dos quartéisde Uruguaiana, Alegrete e Cachoeira,frustrando o planode Prestes de tomar todo o RioGrande do Sul.Seguindo então para São Luís, Prestes aliinstala seuquartel-general. Em seguida ocupa as cidadesde São Nicolau,Santo Angelo, Santiago do Boqueirão eSão Borja. Aocontabilizar armas e homens, ele se dáconta da fragilidademilitar dos rebeldes: não passam de1500, entre civis emilitares. As armas sequer são suficientes para a metadedos combatentes: 800 fnzis Mauser euns poucosfuzis-metralhadoras. Para enfrentá-los já estavam a caminho de SãoLuís as tropas do governo: 14 milsoldados, treinadose bem armados.A desigualdade deforças provoca a primeira manifestação do gêniomilitar que seria a marca de Prestes aolongo dos dois anosseguintes. Ele faz chegar aos ouvidosdo inimigo a notíciade que concentraria suas forças emSão Luís, ao mesmotempo em que começa a despachara tropa rumo aonorte. Quando os efetivos oficiais tomama cidade, não hámais um só rebelde no lugar: Prestesestava com seushomens a 200 quilômetros de distância,vadeando as matas dorio Uruguai. Para chegar a Foz doIguaçu, ondepretendia juntar-se aos revoltosos de SãoPaulo, ele éobrigado a se valer muito mais da astúcia doque da força - semperder um só homem, consegue infligir consideráveisbaixas às forças governamentais apenascom armadilhas eemboscadas. Mesmo em combate, cadatiro disparado porseus comandados tem que ser autorizado por ordemsuperior, para economizar a munição.A chegada triunfalde Prestes e seus homens a Foz doIguaçu, no dia1  de abril de 1925, dá novo ânimo aospaulistas aliacampados, reduzidos por obra de sucessivas deserções quaseà metade do contingente que saírade São Paulo em 5 dejulho. Investidos da patente degeneral, Luís CarlosPrestes e Miguel Costa juntam suasforças e rompem a péo sertão brasileiro, na esperançade por fim aodespotismo dos bernardescos - nomecom que tratavam osseguidores do presidente daRepública.Avançando comopodia, a serpente humana ziguezagueava pelo país.Quando conseguiam potrear manadasde cavalos em algumafazenda, os soldados de Prestesmontavam por algumassemanas, ou meses. Se não encontravam cavalos,seguiam a pé. Se havia comida, comiam- porém, o mais comumera viajarem por dias com pouca água e quase semcomida, sustentando-se com farinhae rapadura. Inúmerasvezes o estoque de remédios datropa eraintegralmente utilizado para atender às miseráveis populaçõesencontradas pelo caminho. A tragédia dascondições de vidadas populações que a Coluna cruzavapelo interiorhorrorizava os comandantes, ambos nascidos em famílias daclasse média: mesmo tendo convividocom a pobreza doSul, defrontavam-se com um Brasilainda mais faminto,miserável, atrasado. Ao ver criancinhas arrancandoraízes do chão para fazerem a únicarefeição do dia,Prestes se convencia ainda mais da necessidadede mudar a facedaquele país.A Coluna engrossavaa cada povoado. A rígida disciplina imposta àtropa por Prestes tornava os soldadosrespeitados pelopovo. Em geral, as primeiras medidas- tomadas após aocupação de um município eram a libertação dos presos e aqueima dos arquivos dos cartórios,onde estavam osdocumentos que "comprovavam" o monopólio daspropriedades da terra pelos latifundiários e aexploração dosdireitos dos camponeses. A exceção doscasos desentenciados por crimes brutais, como estuproseguido de morte, ospresos eram postos em liberdadeapós breveentrevista com os oficiais da Coluna. Contraa vontade dePrestes, um contingente de meia centena demulheres acompanhavaa tropa em sua marcha pelo país.A pressão dasoldadesca vencera e o comandante não conseguiu impedir queelas seguissem. Muitas pariram filhosao longo da marcha,crianças que haviam sido geradas nocomeço da jornada.Apesar dainvencibilidade militar, a falta de um programa políticoclaro, propondo algo mais que a derrubadade ArturBernardes,ia aos poucos minando o moral dosoficiais e soldados.Afinal, haviam se passado quase doisanos e milhares dequilômetros tinham sido percorridos,mas os próprioscomandantes, a começar de Prestes sabiam que a Coluna,ainda que vitoriosa, não mudaria asestruturas sociaisdo Brasil simplesmente derrubando oditador. Do coraçãodo Nordeste a Coluna desceu emdireção ao Sul doMato Grosso, praticamente repetindo otrajeto inicial dasubida. Quando as tropas chegaram aSan Mathias, naBolívia, para depor o que restava dassuas armas nas mãosdo major Carmona Rod, o cadernode notas de LourençoMoreira uma - historiador oficialda Coluna -registrava, em números exatos: de São Luís,ao Rio Grande doSul, até ali, tinham sido vencidas3 742,5 léguas. Ouseja, 24 947,5 quilômetros.Nos primeiros mesesem território boliviano, Prestescuidou dosinteresses da tropa, repatriando os soldadosque desejavamretornar ao Brasil e tratando de conseguirtrabalho para os quenão queriam ou não podiam voltar.Marx, Lênin e otriunfo da Revolução Bolchevique nooutro lado do mundo,dez anos antes, eram nomes e notícias sem muitosignificado para o capitão até odia que, no final de1927, recebe na cidade boliviana dePuerto Suárez, apoucos quilômetros da fronteira com oBrasil, a visita deAstrojildo Pereira, um dos fundadores,em 1922, do"Partido Comunista - Seção Brasileira daInternacionalComunista", o primeiro nome oficial da organização. Asperipécias da Coluna haviam causado grandesensação entre osopositores do governo brasileiro inclusive os comunistas. A bagagem deAstrojildo vaientupida de livros,quase todos em francês, das ediçõesL"Humanité:obras de Marx e Lênin, resoluções da Inter12nacional Comunista,textos de Engels e exemplares avulsos do periôdico CorrespondanceInternationale, editadopelo Comintern, ocomando da Internacional Comunista,sediado em Moscou.Depois de dois dias de conversas comPrestes, Astrojildoentrega-lhe os livros e se despede comum dissimuladoconvite:- Nesses volumes osenhor encontrará um pouco dacíêncía que trará assoluções para os problemas do nossotempo: o marxismo.Prestes não assumequalquer compromisso com oPartido. Querprimeiroconhecer a tal ciêncía - e passaos primeiros mesesde 1928 aproveitando o pouco tempodisponível paramergulhar na farta literatura comunistaque recebera. Nessaépoca começa a pensar em sair daBolívia e tentardestino melhor para seus companheiros.Acaba decidindotransferir-se para a vizinha Argentina.Além de ficar maisperto do Rio Grande do Sul - e,portanto, daefervescência política brasileira -, o climaexistente no paísera mais democrático do que o que sevivia na Bolívia. E,claro, na Argentina mais desenvolvidaeconomicamente,havia melhores ofertas de trabalho paraele e para o querestara de sua tropa. No final do primeirosemestre de 1928estão todos instalados em Buenos Aires.Já sem a barba quelhe varria o peito no tempo daColuna, Prestestorna-se o centro das atenções dos revolucionários devários países que, de passagem por BuenosAires, aconselham-secom o mitológico comandante dacoluna invícta.Paraguaios, ehilenos, uruguaios e bolívianos e - para espantodo dono da casa, da mãe e dasquatro irmãs queviviam com ele - até turistas brasileirosapareciam por lá,acompanhados de guias de agênciasde viagens, para vero "fenômeno" de perto. A casa era,igualmente, umcentro de conspiração de patrícios seusque lutavam paraderrubar o governo brasileiro.Prestes se aproximae torna-se amigo do jornalistaRodolfo Ghioldi,dirigente do Partido Comunista argentino e doCornintern. Em uma das muitas reuniões na casadeste, na ealleMéxico, em Buenos Aires, fica conhecendoum certo Kleiner,também chamado de Rístico - na13 verdade, codinomesde Augusto Guralsky, envíado especialda III Internacionalpara contatar na Argentina o capitãobrasileiro, cujotrabalho político interessava aos dirigentes soviéticos. Oscontatos com o PC brasileiro tambémse tornam maisfreqüentes e, em 1929, o prestígio dePrestes no Brasil étal que o Partido o convida paradisputar as eleiçõesà Presidência da República, no anoseguinte. Contudo,ele só aceita discutir o convite se acandídatura resultarde um consenso entre os tenentes daColuna - e o planomalogra.Em março de 1930 éeleito o paulista Júlio Prestespara suceder na Presidênciaa Washington Luís, numpleito típico daRepública Velha, com voto a descoberto,fraudes e umcontingente restritíssimo de eleitores. Masele não toma posse.Uma insurreição, que começa deforma espontânea naParaíba e é conduzida nacionalmente pela AliançaLiberal, leva Getúlio Vargas ao Palácio doCatete. Luís CarlosPrestes sente imediatamente asconseqências damudança no Brasil ao ser preso em BuenosAires e libertado emseguida. Junto com a mãe e as irmãsexila-se emMontevidéu e, da capital uruguaia, pede filiação ao PC. Porém, oPartido que o cortejara meses antesagora o rejeita. Adireção do PC brasileiro - que poucoantes haviadestituído o secretário-geral Astrojildo Pereira,acusandoo de opor-seao "obreirismo" proposto peloComintern - impedeque Prestes seja aceito.O presidente GetúlioVargas tenta conctatá-lo, oferecendo-lhe a patente deeapítão do Exércíto que lhe foracassada, mas Prestesrejeita a oferta e recebe de seustenentes a patentehonorária de general. Cada dia mais,ele se convence deque só uma revolução popular poderámudar os destínos doBrasíl. E é com este projeto nacabeça que aceita umconvite da III Internacional paramudar-se, com afamília, para a União Soviética. Sembarba e sem bigode,trajando um discreto terno cinza eLevando à mão umelegante chapéu de feltro, Luís CarlosPrestes embarca nonavio Eubée, que larga do porto deMontevidéu, no dia1  de outubro de 1931, com destinoa Moscou.Na "fortalezavermelha"  15Com os corpos moídosapós setenta e duas horas notrem, Olga e Ottochegaram ao hotel Desna, na capitalsoviética. Aocontrário do Luxo, destinado a receber estrangeiros ilustres queaportavam em Moscou, não havianenhuma pompa noDesna, que, em compensação, era limpoe discreto. Aopreencher a ficha de entrada, Olga notouque, por curiosacoincidência, exatamente cinco anosantes ela entrarapela primeira vez em uma organizaçãocomunista.Foi no verão de1923, em Munique, sua cidade natal,poucos meses depoisde seu 15 ° aniversário. A JuventudeComunista havia sidoproibida pela polícia e entrara naclandestinidade.Seus militantes - adolescentes de nomáximo 18 anos -resolveram então criar o GrupoSchwabing, que sereunia uma vez por semana numavelha serraria nossubúrbios da capital da Baviera. Certatarde, a reunião éinterrompida por barulhos suspeitosdo lado de fora. Osencarregados da segurança saem,temendo a chegada dapolícia, e deparam com a jovemmagrela, alta, detrancinhas escuras, pedindo para fazerparte do Schwabing.Convidada a entrar na serraria, Olgaé submetida a umasabatina pelos líderes do grupo. Quandoindagam seu endereçoe o nome dos pais, ela responde:- Sou filha doadvogado Leo Benarío. Mas não tenhoculpa disso.Para a maioria doscomunistas alemães, não apenasa díreita eraconsiderada inimiga. Eles colocavam no mesmosaco e tratavam como mesmo desprezo os sociaisdemocratas - e o doutor Benario era umsocial-democrata.Para os jovenscomunistas do Schwabing, filhos deoperários, aquelaera uma presença inusitada: nunca, atéentão, um jovem daconservadora burguesia bávara tinhabatido às suasportas para pedir filiação.O preconceito erainjustificado. Embora fosse um dosjuristas maisrespeitados da Baviera e personalidade influente no PartidoSocial Democrata local, o advogadojudeu Leo Benarioera um liberal de idéias avançadas.A própria Olgachegava a dizer que havia se transformadonuma comunista nãopela leitura da teoria marxista, masfolheando osprocessos em que o pai defendia os trabalhadores de Munique."Ali vi de perto a miséria e a injustiça que sóconhecia, superficialmente, nos livros", repetia sempre. Emcontraste com sua consideração pelo pai,nas poucas vezes emque se referia à mãe, ela o fazia comfrieza e economía depalavras. Filha de abastada famíliade judeus, EugénieGutmann Benario era uma elegantedama da altasociedade que via com horror a perspectivada filha tornar-secomunista. A importância da avó materna em sua vidaera ainda menor. Olga lembrava-seapenas de umprosaico presente que dela recebera,durante a crise quesobreviera com a Primeira Guerra Mundial - uma galinhagarnizé, útil numa época em que osovos estavamracionados - e da pergunta com que avelhasistematicamente reagia a toda novidade que a netalhe trouxesse darua, como num presságio da tragédiaque se abateriasobre a Alemanha: "Isso é bom ou maupara osjudeus?".Ao falar do pai,Olga nunca escondía o carinho quesentia por ele. Era,sim, um burguês social-democrata;mas diferenciado. Aodoutor Benario recorriam invariavelmente ostrabalhadores que pretendiam fazer demandas judiciais contraos patrões e que não tinham dinheiro 17 para pagaradvogados. Com Leo Benario, pagava quempudesse. Para os quenada podiam pagar, trabalhava degraça. "E commais afinco", costumava lembrar Olga. Aobservação daelientela que freqüentava a elegante residência da Karlplatz,no centro da cidade, levava a jovema interessar-se cadavez mais pela sorte daquela gente.Pelo escritório dopai passavam diariamente - e discutiam à frente daadolescente - os mais abastados e osmais miseráveishabitantes de Munique. "A luta de classesia visitar-me todosos dias em casa", ela brincava.E visitas não faltavam- trazidas pela dramática situação econômica quedecompunha o país desde o fim daPrimeira Guerra. Abrutal espiral inflacionária chegou atal ponto que umdólar, que em meados de 1922 valia milmarcos, passou acustar 350 milhões de marcos já no anoseguinte. Ooperariado alemão estava à beira da miséria e a classemédia se proletarizava velozmente. Aaparente falta desaída para a crise fazia com que os sindicatos detrabalhadores, controlados na maioria por comunistas esociais-democratas, perdessem força junto à população operária.Olga acreditava que tinha a solução,pelo menos a suasolução: dedicar-se mais e mais à causacomunista. Já naprimeira tarefa que lhe deram, naqueleverão de 1923 elamostrou aos garotos do Schwabing quenão estavam diantede uma burguesinha entediada. Destacada para umacolagem clandestina de cartazes, Olga, aosquinze anos,revelou-se a mais eficiente da turma, aí incluídosos mais velhos emais fortes. Eficiente e ousada: pelaprimeira vez tambémo centro, e não só a periferia deMunique, amanheceupichado. Ela chegara a locais movimentados, onde apresença de policiais assustava afé osmilitantes maisexperientes. "Medo e prudência são palavras que ela nãoconhece", disseram os novos amigos nodia seguinte.A integração deu-seem pouco tempo. Além de decidida e corajosa, elatrazia do lar burguês algo que faltavaaos filhos deoperários - uma excelente formação escolar.Muitos dos clássicosde que a maioria ali só tinhaouvido falar empalestras, ela já os havia lido. E em pouco 18 tempo notaram outraforte característica, que os maisresistentes a suapresença no Schwabing atribuíam ao"radicalismopróprio dos filhos da burguesia": a intolerânciacontra qualquerpessoa que não fosse milítantecomunista. Inúmerasvezes ela seria advertida pelos maisvelhos para evitarcomportamentos que não passavam deprovocações juvenis,como andar pelas ruas exibindo nopeito um brochevermelho com a foice e o martelodourados.No final de 1923,quando trabalhava como vendedorana livraria GeorgMüller, ela ouviu falar pela primeira vezno professor OttoBraun. A partir da descrição que faziamdele - especialmenteas mulheres -, Olga passou a fantasiar, criando ummito em torno do jovem, bonito einteligente Ottoque, comentavam em voz baixa, trabalhava secretamentecomo agente dos soviéticos. Quando,finalmente, umaamiga comum promove um encontroentre os dois, Olgatem uma surpresa. Na verdade, o queela imagínava deOtto era a caricatura de um revolucíonáriode folhetim: barbacrescida, roupa de campanha,cabelos longos edesalinhados. No café onde se conhecemela depara com umhomem elegante, fumando cachimbo,gravatameticulosamente amarrada, cabelos repartidos efixados combrilhantina, calça passada com capricho, botinas de camurçaescovadas.Embora tivesseapenas 22 anos - sete a mais do queela -, Otto era ummilitante experiente. Inclusive naquiloque mais aencantava, a ação armada. Na frustrada revolução popular de 1919,uma tentativa de repetir o fenômeno russo de doisanos antes, ele fora enviado pelo Partido numa missãosecreta, cujo objetivo era interceptarum comboio de tropasque o governo central enviara paratomar Munique, entãocapital da "República da Baviera".Não obstante o êxitode sua tarefa, continuaram sendoenviados reforçoscontra os insurgentes e Munique aindaresistiria por maisum mês, com Otto à frente de umgrupo decombatentes. Perdera a guerra, mas gabava-sede ter dado cabo deuns tantos "sociais-democratas direitistas". 19  A batalha deMunique chegara ao final com Otto na prisão - asua primeira e mais curta prisão.Os encontros entreos dois tornaram-se freqüentes eo fascínio recíprococada vez maior. Ela imaginava estardiante de um homemperfeito, que conseguia juntar umasólida formaçãoteórica com a experiência militar. Semfalar de que era umrapaz belíssimo. Otto também estavaencantado com aquelafigura, meio menina, meio mulher,alguém com uma sedede ação e de teoria como ele nuncavira antes. O finalda tarde passou a ser esperado comansiedade por ambos.quando faltava meia hora paraOlga deixar o balcãoda livraria, ele aparecia com seucachimbo e cachecóiselegantes para conversas que seestendiam até amadrugada.Otto começou aorientar as leituras da moça e a indicar-lhe, além dosteóricos indispensáveis a sua formaçãocomunista, algunsjornais e revistas de grupos marxistasde Berlim. E sesurpreendia com a insistência com queela pedia manuais deestratégia militar, depoimentos degrandes generais erelatos de batalhas famosas. A militarista que os suavesolhos azuis ocultavam já emergira nasreuniões do GrupoSchwabing, criticando freqüentementeo desinteresse dosoutros pelas técnicas militares e aausência detreinamento regular de todos os militantes."Nós vamossentir falta dessa experiência quando estivermos cara a caracom o inimigo", advertia. Suas desavenças com osrapazes do grupo, entretanto, só se tornaramásperas quandopercebia que estava recebendotarefas secundáriaspelo fato de ser garota. Ao final dadiscussão, Olgaresmungava para quem quisesse ouvir:"Quero quevocês saibam que nestes momentos sermulher é umachateação!"Quanto mais lia osclássicos marxistas e militava noSchwabing, maisfirme tornava-se sua decisão de trocarMunique por Berlim.A clientela fina e perfumada dalivraria GeorgMüller, as discussões com os pais e a própria casa começam aficar insuportáveis. As notícias daagitação política nacapital, que lia nos jornais de Berlim,incendiavam suaimaginação. Uma fantasia que tinha 20 nome próprio:Neukõlln, o bairro operário de Berlim, a"fortalezavermelha" da esquerda alemã. Depois de mesesde insistência comOtto, ela recebeu dele, finalmente, umaceno. Foi num fimde tarde em que os dois passeavamde mãos dadas por umparque nos arredores de Munique.Ele próprio nãoparecia estar muito seguro do acerto doconvite:- Consultei opartido e é possível mudarmos paraBerlim. Mas, e suafamília? Como você vai resolver issocom seu pai?Ela enfureceu-se coma pergunta:- Víajo na hora queo partido decidir!Na verdade, não eraapenas a política que a empurravapara Berlim. Elaestava apaixonada por Otto. Osfins de semana quepassaram juntos em cabanas cobertasde neverevelaram-lhe o homem doce, carinhoso e pacienteque se escondia portrás do grave professor de marxismo.Passar os días aolado dos jovens operáríos comunístasde Neukôlln e asnoites nos braços de Otto era tudo o queOlga Gutmann Benárioqueria para sua vida naquelesdías. Só depois deter na mão o bilhete de trem de segundaclasse, e arrumadosuas roupas na pequena mala de madeira, é que elainformou aos pais que viajaria na mesmanoite. Foi um jantarsilencioso, do qual a mãe não quisparticipar. Olgatentou, bravamente, partir sem brigarcom o velho Leo.Depois de quase três horas de discussão,ela finalmentelevantou-se. O beijo de despedida que opai lhe deu à portade casa dizia que no fundo ele, em seulugar, talvezfizesse o mesmo.Vinte e quatro horasdepois, da janela do quarto, nosóltão do pequenosobrado, Olga contemplava a rua Weser:então ela estavaali, no coração de Berlim. Para quempassara a infância ea adolescência no confortável bangalô dos GutmannBenario, na Karlplatz, em Munique,aquele cômodominúsculo estava muito longe de merecero nome deapartamento. Três passos dados com umas pernas longas eramsuficientes para trombar com as paredes.Como mobília, duascamas, uma mesinha de canto, umacadeira e umacômodacom gavetas, que fazia as vezes deguarda-roupa. Nosvãos entre um e outro móvel, tábuasapoiadas em blocosde concreto vergavam sob tantos livros, papéis edocumentos. Por algum tempo, esta seriaa casa de Olga eOtto. Percebendo a surpresa da namoradadiante da modéstiadas acomodações, ele ironizou:- Nesse quarto jácomeçamos economizando o dinheiro dodespertador.É que o bondecomeçava a circular às seis da manhãe passava debaixo dajanela do apartamento, fazendo umbarulho capaz deacordar os defuntos. Em sua primeiramanhã berlinense,Olga tomou consciência de que a mudança não era apenasde endereço e de cidade. Durante ocafé da manhã -algumas bolachas e uma garrafa deleite - Otto revelou-lheque seu trabalho clandestinopara o Partidoimplicava certos cuidados que envolveriama ambos. Abriu umapasta de couro e tirou alguns documentos deidentidade, explicando pacientemente a umaOlga maravilhada como clima de mistério:- Como eu, a partirde agora você terá duas identidades. Meusregistros na polícia estão sob o nome deArthur Behrendt,caixeiro viajante nascido em Angsburgem 28 de setembro de1898. E desde ontem você passou aser Frieda WolfBehrendt, minha mulher, nascida em27 de setembro de1903, em Erfurt. Aqui estão os seusdocumentos e umatestado de que residimos atualmenteno número 11 daErhardstrasse, na cidade de Leipzig.Muito cuidado e boasorte, senhora Behrendt.Otto disse mais: seutrabalho ilegal provavelmente osmanteria afastadospor semanas, às vezes meses. Aproximou-se dela, com umcarinho:- Isto significa queembora vivendo juntos, tão cedonão poderemos casar.Ela reagiuagressiva:- Então é bom quevocê saiba que eu não quero mecasar.Foi preciso poucotempo para que Olga deixasse deser a adolescente deMunique para se transformar numamulher. Em tudo -menos na aparência de menina que 22 lhe davam astrancinhas. destacando ainda mais seus belosolhos. No mais, umamulher: na vida com Otto, namilitância diária,no progresso fulminante que fazia dentro dos quadros daJuventude Comunista de Neukólln.Alguns meses apóschegar a Berlim, ela já era asecretária deAgitação e Propaganda da mais importantebase operária do PCalemão, o bairro vermelho de Neukõlln. Durante odia, reuniões, passeatas e atividades derua. A noite,intermináveis assembléias nos fundos dovelho prédio da ruaZíeten, onde funcionava a cervejariada família Müller. Omesmo salão que durante o almoçoera tomado portrabalhadores das imediações para a rápida refeição debatata-salsicha-e-cerveja, à noitinhavirava sede daJuventude Comunista do bairro. Ninguémprecisava de senhapara entrar. Como a maioria daquelagente ainda nãotinha idade para beber, Müller reagiamaquinalmente quandoaparecia alguma cara nova diante do gasto balcãode mármore. Apertando os olhos entreo vasto bigodão e aealva que lhe tomava a cabeça, diziasimplesmente:- Juventude? Dê avolta pelo corredor, é lá nostundos.Olga já conheciabem, de histórias que ouvira emMunique, tanto acervejaria como o seu dono. Mais doque isso, sabia atéo canto em que, durante muitos anos,Rosa Luxemburgo eKarl Liebknecht - dois destacadosdirigentes do PCalemão, assassinados em 1919 - conspirarampoliticamente entresi. Quando piorava a situaçãofinanceira dosMüller - Wilhelm; a mulher e uma filha -, a notíciacorria pelo meio operário, até mesmo defora de Neukólln.Durante algumas semanas, as cervejariasda região seesvaziavam em benefício de Müller; afreguesia semultiplicava, até que suas finanças voltassemao normal. E o mesmosalão dos fundos onde se realizavam atos políticos,assembléias e reuniões clandestinas,duas vezes porsemana era transformado, das oito e meiaàs onze e meia danoite, em sala de aula. As terças-feiras,semana sim, semananão, Olga ensinava rudimentos deteoría marxísta aosseus companheiros. Ali se conseguia 23 o prodígio derealizar quatro, cinco reuniões simultâneas,tratando de temasdiferentes. Muitas vezes ela tinha queser ríspida e exigirque alguém escolhesse outra hora pararodar panfletos nomimeógrafo que a organização mantinha num canto dosalão.Dia apósdia,trabalho doro: panfletagens na estaçãoferroviária deGóllitzer, passeatas de apoio às greves nasfábricas do bairro,ou de protesto contra a imposição dehoras extras detrabalho. Tudo isso no escasso tempo quelhe sobrava doemprego de onde vinham os poucos marcos que asustentavam em Berlim: das oito da manhã àsseis da tarde, Olgaera datilógrafa da Representaçãocomercial Soviética,um emprego que lhe fora conseguidopelo Partido. Emborao trabalho lá fosse muito tedioso,comparado com suasatividades na Juventude, ela se orgulhava de podertrabalhar "ao lado dos revolucionários".Mesmo sabendo queisso provavelmente era mera fantasia, Olga via emcada um daqueles pacatos burocratas depaletó e gravata"um bolchevique de aço".O tempo exigido poruma vida tão febril tinha queser roubado dealguma coisa. E, às vezes, sua vida amorosacom Otto pareciaempobrecer. As poucas horas dasemana em queconseguiam ficar juntos - em geral jápela madrugada -acabavam sendo gastas em. . . trabalho. Não só paraficar mais tempo com o companheiro,mas também peloaprendizado político, Olga conseguiu,após muitainsistência, ser sua secretária. Era ela, então,quem datilografavaos extensos textos teóricos que Ottoditava ou deixavaprontos, manuscritos. sobre a cama.Nessa tarefa elacomeçou a compreender melhor a lutaque se avizinhava emseu país. o desenvolvimento darevolução em outrospaíses e, é claro, a estrutura internado Partido Comunistaalemão.O amor e a admiraçãoque tinham um pelo outro nãodiminuíra- aocontrário, queriam-se cada vez mais. Noentanto, a atividadepolítica, somada à paixão pela militância, reduzia aminutos o tempo que tinham paranamorar. E quandodiscutiam, nunca era por divergênciaspolíticas, mas poralgo que chegava a irritar Olga: o ciúme. 24 que Otto sentia emrelação aos rapazes da Juventudecomunista. Ciúmejustificado, diria qualquer um de seus 60companheiros dogrupo de Agitação e Propaganda. A cadadia Olga tornava-semais atraente. Até o jeito meio desengonçado de andardava-lhe um encanto especial. Alémdisso, umacaracterística aguçava ainda mais o desejo dosrapazes: suaindependência. Olga era dona de seu narize fazia apenas o queacreditava ser importante. Na política e na vidapessoal.Essa índependêncía,porém, não a impedía de aprender cada vez maiscom Otto. Este não lhe ensinava apenasas teorias de Marx,Lênin, Engels e Karl Liebknecht.Conselhos que, dadospor alguma amiga, teriam como respostaum palavrão, na bocade Otto vinham com outrosentido. Não eraapenas um comunista experiente quemfalava. Em doseshomeopáticas, pacientemente, OttoBraun convenceu Olgade que uma militante não precisava ser descuidadae mal vestida - no pequeno e improvisado toucador docasal,junto à pia do quarto, os poucos vidros decolônia e perfume eram dele. Nas conversasna cama, noite adentro, crescia uma mulher mais tolerantecom osnão-comunistas. E mais do que isso, Olgaaos poucos iadeixando de lado seus preconceitos moralistas contracompanheiros que fumassem, bebessem ougastassem o poucotempo livre nos grandes salões debaile, sábado ànoite. Com o tempo ela própria já começavaa se sentir atraídapelas diversões do grupo.De um sentimento,entretanto, nem mesmo os conselhosde Otto conseguiramlivrá-la: o horror ao casamentoformal, sacramentadoem cartório. Ela associava a idéiado casamento ao queconsiderava a pior deformação burguesa: a dependênciaeconômica da mulher, o amor obrigatório, aconvivência forçada. Quando alguém indagavapor que não secasava com Otto - se aparentementeviviam tão bem -,ela tinha a resposta pronta:- Não nos casamosexatamente por isso: porque nosamamos. Eu jamaisserei propriedade de alguém.Mas que não seconfundisse essa compreensão dasrelaçõeshomem-mulher com qualquer outra liberalidade. 25 Quando ouvia algumaamiga contar como vantagem quelevara para a camatantos rapazes, ela perdia a serenidade.Nestes momentosemergia uma Olga intolerante, quasepuritana:- Saiba que cederaos instintos é multiplicar obordel burguêss. Equem diz isso não sou eu; é Lênin.Conversa encerrada.Como contestar Lênin? E se nogrupo alguém tivessecomportamento que considerasse"imoral",Olga não hesitava em levar o problema à discussão na direção daJuventude Comunista - e isso naavançada Berlim dosanos vinte.Essa face rígida nãoimpedia que eontinuasse despertando paixões entreos jovens de IQeukólln. Paixões e, claro,ciúme. Como o deRuth, que obrigou o namoradoMartin Weiser - umjovem aprendiz de ourives - aabandonar o grupo deestudos marxistas dirigido porOlga no subúrbio deFalken. Neste grupo,Olga conheceu outro rapaz que tambémse encantaria porela, o tipógrafo Kurt Seibt. Kurt eraempregado de umagráfica e acabara de filiar-se ao sindicato da eategoria.Inspirado por Olga, entrou para a Juventude Comunista e passoua ser uma espécie de assistente da professora.Como ela, Kurt acreditava que a militarizaçãoclandestina da organização era o passo seguinte após os cursosteóricos e a organização dos jovens nosbairros operários.Por orientação dela, Kurt encarregouse da organização das milícias jovens emcada um dosquarteirões dobairro de Kreuslberg, próximo a hIeukõlln.Apesar deimportante, o novo posto trazia a desvantagemde mantê-lo afastadoda atraente professora.Quando se encontroude novo com Olga, depois deassumir a novamissão, Kurt pediu-lhe autorização paraorganizar umabrigada que reprimisse pela força um grupo de jovensnazistas que importunava o trabalho emKreuslberg. Osinsultos, as interrupções das aulas, ossacos de excrementose urina que atiravam dentro dassalas de reunião, sóseriam contidos a socos, argumentavaKurt. Olga relutoubastante e tentou dissuadi-lo da idéia, insistindo em quedeveria tentar atrair os jovens nazistas26 para as suas idéias,ao invés de espancá-los. Mas, ao perceber que adoutrinação pouco adiantava, ela própria decidiu participar daintervenção. Bastou uma única sessãode sopapos,ministrados por moças e rapazes, e os nazistas sumiram. 2. Frieda Behrendt épresa 27 No início de 1926, oPartido Comunista reconheceuformalmente osresultados do trabalho de Olgae  promoveu-aao cargo de secretária de Agitação ePropaganda não só dobairro - o "sul vermelho de Berlim " - mas da Juventude em toda acapital alemã. Juntamente com GunterErxleben, um garoto bem mais jovemque ela, com aestudante Dora Mantay e outros líderes daJuventude, Olgapassava as noites organizando grupos depichação,panfletagem e piquetes de apoio a movimentosde operários emportas de fábrica.Suas intervençõeseram sempre marcadas por idéiasengenhosas eimaginativas. Era preciso inventar meios deburlar a polícia eevitar que a repressão sobre os comunistas fosse muitodura. Quando estourou naquele anouma greve demotoristas de táxi em Berlim, as manifestações de rua foramproibidas, mas assim mesmo a Juventude decidiuorganizar uma passeata de solidariedadeaos grevistas. Comonão podiam sair em conjunto da cervejaria de Müller,pois seriam reprimidos antes que chegassemao centro da cidade,Olga preparou um plano paraenganar ospoliciais. As três horas da tarde, quando omovimento era maisintenso nas principais ruas, o centrode Berlim foi sendotomado, aos poucos, por dezenas decasais de jovensnamorados, espalhados pelas esquinas, 28 olhando vitrines,parados nas portas de bares e sorveterias.Em um dado momentoalguém assoviou alto e os casais,obedecendo à ordem,tomaram a rua. Estava montada apasseata, quemomentos depois seria dispersada a golpesde cassetete dacavalaria e jatos d"água das carroças-pipada polícia. Durantea repressão, era comum que das janelasdas casas surgissembandeiras vermelhas - tantocomunístas, com afoice e o martelo no alto, saudandoos jovens, comonazistas, com a suástíca negra no centro,apoiando a açãopolicial.Refregas como essaocorriam às dezenas em Berlim.A atividade políticacrescia na mesma proporção em quea direita seorganizava. O Narionatsozialisttsche DeutscheArbeiterpartei, oPartido Nacional Socialista Alemão dosTrabalhadores - ou,simplesmente, Partido Nazista aumentava sua pregação junto à classe média e asetoresdo operariado. Emcontrapartida, os comunistas procuravam multíplicar suascélulas. A revolução tínha triunfadohavia menos de dezanos na Rússia, mas o isolamentopolítico e adistância geográfica da capital da recém-nascida União dasRepúblicas Socialistas Soviéticas, somadosao crescimento doKommunistische Partei Deutschland,o Partido Comunistaalemão, faziam com que Berlim deixasse de ser apanas a capital docomunismoalemão, oueuropeu, paratornar-se a meca da insurreição social.O grau deestruturação do Partido Comunísta na sociedade eracomparável ao de um Estado. Com centenasde milhares demilitantes espalhados por todo o país, oPartido mantinha editorasde livros em todas as grandescidades (nem sempreligadas oficialmente aos comunistas)e publicava váriasrevistas semanais e dezenas de jornaisdiários (regionais enacionais), impressos em papel praduzido porindústrias do próprio PC alemão. A tiragemdas publicaçõescomunistas, oficiais ou não, superava delonge a circulaçãototal da ímprensa índependente e dosoutros partidospolíticos. Incontáveis clubes e associaçõesde mulheres, jovense intelectuais - quase todos de "fachada", semqualquer ligação oficial com a organização- funcionavam soborientação tanto do Partido como 29 diretamente dacúpula da III Internacional - o Comintern - em Moscou.Internamente, aestrutura do PC alemão assemelhava-se à de um governo. Dispunha de correio próprio,divisões de espionagempolítica e industrial e parques gráficos destinadosexclusivamente à produção de documentosfalsos. A segurançadas sedes do Partido, dos documentose dos dirigentes eragarantida por uma espécie de Ministério da Defesa em miniatura.Para cada área de produçãoda sociedade -indústrias, agricultura, transportes, energia - existia umdepartamento correspondente na estrutura partidária, comespecialistas de todos os tipos. Duasdivisões, entretantomereciam especial atenção por parteda direção doPartido e do Corointern: a responsável peloenfrentamento com oPartido Social-Democrata, e aquelaque supervisionava aatuação da Juventude Comunista.Dentro da JC, otrabalho realizado pelo núcleo deNeukõlln era seropreapresentado como um exemplo dededicação eeficiência à causa comunista. E a estrela maisfulgurante deNeukõlln a jovem Olga Benario, era quemmais preocupava adireção naquele momento. Temendoque a políciadesconfiasse da dopla identidade de Otto,e que tentasse chegara ele por intermédio da namorada,o Partido aumentou asegurança em torno dela. O ritmode suas atividadesfoi reduzido e ela foi proibida de participar de qualqueração arriscada. "Se põem a mão emvocê",advertiam-na, "Otto cairá em seguida". Além disso,ela própriatornara-se um alvo importante para a polícia:semanas antes foraescolhida para ser a secretária políticada direção daJuventude Comunista em Neukõlln, o cargomais importantedepois do de secretário-geral.Os receios de queOlga fosse usada como isca não seconcretizaram, Pior:tudo aconteceu exatamente ao contrário do previsto.Certo dia, no começo de outubro de1926, Olga saiu maistarde de uma reunião na cervejaria.Já passava dameia-noite, mas ela decidiu voltar a pé parasua nova casa, umpequeno apartamento no número 25da rua Jung. Entroue permaneceu encapotada até o aquecedor esquentar umpouco o quarto. Por volta de duas 30 horas da madrugada,ouviu baterem à porta e imagínouque Otto tivesseesquecido a chave. Abriu e deparou-secom dois policiais.O mais velho exibiu-lhe um documentotimbrado eperguntou:- A senhorita é OlgaGutmann Benario?- Sim, sou -respondeu atônita.- Por ordem do Dr.Vogt, Juiz do Supremo Tribunal, a senhoritaestá presa. Queira acompanhar-nos.No carro da polícia,a caminho do Departamento deInvestigações, elapôde ler o mandado de prisão preventiva. Com base na"Lei de Proteção da República", prendiam-na sob suspeitade ter cometido vários crimes: "preparação deempreendimento altamente traiçoeiro", "tentativa de alteraçãopela violência da Constituição vigente", e"particípação em assocíação clandestina e hostil aoEstado, para tentarminar a forma republicana de governo". Apesar dotom ameaçador das acusações - que pelalei poderiamdeixá-la mofando no xadrez por uns bonsanos -, Olgapercebeu, pela conversa dos dois guardas,que não era ela oalvo. Na verdade, quem eles de fato procuravam já haviasido preso naquela manhã: Otto Braun.Logo nos primeirosínterrogatóríos ela notou que ointeresse da políciapelas atividades de Braun era muitogrande e que aacusação que pesava sobre ele era maisgrave do quesupunha: "suspeita de alta traição à pátriá".Olga sabia que esseera o termo jurídico que os promotoresda polícia políticautilizavam para enquadrar os acusados de passardocumentos secretos a países estrangeiros,ou fazer espíonagemem favor de outro governo.Durante duassemanas, a prisioneira foi mantida incomunicável esubmetida a interrogatórios desde o amanhecer até amadrugada, com rápidas interrupções parao que chamavam derefeições. A calma e a frieza com quenegava todas asacusações - as falsas e as verdadeiras impacientavam e irritavam os policiaisque operavam emrodízio. A primeiranotícia do mundo exterior veio deMunique: através deadvogados que trabalhavam no Departamento deInvestigações, o pai mandou-lhe um recado. Se elaconcordasse, ele podería deslocar-se até a capítal 31 para defendê-la naJustiça. E se o envolvimento dafilha não fossegrave, ele poderia conseguir sua libertaçãograças a amigosinfluentes do Partido Social-Democrata.Olga percebeu quenão havia maldade na oferta do pai.mas apenaspreocupação com seu destino. Ainda assim,recusou polidamentea ajuda oferecida.Loogo que aincomunicabilidade foi suspensa, recebeua primeira visita. AJuventude Comunista de Neuktilln fezuma coleta entre osmilitantes, simpatizantes e amigos deOlga e elegeu GaborLewin, um dos membros da direção,para visitá-la elevar-lhe um riquíssimo farnel. O pacote,minuciosamentevistoriado na entrada da prisão de Moabit, continha doces,biscoitos, panquecas, frutas e conservas compradas naconfeitaria mais refinada da cidade.Nos poucos minutosda visita, ouviu um atarantado relatório sobre asatividades da Juventude e as providências que tomavampara protestar contra as duas prisões.Sempre aossussurros, Olga respondeu com um resumoda acusação e dosriscos que envolviam nem tanto ela,mas principalmenteOtto, suspeito de espionagem e traição. Burlando ocarcereiro que a cada momento enfiavaa cabeça na sala,Olga rabiscou uma mensagem dirigidaaos jovens doPartido e que seria lida em assembléianaquela mesma noite,na "Casa Karl Liebknecht" , a sedeoficial de atospúblicos do PC alemão.No começo dedezembro, Olga começou a temer quesua prisão pudesseenvolver algo de mais sério. A totalausência deinformações sobre o andamento de seu processo - eprincipalmente sobre o de Otto - deixava-aapreensiva. Na manhãde 2 de dezembro - exatamentedois meses após suaprisão, o carcereiro abriu a porta dacela e ordenou:- Pode arrumar suascoisas. A senhorita está em liberdade, por ordemdo promotor do Supremo Tribunal.Olga juntou as duasmudas de roupa que deixaradobradas num cantoda cela, rabiscou um "de acordti "ao pé da ordem desoltura e em menos de cinco minutosestava na rua.Correu para casa e logo ao entrar percebeuque naqueles doismeses a polícia tivera tempo suficiente 32 para revistar cadacantinho das estantes, da velha cômoda, de tudo.Manuscritos de Otto, livros, algumas de suaspróprias anotações,tudo havia sido confiscado pela polícia política.Deitou-se e dormiu por quase vinte e quatrohoras. Acordousobressaltada na manhã seguinte compancadas na porta."São eles de novo", imaginou. Quandosoltou a tranca, oquarto foi invadido por mais de vintegarotas e rapazes daJuventude. Olga passou uma águano rosto e ficou ashoras seguíntes contando, repetídasvezes, como tinhamsido os dois meses em Moabit.Os dias passavam semnotícias de Otto Braun. Todasas noites, aodormir, Olga sentia um aperto no peito vendoos objetos donamorado sobre a estante: os cachimbos,a boisa de fumo,dois pares de botas, uma echarpe deseda pendurada notrinco do banheiro. Aquela ausênciaera diferente dasanteríores, quando sabía que ele podíasurgir a qualquermomento, abraçá-la em silêncio, puxá-lapara a cama - e sómuito tempo depois é que começariama contar asnovidades. Agora ela sentia um fortepressentimento deque ficaria sem Otto por muito tempo.Entretanto, aatividade política era o melhor remédiocontra a angústia ea ansiedade. Atirou-se na agitação,dedicando-se a umtrabalho que não ímplícava em ríscosde nova prisão: a preparaçãode encontros da Juventudefora de Berlim. Asaudade e a preocupação eram, contudo, muito fortes eduas semanas depois de libertada eladecidiu ousar. Pegouo telefone e discou para o gabinetedo juiz Vogt,diretor da prisão de Moabit. Quando asecretária pediu-lheque esperasse um instante até o juizatender, Olgatapou ofone com a mão e comentou com suaamiga Frieda:- Acho que estouvirando uma pessoa importante.O fascista do Vogtvai me atender!Se Vogt, aodígnar-se a atender o telefonema de umasubversiva, esperavapor alguma informação importantesobre o processo deOtto, enganou-se. Olga queria autorização para visitar onamorado pelo menos uma vez pormês, reivindicava odireito de levar-lhe alimentação especialregularmente e, porfim, requeria licença para uma 33 visita extra noNatal que se aproximava. Irritado com oatrevimento daex-presa, Vogt respondeu-lhe apenas quefizesse umrequerimento por escrito e o entregasse naportaria da prisão.E desligou o telefone. O pedido datilografado foientregue na mesma tarde e para surpresados funcionários daprisão, pela própria Olga. Na manhãseguinte elareceberia pelo correio, frustrada, o taxativodespacho assinadonão por Vogt, mas pelo comissárioKling, umfuncionário subalterno da prisão: Otto Braunnão era um presopolítico, mas um acusado de alta traição e, portanto, nãotinha direito a alimentação especial;no Natal, segundo alei, ele poderia, como qualquer presocomum, recebervisitas e alimentos num pacote de cincoquilos no máximo;quanto ao pedido de visita regular,estava recusado.Olga leu o ofício furiosa. Amassou opedaço de papel,jogou-o no lixo e disse em voz alta, para simesma:- É, parece que Ottosó sai de Moabit se o arrancarmos de lá.Olga sabia que o anode 1927 prometia ser tumultuado.O cerco dogoverno ao Partido Comunista alemãoapertava, embora aorganização estivesse na legalidade.Várias centenas depresos políticos abarrotavam os presídios e, não obstanteo crescimento econômico do país emrelação à crise dequatro anos antes, multiplicavam-se osfocos de miséria nosbairros operários. A solidariedadenacional einternacional aos presos era grande, mas, doponto de vistamaterial, sustentar tantas famílias era algoimpensável.E, o que era piorpara Olga, Otto não podia ajudá-laa pensar nas saídaspolíticas para a crise que ameaçavao país. Nas duasúnicas oportunidades em que o "fascistaVogt"autorizara visitas, eles mal puderam conversar nosalão de audiênciasde Moabit. Supondo que do encontropudesse vazar algumainformação importante, o juiz colocou dois guardasde plantão a centímetros do casal,ouvindoostensivamente o que sussurravam.O ano começara malpara ambos. Por meio de ofícíocarimbado com um"ultra-secreto" no meio da folha, o 34 Departamento do Ministério do Interior - responsávelpela área deinteligência e informação - transmitira àdireção da polícianacional sediada na cidade de Leipzig,a suspeita de queFrieda Wolf Behrendt e ArthurBehrendt fossem, naverdade, Olga Gutmann Benario eOtto Braun,"amantes e cíunplices em um processo dealta traição"que tramitava nos tribunais alemães. Osserviços deinformação solicitavam dados mais precisossobre "os doiscasais", tais como fotografias, cópias detodos os documentose verificação dos endereços dadospor eles. Comorecomendação final, determinavam que asinvestigações fossemconduzidas "em caráter absolutamente secreto".Em resposta, orelatório sumário de Heinz Junghans,comissário superiorde polícia, não deixou qualquer dúvida quanto àveracidade das suspeitas. Otto Braun eArthur Behrendt erama mesma pessoa, assim como OlgaBenario e FriedaWolf Behrendt. Além disso, o informepolicial declaravaque o endereço dado pelo casal aoregistrar os documentosé falso - a tal casa número 11 daErhardtstrasse, emLeipzig -, simplesmente não existia.Junghans advertia,finalmente que a perfeição dos documentos"frios" de Braun e Olga levava à suspeita deque ambos tiveramacesso a uma gráfica sofisticada capazaté mesmo deimprimir passaportes e dinheiro. Se atéentão apenas Ottoestava envolvido até a raiz dos cabelos,a partir daquelemomento Olga deixava de constar nosautos apenas comosua "secretáriá" ou "namorada".O agravamento dasituação judicial da filha logochegou aos ouvidosdo advogado Leo Benario em Munique,que decidiu agirdesta vez sem consultá-la. Através derequerimentodirigido ao procurador PIeumann, chefe dospromotores públicosdo Supremo Tribunal de Justiça, opai formulou umcomovente apelo solicitando a exclusãoda filha do processomovido contra Otto Braun.Subscrevendo-se como"responsável perante a Lei eadvogado de minhafilha menor", o jurista insistia emque,se de fatohouvera participação da garota no suposto crime, ela certamentenão podia ter consciência do que 35 fazia, por não tersequer completado 18 anos à época dodelito. "Numaespécie de solicitude romântica para comos trabalhadores,esta jovem, completamente inexperiente na vida políticae econômica", escreveu o pai, "pretendia ajudar, porconta própria, a esta classe do povo, eespecialmente àjuventude da mesma." Leo Henário esdareceu que Olga não havia deixado acasa da família emMunique para militarno Partido Comunista em Berlim,mas porque haviamprometido a ela um emprego na capital. Disse que nãotentara retê-la em casa pela força,pois "taismedidas, hoje em dia, são inúteis com os jovens,e a aplicação daforça provavelmente teria levado a resultado oposto".Terminava o ofício reiterando o pedido deexclusão da filha, eencerrava a petição com uma sutilironia: "Se éque Olga teve alguma eumplicidade comOtto, foi apenas namáquina de escrever - e ainda assimfaltava-lheconsciência do que fazia".A resposta seca dopromotorchefe dava mostras deque o Judiciárioalemão não se sensibilizara com os argumentos paternos dodr. Benario. Um despacho de poucaslinhas tirou doadvogado as últimas esperanças de livrara filha daenrascada: "Uma vez aberto o inquérito contrasua filha Olga Benario,não há como suspender o processo",determinou oprocurador Neumann.Os meses seguintestranscorreram sem que a Justiçadesse a públicoqualquer notícia sobre o processo. No final do ano, Olga leunos jornais que o Supremo Tribunaltinha finalmente marcadopara maio o julgamento deBraun como"cabeça do processo de alta traição à pátria".Agora sem meiaspalavras, ele era tratado explicitamentecomo "espião aserviço da União Soviética". Olga apavorou-se, pois sabia queaquele não seria, jamais, um processo regular. Anomeação de um homem de extrema direita, como o juizVogt, para a chefia da corte que julgaria Otto, eraparte de uma articulação governamental para"passar oarado" nos comunistas, como ela costumavadizer nos atospúblicos. Através do julgamento, o que sepretendia eracomprometer o Partido Comunista aosolhos da opiniãopública, imputando-lhe atos de traição 36 à Alemanha e deespionagem em favor da União Soviética."Nem todos osadvogados do mundo, juntos, conseguirãoimpedir que Ottoseja condenado a vinte anos de prisão"- ela falava para simesma pelas ruas da cidade, as mãosenfiadas nos bolsosdo casacão de lã, o jornal com as notícias do tribunalsob o braço. "E, se ninguém pode evitarsua condenação, sóhá uma saída: Otto não pode ser julgado", concluíaOlga. A idéia reanimou-a. Ela sorriu eapressou o passo emdireção à cervejaria dos Müller: "porisso, Otto Braun nãoserá julgado por um tribunal fascístá "Olga nãoignorava o quanto de fantasía sustentavaesse raciocínio, queaquilo era um mecanísmo interíorpara aplacar opânico díante da íminente condenação donamorado- Afínal,Moabit não era uma prísão qualquer,mas uma fortalezaque ocupava toda uma quadra naregião central deBerlim. Dificilmente um visitante de forapoderia imaginar,vendo o prédio da rua, que a elegantee sólida construçãode janelas góticas fosse uma prisãode alta segurança.Além de uma dezena de celas, no subsolo ou protegidaspor muralhas de tijolos no lado oestedo edifício, Moabitabrigava meia dúzia de salões de audiência e instruçãojudicial no térreo, todos de frente paraa Turmstrasse, ondeficava a entrada principal do complexo carcerário.Para evitar que os presos, em dias deaudiências ouinterrogatórios, circulassem na área abertaao público e aosadvogados, construíram-se pequenas saletas contíguas aossalões, ligadas às celas por corredoressubterrâneos. Emborao sistema de segurança fosse rigoroso, Olga sabiaque, caso existisse uma única chance dearrancar Otto deMoabit, esta chance estaria ali, no breveinstante em quefosse transferido da sala de espera parao salão deaudiências. E isto aconteceria dali a poucassemanas, na últimaaudiência de Otto antes do julgamento.Olga cominhava pelasruas imaginando planos, assaltos, sequestros, ese espantava com a indiferença dosoutros frente à suaangústia. "Isto não é possível, Dora,"resmungava com acolega de trabalho, "nossa gente deve estar 37 anestesiada. Há umrevolucionário sob o risco depassar décadas numxadrez gelado pelo crime de quererlibertar o seu povo- e essa gente que passa a nossa voltatalvez nem saibaquem ê o escritor Otto Braun." Desde omomento em quedespertava até voltar para casa, tardeda noite, ela nãoconseguia pensar noutra coisa: Otto nãopodia ficar emMoabít até o julgamento,Olga ainda nãosabia, então, que esse desejo não eraapenas seu. Fantasiaou não, outros companheirosplanejavam a mesmacoisa. Mais de uma vez disseram que"Olga e oPartido parecem pensar com uma só cabeçá "- e agora a fraseseria de novo confirmada, na últimasemana de março elafoi chamada reservadamente à sededo Partido por umfuncionário da seção de contraespionagem do PC. Depoisde esperar alguns minutos cominhando peloscorredores, foi introduzida na sala docomando daParteischutzgruppen, o corpo de segurança dosdirigentes doPartido. Ali recebeu instruções no sentidode selecionar meiadúzia de mílitantes do Departamentode Ordem daJuventude Comunista e orientá-los para umadelicada e perigosamissão, que chefiaria pessoalmenteno dia 11 de abril,daí a quinze dias: um assalto armadopara tirar OttoBraun da prisão de Moabit. 3. A sua frente, o"Cavaleiroda Esperança" Poucos dias depoisde se instalarem no hotel Desna,Olga e Otto foramtransferidos para o edifício de apartamentos reservado aosjovens estrangeiros que se encontrassem em Moscou aserviço do KIM - o KommunistiInternationatiMolodoi - uma versão do Comintern paraa JuventudeComunista Internacional. Embora as instalações tossem maismodestas do que as do hótel, essesalojamentos tinham avantagem de colocá-los em contatocom jovens de váriospaíses - propiciando-lhes, concretamente,uma visão do caráterínternacíonalista da" revolução tussa. Dezenasde idiomas e dialetos se confundiamnum burburinho deeslavos, latinos, negros e orientaisoriundos das váriasrepúblicas soviéticas e de todos oscantos do planeta.Os dois receberam umpequeno quarto com banheiro,guarda-roupa ecômoda e, mal acabaram de se instalar,foram informados deque, devido à forte tensão que passaram,na clandestinidadede Berlim e na viagem atéMoscou, teriamdireito a três semanas de férias no marNegro, aproveitandoo verão. Eles próprios deterrninariama data,da partida,mas antes da viagem seriam submetidos a examesmédicos - recomendação especialmente feita.a Otto,suspeito de estar anêmico. 40 Os primeiros dias noalojamento do KIM foram sufícientes paraperceber que eram conhecidos da maioriados estudantes queali viviam. Ou melhor: não que fossemconhecidos, mas alise sabia com detalhes a história dalinda alemã queinvadira Moabit para arrancar das mãosdo juiz o seunamorado, um jovem dirigente comunista.Olga e Otto sedivertiam, no refeitório, quando ouviamalguém recontando aação, a cada versão acrescidade lances maisfantasiosos.Duas semanas apósdesembarcarem em Moscou, oguia que osacompanhava levouvs para assistir, depoisdo jantar, aoencerramento de um dos cursos politicosdados pelo KIM.Quando os três entraram no auditóriosuperlotado daJuventude Comunista Internacíonal, Olgaimaginou que aqueledeveria ter sido um luxuoso teatroda época czarista,tal a suntuosidade do lugar e a abundância de mármores,tapetes e cortinas de veludo azulcaindo de um tetoaltíssimo. não se encontravam maispoltnonas-vazias, eos três tiveram que se juntar aos grupos espremidos noscorredores laterais. Quando a cerimônia aproximava-se dofinal, a moça que presidia os trabalhos pediu silênciopara fazer uma comunicação importante. A seguir,chamou ao palco "a camarada Olga Sinek"- codinome queusaria durante toda sua estada na URSS-"recém-chegada de Berlim, onde camandara a libertação do professorOtto Braun". O salão veio abaixo. Sobpalmas de centenasde moças e rapazes ela caminhou atéo palco e, aprincípio meio nervosa, relatou brevementeos acontecimentos de11 de abril. Desinibida pelos aplausos que recebiaenquanto falava, terminou com uma confissão:- Eu gostaria quesoubessem que ali eu cumpri duastarefas: uma doPartido e outra do meu coração.Foi a consagração. Apartir daquele dia, o tempopassou a ser escassopara atender a todos que lhe pediampara contar a açãode Moabit. Transformada pelos dirigentes do KIM numaespécie de exemplo do jovemcomunista ideal,Olga se desdobrava para atender aos compromissos que adireção assumia por ela: falar em fábricas, 41 fazendas estatais,escolas e programas de rádio. Aviagem de descansofoi sendo adiada, e dois meses apóssua chegada à UniãoSoviética ela soube que tinha sidoeleita para o ComitêCentral da Juventude ComunistaInternacional. Onovo cargo significava também novasobrigações, e aprimeira delas era freqüentar um cursointensivo de inglêse francês e, nas horas livres, melhorarseus conhecimentosde russo.Ela não tinha umminuto para Otto. Quando, certanoite, estecontou-lhe que terminara todos os exames médicos e sugeriu quepartissem imediatamente para as férias, ela o surpreendeucom uma recusa:- Acho que você teráque ir sozinho. O trabalho deKIM está absorvendotodo o meu tempo e nesse momentonão posso nem querosair de Moscou.Para espanto deOlga, Otto reagiu com uma explosivacrise de ciúmes.Revoltada, ela repetiu, uma vez mais, quenão seria jamaispropriedade de quem quer que fosse.Ele esbravejava,querendo saber de que país era o jovemque certamenteestava virando a cabeça dela. Enfurecida,antes de sair ebater a porta com violência, ela apontoudebochadamente parao pequeno busto de Lênin sobreuma mesinha, e disseapenas:- Seu tolo! O jovemque te provoca essa ciumeira érusso mesmo, e jáestá morto. É esse aí.. .Sempre quereapareciam os acessos de ciúme de Otto,Olga saía para caminharsozinha pelas ruas de Moscou,com saudades docomeço do namoro, em Munique eBerlim. E começava arodar pelos quiosques de jornaise revistas da ruaGorki, procurando algum exemplar atrasado do BandeiraVermelha, órgão oficial do PC alemão,para esquecer asbirras do namorado. O jornal, queapareciairregularmente nas bancas ou nos organismos políticos de Moscou, erao único meio de obter informaçõessobre a Alemanha e,muito especialmente, AIeuktilln. Desua antiga"fortaleza vermelha", as notícias esparsas davam conta de lutascada vez mais difíceis entre os jovensda JC e os"fascistas da polícia", em que seus amigosquase sempre saíamferidos ou presos. Toda vez que lia 42 coisas assim, Olgaficava ainda mais convencida de quetivera razão aoinsistir para que a JC militarizasse partede seus militantes.Sua certeza de que a luta não seriaapenas política eratão forte que passou a requerer autorização, junto aoBirô Político do KIM, para ingressar emcursos paramilitaresna URSS, ao invés de freqüentarapenas as classesteóricas.Tanto pediu e tantoinsistiu com seus superiores que,meses depois, foiconvocada para uma temporada forada capital. Duranteo período que passou em Borisoglebsk- localidade a 500quilômetros ao sul de Moscou, emdireção ao marCáspio -, ela aprendeu a atirar comarmas pesadas eleves e a cavalgar incorporada a umaunidade regular doExército Vermelho. Dez semanasdepois, de volta aMoscou, Olga encontraria em seu quartouma carta ressentidade Otto, queixando-se mais uma vezdo pouco tempo quedispunham para ficar juntos. Elasentia quecontinuava amando-o, mas a convivência tornava-se cada diamais difícil. Otto era um homem adorável, sem dúvida umverdadeiro comunista, mas nas relações afetivas"comportava-se como um legítimo pequeno-burguês".Foi durante umadessas crises, no começo de 1931,que Olga teve umaagradável surpresa. Seu velho equerido amigo da JCde hIeukálln, o pequenino Gabor Lewin,que chefiara aspatrulhas que arrancaram dos postes oscartazes de"procurados" depois da ação de Moabit nãoresistiu à saudade edecidiu visitar sua antiga companheiraem Moscou. Naverdade, a chance de encontrá-la eraínfima: não falavauma sílaba de russo e como endereçodela tinha uma vagaindicação de que vivia "num prédioperto do rioMoscow". Apesar disso, Gabor chegou confiante à capitalsoviética, determinado a encontrar-se comsua grande paixãoplatônica de anos antes. Ele perambulou pelas ruas deMoscou como um louco, procurandotranseuntes comfeições judaicas. "Afinal, o üdiche é parecido com o alemão ese encontrar algum patrício aqui",imaginou,"conseguirei trocar com ele algumas palavras."Não conseguiu. Noquarto dia de peregrinação, viu um 43 chofer de táxi queparecia ter "um certo ar de judeu, comum nariz tão grandequanto o meu". Através de mímicae misturando alemãoe üdiche, tentou sem sucesso conversar com ele. Opassageiro que acabava de entrar notáxi, entretanto.era um oficial do Exército Vermelho.,que falava alemão. Minuiosdepois, Gabor Lewin estavana porta doalojamento do KIM. Olga reconheceu a perseverança do amigo econseguiu-lhe hospedagem e comida pur dez dias - dez dias que gastaramconversando,ele atualizando-asobre as atividades da Juventude emNeukálln e elacontando o turbilhão em que sua vida setranstormara nacapital soviética.A visita de Gabor esuas notícias de Berlim aumentaram a curiosidadede Olga a respeito de sua própriasituação judicial naAlemanha. Meses depois da partidado amigo, ela montouum estratagema para saber comoandava sua ficha napolícia berlinense. Como seu passaporte vencera poucassemanas antes, dirigiu-se à embaixada alemã em Moscoupara solicitar a revalidação dodocumento. O cônsulalemão, Von Twardowski, comunicou-se com aChancelaria em Berlim pedindo instruçõese aproveitou paratransmitir algumas informações à polícia política: pelopassaporte vencido não era possível saber como Olgaentrara na URSS (ela dissera no consuladoque o visto deentrada na União Soviética havia sido concedido numa folhasolta e entregue à polícia aduaneiraao entrar no país):ela era portadora de uma "autorizaçãode residência paraestrangeiros", ou seja, não se naturalizara soviética; Olgadevia ter bons advogados em Moscou,pois chegou àembaixada munida de uma cópia de certidão da anistia deagosto de 1928, da qual pretendia sebeneficiar; e,finalmente, alegava trabalhar como secretária do InstitutoMarx-Engels, na capital soviética.A resposta de Berliminformava que sua ficha policial engordara muitodesde 1928. A Justiça alemã haviatransferido paraela, de modo arbitrário todas as acusações que levaramBraun à prisão - inclusive a de "altatraição àpátria". Olga ficou sabendo também que a anistia de 1928 nãobeneficiava nem a ela nem a Otto Hraun.44Contudo, dizia apapelada enviada ao consulado, mesmose tratando de"comunista procurada" e de pessoa de"altapericulosidade", ela não havia renunciado ou sidodespojada dacidadania alemã. Assim, um mês após entrar com o pedido,Olga recebeu em Moscou um passaporte alemão novinhoem folha.No final de 1931,Olga seria escalada para sua primeira missãointernacional: intervir, em nome do KIM,na JC francesa, eajudar a escolher novos dírigentes paraa Comissão Executivada Juventude, em Paris, de modoque a organizaçãotivesse orientação menos sectária quea de então. Anotícia de que ela ficaria fora da URSS portempo indeterminadofoi a gota d"água para Otto. Os doisvinham seencontrando cada vez menos e, embora vivesssemjuntos e compartilhassem oquarto, não era incomumpassarem dois mesessem se ver. Ela propôs então que seseparassem e, aoconcordar, Otto contou-lhe que vinhase envolvendo comoutra mulher em Moscou. Os doisacertaram então que,quando ela retornasse da viagem àFrança, Otto játeria desocupado o quarto. Ao se despedirem,Olga percebeu em si,pela primeira vez, o sentimento que tantocondenava no companheiro: ciúme.E é remoendo-se deciúme que ela, com o nome falsode Eva Kruger, tomouo trem em Moscou que, depois deuma série debaldeações, haveria de deixá-la em Paris.Na estaçãoferroviária da capital soviética, Olga encontrou-se com IlzeUnger, garota de sua idade e antigacompanheira daJuventude Comunista de NeukSlln. Asduas tomariam omesmo trem, mas tinham destinos emissões diferentes:Ilze havia sido encarregada por Walter Ulbricht,dirigente do PC alemão exilado em Moscou,de levar para Berlimdocumentos secretos com orientação do Cominternpara a direção do Partido, que elatransportava dentrodo sutiã. Como medida de segurança,decidiram viajarseparadas. Na fronteira da URSS coma Polônia, Ilze,para despistar, flertou com os guardas daalfândega polonesa.Um deles, desconfiado, interpelou-a:- Você não é OlgaBenario? Quero ver seus documentos. 45 As duas eram de fatomuito parecidas: ambas eramaltas, tinham olhosazuis, cabelos escuros e a mesma idade. Ilzeidentificou-se e disse ao soldado que não, que nãoera a comunistaprocurada pela polícia:- Ao contrário: nemeu nem meu noivo, que moraem Moscou, gostamosdos comunistas.Cinco bancos atrás,Olga ouvia tudo e levantava umpouco mais sobre orosto o livro que fingia ler.Na França ela não selimita a transmitir a orientaçãodo KIM aos jovenscomunistas, mas participa de manifestações de rua atéser detida. Colocada em liberdade,semanas depois épresa novamente e deixada pela políciana fronteira com aBélgica. Ajudada por comunistas belgas, ela chega aLondres - e acaba sendo presa outravez durante umamanifestação no centro da capital ritânica. Uma fichapolicial é aberta nos arquivos do Intelligence Service - oserviço secreto inglês. As impressõesdigitais deixadaspela jovem Eva Kruger em Londres fariam,anos depois, com quesua pasta fosse substancialmente recheada comacusações mais graves do que a deprotestar em praçapública.De volta a Moscou érecebída com a notícia de que oV Congresso daJuventude Comunista Internacional acabara de aclamá-lacomo membro do seu Presidium, o maisalto degrau dahierarquia de uma organização comunista.A escolha unãnime deseu nome se dera na assembléiafinal do congresso.composta por jovens comunistas demais de cinqüentapaíses. O prêmio pela promoção virialogo em seguida:Olga fora escolhida pelo Comintern, entre centenas decandidatas, para fazer o curso de páraquedismo e pilotagem deaviões na Academia Zhukovski daForça Aérea, sediadaem Moscou. Sempre registrada como nome de OlgaSinek, ela foi incluída numa turma mistade alunos do 1.° ano.Discreta, nada revelou de si ou doseu passado. Nemmesmo para sua melhor amiga no curso, TamaraKojevnikova, uma georgiana quatro anos maismoça que ela e que atratava pelo carinhoso apelido deOlya - Olguinha, emrusso. Apenas o sotaque denunciava 46 sua origem alemã.Também ali, Olga encontraria jovensde vários países domundo, desta vez dedicando-se exclusivamente aotreinamento militar.Ao tomar chá com umgrupo deles, na cantina dosoficiais, ao finalde um treinamento simulado de voo, Olgaouviu um jovemlatino-americano - argentino ou boliviano - contar paraos colegas, em um russo hesitante, ahistória que lera noseu país sobre uma aventura revolucionária na Américado Sul. Era a história de um batalhãode mil e poucoshomens que percorrera a pé mais de 25mil quilômetros,enfrentando as tropas regulares de umgoverno"ditatorial". O relato, contado em detalhes pelooficial estrangeiro,mesclado de lances heróícos e batalhassangrentas,terminava com os guerrilheiros chegando aofim sem derrubar ogoverno, mas também sem sofrer umaúnica derrota. Ogrupo, chamado de "Coluna Prestes",levava este nome emhomenagem ao seu líder, o jovemcapitão Luís CarlosPrestes. Olga ouviu o relato entrecuríosa e desconfiada:- O camarada temcerteza de que eles andaram mesmo 25 milquilômetros a pé? Isso significa ir e voltár deMoscou a Berlimquase dez vezes... a pé!Como o pilotoinsistisse na veracidade do episódio,ocorrido no Brasil,afirmando que qualquer latino-americano em Moscoupoderia confirmá-la, Olga se conformou:- Já imaginou sepudéssemos estar lá, incorporadosa essa tal colunainvencível?O que Olga ouqualquer de seus colegas da academianão sabiam é que omitológico comandante da coluna invícta estava alimesmo, em Moscou, em seu apartamentoperto do bulevarSadova, a poucas quadras de distânciada escola militaronde tomavam chá.A família Prestes -a mãe viúva, dona Leocádia, e oscinco filhossolteiros, Luís Carlos, Clotilde, Heloísa, Lúciae Lígia - haviachegado a Moscou meses antes, em novembro de 1931. Ocapitão desembarcara no dia 7, duranteas comemorações do14." aniversário da tomada do poder47pelos bolcheviques.A mãe e as irmãs chegaram poucosdias depois: paradespistar a polícia, a família dividira-separa sair deMontevidéu - ele embarcara no navio Eubéee, dois dias depois,os outros no Monte Sanniento. Apesardo rosto liso, sem abarba e o bigode da época da Coluna,ele não conseguirapassar incógnito pelas duas escalasbrasileiras donavio, em Santos e no Rio. No primeiroporto, embarcaria ojornalista Oscar Pedroso Horta, queo reconheceu masmanteve sigilo sobre a descoberta.quando o MonteSarmiento escalou no Brasil, a políciainvadiu as cabinesde dona Leocádia e das filhas, alertada pelo sobrenomeamaldiçoado pelo governo. Não haviao que fazer: o Eubéezarpara antes, levando a bordo LuísCarlos Prestes, compassaporte que o identificava comoum pintor paraguaio.Na União Soviética,Prestes logo foi contratado comoengenheiro daTzentratnij Soiuzstrvy, a entidade responsável pelafiscalização de todas as obras de construçãocivil no país. Eficou revoltado, em seu trabalho de fiscalde obras, com o graude sabotagem de técnicos e engenheiros contra asobras do novo governo. A vida em Moscou eraparticularmente dura para a família. Prestes havia recusado asregalias oferecidas pelo governo soviéticoaos técnicosestrangeiros. tais como salário em dólares epermissão para fazercompras nas lojas privativas de estrangeiros.,Ele preferiu receberem rublos e víver comoos milhões derussos.Não era fácil. Oprimeiro plano qüinqüenal estavaem vigor desde 1928e para manter a estabilidade econômica quase tudo eraracionado. Um dos invernos que afamília passou emMoscou deu-lhes muito concretamentea medida dosproblemas que o país atravessava: Heloísa,uma das irmãs dePrestes, de pequena estatura e calçandosapatos número 33,suportou temperaturas de até 50 grausabaixo de zerousando botas de neve número 40 - o único que havia emestoque. Essas dificuldades, no entanto,fizeram donaLeocádia, criada em família rica, apaixonar-se por aquelepovo que ela chamava de "a verdadeirafortalezasoviéticá". Para ela, nenhum inimigo, por mais 48 poderoso que Fosse,conseguiria dominar um povo cujostrabalhadoreschegaram a receber, como ração diária dealimento, 200 gramasde pão preto - e apesar disso trabalhavam comentusiasmo. Inúmeras vezes ela viu, numacantina de fábricaperto de sua casa, operários trabalhando sob um frioglacial movidos a canecas de água quente,porque até o cháestava racionado.O filho Luis Carlos- ou apenas Carlos, como o tratavam -, por seulado, testemunhava os duríssimos processos de depuraçãodo Partido Comunista, montados emassembléiaspúblicas, dentro das próprias fábricas e centros de trabalho.Cada membro da direção local tinha queir ao palanque e alifazer sua autocrítica. Durante os expurgos, em que quaseum milhão de militantes foramexpulsos do PC,Prestes presenciou cenas terríveis em quemilitares de cabelosbrancos choravam na tribuna duranteas autocríticas. Eraa polítíca que levaría aos chamados"processos deMoscou", através dos quais seria eliminadaa velha guardabolchevique. Nas horas vagas, o capitãobrasileirocomparecia a reuniões do PC ou a conferênciasde dirigentescomunistas latino-americanos. Foi numdeses encontros nasede do Comintern que o dirigente Dmitri Manuilski e aveterana Elena Stasova, membro doComité Central do PCdesde o tempo de Lênin, falaram pelaprimeira vez aPrestes de uma jovem alemã chamada OlgaSinek, que fazía umadas mais vertiginosas carreiras dentro da juventudeComunista Internacional.Os momentos dedivertimento da familia Presteseram raríssimos,seja por falta de tempo, seja pelas dificuldades ímpostas atodos pelo racionamento. Contudo,no final de 1934, opróprio Manuilski mandou organizaruma festa noapartamento dos Prestes, a pretexto decomemorar a entradade Luís Carlos no Partido Comunistabrasileiro. Afiliação ocorrera no mês de agosto - o mesmo Partido que ocortejara e em seguída o rejeitara haviasido obrigado aaceitá-lo após receber um curto telegramade Moscou, assinadopelo secretário da III Internacional,Dmitri Manuilski,otdenando que assim fosse feito. Acomemoração, noentanto, aconteceria no dia 7 de novem 49 bro, aniversário daRevofução e dia em que se completavamtrês anos da chegadade Prestes a Moscou. O pequenoapartamento nasimediações do bulevar Sadova estavaapinhado de amigos,as quatro filhas de dona Leocádiaenfeitadas para afesta que contaria com a presença deninguém menos que opróprio secretário do Comíntern.A certa altura osconvidados se espantaram ao vê-lo, sim,ele, dirigentemundial dos comunistas, ensaiando passosde samba ao som deum disco que girava no gramofone.Na verdade, apenasele e Luís Carlos Prestes sabiam, ali,que a festa eramenos de comemoração e mais de despedida:três semanas depois,o anfitrião estaria partindo devolta ao Brasil.Quando os convidados começaram a seretirar, Manuilskipediu a dona Leocádia que fizesse umbrinde, e eladevolveu a gentileza:levantou o copo e dissepara todos ouvirem:- Eu desejo que meufilho Carlos se torne um bolchevique tãocompleto quanto o camarada Manuilski.Nem dona Leocádianem qualquer uma de suas filhasjamais ouvira falarem Olga Benario, Olga Sinek ou EvaKruger. Cinco diasapós a festa, no entanto, ela começariaa entrar para afamilia Prestes. Naquele verão de 1934,embora com apenas 26anos, ela era considerada por seussuperiores o quedona Leocádia desejara para o filho nobrinde - umabolchevique completa: falava fluentementequatro idiomas,conhecia a fundo a teoria marxista-leninista, atirava compontaria certeira, pilotava aviões, saltava de pára-quedas,cavalgava e já tinha dado provas indiscutíveis decoragem e determinação. Ainda assim, Olgase supreendeu quandoum mensageiro entregou-lhe umenvelope lacradocontendo um bilhete de Dmitri Manuilski convocando-a comurgência à sede do Comintern. Elaimaginou quefinalmente iriam destacá-la para dirigir aluta dos jovenscomunistas de Berlim contra os nazistasde Hitler, agora nopoder. Para melhor impressionar seussuperiores, Olgatirou o pó do uniforme que recebera naAcademia da ForçaAérea e foi ao encontro fardada.Ao chegar aoimponente prédio do Comintern, no número36 da rua Mokovaia,Olga foi levada imediatamente 50 à presença dosecretário. Caminhando de um lado parao outro e olhandolonge, como se se concentrasse maisna neve que caía nasvidraças do que no assunto queabordava, DmitriManuilski desfez, de pronto, sua fantasia de regressar àAlemanha. Ele falava da perspectivade uma revoluçãopopular, mas na Améríca Latina:- Um dos maiscorajosos comunistas que conhecemos insiste emretornar a seu país. Ele e seus companheirosde Partido nosconvenceram de que este é o momentode levar a revoluçãoao sopé do mundo. A direçãoda InternaciOnalComunista eSteve todo esse tempo reticente,mas finalmentedecidimos autorizar a sua volta.Ele andavavagarosamente pelo salão, como um professor dando umaaula minuciosa;- Aceitamos. masimpusemos uma condição: oComintern cuidariade sua segurança pessoal. Depois demuita discussão, ede analisarmos dezenas de nomes, concluimos que só umapessoa tem condições de fazê-lo chegar a seu país emabsoluta segurança: você. Queroque responda nestemomento. Pense bem e volte amanhã,à mesma hora. Porrazões de segurança, a única informação adicional quepodemos lhe transmitir neste momentoé esta: se aceitar,vocês partem dentro de poucoS días paraa Améríca Latina.Olga teve ímpetos dedizer ali, na hora, que estavapronta para partir.Mas era disciplinada: se Manuilski lhedava um dia, elaadiaria o sim por um dia. Ao voltar, natarde seguinte, elachegou com uma hora de antecedência. Esperou naante-sala e foi o próprio Manuilski quemapareceu paraencontrá-la. No gabinete, ele perguntousem rodeios:- Como é? A camaradaOlga Sinek já decidiu?- Sabia desde ontem,camarada: estou pronta parapartir.O secretário doComintern contou-lhe então o quea esperava. Antes dofim do mês ela partiria para o Brasil, euidando dasegurança do capitão Luís Carlos Prestes,que tentaria liderarem seu país uma insurreição popular, A história queouvira sobre a coluna invencível voltou 51 à sua memória.Quando Dmitri Manuilski mandou quetrouxessem até eleso "Cavaleiro da Esperança". Olga,embora impassível,decepcionou-se um pouco. Pelo queouvira, esperava verum gigante latino. Ela emocionou-seao cumprirnentar, emfrancês, o revolucionário brasileiro,achou-o um poucofranzino para alguém que camandara um exército por25 mil quilômetros. 4. Lua-de-mel em NovaYork Quando Luís CarlosPrestes deixou o apartamento nanoite de 29 dedezembro de 1934, sua irmã caçula, Lígia,acompanhouo até aporta do prédio. Prestes abraçou-ae pediu-lhe quetomasse conta da mãe. Ao retornar à casa,Lígia notou que donaLeocádia tinha um ar de extremaaflição e quis sabero motivo. A mãe foi seca:- Sinto que nuncamais verei meu filho.A meia-noite, oespanhol Pedro Fernández e a estudante russa Olga Sinek - as novas identidadesde Prestese Olga - ocuparam acabine de um trem que partiu paraLeningrado, ondechegaram às oito horas da manhã dodia seguinte. Alimesmo na estação ferroviária compraramoutro bilhete, e àmeia-noite, depois de passearemo dia todo pelacidade, pegaram o trem que os deixariano dia 31 emHelsinque, capital da Finlândia. Aquele nãoera, por certo, ocaminho mais curto para a capital francesa - mas eraindiscutivelmente o mais seguro. Paradois clandestinos,atravessar a Polõnia, a Tchecoslováquia e a Alemanhaera pedir à polícia que os prendesse.Um risco demasiadogrande, sobretudo para Olga, cujasfotos estavamespalhadas por todos os postos de fronteirade seu país.De Helsinque, ocasal embarcou para Estocolmo, naSuécia, e àmeia-noite do dia 31 os dois estavam junto ao 54 portaló do navio,sobre as águas geladas do mar Báltico,brindando o Ano Novoque chegava. Prestes ergueu a taçade ponche e brindou:- Que 1935 seja oano darevolução no brasil!Embora o destínodeles fosse Paris, Olga preocupava-se com a máqualidade dos passaportes com que viajavam e decidíu quepassariam alguns dias em Amsterdã,na Holanda, onde umcontato poderia obter-lhes documentação maissegura. Assím, atravessaram o Sul daSuécia de trem,chegaram a Copenhague e daí seguiramde barco até o portode Birmingham, na costa orientalda Inglaterra, ondefizeram uma rápida baldeação, tomando um segundo barcoque os deixara novamente do outro lado do mar doNorte, em Amsterdã. Olga e Prestespassaram trêssemanas na capítal holandesa esperando otal contato - e quenunca chegava. Ela começou a temeros riscos que apresença deles ali, por tanto tempo, poderiamacarretar, E decidiuque partiriam assim mesmo, comos passaportesfalsificados de forma grosseira, comdestino a Bruxelas,na Bélgica.As primeiras semanasde viagem permitiram que osdois se conhecessemmelhor. Para Prestes foi uma surpresa notar queaquela jovem que Manuilski e Elenapintavam como umacomunista rígida e disciplinadadedicasse suas horasde descanso, a bordo de barcos oude trens, ou ànoite, nos hotéis, tecendo delicadas peçasde crochê.Conversando sempre em francês - idioma emque ele devorara naEscola os compêndios de engenharia, e osdocumentos que Astrojildo lhe presentearana Bolívia - os doispassavam horas intermináveisrememorando asaventuras que cada um tinha vivido atéali. Apaixonada porestratégia militar, Olga era capaz deficar horasdiscutindo com Prestes cada operação daColuna invicta, cadaemboscada, cada movimento da tropa. Ele riscava mapas, rios e bivaques emguardanapos depapel devagões-restaurantes, nas costas de folhetos deturismo. Ela não se conformava com o desfecho daaventura brasileira:por que não tentaram tomar o 55 poder? Por que nãomarcharam sobre o Rio de Janeiro,quando vinham doPiauí?Depois era ele oouvinte atento. Olga falava das brigas com os pais, aentrada no Grupo Schwabing de Munique, a saída decasa, as passeatas em Berlim. a repressãopolicial, asbatalhas contra os nazistas. E, com detahes, a ousadaoperação para libertar Otto Braun da prisãode Moabit, aclandestinidade, a fuga para Moscou, a ascensão vertiginosadentro da Juventude Comunista Internacional, os cursosmilitares. Prestes muitas vezes interrompiaum relato de Olga paraconfessar-lhe, tímido, quejamais conheceraalguém tão semelhante a sua própriamãe:- Muitas de suasqualidades, de suas características - dizia ele -são idênticas às de minha mãe. Não setrata de semelhançafísica, mas a forma de pensar, amaneira ou o jeitode dizer alguma coisa são muito parecicdoscom os dela. Isso écurioso, já que você vem de umasociedadecompletamente distinta da de minha mãe, quenasceu e viveusempre no Brasil.Se Olga soubesse daverdadeira paixão que Prestesdevotava a donaLeocádia, traduziria aquelas palavrascomo umainconsciente ou mal disfarçada declaração deamor.A crise generalizadaque a Europa atravessavanaquela época faziacom que as viagens longas fossem umhábito pouco comum.O movimento de turistas era insignificante e não raroos passageiros eram vistos comoespiões nazistas doComintern. E foi o medo de seremdescobertos e presosque levou Olga a querer sairtambém de Bruxelas,uma cidade relativamente pequena ondeestariam muitoexpostos. Como a logística da viagem estava a seu cargo, foiela quem resolveu que tomariam umtrem até Paris, aúltima escala planejada do período europeu. A partir dessacidade utilizariam a fachada criadapelo Comintern paraque chegassem incólumes ao Brasil:Prestes e Olgaviajariam como um jovem e rico casal emlua-de-mel e,portanto, deviam se comportar como tal.Como primeira medidanesse sentido, escolheram um 56 hotel luxuoso, oGrand Hotel do Louvre, uma majestosaconstrução de seisandares do fim do século passado, comas janelas inspiradasem pórticos romanos, plantada napraça do PalaisRoyal, em frente ao teatro da ComédieFrançaise, nocoração de Paris.O contato que Olgaperdera em Amsterdã e Bruxelasapareceu finalmenteem Paris, e por orientação dele osdois viajaram detrem até Rouen, no Norte da França.Lá procuraram IsraelAbrahão Anahory, cônsul de Portugal, que não era ummilitante comunista, mas tinha idéiasconsideradasprogressistas e tivera, no passado, ligaçõescom gruposanarquistas de Lisboa. O fato de ser umrepresentantediplomático do governo direitista de AntônioOliveira Salazar,que tomara o poder três anos antes emPortugal, afastavaqualquer suspeita sobre suas atividades clandestinas naFrança. No dia 8 de março, Olga ePrestes mudaram maisuma vez de nome e receberam opassaporte portuguêscom que viajariam o resto do tempo. A partir daquelemomento ele passava a ser AntônioVilar, lisboeta de40 anos, comerciante, filho de José Vilare Angela GlóriaVilar. Ela seria Maria Bergner Vilar, suamulher. O documentoera válido por um ano, desde queutilizado emqualquer país da América do Sul, e mais umano para eventualretorno à França. Um ano e meiodepois, a descobertado solidário delito cometido pelocônsul Anahory lhecustaria a carreira diplomática ealguns meses decadeia em Lisboa.Para tornarconsistente a fachada de recém-casados,era necessárioacrescentar novos detalhes ao cenário, epara isto Paris eraa cidade ideal. O comerciante AntônioVilar era um homemrico e saía da França em lua-de-melcom sua esposaMaria. Como gente rica veste-se ricamente, Prestes e Olgagastaram mais alguns dias percorrendoafamados costureirosparisienses para montar um guarda-roupa à alturados personagens que representavam.Prestes aacompanhava às elegantes casas da alta modae, para dar maisrealismo à farsa, fazia o tipo ciumento.Dava palpites naescolha dos vestidos, reclamava dos decotes e docomprimento das saias. Ele próprio teve que 57 travestir-seigualmente de homem de posses, e encheu algumas malas deternos bem cortados. chapéus de feltroe trajes a rigorpara as festas que tivessem que enfrentarno caminho. Para queo êxito da missão fosse assegurado,dinheiro não foiproblema para eles.Embora o passaporteobtido em Rouen fosse perfeito, Olga resolveuaperfeiçoar ainda mais sua aparência delegalidade. Econcluiu que não haveria melhor forma defazê-lo do que tercarimbado nele um visto de entrada esaída nos EstadosUnidos. O consulado norte-americano em Parisconcedeu sem problemas um visto de trânsito nos EUA, semlimitação de prazo de permanência,já que o destinofinal da viagem de lua-de-mel era Lima,no Peru. Prestessaboreou o preenchimento da ficha desolicitação dovisto, onde fora obrigado a dizer que nãoera comunista - umaesdrúxula exigência da lei americana. E deliciou-secom a advertência final: "Qualquerresposta falsa aalguma das perguntas acima constituicrime e sujeita orequerente às penas da lei". Naquele formulário não haviauma só informação verdadeira, a começarpelo nome dosrequerentes.A cobertura seriareforçada com dois documentos falsos,fornecidos pelocontato francês de Olga. O primeiroera uma cartadatilografada em papel timbrado de umaimaginária"Compagnie Générale d"Electricité Ateliersd"Orléans".No ofício dirigido a "monsieur Antônio Vilar" - eentregue na portaria do Grand Hotel do Louvre-, o administradorda empresa acertava a entrega a Vilarda representação deseus produtos na América do Sul,"confirmandoentendimentos havidos anteriormente". Asegundacarta-fantasma era da "Martiw Zellermayer BcCie.", deViena, concedendo a Antônio Vilar autorizaçãopara vender osmotores de sua fabricação na América doSul. As cartas, alémde confirmar a fachada segundo aqual Prestes eraAntônio Vilar, serviriam para a eventualidade de explicar aorigem da pequena fortuna em dinheiro que o casallevava consigo.Na terceira semanade março Olga e Prestes estavamprontos para partir.Alugaram uma luxuosa suíte na 58 primeira classe donavio de passageiros Ville de Paris e embarcaram em Brest,um pouco abaixo do porto do Havre.Na primeira noiteque passaram a bordo, o comandanteenviou ao camarotedos Vilar uma corbele de flores eum delicado cartãoconvidando-os para uma ceia em suacabine. Prestes foipara o jantar desconfiado de que ocapitão do naviofosse agente secreto do governo francês,e passou algunsapertos durante o encontro: o homemhavía morado emLisboa e conhecia muito bem a capítalportuguesa. Toda vezque ele tentava conversar sobre Lisboa, Olga tinha queentrar no meío e despístá-lo com alguma desculpa. Porsorte, o comandante estava muito maisinteressado emconversar com a bela "Maríá " do que como marido português.A fachada obrigavaOlga e Prestes a intimidades imprevistas. Um casalem lua-de-mel não apenas dorme nomesmo quarto, mas namesma cama. Além disso, aproximava-os a afinidadeintelectual e política, cada vez maiorentre os dois, alémdo fato de serem jovens, bonitos e entusiasmados com aperspectiva de estarem às portas darevolução. Para umhomem de 37 anos, Prestes viveraprecocemente todasorte de experiências políticas: liderarauma rebeliãomilitar, conspirara contra governos, forapreso e exilado,convivera com os mais importantes dirigentes comunistas naUnião Soviética. Mas o rigor, a disciplina e adedicação à causa tinham cobrado dele umpreço alto: atéentão, Luís Carlos Prestes nunca tinhaestado com umamulher. A orfandade prematura levou-o,aos dez anos de idade,a tornar-se o chefe da família. Opouco tempo que lhesobrava da Escola Militar era dedicado aos estudos. Amãe não permitira que ele trabalhasse: preferia elafazê-lo, com a condição de que o fiiho seentregasse aoslivros e fosse o primeiro aluno da classe.A vida da famíliasuburbana do Rio de Janeiro era tãodifícil que ele teveque obter permissão especial para andar fardado fora daEscola Milítar: Prestes não tinha trajes paisanos paravestir. Durante a Coluna ele se sentirana obrígação, enquantocomandante, de dar o exemplode disciplina. E, aocontrário de muitos de seus comandados, 59 não se envolveu comas mulheres que acompanharama marcha. A políticae a preocupação com a educação dasquatro irmãstinham-lhe roubado todo o tempo. E se Presteschegara aos 37 anossem ter tido uma namorada, umapaixão, uma mulher,não poderia haver circunstância maispropícia paracomeçar: estava em alto mar, num camarote luxuoso,acompanhado de uma belíssima mulher,comunista erevolucionária como ele. Quando o Ville deParis atracou noporto de Nova York, na manhã de 26 demarço de 1935, o queaté então era uma ficção montadapela InternacionalComunista, tinha virado realidade:como seuspersonagens Antonio Vilar e Maria Bergner, Prestese Olga eram marido emulher.Apaixonados, os doispassaram a lua-de-mel real emNova York. Foram aconcertos, assistiram a filmes e aproveitaram o fim doinverno em intermináveis caminhadaspelo Central Park.Como o objetivo da viagem aos Estados Unidos era sóobter os carimbos no passaporte, otempo estavapraticamente livre para o namoro. O contato parisiensehavia feito uma única recomendação: quedespachassem abagagem pesada dos Estados Unidos paraum tal Américo DiasLeite, no Rio de Janeiro. Leite eraum simpatizante doPartido Comunista que certa vez, depassagem pelaFrança, escrevera a Prestes em Moscou,pedindu suainterferência para conseguir um visto de entrada na UniãoSoviética. Na mesma agência em que fizerama remessa das malas,a multinacional Wagon LitsCook, Prestes e Olgaaproveitaram para comprar o restantedas passagens -sempre na primeira classe. Cincudias após a chegadaos dois deixaram o elegante hotelEnnsvlvania, emfrente ao Madison Square Garden, naSctitna Avenida. Aoafivelar as malas, Prestes recolheucuidadosamente dacômoda da suíte um maço de papéis decartas com o nome dohotel e o colocou, Protegido poruma pasta decartolina, no tundo de sua malinha de mão.Horas depois o casalestava em um trem, a caminho deMiami, de ondeiniciariam a viagem ao Brasil, passandopor Santiago doChile e Buenos Aires, agora por via aérea.Na época, o vôo deMiami até Santiago do Chile erademorado ecansativo. Como os aviões de passageiros nãovoavam à noite, oquadrimotor Sikorsky da Pan American em que viajaramfez escalas - e obrigou os passageirosa pernoitar - emHavana (Cuba), Kingston (Jamaica), Colón (Panamá), Guaiaquil (Equador) eLima (Peru).Por não possuíremvisto de entrada para o Chile, precisaram ofereceralguns dólares aos funcionários do consulado chileno, paraque o visto saísse antes dadecolagem do avião.O vôo terminou no dia 5 de abril nacapital chilena,onde permaneceram apenas o tempo suficiente para compraruma passagem aérea para a Argentina- Desta vez oavião da Panagra Airways era umpequeno Triford, compouca autonomia de vôo, o que osobrigou a fazerescalas em Mendoza e Córdoba antes dechegarem a BuenosAires.A permanência nacapital argentina seria mais demoradae envolvia cuidadosespeciais, pois ali seria obtidoo visto para aentrada no Brasil. Por meio de contatos,Prestes acertara como vice-cônsul brasileiro, ManuelParanhos, seu amigode infância, uma fórmula para entrarno país semproblemas. Comunicou-se com a embaixadabrasileira logo quese instalou e soube, para sua sorte,que Paranhos estavaocupando interinamente o posto decônsul-geral, o quelhe dava maior mobilidade. Mas ummalentendido quasefrustrou os planos. Temendo serreconhecido, Prestesavisou ao diplomata que uma jovem"alta e decabelos escuros" iria encontrá-lo num dos cafésdo centro da cidade,levando os passaportes para seremvisados. Ao ouvir"cabelos escuros", Paranhos entendeuque Olga era morena.E não havia nenhuma morena nocafé, na horacombinada. Como Olga era a única mulherdesacompanhada nolugar, àquela hora, o cônsul arriscoue decidiu abordá-la.Se, depois, precisasse de alguma justificativa para ofato de ter concedido os vistos ao "casaldeportugueses", Paranhos poderia usar a que recebeu dasmãos de Olga: umacarta escríta por um díplomata português deNova York,apresentando os Vilar e pedindo aconcessão dosvístos. Era mais uma carta falsa, cuidadosamentedatilografada no papel subtraído por Prestes aohotel Pennsylvania.Resolvido o problemados vistos, restava saber qualo meio mais segurode cruzar a fronteira. Eles resolveramseguir atéMonievidéu para discutir a questão com oscontatos doComintern no Uruguai - e decidiu-se pela viaaérea. Naquela épocaapenas uma empresa de aviação fazia linha para oBrasil. Era a francesa Latécoere, antecessorada Air France, querealizava um vôo mensal pelo trajeto Santiago-BuenosAires-Montevidéu-São Paulo-NatalDacar-Casablanca-Paris. Embora fosse uma linhaexclusivamente postal,quando as aeronaves não estavam à plenacarga a Latécoerevendia passagens para os dois únicosassentos existentes.Prestes e Olga tiveram sorte: em poucos dias sairia umavião e os lugares ainda estavam disponíveis. Como o vôodo mês de maio tinha sido suspenso,se perdessem aquelesó teriam outra chance dali a doismeses, em meados dejunho.Por se tratar de umcorreio aéreo, a Latécoere tinhaautorização para queseus aparelhos voassem à noite. Assim, na madrugada de15 de abril os dois embarcaram noSantos Dumont, umhidroavião de quatro motores, parauma viagem quedeveria dorar cerca de seis horas até ohangar da PraiaGrande, no litoral do Estado de São Paulo. Quando o diaamanheceu o avião voava baixinho, margeando o litoral nolimite do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. OSantos Dumont não possuía janelas, maspequenas escotilhas,e foi através delas que Olga teve seuprimeiroalumbramento com o Brasil. Habituada à Europa, ela nuncaimaginara tal luminosidade - um sol fortíssimo batia sobreo verde escuro da mata e o azul domar, divididos pelorisco branco e interminável da areiada praia. No meio damanhã o navegador Comandante foi até osdois para informarque o avião faria um rápido e imprevistopouso numa das praiasde Florianópolis e que decolarianovamente em poucosminutos. Olga, que já tinhafeito amizade edistribuído lembranças de Nova York entre os cinco membrosda tripulação, cochichou comPrestes: 60 - Essa escala seráprovidencial. Se algum serviço deinteligência tiverconhecimento da nossa rota, os policiaisestarão à espera naPraia Grande. Vamos tentar descerem Florianópolis.E dirigiu-se aocomandante Givon para dizer-lhe queo objetivo da viagemdo casal era visitar parentes delaque haviam emigradopara o Norte do Paraná. Como eleslevassem apenasbagagem de mão, gostariam de descerdurante a parada doavião em Santa Catarina. o que lhespouparia váriashoras de viagem. O piloto francês não fezqualquer objeção.Não havia ninguém nohangar marítimo onde o hidroavião atracou. Nenhuma fiscalização de malas ou dedocumentos - e bastouque Olga exibisse alguns dólarespara que logoaparecesse um carro para levá-los até o centro da capitalcatarinense. Dormiram em Florianópolis eno día seguinte tomaramum táxi até Curitíba. Mais umpernoite ali e demanhã contratavam outro táxi para leválos a São Paulo. No meio do caminho,quando o carroatravessava a cidadede Itapetininga, no interior do Estado de São Paulo,Prestes desentendeu-se com o motorista.Desde a saída deCuritiba ele vinha reclamando que a viagem estava muitodemorada e que o homem era um péssimo motorista. Olgaachou mais prudente tomarem outrocarro, mas porimprevidência Prestes esquecera de trocardólares porcruzeiros - era um sábado e os bancos estavam fechados. Asolução foi pedir ao motorista contratado em Itapetiningaque pagasse a corrida do outro, equando chegassem aSão Paulo acertariam tudo com ele.Já era de noitinhaquando entraram na capital paulísta.Olga ficouimpressionada com a altura de um arranhacéu que podia ser visto a quilômetrosde distância, logoapós a saída daestrada, o edifício Martinelli. Com a noitefechada, AntônioVilar e Maria Bergner Vilar se hospedaram numconfortável hotel do largo do Arouche.A poucas quadrasdali, boêmios experimentavam aengenhoca queacabava de ser instalada no Café Paracoar café, uma máquina tão extravagantequanto o seu dono, 63Celestino Paraventi.Para substituir a velha cafeteira dourada,Paraventi importarada Itália e apresentava pelaprimeira vez aosbrasileiros uma máquina de coar café avapor. A partir deentão, os poetas, as atrizes e os comunistasque freqüentavam asmesinhas de mármore da calçada da rua XV deNovembro não pediam mais um cafezinho ao garçom.Levantavam o indicador e diziam apenas:"Umexpresso!", que passavam horas bebericandoenquanto apreciavamo movimento.O excêntricomilionário Celestino Paraventi, de 35anos, era ainda maisespecial que a fauna que freqüentavao café. Além doestabelecimento, herdara do pai dezenasde imóveisespalhados pela cidade e uma indústria de torrefação de café ondecomeçara a produzir mais uma modernidade européia:café enlatado a vácuo, que doravameses sem estragar.Paraventí era o porto seguro a quemrecorriam osintelectuais pobres, os atores desempregados e os boêmios emgeral quando em apuros financeiros,o que lhe valeu oapelido de "Salvador". Não havia umpanfleto, pasquim oujornal de oposição que não estampasseum anúncio do CaféParaventi. Enquanto dorou,por exemplo, ojornal anarquista O Homem do Povo, editado por Oswald deAndrade e Patrícia Galvão, o anúnciodo café esteve lá.Mas ele era particularmente generosoquando se tratava deajudar os comunistas. Alugava casas para ainstalação de gráficas clandestinas, dava gordacontribuição mensalpara os cofres do Partido e sustentava famílias demilitantes presos. Quando lhe perguntavam se mantinhaalguma relação orgânica com o PC, elerespondia com umagargalhada:- Eu não tenholigação com o Partido. O Partido éque tem ligaçãocomigo!Sua fascinação pelafigura de Luís Carlos Prestes nascera durante aColuna. De São Paulo, pela imprensa ouatravés de panfletosclandestinos, ele acompanhava cadamovimento da tropa,cada vitória sobre as forças do governo. Quando aColuna se internou nas matas da Bolívia, Paraventi ficoudecepcionado. E quase levou a família 64 a interná-lo numhospício quando mandou avaliar a aindústria, atorrefação e a enlatadora - e anunciou queenviaria o dinheiroapurado na venda de seu patrimôniopara Prestes,exilado em Buenos Aires, "para que ele possa montar a Colunade novo e tomar o governo". Mandoucomunicar suadecisão ao capitão, na Argentina, e daí aalgumas semanas oportador voltava com a resposta:Prestes agradeciamas não o aconselhava a fazer aquilo.Se quisesse ajudar,poderia mandar latas de café paraBuenos Aires queele, o tenente Siqueira Campos e Orlando Leite Ribeiro,ex-membros da Coluna, se encarregariamde vendê-las ereexportá-las de lá. O lucro obtidona operação seriasuficiente para sustentá-los no exílio.Embora nunca tivesseestado com Prestes, Paraventicostumava dizer queo comunismo do capitão tinha "muitacoisa decrístianismo"-- Um sujeito como oPrestes, com essa vocação, umhomem que larga tudopara acabar com a oligarquia, paraacabar com essesindivíduos que querem tudo para sie nada para osoutros, deve ter alguma coisa de cristão.Ele pode até nãosaber disso, mas tem.Paraventi acabava devoltar de uma de suas excentricidades naquelesábado à noite -cantar canções ítalíanasno programa"Chá no Ar", de Nicolau Tuma, da RádíoDifusora - quandoOlga Benario surgiu à sua frente noCafé. Ele foraavisado por dirigentes do Partidoconista que talvezrecebesse "gente muito importante" naspróximas semanas,mas não percebeu o que aconteciaquando aquela belamulher, vestida com elegância e falando um portuguêscom sotaque carregado, procurou-oem uma das mesas.Olga levava na bolsa um minúsculobilhete de Prestesdizendo que estava em São Paulo e quea portadora saberiaindicar o hotel em que se encontrava.Paraventi recolheu ocasal e sua bagagem no largo doArouche e minutosdepois íam os três, a bordo de umluxuoso automóvelLincoln do ano, para a casa de campoque possuía no entãodistante bairro de Santo Amaro, àsmargens da represaGuarapiranga. No dia seguinte, Antônio 65 Maciel Bonfim, oMiranda, secretário-geral do PartidoComunista, recebiano Rio de Janeiro um emissário deSão Paulo com anotícia de que Luís Carlos Presteschegara ao Brasil.5.Do mundo inteiro,rumo ao Rio Vários anúnciosfalsos de que Luís Carlos Prestesestaria retornandoao país, publicados por jornais deesquerda e dedireita, no final de 1934 e nos primeiros diasde 1935, haviamdeixado a polícia brasileira excitada evigilante. O rastroda Coluna Prestes ainda estava vivona paisagem políticado país e havia uma espécie deveneração nacionalpela figura do "Cavaleiro da Esperançá ",obrigando GetúlioVargas a exigir da polícia política redobrada e rigorosaprecaução.Não eram apenas osórgãos de segurança que aguardavam com ansiedadea volta de Prestes. Desde que a viagem de Olga foidecidida em Moscou, um pequenoe seleto grupo deestrangeiros iniciava em várias partesdo mundo viagens tãodiscretas e sinuosas como a docaal Vilar, todoscom o mesmo destino: Rio de Janeiro.Brasil. Algunsvinham acompanhados de suas mulheres.nem todos viajavamcom seus verdadeiros nomes e os que não se conheciamjá tinham pelo menosouvido falar uns dos outros.Uma identidade comumos unia: eram todoscumuuistas, todosrevolucionários, profissionais a serviçodo Comintern evinham todoo ao Brasil fazer arevolução. De Xangai, na Chinaapós uma rápida passagem porMoscou, partiram osalemães Arthur Ernst Ewcrl e Ewert e suamulher, Elise,assessores políticos, que viajavam com documentação 68 norte-americana emnome de Harry Berger eMachla Lenczycki. DeBuenos Aires, via Montevidéu, veeramRodolfo Ghioldi esua mulher, Carmen, assessorespolíticos, ele sob onome de Luciano Busteros, ela mantendo sua identidadeoriginal. Dos Estados Unidos e comdocumentaçãoautêntica chegara o jovem Victor AllenBarron,radiotelegrafista e técnico em radiocomunicações. Também comdocumentação genuína veio da Europa o casal belgaAlphonsine e Léon-Jules Vallée, responsáveis pelasfinanças e assessores políticos. Da Alemanhaviriam osmisteriosos Franz Paul Gruber e Erika, suamulher, eleespecialista em explosivos e sabotagem, eladatilógrafa emotorista. Quando Prestes e Olga puseramos pés no Brasil.estavam todos vivendo desde o começodo ano no Rio deJaneiro, integrados à vida da cidade emorando em casas ouapartamentos alugados na elegantezona sul carioca.Pelo menos um dosmembros da equipe - por sinal,o mais graduado eexperiente de todos - Olga conheciabem. Uma das poucasmulheres inscritas no curso de política da DivisãoInternacional da Universidade dos Povos,em Moscou, duranteseis semanas ela teve como instrutorum corpulento e bemhumorado patrício seu, cujas fotosjá vira publicadastanto no Estrela Vermelha quanto naímprensa de Berlím.Era AMhur Ewert, que viria a setransformar num dosmais respeitados quadros políticosinternacionais doComintern.Foi antes daPrimeira Guerra Mundial que Ewert, então um jovem devinte anos, nascido em Heinrichswalde,na Prússia Oriental,mudou-se para os Estados Unidoscom sua namorada, atambém alemã Elise Saborowski.E não por acasoescolheu Detroit para viver - como ogrande pólo operáriocriado pela industrialização, a cidade transformara-senum centro de agitação política. Ewerttrabalhava durantemeio ano como operário da indústriado couro, ajuntandodinheiro. Ao final do semestrepedia demissão e dedicavaos seis meses seguintes a passar 69 metade do diaenterrado em bibliotecas públicas e a outrametade fazendoagitação polítíca nos sindicatos.Em 1917 o casalmudou-se para Toronto, no Canadá,mas seu nome sóapareceria em público pela primeira vezdois anos depois,quando a polícia, tentando impedir aorganização doPartido Comunista, invadiu um "aparelhosubversivo"onde viviam Arthur Brown e Annie Bancourt,prendendo osocupantes do apartamento e recolhendo armas e literaturamarxista. Brown e Annie eram, na verdade, os codinomesde Ewert e Elise, que ele chamavacarinhosamente deSabo, diminutivo de seu sobrenome.Depois de passaralguns meses numa prisão para "estrangeiros em situaçãoirregular", os dois foram deportadosao país de origem,os Estados Unidos. Ewert voltou afreqüentar oscomunístas e anarquístas de Detroít; anosdepois estava devolta a Berlim, onde se filiou ao PartidoComunista alemão.Sua experiência internacional, somada ao conhecimentoadquirido nas bibliotecas norte-americanas,logo o elevaria àdireção do PC alemão, de cujosecretariado ele jáfazia parte desde 1923. De Moscou osdirigentessoviéticos acompanhavam a carreira do jovem,que em seguida foiconvidado a viver na capital soviética,trabalhandodiretamente com a direção do Comintern.Ewert, que nessaépoca estava casado Legalmente comElise, passou quatroanos como instrutor graduado dosdiversos centros de"formação de quadros" - tanto os doPC da URSS como osque vinham de várias partes domundo.Sua estrela soberapidamente. Em setembro de 1927o todo-poderosoJoseph Stálin confia a Ewert poderes ilimitados paraintervir no V Congresso do Partido Comunistanorte-americano, reunido em Nova York, em favorda escolha de JayLovestone para a direção do PC dosEstados Unidos,contra os grupos de Earl Browder e William Foster. Ewert chega a Nova York nocomeço deagosto. Noencerramento do congresso, em 8 de setembro,a vontade de Stálinhavia sido cumprida. A dura intervenção de ArthurEwert causaria alguns arranhões à suaimagem pública. Ojornal The Militant, editado por uma 70 facção trotsquístade oposição ao PC norte-amerícano,publica uma notaacusando Ewert de ter sido enviado porMoscou para"roubar e dividir a convenção do Partidocom o objetivo de ajudara grupo de Lovestone". Paraele, no entanto, aopiníão de um jornaleco esquerdistatinha poucosignificado. O que importava era a opinião deStálin, e esta tinhasido tão efusiva com o sucesso de suamissão em Nova Yorkque, ao retornar à URSS, Ewerttorna-se membro doComitê Executivo da III Internacional. Em seguída éeleíto deputado pelo Partído Comunísta alemão aoReichstag, o Parlamento de seu país.O brilho de suaestrela, no entanto, começaria a serempanado em poucotempo. Uma profunda divergênciasobre a concepção datática a ser seguida pelos comunistas tomaria conta doComintern e acabaria por envolvê-lo.Ewert chegou ao VICongresso da Internacional Comunista, em Moscou, noverão de 1928, sob a acusação de"conciliador".O pecado atribuído a ele: opor-se, juntamente com seu amigoGerhardt Eisler, outro atívo mílitante comunistainternacional, à linha defendida porErnst Tháelmanndentro do PC alemão, pela qual o principal inimigo a sercombatido pelos comunistas era oPartído Social-Democrata.Stálin à frente, o VI Congressoda InternacionalComunista reitera e reforça a tese docerco aossociais-democratas, rebatizados de "sociais-fascistas". Osvolumosos anais do congresso registraríamuma única, solitáriavoz discordante. Sozinho na sua posição, embora muitosdos dirígentes alí presentes concordassemsilenciosamente, Arthur Ewert insistía em que oPC alemão teria,sim, que romper ideologicamente com aSocial Democracia,mas sempre mantendo com ela a unidade tática. Eleentendia que o PC alemão e a Social Democracia eram duaspotências que deviam manter algumaforma de aliançatática. Acusado de persistir em umdesvio para o qualjá havia arrastado mais da metadeda direção do PCalemão, Ewert começa a cair emdesgraça. Junto comele vão seu amígo Gerhardt Eisler e atémesmo um dos grandesda Revolução de Outubro, NikolaiBukhárin, dirigentemáximo do Comintern.71 Responsabilizado porStálin por não ter imposto a tempo a disciplina partidária aos"conciliadores", Bukhárin é expulsoprimeiro doComintern e depois do Birô Político do PCsoviético.A vitória eleitoralde Hitler em 1933, comprovariaque, na verdade, arazão estava com Ewert e que a divisãoentre comunistas esociais-democratas facilitava o caminho dos nazistas.Mas isso só aconteceria quatro anosdepois. O ostracismode Ewert seria decretado em 1929num discurso deStálin, ameaçadoramente intitulado "Sobreo desvio direitistano Partido Comunista (Bolchevique) da URSS", pronunciado ante o pleno doPartido.Ewert é premiado comcitações nominais de Stálin, queo chama de"conciliador que agia à revelia do ComitêCentral da IIIInternacional". A punição pelos graves delitos viria emseguida, através do seu afastamento tantodo Comintern como doPC alemão.Ewert passa um anoafogado na mais absoluta obscuridade, até que emfevereiro de 1930 o Imprecorr boletim que divulgava internacionalmente asatividades doComintern, publica aíntegra de sua autocrítica. Aspessoas que oconheceram sabiam que não havia sinceridadenaquelereconhecimento de "culpa" política. Habituado aviver dentro damáquina partidária, Ewert se sentia órfãoe desamparadopoliticamente fora dela. Como o preço davolta era aautocrítica, ele a fazia.Como primeira tarefaapós a reabilitação, Ewert foiencarregado peloComintern, em 1931, de viajar até Montevidéu, no Uruguai,onde uma legação comercial daUnião Soviética, oYuamiorg, funcionava como fachadapara as operaçõeslatino-americanas da InternacionalComunista. Seutrabalho era avaliar as informações enviadas por AugustoGuralsky, o Rústico, sobre o capitão brasileiro Luís CarlosPrestes, cujo nome havia sido indicadopara viajar à URSS.De volta a Moscou, o informe deEwert é ainda maisanimador do que o de Guralsky. Prestesera um grande quadropolítico que se aproximava domarxismo e a IC nãodeveria perder a oportunidade detê-lo mais perto desi. 72 Logo em seguidaEwert sería mandado, agora emcompanhia de Elise,para uma longa temporada na mecados agentesinternacionais, comunistas e capitalistas:Xangai, na China,onde estava instalada a direção do clandestino PartidoComunista chinês, que controlava algumas regiões"Liberadas" no ínterior do país.Dezenas de milharesde russos brancos que emigraramapós o triunfo darevolução em seu país davam aoimportante portochinês uma aparência ainda maismetropolitana, ümenclave internacional instalado dentro dacidade. governado epoliciado por forças francesas, norte-americanas,japonesas e chinesas fazia de Xangai umamistura de cidade doExtremo Oriente com um paíseuropeu ocidental-Traficantes e prostitutas de luxo das maisdiversasnacionalidades, espiões que trabalhavam para todas as potências (àsvezes para mais de uma ao mesmotempo), exilados,conspiradores e correspondentes degrandes agências denotícias davam à cidade um ritmo eum colorido únicosem toda Asia.Arthur Eweri e Elisechegam a Xangaí para uma tarefaque exigiria, comoem Nova York, habilidade políticae mão de ferro:tratava-se de controlar a reação do PCchinês ao pacto queStálin buscava assinar com ChiangKai-chek, chefe doKuomintang - o partido no poder naChina e que combatiaferozmente os comunistas de MaoTsé-tung. Parte dobrilho e da eficiência com que realizoua missão o próprioEwert atribuiria a um alemão conhecidopelo codinome chinêsde Li Teh, que se encontravaem território chinêshá quinze meses, também como enviado do Comintern:Otto Braun, o ex-namorado de OlgaBenario. Logo apósterminar seu romance com Olga, Ottofora enviado pelaInternacional Comunista à efervescenteChina. Lá deveriainicialmente estabelecer contato comoutro agente quemais tarde ganharia notoriedade mundial como chefe darede de espionagem soviética no Japão, kichard Sorne,e ligar-se à direção do PC chinês. Sobo nome de Hua Fu,Otto assinava artigos politicos nojornal comunistaRevolution and War, e sob o pseudõnimo de Li Teh atuavacomo conselheiro militar do Comitê 73 Central do PC. EmJuichin, capital da região "sovietizada" de Kiangsi,Li Teh prestava assessoria militar a MaoTsé-tung e a Chu Tehna preparação da Longa Marcha.No congresso do PCem T"sunyi, que sancionou a liderançade Mao, a cadeiradestinada ao marechal Joseph Stálinfoi ocupada pelo"camarada Li Teh". E o "professorAlbert List",que dividia com Lin Piao a direção da Academia Militar deYenan, do Partido Comunista chinês,não era outro senãoOtto Braun.Durante os três anosque passou em Xangai, Ewertocupou-se mais ativamentecom a mobilização de intelectuais para aprodução de propaganda anti-japonesa. Elese impressionara como rápido avanço da revolução naChina e mais de umavez declarou que o grau de comunização do país eratão grande e irreversível que elepróprio não vianecessidade do trabalho de propaganda deagentes doComintern. E, de todas as tarefas do casal Ewerr na China, apenas uma terminoucoberta pelo póda História: nuncase soube se ele teria ou não obtidoêxito na tentativade aliciar para o trabalho de espionagem do Comintern umde seus grandes amigos em Xangaio britânico RogerHollis, que décadas depois, entre 1956e 1965, viria a sero "número 1" do MI-S, o serviço deinteligência militarbritânico. De qualquer forma, a última notícia que apolícia de Xangai obtevea respeito do casal- que na época já adotava os nomesde Harry Berger eMachla Lenczycki - é que teriam deixado a cidade no dia19 de julho de 1934 a bordo do SSYingchow com destinoao porto russo de Vladivostok.A verdade é queiniciavam ali uma longa viagem que terminaria, mesesdepois, num hotel da rua Marquês deAbrantes, no Rio deJaneiro.Na última escalaantes de aportar no Rio de Janeiro,Ewert recebeu emMontevidéu um nome para procurarno Brasil: LucianoBusteros, pseudônimo do jornalistaargentino RodolfoGhioldi, membro suplente do ComitëExecutivo doComintern, secretário do Birô Latino 74 Americano da IIIInternacional e dirigente do PC argentino.Ghioldi, queconhecera Prestes e Ewert em 1931, em Montevidéu, já haviaestado no Brasil, treze anos antes.Naquela época,estava em Moscou quando a direção da Internacionalencarregou-o de viajar à capital brasileira, ondeum grupo decomunistas pretendia fundar um partido esolicitava altorizaçãoà IC. Ghioldi deveria avaliar a situaçãoe enviar um informea Moscou com um parecer sobre aconcessão ou não deagrément ao partido que começavaa nascer.Ghioldi conviveudurante tcês semanas com o grupobrasileiro,considerado por ele "extremamente interessante".Com dois de seuscamponentes, o jornalista Astrojildo Pereira e ofarmacêutico Otávío Brandão, Ghiolditeve um contatomaior e deles acabou se aproximandomais. TantoAstrojildo quanto Brandão tinhamantecedentesanarquistas - idéia que havia exercido muita influência nomovimento operárío brasileiro - mas à luzda Revolução Russareviram suas concepções teóricas,tornando-secomunistas. A partir do informe favorável deGhioldi, osbrasileiros foram acolhidos por Moscou e mesesdepois eramdiscretamente distribuídos em váriosestados os estatutosdo "Partido Comunista - SBIC".- as quatro letrasfinais indicavam que aquela era a "Seção"Brasileira daInternacional Comunistá". No Rio, Rodolfo e sua mulher,Carmen Alfaya de Ghioldi - queinexplicavelrnenteviajava com seu verdadeiro nome, embora o sobrenome domarido fosse fartamente conhecido das políciaspolíticas - instalaram-se de início numapartamento nobairro do Leblon, a espera do momentoplanejado para oinício da conspiração: a chegada dePrestes e OlgaTambém aguardando o casal e pronto para juntar-seaos berges e aosGhiolgi encontrava-se no Rio o maisjovem dos enviadosdo Comintern. o norte-americano Victor ABarron. de 27anos. Magro e alto, com ar de galã decinema,Barron convivera desde garoto com o climadas lutas operáriase da militância comunista que o pai,Harrison George,levava para casa. Fichado pelas autoridades policiaisnorte-americanas como "um dos mais importantes agentessecretos do movimento comunista internacional",Harrison George era o representante nosEstados Unidos daInternacional  Sindical Vermelha,seção do Cominternencarregada das atividades no meiosindical. Eleestivera na América Latina em 1926, comodelegado da IIConferência de Trabalhadores Portuáriosdo HemisférioOcídental, realizada em Montevidéu, quando foi fundada a"Confederação Latino-Americana de Sindicatos", comsede na capital uruguaia. O pai Harrisone Edna Hill, suamulher, divorciaram-se quando Victorera bebê e, embora amãe desse ao garoto o sobrenome donovo marido, C. N,Barron, ele acabou por ligar-se maisao pai.Ainda adolescenteVictor trabalhou em uma empresade Yakima, no Estadode Washington, como colhedor delaranjas, mas logodepois mudou-se para Nova York, paraficar junto do pai eda militância política na cidade grande. E foi graças àinfluência de Harrison George no PCnorte-americano queVictor viajou para a União Soviética, onde estudoueletrônica e especializou-se em radiotelegrafia. No final de 1934, quando oComintern decidiuapoiar a planejadainsurreição no Brasil, Victor AllenBarron foi escolhidopara uma missão específica: montaruma poderosa estaçãode rádio clandestina para que osrevoltosos pudessemcomunicar-se entre si, internamente,no Brasil. Apotência do equipamento deveria ser suficiente também paraatingir Moscou - através do rádioo Cominternacompanharia o desenrolar dos acontecimentos no Rio deJaneiro.Além dos Berger, dosGhioldi e de Barron, outrosdois casais haviamaportado no Rio naquele começo de1935, sob as ordensdo Comintern. Para cuidar das finanças da operaçãovieram os belgas Léon-Jules Vallée e suamulher, Alphomsine,com os nomes verdadeiros. Uma atribuição perigosaficaria a cargo de um alemão, Paul FranzGruber - lidar comexplosivos e sabotagem. Sua mulher,Erika, exerceriaeventuais tarefas como datilógrafa oumotorista.76A direção doComintern relutara durante váriosmeses em aprovar ainsurreição no Brasil. Apesar das dezenasde informes erelatórios triunfalistas que recebia deMiranda, osecretário-geral do PC, o ceticismo dos dirigentes soviéticosera grande.Maior ainda, porém,era asedução que exerciasobre eles a perspectiva de ver umpaís com asdimensões do Brasil, área de influência cadavez mais cobiçadapelos Estados Unidos, transformadonuma repúblicapopular e socialista. Tão grande era ootímísmo de Mirandacom o que ímagínava ser uma sítuaçãopré-revolucionária que ele acabou por derrubar a incredulidade dosecretário do Comintern: Dmitri Manuilski chegou a pregarem seu gabinete, no final de 1934, umgigantesco mapa doBrasil coberto de alfinetes coloridos,indicando os pontosdo país em que, - segundo os relatos que recebia doPC brasileiro-a revolução explodiria.A prova maiseloquente de que Miranda conseguia vencer a descrença deMoscou estava na larga experiência daequipe enviada aoBrasil- Apesar dos atritos com Stálin,Arthur Ewert estavareabilitado- E a União Soviética nãodestacaria umpioneiro da revolução comunista internacíonal para umaaventura inconsequente. 6.Começa a conspiração Durou pouco overaneio de Olga e Prestes na confor tável casa de Paraventi às margens darepresa Guarapipiranga.Em menos de umasemana o emissário retornoudo Rio com o sinalverde de Miranda para que o casalrumasse para acapital. Celestino Paraventi, que os cercara de todas asgentilezas,insistiu nas vantagens de viajarem com ele, nocarro de último tipo. "Nenhum policialvai imaginar que umalimusine de vários contos de réisestá levando doiscomunistas", dizia bem humorado. Eleaté se antecipara,cometendo mais uma de suas loucuras:mandara um mecânicode confiança furar cinco orifíciosno porta-malas doautomóvel, para a eventualidade detransportá-los ali.Mas os hóspedes fincaram pé e seguiramviagem com a mesmadiscrição com que tinhamchegado até SãoPaulo: iriam para o Rio de táxi.A decisão quasecolocou tudo a perder. No meio danoite, quando seaproximavam da divisa entre São Pauloe o Estado do Rio,uma barreira policial de rotina parouo carro. A excessivapreocupação de Olga com sua bolsadespertou a atençãodo policial, que resolveu fazer umarevista maisrigorosa. Lá dentro ele encontrou um minúsculo revólver comcabo de marfim. Prestes tentou de tudopara evitarproblemas maiores: ofereceu dinheiro, conversou amistosamentecom o guarda, mas foi inútil. 78 O policial decidiu"confiscar" informalmente o revólver operação que acabou por fazê-loesquecer de vistoriar osdocumentos do casal.Dali até o Rio de Janeiro, a únicaarma em poder dosdois era a pistola de que Prestes nunca se separava.O trajeto entre aentrada da cidade e o hotel nobairro de Botafogofoi suficiente para maravilhar OlgaBenario. Com ummilhão e meio de habitantes, o Rio estava longe de ser umametrópole cosmopolíta como NovaYork ou Berlim - masela não teve dúvidas de que estavadiante da mais belacidade que já vira. Pela primeira vezOlga encontrava umapaisagem natural tão luxuriante.Da praça Paris, nocomeço do Flamengo, era possível teruma idéia geraldaquele exagero; à direita, montanhascobertas devegetação; à esquerda, quilômetros de praiasde areia finíssima.Espremida no meío, a cidade, seuscasarôes coloniais,os bem recortados jardins imitandoVersalhes eincontáveis igrejas de todos os tamanhos eestilus. Ao fundo,emoldurando aquela visão paradisíaca,o perfil do Pão deAçúcar. Saindo da praia, o carrometeu-se no meío docasario, tomou uma rua pequena comas duas calçadaspontilhadas de palmeiras altíssimas, eseguiu pela ruaMarquês de Abrantes, até um pequenohotel onde umapartamento fora reservado para o casalVilar.No mesmo hotel ondehaviam ficado Arthur Ewert eElise, Olga ePrestes passavam os dias selecionando anúncios de casas ouapartamentos para alugar. Como osEwert tivessemescolhido uma casa na rua Paul Redtem,em Ipanema, a poucospassos da praia, Olga sugeriu,com uma planta dacidade na mão, que procurassem umimóvel nasimediações. Não demorou muito para que oencontrassem: osclassificados do jornal do Brasíl anunciavam uma casa dedois andares na rua Barão da Torre,a duas quadras dosEweri. Propriedade do suíço EurischSommer, a casaestava alugada a um engenheiro químicoalemão, funcionáriodos laboratórios Bayer. Como muitos de seuspatricios, ele estava retornando à Alemanha- Hitler arrebanhavapelo mundo os melhores quadros 79 técnicos de seupaís, provavelmente imaginando as necessidadesque o esforço deguerra iria demandar. O alemãoqueria transferir ocontrato de aluguel. deixando para osnovos inquilinostudo que havia na casa: móveis, geladeira, fogão,talheres, pratos, panelas, roupa de cama ficava até a empregada doméstica. Alémde todas essasfacilidades, o fatodo antigo morador ser estrangeiro facilitava a encenaçãv:afinal, para a vizinhança, saíra umafamília deestrangeiros e entrava outra família de estrangeiros.A circunstância deque o senhor e a senhora Vilarnão fossembrasileiros não deveria, em princípio, causarmaiorespreocupações. Nos doze meses anteriores à chegadadeles, dos Ewert,dos Vallée, dos Ghioldi, dos Grubere de Barron, haviamentrado no Rio de Janeiro como imigrantes nada menosque 15 mil estrangeiros, dos quais 11mil eram europeus.Olga e Prestes poderiam, assim, misturar-se facilmenteaos 1700 alemães e  mil portuguesesque haviam trocado aEuropa em crise por um Rio de Janeiro onde asoportunidades pareciam ser mais animadoras. Além disso, obairro de Copacabana - do qualIpanema fazia parte- contava, entre seus 30 mil habitantes, com umnúmero desproporcional de turistas eimigrantes de todasas partes do mundo, o que certamentefacilitaria acirculação e as atividades dos enviados doComintern.Devidamenteinstalados na casa da Barão da Torre,Olga e Prestesencontraram-se pela primeira vez com seuscompanheiros na casados Ewert - e ali mesmo distribuíram as tarefasiniciais, atribuídas ,ao casal Gruber:Erika trabalhariacomo datilógrafa na casa de Ewert e,quando necessário,como motorista dos Vilar. Grober,técnico emexplosivos, instalaria num pequeno cofre dacasa de Prestes eOlga um violento sistema de alarme,para impedir oacesso de estranhos ao dinheiro e à documentação alidepositada. Victor Barron anunciou quecomeçara a cumprirsua tarefa desde o primeiro dia nacidade: depois deminucioso levantamento das lojas especializadas em artigoselétricos, tanto do Rio como das 80 cidades vizínhas,vinha se dedícando a comprar em cadauma delas uma peçadiferente para o radiotransmissorque montava noquarto de empregada, em seu apartamento alugado deCopacabana. Como fachada, Barronpassava por umplayboy milionário em intermináveis fériasno Rio de Janeiro.Sempre vestido com bem cortadosternos de linhobranco e chapéus e gravatas importadas,ele completava odisfarce circulando num caríssimo carrodo ano, uma limusíneGraham Page. Para todos os efeitos, Barronrepresentava uma indústria norte-americanade máquinas e, nashoras vagas, era jornalista.Apesar da aparentesegurança em que se encontravam todos, o grupodeliberou tomar uma iniciativa paraafastar de vez assuspeitas, da opinião pública e da polícia, de que LuísCarlos Prestes estivesse no Brasil. Nosprimeiros dias demaio uma multidão lotou o "Salão dasClassesLaboríosas", sítuado na rua do Carmo, no centrode São Paulo, paraparticipar de uma sessão solene darecém-fundadaAliança Nacional Libertadora. Logo depoisde instalados ostrabalhos, o historiador comunista CaioPrado Júnior deu apalavra ao tenente Timótheo Ribeiroda Silva, que passoua ler "um importante documentoque acaba de serenviado da Espanha ao presidente daComissão Provisóriada Aliança Nacional Libertadora, camandante HercolínoCascardo". Tratava-se de uma longacarta, datado do dia25 de abril "e escrita em Barcelona",na qual Luís CarlosPrestes anunciava sua adesão à ANL.Embora a data e aorigem da carta fossem falsas - Prestesnão tinha estado emBarcelona e no dia 25 de abrilencontrava-se noBrasil - o seu conteúdo era autêntico.Nela, Prestes diziaestar acompanhando "pela leiturados jornais" aformação daquele movimento de massas ejustíficava a demoraem aceitar a indicação de seu nomepara a presidênciade honra da ANL, ocorrida na sessãodo dia 30 de marçodaquele ano. Seu inconfundível estiloduro e agressivoafastaria as suspeitas de que o documento pudesse serapócrifo: "Sem conhecer os iniciadoresdesse movimento, ehabituado já ao uso desavergonhadoe demagógico quefazem do meu nome os politiqueiros 81 brasileiros, quandodesejam enganar as massas, espereireceber informaçõesmais completas antes de lhe escreverestas linhas",dizia ele. logo no início. "Hoje tenho já emmãos dados maisseguros sobre a nova organização e aconfirmação de quemeu nome surgiu, realmente, de maneira espontânea, doseio das próprias massas que quiseram,evidentemente, destamaneira, dar à ANL um caráter antimperialista,combativo, revolucionário". Após cOmprovadaanálise da situaçãopolítica brasileira, Prestes relatasua experiência detrês anos na URSS, "ajudando a construir osocialismo" e dirige-se "ao povo do Brasil, a todosos aderentes da ANL,aos operários, camponeses, soldadose marinheiros, aosestudantes, aos intelectuais honestos,à pequena burguesiadas cidades, enfim, a todos os quesofrem, cada diamais, com a situação de miséria e defome em que seencontra o Brasíl". Interrompído a cadaparágrafo pelosaplausos, o tenente Timótheo Lê, por fim,a adesão triunfal:"Adiro à ANL. Nela quero combaterlado a lado comtodos os que, não estando vendidos aoimperialismo,desejem lutar pela libertação nacional doBrasil, com todos osque queiram acabar com o regimefeudal em quevegetamos e defender os direitos democráticos que vão sendosufocados pela barbárie fascista oufascistizante".Com pouco mais de ummês de vida, a Aliança Nacional Libertadoraalcançara um indiscutível sucesso. Umato semelhante ao do"Salão das Classes Laboriosas" havia sido realizadona véspera no Estádio Brasil, no centrodo Rio de Janeiro, eum dos fundadores da ANL, o jornalísta BenjamimCabello, lera a carta de Prestes paraum público muitasvezes maior que o de São Paulo. Desdea Revolução de 1930,aquele era o primeiro movimentopolítico de caráternacional que surgia no país - e destavez atraindo os maisdiversos setores sociais e políticos,com um objetivocomum: lutar contra o fascismo, o imperialismo, osubdesenvolvimento e os grandes latifúndios. Essaverdadeira cruzada reuniu comunistas, socialistas, liberais,cristãos, operários, profissionais liberais, 82  e um grande número de militares egressos das experiên cias revoltosas de 1922 e 1924. A partir de seu lançamento público no final de março, no Teatro João Caetano, no Rio, quando o jornalista Carlos Lacerda propôs onome de Prestes para a presidência de honra, a ANL incendiou o país. Dezenas de milharesde pessoas batiam àsportas de suas "assembléias estaduais" para sefiliarem e incorporavam-se aos atos públicos que semultiplicavam pelas praças de todo o Brasil.Centenas de núcleossurgiram em vários estados e osmais eufóricosavaliavam o número de filiados em maisde um milhão. A cadadia, pelo menos três mil novos interessados pediaminscrição. A carismática e mitológicafigura de Prestes napresidência de honra estimulava aagitação aliancista,ainda que a maioria dos militantesque se agregavam àANL o conhecesse apenas de fotos edesenhos, quase semprecom a barba negra e as botas decano alto do tempoda Coluna.Como dirigentesnacionais do movimento foram escolhidoso comandante daMarinha Roberto Sisson, seucompanheiro de armaHercolino Cascardo - revolucionáriode 1924 e de 1930 eex-interventor do Rio Grandedo Norte em 1931 -,o jornalista Benjamim Cabello, omédico ManuelVenâncio Campos da Paz e o advogadoFrancisco Mangabeira- todos de alguma forma ligadosao PartidoComunista. Em São Paulo, a direção caberia aMiguel Costa,companheiro de Prestes no comando daColuna, aohistoriador Caio Prado Júnior e ao intelectualAbguar Bastos. NoRio Grande do Sul foram eleitos omédico e escritorDyonélio Machado e o capitão do Exército Agildo Barata,ambos comunistas. A organização daAliança no Nordestetambém ficaria entregue a militantesdo PC: SyloMeirelles, membro do Comitê Central doPartido, AglibertoVieira de Azevedo, aluno da EscolaMilitar do Realengo,e o camponês Gregório Bezerra. Embora congregandolideranças operárias e camponesas comoBezerra, a ANL erafundamentalmente um movimentosustentado pormilitantes e dirigentes vindos da classe média - a tal pontoque o comandante Roberto Sisson 83 chegou a se referirà pequena burguesia como "a força revolucionária daAliança Nacional Libertadora". No entanto,para alguns de seusdirigentes, como Caio Prado Júnior,a aproximação da ANLcom o PC permitiria que este realizasse o trabalhode ligação com as massas operárias.Em pouco tempo a ANLcomeçava a dar cria: de seusnúcleos surgiriam oClube da Cultura Moderna, a Ligade Defesa da CulturaPopular e a União Feminina do Brasil. A plataforma e,principalmente, as atividades de ruados aliancistaspassaram a ser divulgadas no Nordestepelo diáriorecifense Folha do Povo, no Rio de Janeiro porA Manhã e A Marcha,e em São Paulo por A Platéia.Simultaneamente aotrabalho desenvolvido pela Aliança no Brasil afora oPartido Comunista se infiltrava nosquartéis. A anistiade 1934 permitira que os jovens oficiaisparticipantes dasrevoluções anteriores voltassem à ativa,e muitos deles erammilitantes do PC. A direçãoreconhecera que,paradoxalmente, era mais fácil construir oPartido nos quartéisdo que nas fábricas - e investiunisto. Os comunistastinham bases em quase todas asguarnições maisimportantes, aproveitando-se das divisõese do enfraquecimentoda disciplina que a Revoluçãode 30 provocara nasForças Armadas. Todas as manhãs,cada comandante eraafrontado com a presença sobresua mesa detrabalho, de um exemplar de jornal clandestino de agitaçãocomunista. No Exército era o Uniãode Ferro, naAeronáutica o Asas Vermelhas, na Marinha oTriângulo Vermelho.O forte impulso pequeno-burguês dosjovens oficiaisfazia com que se preocupassem exclusivamente com a agitação, descuidando deangariar o apoiopara se organizar.Nas discussões que tinham em casa diariamenteos dois sozinhos, ouquando o grupo se reunia na casade Arthur Ewert,Olga e Prestes pressentiam que no Brasil os fatosameaçavam desmentir as experiências e ateoriarevolucionária: a vanguarda da revolução, peloque sabiam, era aclasse operária; mas ali o que surgiacomo vanguarda erauma extração militar de origempequeno-burguesa.Nem toda a jovem oficialidade, contudo, 84 estava comprometidacom a revolução. No dia em que,metidos no trabalhode aliciamento, os tenentes LauroFontoura, EdwarPrado e Ilcon Cavalcante, do Centro dePreparação deOficiais da Reserva - CPOR -, tentaramganhar para asidéias de Prestes e da ANL o jovem primeiro-tenente SílvioFrota - que, nos anos 70, seria ministro do Exército etentaria ser presidente da Repúblicaà força - o quecomeçou como uma pacifica conversapolítica quase acabaem tiroteio. Ao perceber que pediamsua adesão a ummovimento de esquerda, Sílvio Frotadesabotoou o coldree bateu na pístola, furioso:- Olha, Fontoura,comunismo comigo é questão devida ou morte. Aquino CPOR, se tentarem fazer baderna,vocês serãorecebidos a bala. Enquanto eu estiver vivo,comunista não entrano CPOR.Quando informaçõessobre episódios assim chegavamàs reuniões dogrupo, Rodolfo Ghioldi manifestava suapreocupação com opeso cada vez maior dos militares naAliança. "Temosque fazer honra aos militares, que égente de muita consciência"dizia ele, "mas se o proletariadonão tiver um papelpreponderante, não vejo muitofuturo naorganização popular e na revolução". Ghioldireconhecia, noentanto, que a arregimentação provocadapela ANL não tinhaprecedentes na América do Sul. Habituado a certadisciplina no trabalho político, ele se surpreendia com aheterogeneidade e o estilo da militânciaaliancista. Cadareunião da direção comunista era temperadacom um novo episódiocômico que ele presenciaraou ouvira contar. Umdia era a história de um militanteespírita do RioGrande do Norte: homem valente, tinhaestado na Coluna etomara um município de armas namão, queria fazeruma reforma agrária radical. Quandose encontrava comGhioldi, metia a mão no bolso e exibiaum maço de fotos embaçadas,que ele jurava serem dealmas de amigosmortos... que ele mesmo fotografara.De outra feitaGhíoldí tivera que cuidar para que nãodessem a palavra aum certo aliancista, orador fogoso,que terminava seusdiscursos nos atos públícos dando"vivas àpequena burguesia". 85 O crescimento da ANLem todo o país começou aassustar o governo.O pretexto que o presidente GetúlioVargas precisavapara conter a maré nacional contra sisurgiria maisdepressa do que o esperado. No início dejunho a Aliançaimpediu, pela força, a realização em SãoPaulo de um comícioda Ação Integralista Brasileira, organização de caráterfascista dirigida por Plínio Salgado.Dias depois, osintegrantes de uma manifestação aliancista em Petrópolis,no Estado do Rio, organizaram umapasseata até a portada sede local dos integralistas. Aescaramuça entre asduas facções terminou com a mortedo operárioaliancista Leonardo Candu e, em conseqüência disso, a cidadefoi paralisada por uma greve geral. Nodia 5 de julho, duranteos festejos do 13° aniversário darevolta dos tenentesdo Forte de Copacabana, anunciou-seque chegara "deParis ou de Barcelona" um manuscrítode Luís CarlosPrestes comemorativo da data. A direçãoda ANL tentou alugaro mesmo Estádio Brasil onde foralida a primeiracarta de Prestes, mas Vargas conseguiuimpedir a realizaçãodo comício. O mesmo se deu com oauditório da Feirade Amostras. A incrível capacidade demobilização daAlíança no Río de Janeiro colocou nasruas dezenas demilhares de pessoas que se deslocavamdo Estádio para aFeira, da Feira para a sede da ANL, apoucos quarteirõesde distância uns dos outros, em buscade um lugar paraouvir a carta do "Cavaleiro da Esperança."Da casa naBarão da Torre, Olga e ele acompanhavam, pelo rádioou por informes de militantes do Partido, a movimentaçãopopular no centro da cidade. Nomeio da tarde veio aordem para que os manifestantes sedirigissem à Câmarados Deputados. O representante doParaná, Otávio daSilveira, o mesmo que anunciara noCongresso Nacional afundação da Aliança, leria da tribuna o manifesto dePrestes. Com a cidade tomada portropas do Exército eagentes da polícia política, a massaocupou as galerias eas ruas em torno da Cãmara.O manifesto eraduríssimo. Denunciava a "decomposição do governo deVargas e de seus asseclas nos Estados" e diziaque a luta que se travava no Brasil era "entre 86 os libertadores dopaís, de um lado, e do outro os traidores a serviço doimperialismo". Atribuindo à ANL acondição de herdeirados tenentes de 1922, Prestes propunha a organizaçãoe preparação ativa das massas "parao momento doassalto", e anunciava que "a situação é deguerra, e cada umdeve ocupar o seu posto". O auditórioe a multidão que ouviana rua deliraram quando o deputado Otávio daSilveira leu as últimas linhas do documento: "Abaixo ofascismo! Abaixo o governo odioso de Vargas! Por um governopopular, nacional e revolucionário!Todo o poder àAliança Nacional Libertadora!". Do ladode fora, 150 milexemplares do jornal aliancista A Plaiéia,de São Paulo,trazendo a íntegra do manifesto, eramdisputadosfreneticamente pelos populares. A vaga humana seguiu até a sededa Aliança onde os que conseguiramentrar inauguraramuma foto de Luís Carlos Prestes.O manifesto era, sobmedida, o pretexto de que Vargas necessitava.Menos de uma semana após sua leitura,no dia 11 de julho,o presidente da República recorria àrecém-editada Lei deSegurança Nacional para decretar ailegalidade, em todoo país, da Aliança Nacional Libertadora.O golpe desferidopelo governo abalou o movimento.Boa parte dosliberais que o compunham submeteram-seao decreto oficial eabandonaram a Aliança, partindo paraa criação de outrospartidos ou grupos políticos. A tentativa de realizar,em São Paulo, um ato de protesto contra o decreto deVargas foi duramente reprimida pelapolícia - o ato nemchegou a começar- A partir de julhouma nova ANL, ilegale mantida basicamente pelos comunistasrevolucionários, passava a funcionar nos subterrâneos.Embora estivesse naclandestinidade, Olga Benarioaproveitou o fato deser desconhecida da polícia brasileira para circularcom total desenvoltura. Quase sempreacompanhada de suaamiga Sabo, mulher de Ewert, tornou-se freqüentadoraassídua da praia de Ipanema e dosteatros e cinemas dacidade, pela qual a cada dia mais seapaixonava. Noscinemas, teatros e cine-teatros espalhados 87 pelo centro e zonasul, as duas viam desde filmes adocicados como AAlegre Divorciada, com Gínger Rogers eFred Astaire, até asdensas peças de Oduvaldo Vianna.De quando em quando,o próprio Prestes arriscava umpasseio pela praiacom Olga, na certeza de que as últimas fotos nosarquivos policiais mostravam um homenbarbudo com a longacabeleira dividida ao meio.Numa dessasincursões, entretanto, ele chegou atemer que pudesseser reconhecido. Caminhando entre asbanhistas queexibiam a última moda chegada ao Rio os maiõs sem mangas que deixavam à mostraos sensuaisombros femininos -deu de cara com o capitão PauloKruger da CunhaCiuz, que passara algumas semanas naColuna, no Maranhão,e agora retornara às fileiras doExército. O oficial,porém, passou por eles sem sequernotar a presença dePrestes, que comentaria com Olga:- Ainda bem que eleestava mais interessado emvocê do que em mim.Vestidarigorosamente na moda para manter o disfarce, Olga cortarao cabelo um pouco abaixo da linhado queixo e, à saídados teatros, atraía a atenção doshomens com seusvestidos parisienses, que lhe atribuíamuma silhueta fina eelegante. Todos os seus vestidoschegavam aotornozelo, conforme as determinações dos costureiros franceses.Rapazes de chapéu panamá diminuíama velocidade de suasbaratinhas quando a viam, para dirigir-lhe respeitosose enfatuados galanteios, que nem sempre Olga entendiadireito.Para as primeirassemanas no Brasil Olga foi obrigada a comprar umguarda-roupa de emergência paraambos, pois os baúsdespachados de Nova York chegaram com muito atrasoao Rio de Janeiro. Só AméricoDias Leite, odestinatário nominal da carga, poderia retirála no escritório carioca da WagonsLits Cook, o queobrigou Olga aincontáveis visitas com ele ao porto até achegada docargueiro. Para o endereço de Dias Leite eraenviada também acorrespondência vinda da Europa sempre em nome de Antônio Vilar, ou de suamulher; para essaoperação rebatizada de "Yvonne Vilar". 88 Os programas sociaisde Olga e Saóo somente eramsuspensos nas noitesde quintas-feiras e domingos quando o Estado Maior da Revolução se reunia nacasade Ewert paraavaliar o avanço do trabalho. Nesses diasElise dava folga àempregada doméstica Deolinda Elias,para que pudessemconversar à vontade: lá estavam sempre Ewert, osecretário-geral do Partido, Maciel Bonfim- o Miranda -,Rodolfo Ghioldi e Prestes. Olga, quefalava fluentementevários idiomas e conseguia se expressar com algumafacilidade em português, trabalhavacomo tradutorasimultânea. Os encontros sempre começavam no final datarde e terminavam antes da meia-noite,e eram regados asalgadinhos e goles de uísgue. Quandoo calor era muitoforte, Ewert brindava os convivas comuma invenção sua: umcoquetel à base de vinho brancoalemão e suco deabacaxi.Foi numa dessasreuniões que o comando revolucionário decidiuaumentar as medídas de segurança em torno de Prestes. Adiscrição com que ele vivia era grande,todos reconheciam, ena eventualidade de uma invasãopolicial, osdocumentos importantes do grupo estariam asalvo pelo diabólicosistema de segurança montado porGruber na casa dePrestes e Olga: na portinhola do cofre,o alemão instalaragrande quantidade de dinamite e debombas incendiárias,ligadas a um minúsculo sistema dedetonação. Quemtentasse abrir o cofre sem desativar omecanismo certamentevoaria pelos ares com todo o conteúdo - dinheiro edocumentos - e pedaços da própriacasa. Além disso,havia a tranqüilizadora presença deOlga, queacompanhava Prestes por toda parte, semprearmada de umapístola.Todos essescuidados, no entanto, pareciam ínsufícientes. Notíciasesparsas publicadas em jornais insinuavam que a políciadesconfiava da presença de Luís CarlosPrestes emterritório brasileiro. Era preciso fazer algumacoisa, tal como asduas cartas, para convencer as autoridades de que Prestescontinuava no Exterior. ArthurEwert, como Olga, umdos mais preocupados com os riscos que Prestescorria no Brasil, chegou a sugerir que 89 Rodolfo Ghioldiembarcasse no dirigível Graff Zeppelin,ancorado no Rio deJaneiro, e fosse a Moscou discutir aquestão com oComintern, mas a idéia foi colocada delado. Semanas depoiso grupo saberia que seus temoreseram compartilhadospela alta direção comunista naUnião Soviética.Aos primeiros diasde setembro, agentes do Inteiligence Service - oserviço secreto inglês -, fizeramchegar às mãos docapitão Filinto Müller, o temido chefe dapolícia do DistritoFederal, a edição de 25 de agosto dodiário Pravda, órgãooficial do Partido Comunista daURSS, que estampavauma notícia tranqüilizadora paraa políciabrasileira, Sob uma fotografia de corpo inteirode Luís CarlosPrestes - uma foto antiga, em que eleainda usava a barbae o cabelo longos - o jornal anunciava sua presençaem Moscou e informava que pela primeira vez umlatino-americano era eleito membro efetivo da ComissãoExecutiva da Internacional Comunista,Prestes passava afazer parte da cúpula comunista mundial, entre outros,ao lado de Joseph Stálin, Dmitri Manuilski, GeorgiDimitrov, Mao Tsé-tung, Dolores Ibarruri- a Pasionariaespanhola -, Palmiro Togliatti e BelaKuhn.Se"Prestes estava em Moscou no VII Congresso daIC, no final deagosto, e se prentendia retornar ao Brasil,isto só aconteceriapor volta do fim do ano: a polícia brasileira sabia que,com todas as díficuldades de transporte,uma viagemclandestina da União Soviética ao Brasil exigiria, no mínímo, umpar de meses. A tensão que tomaraconta da polícia sedesfez com a notícia do Pravda. O serviço secreto inglêse o capitão Filinto Müler tinham engolido a ísca doscomunístas. 7."A Revoluçãoestánas ruas" 91 Olga procurava nãose intrometer nas questões internas do PC e daAliança, mas nem por isso deixaria de manifestar mais de umavez, a Prestes e a Rodolfo Ghioldi,sua preocupaçãoo comalguns fatos que considerava inexplicáveis. Ela nãoentendia, por exemplo, como Miranda- a quem Ghioldi sereferia como "um tipo semi-analfabeto e sem preparopolítico" - pudera chegar a secretário-geral doPartido, exercendo influência e autoridadesobre tantosintelectuais e militantes com uma longa história de lutas. Eembora estivesse no Partido há menosde dois anos, eraele quem dava as cartas, com podercada dia maior.A ilegalidade daAliança Nacional Libertadora transformara um movimentode massas de caráter nacionalem um aparelhoclandestino, praticamente controladopelo PartidoComunista, onde era difícil identificar quem erasó aliancista e quemera também comunista. E a orientação imposta aosque permaneceram na organização eraa de trabalhar comafinco para a insurreição que Mirandatanto anunciara aosdirigentes soviéticos. A Luís CarlosPrestes cabiaexecutar na ANL as decisões que o Partidotomava.O PC se preparava emtodos os sentidos. Um pequenomas minuciososerviço de inteligência foi montado e por 92 meio deleorganizou-se um fichário com os nomes de todos os alcaguetesempregados pela polícia política e dospoliciais quemilitavam na Ação Integralista Brásileira.Como muitos doscomponentes da Coluna Prestestivessem ingressadona polícia ao retornarem do exílio, a infiltração doscomunistas era rica e abundante. Irregularmente circulavaentre o comando revolucionário umaespécie de boletimsecreto revelando as mudanças na polícia: quem tinha sidotransferido e quem fora admitido,que investigaçõesestavam sendo feitas por Filinto Müller e por seulugar-tenente, o capitão Miranda Correia,delegado especial deSegurança Política e Social. Osrecursos materiaispara manter a máquina partidária emfuncionamento nãoconstituíram problema para os comunistas. Além dodinheiro trazido por Olga e Prestes e dosfundos controladospor Léon Vallée, o grupo recebia, através da Argentina,gordas e regulares remessas de dólares- que podiam ou nãoser verdadeiros, pois o Cominterntinha à suadisposição alguns dos mais talentosos gráficos alemães. Poroutro lado, os gastos também eramgrandes: um dosbalancetes do Partido revelava que, emapenas um dos mesesdo segundo semestre de 1935, amanutenção do PCchegou a 70 contos de réis - suficientes para a compra de15 automóveis americanos de luxo.A predominância doPC sobre a Aliança, entreianto,somada à linhainsurrecional que passou a orientar o movimento, acarretariaa perda de alguns dos mais valiososaliados de Prestes.Em agosto ele recebe uma carta dogeneral MiguelCosta, seu companheiro da Coluna, quepartilhara com CaioPrado Júnior a direção da AliançaNacional Libertadoraem São Paulo. O militar faz umaanálise do momentopolítico, não poupa críticas aPrestes pelo teor domanifesto de 5 de julho e se coloca contra a tese dainsurreição:Vem o 5 de julho.Você, naturalmente pouco ou mal informado, supondo queo movimento da ANL tivesse tantode profundidade comode extensão, lançou o seu manifesto, dando a suapalavra de ordem de "todo o poder àANL". Bradorevolucionário, subversivo, só aconselhadonos momentos quedevessem preceder a ação. Gritou que,  93 para estar certo,deve ser respondido pela insurreição(...) Veio o decretodo fechamento da ANL e este movimento popular nãoreagiu nem com duas greves organizadas. Oscompanheiros do Exército e da Marinha que seencontravam à frenteda agitação, estão uns presos, outrostransferidos para osfins do mundo. As sedes da ANLacham-se fechadas,seus membros tém que se agitar nailegalídade, commovimentos muito mais lerdos, muitomais difíceis, muitomenos eficientes. Acho que a sua palavra, no momento,era indispensável. Mas, se você tivesse,em vez de pregar oassalto ao poder, recomendado a maisviva congregação emtorno da Aliança, não se teriamprecipitado osacontecimentos. Habituando-se a massa popular a cumprir aspalavras de ordem, aos poucos, ela cumpriria a da tomadado poder quando a direção, mais tarde,assim odeterminasse. Mas tal ordem só deveria ser dadaquando o governo jáse encontrasse na impossibilidadetotal de reagir. Ocontrário foi  como atuar uma criança desarmada contraum elefante.O tom da carta é dedespedida. Miguel Costa terminapropondo acontinuação da luta dentro da legalidademediante a criaçãode organizações partidárias nos Estados,com programasidênticos ao da ANL, mas com outradenominação, todasdevidamente inscritas nos tribunaiseleitorais. Essespartidos, segundo a sugestão, deveriammanter umaorganização secreta, ao lado da fachada legal,"para prepararuma reação efetiva das massas no caso deum golpefascista". A resposta de Prestes só viria em meados de outubro. Numacarta de duzentas linhas datilografadas, escrita emlinguagem tão amável quanto a dogeneral, Prestesconcorda com algumas das críticas feitas pelovelho amigo, divergeem outros pontos, convida-o apermanecer na ANL eimagina-o chefiando o governo de SãoPaulo na condição dealiancista. Em um ponto, contudo,a divergênciapermanece - Prestes mantém a defesa intransigente datomada do poder.Quanto ao tempo deque dispomos para a preparação daluta pelo poder,segundo todas as informações que tenhude diversos pontosdo país, é coisa que se torna cada diamais próxima. Serialeviandade Falar aqui de datas, masas condiçõesohjetivas indicam que de um momento paraoutro podemos estarfrente a acontecimentos de tal envergadura que sejamosobrigados a por na ordem do dia aquestão da tomada dopoder. Por isso a importância do 94 Trabalhoconspirativo, já não só de arregimentação, comode organização domovimento. Neste sentido peço-lhe quecontinue a apoiar ea ajudar, em tudo o que lhe for possível.Cuidadoso com asegurança, Prestes termina a cartacom um despiste:Naturalmente, se osacontecimentos se preciPitarem,teremos ocasião denos vermos e, portanto, de diretamentecombinarmos asmedidas de maior importância, porqueno momento da lutaou pouco antcs estarei no Brasil.Peço-lhe transmitiraos companheiros de São Paulo asminhas saudaçõesrevolucionárias e abraçar em meu nomeos velhoscompanheiros da Coluna.Não havia dúvidas deque, para Prestes, a revoluçãoestava próxima. Nassemanas seguintes, entretanto, nãohaveria o menorindício de que algo de anormal estivesseocorrendo no país.Curiosamente, notícias "plantadas" emjornaisconservadores denunciavam a presença dePrestes ora noNordeste, ora em Três Rios ou Barra do Piraí,no interior doEstado do Rio. A cada alarme falso, o jornal paulista APlatéia, que sobrevivera ao fechamento daAliança NacionalLibertadora - estampava um desmentido: "Prestes,toda gente o sabe, acha-se na Europa, tendosido as suas últimascartas para o nosso país datadas deBarcelona e de Paris".Nem o próprioPrestes, no entanto, poderia imaginarque a insurreiçãoexplodiria tão cedo e de forma tão imprevisível. Aomeio-dia de 23 de novembro os soldadose sargentos do 21 °Batalhão de Caçadores de Natal, capital do Rio Grande doNorte, tomaram a guarnição militarda cidade, prenderamos poucos oficiais que ali se encontravam, já que erasábado, e entregaram o comando daunidade ao sargentoDinis Henriques e ao cabo Estevão.O governador RafaelFernandes, seu secretariado, os policiais de plantão nacidade e os oficiais que se encontravam Fora do quarteldividiram-se na fuga: parte escondeu-se na casa docônsul honorário do Chile, alguns seespremeram no aviãoCroix do Sud da companhia Latécoere, que estava nacidade, e o restante decidiu resistir 95 no quartel da ForçaPública estadual. Os oficiais presosforam encarceradosem navios que se encontravam atracados no porto.Uma única ediçãofeita às pressas do jornal Liberdade anunciava que opoder estava nas mãos da AliançaNacionalLibertadora, que acabara de instalar o GovernoPopularRevolucionário, cujo comando era camposto pelooperário JoséPraxedes de Andrade, o sargento Quinünode Barros, ocarteiro José Macedo, o estudante João Galvão e o funcionáriopúblico Lauro Lago. Foi um misto deinsurreição políticae carnaval: o povo aderiu à revolta,invadiu os quartéisocupados, roubou os fardamentosguardados nosdepósitos e saiu pelas ruas fantasiado desoldado: Ostransportes urbanos passaram a ser gratuitospor decreto revolucionário.Os cofres dos bancos foramarrombados e odinheiro - milhares de contos, uma fortuna - expropriado edistribuído entre a população. A"zonaliberada" estendeu-se por mais meia dúzia de municípios dointerior, mas a revolução dorou apenas cincodias. Naquarta-feira tropas federais e de Estados vizinhos retomaram acapital e as cidades ocupadas, reempossaram ogovernador e prenderam centenas de revoltosos.Durante aquelescinco dias o governo tivera que sufocar outro levantemilitar feito em nome da Aliança Nacional Libertadora.No domingo, dia 24, os tenentes Lamartine Coutinho eSylo Meirelles tomaram o 29.° Batalhão de Caçadores de Recife, em Pernambuco, eresistiramdurante 48 horas, noquartel e nas ruas da cidade, atéserem cercados edominados por tropas oficiais.No Rio de Janeiro,Rodolfo Ghioldi empalideceu aocomprar os jornaisde domingo com as notícias de Natal.Correu à casa dePrestes, que acabara de ser informadodos acontecimentos.Acompanhados de Olga, dirigiram-seà casa de Ewert edecidiram entrar em contato comMiranda o maisrápido possível, para que os quatro tomassem as medidasnecessárias diante daqueles eventosinesperados.Miranda, todavia, somente seria localizado nofim da tarde desegunda-feira, dia 25. Prestes já tinha 96 opinião formada arespeito do que fazer, mas por umaquestão dedisciplina partidária não quis agir sem antesdeliberar com osecretário do Partido. A reunião acabousendo realizada nacasa de Olga e Prestes, e entrou pelamadrugada. Delaparticiparam o casal, Ewert, Ghioldi eMiranda. Aprincípio, Prestes era o único a defender olevante no Rio deJaneiro, insistindo em que nãopoderiam abandonaros companheiros de Natal e Recife.Ewert e Ghioldiapenas ouviam e Miranda relutava. Amedída que Prestesrelacionava as guarnições dispostasà insurreição - aVila Militar, a Escola Militar, a Escolade Aviação -, osecretário do Partido foi cedendo. Nomeio da reunião elepróprio já estava tão seguro do triunfo da revolução quepropôs a convocação de uma grevegeral em apoio àrevolta. Nesse momento Rodolfo Ghioldi interrompeu osilêncio que mantivera até ali:- Eu voto contra ainsurreição e contra a grevegeral. A análise quefaço indica que não temos condições derealizar nem uma nemoutra coisa. Tenho tido contatocom os companheirose sei que isto só existe no papel.Ewert assentiu com acabeça. Foi aí que Prestes jogousobre a mesa aquiloque Ghioldi chamaria de "o ás deouros escondido namangá", Solene, ele informou a seuscompanheiros:- A Marinha deGuerra está comprometida conoscoe se fizermos olevante ela toma o poder ao nosso lado.Os dois estrangeirosse espantaram com a notícia ea segurança com quefoi dada. Ghioldi pediu que Prestesfizesse a gentilezade repetir o que acabara de dizer.Prestes insistiu:- A Marinha deGuerra está comprometida comigopara tomar o poder.Ghioldi e Ewert securvaram ao argumento. E foio argentino quemfalou:- Se é assim, que sefaça a insurreição.O plano da revoluçãofoi detalhado ali mesmo.Prestes despachariamensageiros de confiança a todas as guarnições onde haviaoficiais à espera de orientação e aosnavios da Armada,onde o Partido tinha bases 97 comprometidas com olevante. O 3.° Regimento de Infantaria, docapitão AgildoBarata, se levantaria e suas tropas se dividiriam em trêscolunas: uma marcharia rumo ao Arsenalda Marinha, paraauxiliar o Batalhão Naval; outra se dirigiria ao Palácio doCatete, sede do governo, prenderia opresidente GetúlioVargas e quem estivesse com ele; umaterceira tomaria oPalácio Guanabara, residência oficialdo presidente daRepública. Prestes pediu que Mirandaconseguisse alguémde confiança para levar uma mensagem ao capitão AndréTrifino Correia, comandante de umbatalhão em OuroPreto, no interior de Minas Gerais. Eali mesmo escreveuum bilhetinho:Meu caro Trifino:Estamos frente àRevolução. Aqui não pudemos esperarmais de 2 ou 3 dias.Conto com a tua energia e decisãono sentido dedirigir a Revolução em Minas Gerais. Abraça-te oPrestes.Com a energia de umcomandante, Prestes deu suasordens. InstruiuMiranda para que tomasse algumas providências na manhãseguinte: primeiro, era necessárioarranjar uma novacasa para Olga e ele, na zona norte.Desencadeado olevante, era importante que estivesse emlocal de fácilacesso ao complexo da Vila Militar, no subúrbio carioca.Miranda deveria também orientar Barronpara que  essecolocasse o aparelho de rádio em condiçõesde funcionamento.Barron informaria ao Comintern, através de mensagemcifrada em morse, da decisão do levante.A freqüência em quea estação operaria fora distribuídapelo próprioPrestes, e Recife passaria a comunicar-secom eles a partir dodia seguinte. Dias depois, entraria noar o contato do BirôLatino-Americano do Comintern, emMontevidéu.As notícias quechegavam ao Rio no dia 26 de novembro sobre osacontecimentos em Recife eram poucoprecisas econtraditórias. Mas não havia dúvidas sobre osucesso no RioGrande do Norte: tanto Natal como ascidades do interiorcontinuavam sob o controle doGoverno PopularRevolucionário - a única reação fora a 98 de um certofazendeiro, o "coronel" Dinarte Mariz, quearmara pessoalmentesua tropa de jagunços quetentaram desalojaros revolucionários. Na manhã do dia 26,os jornais davamdestaque à decisão do presidente Getúlio Vargas decontra-atacar, decretando o estado de sítiopor trinta dias emtodo o país, "para que o Estadopudesse defender-seda insolência comunistá". Prestes e Olgativeram um dia deatividade febril. Todos os contatos doPartido e ossimpatizantes nos quartéis do Exército, daAviação Militar e daArmada haviam sido avisados dadecisão do levante.O presumido apoio da Marinha, maisos levantes doNordeste e do Norte, devem ter pesadobastante na decisãode Prestes, pois, semanas antes, aoresponder a umacarta do comandante Roberto Sisson,ele dissera nãoacreditar que havia chegado o momentoda tomada do poder.Sisson estava entusiasmado comuma greve detrabalhadores em Petrópolis, mas Prestesretrucaraprudentemente que "seriam necessários muitos Petrópolis"para que surgissem as condições propícias.No final da tardetodos os preparativos estavam montados. Quando anoite caiu, Prestes e Olga mudaram-seda casa de Ipanemapara a que Miranda arranjara na ruaCorreia de Oliveira,em Vila Isabel, a meio caminho daVila Militar, a maisimportante guarnição da capital. Nomomento em que osrevoltosos tomassem as unidades,bastariam uns poucosminutos para que Prestes assumisse, da Vila Militar,o comando do país. Antes de partir,ele improvisou numcartão um salvo-conduto para Ewert,çujos termos davam amedida da sua certeza quanto àvitória domovimento:Salvo-condutoO portador deste,Sr. Harry Berger (nacionalidade norteamericano [sic]) é pessoa para a qualexijo o maiorrespeito econsideração.Rio, 26 -11 - 35Luís Carlos Prestes Restava ainda umaúltima providência: redigir omanifesto que seriadistribuído à população, convocando-apara a revolta. E écom esse panfleto que o Partido 99 Comunista admite,pela primeira vez, a presença de Prestesno país:POVO HRASILEIRO!(..-) Está sendodecidida a causa do Brasil e de todosos seus filhos.Ninguém poderá permanecer indiferente.Não se trata de"movimento comunistá", como apregoaa imprensa vendidaao imperialismo e à camarilha deVargas!  aRevolução Popular pela Libertação Nacionaldo Hrasil que estáem macha, dirigida pela Aliança Nacional Libertadora eseu glorioso chefe Luís Carlos Prestes.O Partido Comunistado Brasil (Seção da InternacionalComunista) apóia comtodo o vigor, firmeza e decisão esseheróico movimentorevolucionário!povo Brasileiro!Aproxima-se a hora da vitória sobre osseculares opressorese exploradores do nosso país!Luís Carlos Prestes,o herói antiimperialista e antifeudal, o chefe queridoem torno do qual se unem todos osbrasileiros, volveua sua terra, está entre nós e dirige uscombates decisivosda Revolução Nacional Libertadora.Comunistas e simpatizantesdo Partido! Ocupai vossospostos de combatecom as armas nas mãos com toda ainiciativa edecisão. Ninguém em casa! Todos nas ruas,nas lutas, nasbarricadas, com os soldados e marinheirosdo Brasil! (...)Operários dos transportes e das indústrias ides- às greves e àslutas de ruas por vossas reivindicaçõese pela libertação doBrasil! Camponeses, colonos assalariados agrícolas - àluta contra os grandes senhores daterra, por vossasreivindicações e para que a terra vospertença! Soldados emarinheiros do Brasil! Com todo opovo libertador,libertemos a nossa pátria do jugoimperialista(...)Abaixo o governo de traição nacional de Vargas e asua camarilhareacionária nos Estados!Viva a RevoluçãoNacional Libertadora!Viva u GovernoPopular Nacional Revolucionário e seuglorioso chefe LuísCarlos Prestes! !Por pão, terra eliberdade!Todo u poder àAliança Nacional Libertadora!O Bureau Polítïco doPartido Comunista doBrasil(Seção daInternacioual Comunista)Movidos por algumaarte do instinto, Prestes e Olgaresolveram que nãoseriam levados para Vila Isabel porErika, a jovemmulher de Gruber que até então serviacomo motorista docasal- Para isso, Prestes chamou umvelho amigo seu, omajor Vitor Cesar da Cunha Cruz, naquela época eursandoa Escola de Comando e Estado 100 Maior do Exército.Embora não fosse comunista, CunhaCruz era de totalconfiança, e, sendo oficial do Exército,eliminava os riscosde serem interceptados por algumapatrulha. A viagematé as imediações da Vila Militartranscorreu semnenhum contratempo.À noite VictorBatron ligou pela primeira vez a enorme estação de rádioque lhe custara quase um ano deperegrinação adezenas de lojas e cidades diferentes.Quando as luzinhascoloridas acenderam e o aparelhocomeçou a funcionar,ele buscou em suas anotações afreqüência em quedeveria sintonizar a estação do Comintern, instalada dooutro lado do planeta, em Moscou. Nãolevou muito tempopara transmítír a mensagem cifradado comandorevolucionário, informando que o levantefora desencadeado.As ondas trouxeram até o Rio,também cifrado, umelogio que o encheu de orgulho. De Moscou, a direção doComintern desejava pleno êxito à empreitada ecumprimentava "o grande bolchevique VictorBarron por seudesempenho".A revoluçãocomunista brasileira ia começar às trêshoras da madrugada.8.Um espião entreos comunístas 101 A revolução começouàs três horas da madrugada eacabou à uma e meiada tarde.Nenhuma das guarniçõesda Vila Militar se levantou.Não houve rebeliãona Escola Militar. Nem no Arsenalda Marinha. Tampoucono Batalhão Naval. Preso em Minas Gerais, ocapitão Trifino Correia sequer recebeu obilhete de Prestes -tanto o mensageiro que deveria contatá-lo quanto o quese dirigia ao Rio Grande do Sul, comidêntica missão,foram apanhados pela polícia antes desaírem do Río deJaneiro. Rodolfo Ghíoldí díria anosdepois, melancólico:- A greve geralimaginada por Miranda não conseguiu paralisarninguém. E o prometido apoio da Marinhade Guerra àrevolução não mobilizou nem as barcas daCantareira,A revolta ficourestrita ao 3" Regimento de infantaria,à Escola de AviaçãoMilitar e foi sufocada à forçaem poucas horas. O3.° RI ficava na Praia Vermelha, nocentro da zona suldo Rio de Janeiro, espremido entretrês morros. Ládentro, para combater e dominar 300oficiais e cerca de1700 soldados, o Partido Comunista ea Aliança NacionalLibertadora contavam, ao todo, commenos de 30 homens,entre ofíciais e soldados. A missãode camandar ainsurreição caberia ao valente e aguerridocapitão comunístaAgildo Barata, que, no entanto, talvezfosse a pessoa menosindicada para a tarefa: ele tinhasido transferido doSul para o Rio havia menos de ummês e sua únicaligação com a tropa do 3.° RI residia nofato de estar alicumprindo pena de prisão disciplinar por25 dias, acusado detentar organizar a ANL nos quartéisdo Rio Grande doSul.Todas as tropasfederais assentadas no Rio de Ja neiro tinham entrado em rigorosa prontidão nanoite de23 para 24 denovembro, após chegarem à capital federalinformações datomada de Natal pelos revoltosos. A notícia de que LuísCarlos Prestes teria sido visto na cidadede Barra do Piraífez com que o Comando da 1  RegiãoMilitar despachassepara lá uma companhia do 2.° Regimento de Infantaria,a fim de prevenir "qualquer perturbação da ordem ousurgimento de movimento subversivo". No 3" RI todo o efetivo mantinha-se em estado dealerta: com as armassempre à mão, a tropa fardada sótinha permissão pararecostar-se nas camas, sem sequertirar os coturnos.Os oficiais, vigilantes, percornam oquartel de pistolaem punho, madrugada adentro, e exigiam autorízaçãosuperior até para que os soldados fossem ao banheiro.Todos esses cuidados levantam a suspeita de que ogoverno soubesse que a rebelião começariaali, e àquela hora.Na hora combinada, otenente Francisco neivas Oterodisparou para o arrajadas de fuzil-metralhadora: era osinal para que cadarebelde, em sua companhia, prendesse o comandante eos oficiais legalistas e assumisse ocomando da tropa.Agildo Barata, cumprindo sua pena nocassino dosoficiais, prendeu ali mesmo o capitão LuísMáximo, que entroupara a história do levante como oprimeiro refém e aprimeira vítima: quando um soldadotentava ajudarBarata a desarmá-lo, a pistola do oficiallegalista disparou,atingindo-o na perna. Após meia horade tiroteioinfernal, os revolucionários tinham o comandodo 3.° Regimento deInfantaria. Mas a vitória seria efêmera: àquela hora opresidente Getúlio Vargas já haviasido informado dosacontecimentos por seu ajudante103 de ordens, tenenteda Marinha Emâni do Amaral Peixoto,despertado por umtelefonema do tenente-coronel Eduardo Gomes, relatandoa existência de uma rebelião naEscola de AviaçãoMilitar, ao lado da Vila Militar. Minutosdepois, quando opresidente se encaminhava para o Ministério da Guerra,chegou a notícia de que o 3 ° RI também estava sendotomado por uma insurreição,O general Eurico GasparDutra, comandante da 1 °Região Militar,determinou o cerco completo do quartelda Praia Vermelha,onde a situação parecia mais grave.Em poucos minutos osmorros que cercavam a unidademilitar, a PraiaVermelha e a praça fronteiriça ao 3.° RIforam tomados peloBatalhão de Guardas, por uma Companhia Motorizada deMetralhadoras e um Grupamentode Obuses Pelotelefone requisitou-se o 1.° Batalhão deCaçadores, sediadoem Petrópolis. Os rebeldes sóperceberam queestavam cercados por volta de quatro horas damadrogada. Quandouma patrulha tentou sair à rua eabrir caminho para atropa revolucionária, asmetralhadoraspesadas do Batalhão de Guardas, instaladasestrategicamente notopo do morro da Urca e no alto da Pedra daBabilônia, cobriramo prédio de tiros. Três ou quatronovas tentativas detomar a avenida Pasteur, à frente doquartel, foramrepelidas pelo fogo cruzado de obuses de155 milímetros.Através das janelas arrancadas a bala oudos rombosprovocados por tiros nas paredes, policiaiscivis atiravambombas de gás lacrimogênio para dentrodo edifício.A poucos metros dedistância o general Eurico Gaspar Dutra, protegidopela laje de tun posto de gasolina,conseguiu telefonarpara o quartel e comunicar-se comum dos oficiaislegalistas presos, o coronel Atfonso Ferreira. Pouco depoisDutra enviou um emissário com umaproposta de rendiçãodirigida ao capitão Barata, camandante dos rebeldes.Era um bilhetinho curto e formal:Senhor ComandanteRevolucionário do 3^ RI:O general comandanteda 1" RM - vosso comandante- vos concita adepor imediatamenfe as armas e rendervos; vosSa situaçãu é insustentável e éaconselhável evitarinúteis sacrífícíos,27- 11- 1935 Gen. Eurim GasparDutra Agildo Barataconsiderou "uma petulância" a proposta de rendiçãoincondicional, mas percebeu, pelo tomdo bilhete, que ogeneraljá se considerava vitorioso. Pelorádio do quartel,entretanto, Barata tomara conhecimento de "gravesperturbações da ordem" na Escola de Aviação Militar, noCampo dos Afonsos. Se até aquele momento o governo nãohavia utilizado a aviação para desalojá-los do 3.° RI,isto podia ser um indício de que aEscola estivesse sobo controle dos rebeldes. O melhor, portanto, era ganhartempo e esperar. Nada de rendição.Passou algum tempoaté que o mensageiro do generalDutra - um sargentodo Batalhão de Guardas - pudessesair do quartel coma resposta de Barata. Utilizando umaambulância quetirava feridos do prédio, o sargento entregou a seusuperior um pedaço de papel em que osrebeldes repeliam aproposta:Gen. DutraComandante da1" RMRegimento sob nossocomando não Se renderá antcesvermos governoesfomeador Getúlio derrubado,Concitamos prezadoCompanheiro salve Brasil ser entregue mãosestrangeiros por Getúlio. Flores e Catervas.Todo Regimentoconosco. Esperamos do chefe da 1."RM união onto devista, capaz livrar nossa pátria garrasGetúlio. Movimentonão é comunista! mas nacional, popular,revolucionário com omais digno dos nossos companheirosà frente: LuísCarlos Prestes.Agildo BarataRibeiroCapitão Comandante3^ AI Popular RevotucionárioÁlvaro Francisco deSouzaCapilão Comandantedo 3.° R1Barata ainda nãosabia, mas àquela altura, ao clareardo dia 27, a revoltada Escola de Aviação Militar haviasido debelada e seuslíderes, os capitães Sócrates Gonçalves da Silva,Agliberto Vieira e os tenentes Ivan Ribeiroe Dinarco Reis, alémde mais de uma centena de oficiaise soldados,encontravam-se todos presos. No momento emque o general Dutralia a resposta de Barata a sua 105 proposta derendição, o presidente Getúlio Vargas, vitorioso,percorria osescombros da Escola de Avíação Militar emcompanhía dotenente-coronel Eduardo Gomes, que saírada refrega com a mãoferida por um tiro de fuzil. Com aEscola de Aviaçãoretomada, o governo concentrou maisforças militares emtorno do 3.° RI. Um dos pavilhõesestava sendodevorado por chamas provocadas pelo bombardeio pesado e às2 horas da manhã os rebeldes perceberam, no céu, queestavam derrotados: aviões militares faziamameaçadores vôos rasantes sobre o querestava do quartel.Barata ordenou que um corneteiro tocasse "cessarfogo" para reiniciar as conversações com Dutra. Seus doismensageiros foram presos e desarmados àsaída do prédío, emínutos depois o general e seus camandados entravam noprédio para receber a rendição dosinsurretos. Umoficial que acompanhava Dutra não conteve a provocação eperguntou.- Quem é o filho daputa do Agildo Barata?O capítãorevolucíonárío respondeu,furíoso:- O Agildo Baratasou eu! O filho da puta és tu?A revolução chegavaao fim com um palavrão, duasdezenas de mortos ecentenas de presos. E os comunistas,aliancistas esimpatizantes começavam a ser vitimadospela maior caçadapolícíal que o país conhecera. Os ofíciais derrotados deixaram o 3 ° RIfestivamente, de braços dados e dandovivas à revolução. Na delegacia depolícia, para ondeforam levados em ônibus emprestadosao Exército pelacompanhia canadense de eletricidadeLight de Power,Agíldo conversou alegremente com osrepórteres e contoudetalhes da batalha da madrugada.Quando osjornalistas quiseram saber as razões do levante, ele não tevedúvidas em exibir o bilhete de Prestesdeterminando a horaem que a revolta deveria começar.Minutos depois,oficiais, cabos, sargentos e soldadosforam levados para aCasa de Detenção, um enorme presídio na rua FreiCaneca, no centro da cidade, transformado em prisãopolítica.O estado de sítiodecretado na antevéspera pelopresidente daRepública deixa o governo livre para 106 desencadear arepressão. Investido de poderes absolutos ochefe de polícia doDistrito Federal, capitão Filinto Müller, proíbe o portede armas no Rio de Janeiro e estabelece que ninguémpode sair da cidade sem autorização esalvo-conduto daDelegacia Especial de Ordem Social ePolíticas chefiadapor um homem de sua absoluta confiança, o tambémcapitão Emílio Romano. As fichas de"extremistas",anarquistas, comunistas, socialistas, trotsquistas e membros oumeros simpatizantes da Aliança Nacional Libertadorasão transformadas em mandados deprisão. Osagitadores mais notórios e os suspeitos decomprometimento como Partido Comunista são levadospara o quartel-generalda Polícia Especial, no morro deSanto Antônio. Empoucos dias já se sabe que "ir para omorro de SantoAntônio" significa ser submetido às maisbrutais formas detortura. Filinto Müller quer pegar aponta do novelo darevolta de qualquer jeito, e ninguémestá a salvo: entreos primeiros alcançados pela rede jogada sobre o paísestão Roberto Sissõn, Francisco Mangabeira, osintelectuais Castro Rebelo, Luís Carpenter,Leônidas Rezende eMaurício de Medeiros. Contra os suspeitos de Idéiasextremistas, mas que não as colocaram emprática, Filintoimpõe uma pena mais branda: a perda doemprego. Para dar oexemplo, um dos primeiros alingidos é o própriosecretário da Educação do DistritoFederal, o professorAnísio Teixeira. A polícia requisita aoLloyd Brasileiro onavio Dom Pedro 1 e transforma-o emprisão flutuante, aolargo da baía da Guanabara. A voragem da repressão égrande: o navio logo está cheio assimcomo as galerias decelas na Casa de Detenção, onde centenas de presos esuspeitos se amontoam à espera de umaacusação formal. Umacaravana de ônibus da Light retira400 soldados da Casade Detenção e leva-os até o cais Pharoux, no centro da cidade, de onde sãoembarcados paraa ilha das Flores -que a cada dia passaria a recebernovas levas deprisioneiros. No final do mês milhares depessoas haviam sidopresas em todo o país e os porõesdo Dom Pedro Ireceberam suas três primeiras hóspedes:io7Maria Werneck deCastro, Catharina Landeberg e Amanda Alberto Abreu,dirigentes da União Feminina Brasileira, organizaçãoligada à ANL, acusada pelas autoridades de ser umafachada do Partido Comunista. A guerraaos comunistas ganhaadeptos importantes: as investigações passam a contarcom a colaboração de agentes doserviço secretobritânico, o Intelligence Service e, comenta-se abertamenteentre os policiais cariocas, da assustadora GeheimeStaatspoltzei, a Gestapo nazista. Um mêsdepois de declaradaa guerra contra os comunistas, uscabeças ainda estãoà solta - o estado de sítio é prorrogado para permitirque as investigações prossigam. O Natal encontra umBrasil transformado em praça de guerra,imerso em terror.No dia 26 dedezembro o jovem médico Pedro hIavaestá passando deambulância pela rua Prudente de Moraes, em Ipanema, acaminho do trabalho, e chama aatenção do motoristapara a beleza de uma moça deaparênciaestrangeira que cominha pela calçada. Quando amoça chega à esquinada rua Paul Redfern, Nava se surpreende com a reaçãodela, que dá meia-volta e retornacorrendo, como sefugisse de alguém. O médico espichao pescoço paratentar identificar o que tanto aterrorizoua jovem e vê, a meiaquadra dali, dezenas de policiais àpaisana, jogandodentro de um camburão um casal também com jeito deestrangeiro. A moça era Olga Benarioe a polícia deFilinto Müller chegara à casa de Sabo eArthur Ewert.Olga e Presteshaviam retornado à casa da rua Barãoda Torre na manhã dodia 27 de novembro, tão logochegou ao aparelhoda Vila Isabel a notícia do fracasso darevolução. A políciaestabelecera barreiras em cadaquina da cidade, masconcentrara suas forças nasimediações da Urca,perto do 3:" RI. Graças a isso, elespuderam chegar aIpanema, levados pelo major Cunha Cruz,sem serimportunados. Os trinta dias que transcorreramaté a prisão deEwert submeteram o casal a um regimede clandestinidaderigorosa. Milítantes do Partido queainda não estavamgueimados eram utílizados como pombos-correio entre adireção do PC e o comando revolucionário. As poucasreuniões que realizaram foram cercadasde um rígido esquemade segurança. Ainda que seu rostodaqueles dias -barbeado, sem bigodes e de cabelo curto- tivesse pouco ounada em comum com as fotografiasestampadas nosjornais, Prestes sabia que estava sendocaçado nas ruas enão podia se arriscar. Olga reforçou avigilância em tornodele e saía raras vezes, apenas paralevar ou trazeralguma mensagem entre a sua casa e a dosEwert, a poucospassos dali. Em ocasiões muito especiais,quando a escolta dePrestes estava a cargo de alguém deabsoluta confiança ebem armado, ela se dava ao luxo depassar parte damanhã com Sabo, tomando banho de marna praia de Ipanema.Na manhã do dia 26de dezembro ela levava algunsapontamentos escritospelo marido sobre a situação doPartido para queEweri os visse, quando, ao chegar naesquina da PaulRedfern, apavorou-se com a confusão naporta da casa dosamigos. Olga ainda pôde ver ArthurEwert ser atirado apontapés dentro de um camburão evários homensentrando atrás dele. Sabo era arrastadaà força e levadapara outro veículo. Brandindo ameaçadoramentemetralhadoras e fuzis, os policiais afastavamos curiosos que seaglomeravam à porta da casa. Olgatemeu que, secorresse demais, poderia chamar a atençãode alguém, mas umsegundo de demora poderia ser fatal:se a polícia játivesse conseguido o endereço deles, eminstantes a casa daBarão da Torre também estaria sendoinvadida. Ela subiuaos saltos a escada que levava aosegundo andar, ondePrestes trabalhava. Misturandoalemão, português etrancês, ela agarrou-o pela mão e gritou:- Vamos sair daquijá! Sabo e Ewert acabam deser presos nesteinstante. Eu vi a polícia levá-los e agorapodem estar vindopara cá!Não havia tempo depegar roupas, papéis, coisaspessoais, nada.Prestes juntou a papelada espalhada sobre amesa, atirou-a nocofre guardado pelos explosivos de 109Gruber e bateu aportinhola com força. Olga aindapensou em levarconsigo o cachorro policial que ganhara depresente do marido,mas logo desistiu da idéia: seria umdespropósito fugirda polícia levando um cachorro pelamão. Os dois saírampela rua pretextando naturalidademas tentando aomesmo tempo escapulir das imediaçõeso mais rápidopossível. O primeiro táxi que passoulevou-os aCopacabana, ao apartamento onde vivia VictorBarron. Ali, emrelativa segurança, poderiam entrar emcontato com adireção do Partido, que estava providenciando novosaparelhos em lugares diferentes da cidade,certa de que a raziado capitão Filinto Müller acabariachegando perto doscabeças. Tanto Prestes quanto Olgasabiam o endereço donovo aparelho que lhes tinha sidoreservado - uma casatérrea na movimentada rua NossaSenhora deCopacabana - mas, como ignoravam de queforma a políciachegara até os Ewert, temiam que oesconderijo pudesseter sido estourado antes mesmo de serocupado. Só quando anoite chegou, com a certeza de quea polícia não tinhaconhecimento do lugar, é que VictorBarron instalou ocasal no carro Graham Page e, depoisde dar algumasvoltas no quarteirão para certificar-se deque não estavamsendo seguidos, nem a casa guardadaé que os deixou nolocal em que passariam os próximosquinze dias, atéconseguirem outro mais seguro. Na manhã seguinte Olgatrouxe para Prestes os jornais do diae uma notíciaintrigante: a imprensa não dava uma linhasequer sobre aprisão de Sabo e Arthur Ewert. o quepermitia duasinterpretações. Ou Filinto sabia quem tinhanas mãos - e naquelemomento estaria usando seuscostumeiros métodospara arrancar-lhe informações e, sódepois, exibi-lo aosjornalistas - ou então a polícia aceitara a fachada e nãoconseguira estabelecer relação entreo"norte-americano" Harry Berger e a frustrada insurreição do mês anterior.O próprio Ewertchegou a ter esperanças de que a polícia nãodescobriria sua verdadeira identidade. Que ocidadão americanoHarry Berger houvesse participado darevolta não eraassim tão grave - o governo brasileirocom certeza otrataria como a tantos estrangeiros "indesejáveis";iria deportá-lo simplesmente. Seria o diabo, noentanto, sedescobrissem que alí estava um dirigente daIII Internacional edo Partido Comunista alemão. Nocamburão, a caminhodo quartel da Polícia Especial, suaexpectativa sedesfez.Até então, ninguémlhe fizera, a ele ou a Sabo, qualquer pergunta.Dezenas de policiais tinham ínvadido suacasa trazendo umverdadeiro arsenal nas mãos: pistolas,fuzis, metralhadoras.Enquanto ele e a mulher eram arrastados para fora,quatro homens e o que ele entendeuserem duas"testemunhas" - que chegaram junto coma equipe - ficaramna casa, recolhendo tudo o queencontravam. Nocamburão ele foi sentado num banquinhode lata e teve cadauma das mãos algemada a um canode ferro soldado nacarroçaria do veículo, atrás da suacabeça. Um dosquatro homens que se aboletaram comele no carropolicial pareceu-lhe louro e esbranquiçadodemais para serbrasileiro. Colocando no colo a metralhadora, o policialtirou de um bolso do paletó um quebranozes de ferrv epassou a abrir as avelãs que tirava dooutro bolso.Subitamente, com a mesma naturalidade comque partia as frutasnatalinas, ele segurou a mão esquerda de Ewert, presano cano pela algema, ajustou o quebra-nozes em tornoda falange de seu polegar e, com todaa força, esmagou-lheos ossos do dedo. A dor empapou desuor o rosto deEwert, que não emítíu um úníco som.Mastigando pedaçosde avelã, e sempre impassivel, o policial murmurou com a boca quase encostadaao seu rosto:- Kommunist Son voneiner Hc~re. . .Não foi o palavrãoque gelou Ewert. Aquela não eraa primeira ecertamente não seria a última vez que alguém o chamava de"comunista filho da puta", Aquilopronunciado emalemão perfeito, sem nenhum sotaque,entretanto, oaterrorizou: se aquele era um policialalemão, comoparecia, ele não sairia vivo do Brasil. E, sesaísse, talvez fosseaté pior: seria deportado para osporões da Gestapo,em Berlim. Então era verdade - aGestapo estavaajudando Filinto Müller. 111Quando o capitãoFilinto Müller selecionou os agentes para a ação narua Paul Redfern, já sabia quem eraHarry Berger. Umasemana antes o delegado Antonionavarro Pereira, umdos muitos policiais colocados a suadisposição, trouxeraaté seu gabinete um depoimento quemerecia aconsideração do chefe de polícia. Entre as dezenas de comunistaspresos, estava Josué Francísco deCampos, conhecidopelo codinome de Bagé, que fizeradeclaraçõesinteressantes. Bagé contou que meses antestinha sido convidadopelo Comitê Central do PartidoComunista paraassistir, num sítio em Jacarepaguá, nasimediações do Rio, auma palestra feita por um estrangeiro,aparentementeamericano, sobre a revolução chinesa.Durante uma hora efalando sempre em inglês, o estrangeiromostrou ao pequenogrupo de comunistas brasileiros,num mapa da Chinapregado na parede, o que tinha sidoa Grande Marcharealizada por Mao Tsé-tung. De possedas informaçõesdadas por Bagé, Filinto Müller entrouem contato com oIntelligence Service na esperança deque esteidentificasse o misterioso conferencista de Jacarepaguá. Foramnecessários poucos dias para que a fichacompleta viesse àsmãos de Filinto. O louro e corpulentoespecialista emrevolução chinesa era o ex-deputadocomunista aoReichstag e ex-dirigente do Cumintern ArthurErnst Ewert, queusava também os nomes de HarryBerger e ArthurBrown. O serviço secret :nglêç haviaacompanhado opériplo lde Ewert desde que ele saíra deXangai com destino aAmsterdã, usando o passaporteamericano em nome deHarry Berger. Da capital holandesa ele fora aMoscou com outro passaporte, retornaraa Amsterdã e daí, denovo como Harry Berger, passarapor Montevidéu atéchegar ao Brasil, onde se juntaria asua mulher. Emboracontrolando-o de perto desde o navioque o trouxera deMontevidéu ao Rio, e tendo chegado aorequinte deinterrogar até o dono do cominhão que transportou sua mudançado porto do Rio ao hotel da ruaMarquês de Abrantes,o serviço secreto inglês perdera apista de Ewertpoucos dias depois. Mas não havia qualquer dúvida de que ohomem no sítio dos comunistas em 112 Jacarepaguá era ele,Arthur Ewert, sob o nome de HarryBerger. Com a cidadeocupada por milhares de policiais,as saídas fechadas ecentenas de comunistas e simpatizantes presos,Filinto Müller não teve dificuldades parachegar até a casa darua Paul Redfern.Junto com umamontanha de papéis, documentos,manuscritos,manifestos, cartas e bilhetes apreendidos nacasa dos Ewert, apolícia obteve da doméstica DeolindaElias informaçõessobre todos os freqüentadores doaparelho e,inclusive, um endereço que ajudaria a pegar outraponta do novelo. Aempregada declarou ao policial Francisco Jullien que umdos casais estrangeiros que participava das reuniõesnoturnas - um senhor de cabelosclaros e sua esposa,uma estrangeira que mancava de umaperna - vivia apoucos metros dali, na esquina da PaulRedfern com a ruaPrudente de Moraes: eram Alphonsinee seu marido, LéonJules Vallée, o homem das finanças.Deolinda disse mais:também a uma quadra e meia dedistância, na ruaBarão da Torre, vivia o casal com quemos Ewert tinhamrelações mais estreitas. Era a casa dePrestes e Olga, queminutos depois seria esquadrinhadacentímetro acentímetro por um incomum aparato policial. Aparentandosaber que não corriam riscos, dois investigadoresarrombaram o cofre embutido na parede doquarto do casal.Nem a lanterna"Eveready" entupida de dinamitenem a bomba contendomeio quilo de trotil explodiram:os policiais tiveramLivre acesso ao dinheiro e a maisdocumentos, cartas,panfletos, mapas e anotações sobrea revolução que nãotinha dado certo. Longe de revelarincompetência dePaul Gruber, a falha no sistemaexplosivo - que apolícia anunciou escandalosamente aos jornais como sendo uma"máquina infernal" - pareciadeliberada econfirmava uma suspeita que muitos membrosdo comandorevolucionário já tinham, mas nunca haviammanifestado. Emborafosse homem de confiança do PCalemão e doComintern (meses antes de vir pará o Brasil, 113 Gruber foi arroladoem processo num tribunal nazistacomo"funcionário graduado" do Partido Comunistaalemão), ele era, naverdade, um espião a serviço do Intelligence ServiceBritãnico, A comprovação disto sósurgiria quatro anosdepois, e ainda assim sob a forma deinformação a queraras pessoas tiveram acesso: presonos últimos dias de1940, Gruber corria o risco de serdeportado pelas autoridadesbrasileiras para seu país deorigem. Ao tomarconhecimento do fato, a direção doserviço secretobrítânico entrou em ação para salvar apele de seu agenteinfiltrado na cúpula comunista. O consultor diplomáticodo Foreign Of jice - o Ministério dasRelações Exterioresbritânico - procurou a embaixadabrasileira emLondres e solicitou ao embaixador SouzaLeão que interviesseem favor de Gruber "tendo em vistaos serviçosprestados na denúncia do movimento comunista de 1935".Souza Leão transmitiu imediatamente oapelo britãnico àPresidência da República, no Brasil,através detelegrama, concluindo a operação que salvariaGruber, não obstanteser agente infiltrado entre os comunistas, de morrernuma masmorra nazista. Cuidadosocomo agente doplo,Gruber conseguiu confundir até asautoridadesdiplomáticas e policiais dos Estados Unidos.Poucos dias após suaprisão, o conselheiro da embaixadaamericana no Brasil,William C. Burdett, transmitia áosecretário de EstadoCordel Hull um informe "estritamenteconfidencial" sobre o personagem, afirmando terprovas de que elerecebera, "de fontes nos Estados Unidos", nadamenos que 40 mil dólares para financiar suasatividades noBrasil. Colocado discretamente em liberdade, Gruber desapareceucomo se nunca tivesse existido.O que foramexatamente os "serviços prestados" porGruber aoIntelligence Service - depois retransmitidospor Londres aocapitão Filinto Müller - são segredosque nenhum dos doislados jamais revelaria. A verdadeé que tanto ele comoErika, sua mulher - datilógrafa deEwert e motorista dePrestes - tinham conhecimento depraticamente todosos planos da insurreição de 27 denovembro. 9."Mister"Xanthakyentra em cena115 No começo da tarde ocapitão Filinto Müller foipessoalmente atéIpanema examinar o tesouro caído nasmãos da polícia eque ainda estava sendo classificado e encaixotado pordezenas de agentes. Era inacreditável.Além de dólares,gulden holandeses francos franceses epesos argentinos, apolícia apreendeu mapas e regulamentos do EstadoMaior do Exército sobre "exercícios decombate daaviação", "emprego de tiro" e "organizaçãode ligaçóes etransmissões de campanha". A papelada deixada por Prestes e Olga no cofreera suficiente para incriminar ou pelomenos deixar sob suspeição centenas depessoas, algumasidentificadas apenas por um codinomemas muitas delas comnome, sobrenome e endereço completos. FilintoMüller folheou, triunfante documentos doComintern, papéissecretos do Exército hrasileiro cartasassinadas por"Vilar" ou "Garoto" a dirigentes do PC eda Aliança NacionalLibertadora em todo o país, além derascunhos debilhetes de Prestes a Roberto Sisson, Hercolino Cascardo eAgildo Barata contendo instruções paraa revolta, esquemasdetalhados sobre o funcionamento decélulas cvmunistas,mapas indicativos sobre como sintonizar a estação derádio montada por Barron, bilhetesdecodificando oscodinomes de dirigentes comunistas ede personalidadesque aÍudavam o Partido, cartas 116 trocadas entrePrestes e o general Miguel Costa, instroçõespara o funcionamentodos comitês estaduais do PC apóso fracasso darevolta, cartas dando clara indicação de queo prefeito doDistrito Federal, Pedro Ernesto, era umaliado dosrevoltosos, e, por fim, oito folhas de papelalmaço em quePrestes treinara, repetidamente, a maneiramais regular deassinar seu novo nome: Antônio Vilar.O acervo encontradopela polícia na casa de ArthurEwert não era menosabundante. Arquivadas em pastas,lá estavamorientações para os chefes de células em sindicatos operários,cartas trocadas entre dirigentes do PCe da ANL em todo opaís, cópias de instruções à cúpulado PartidoComunista, 91 livros e até cartazes e materialdidático sobre arevolução chinesa. Alguns documentoschamaramespecialmente a atenção dos policiais: os relatórios minuciosossobre a vida pessoal e as atividades dechefes da políciapolítica (incluindo detalhes sobre os encontros mantidos numdeterminado dia pelo delegadoespecial da políciapolítica, capitão Miranda Correia) eum pequeno pedaço depapel encontrado numa gaveta.Era o salvo-condutodado por Prestes a Berger na vésperada revolta. Antes deretornar ao seu gabinete, o capitãoFilinto Müllerpassou mais uma vez pela casa de Olga ePrestes e deu umaenigmática ordem aos investigadores:- Antes de fechar acasa, desamarrem aquele cachorro que está noquintal e levem-no para o meu gabinete.Ao chegar à Polícia,Filinto Müller comunicou oficialmente ao presidenteGetúlio Vargas e ao ministro daJustiça, VicenteRao, o resultado da operação realizadanaquela manhã. E nãoobstante já tivesse informaçõessuficientes doIntelligence Service sobre a verdadeiraidentidade de HarryBerger, decidiu confirmá-las juntoao Departamento deEstado norte-americano - para isto,tinha um pretextoformal: até prova em contrário. o presoda rua Paul Redferne sua mulher eram cidadãos dosEstados Unidos,portadores de passaportes legítimos emitidos em Nova York.Imediatamente após ser consultadopelo chefe depolícia, o embaixador norte-americano no 117 Brasil, Hugh Gibson,transmitiu um telegrama cifrado aosecretário de EstadoCordel Hull, pedindo instruções. Aprimeira consulta deHull foi feita a J. Edgard Hoover,diretor do FBI, edeu poucos resultados. Não havianenhuma ficha emnome de "Harry Bergei" nos arquivosdo FBI, e a pasta deArthur Ernst Ewert era magérrima,contendo apenas umavaga referência, datada de cincoanos antes, dando-ocomo "um proeminente comunistaalemão". Umdespacho de 1930, assinado pelo próprioHoover, lançavadúvidas até mesmo sobre a passagem deEwert por Nova Yorkem 1927, durante a convenção doPartido Comunistaamericano. O secretárío de Estadoordenou então queRaymond Geist, cônsul dos EstadosUnidos em Berlim,enviasse o mais rápido possível aWashington"dados biográficos, descrição física e impressõesdígitais" do místerioso amerícano (ou alemão) presono Rio de Janeiro.As referências feitas pelo embaixadorGíbson àdesenvoltura com que Serger lídava com assuntos chinesesremeteram as investigações de Cordel Hullao cônsul dos EUA emXangaí, Monnet Davis, a quem foífeito, sempre emtelegramas confidenciais, idênticopedido: biografia,fotos e impressões digitais de Ewert/Berger.Enquanto díplomatase agentes secretos esquadrinhavam arquivos emvários pontos do mundo, AMhurEwert e sua mulherElíse apanharam da polícia de FilintoMüller durante umasemana, sem que lhes fosse dirigidauma só pergunta. Asequipes e os métodos variavam acada par de horas -e ninguém perguntava nada, nemmesmo os seus nomes.A polícía quería primeiro quebraro moral dos presos,para depois começar os interrogatórios.Isolados na prísãodo morro de Santo Antônio,Ewert e Saboresistiam milagrosamente à violência depoliciais alemães ebrasileiros que se revezavam incessantemente. Ele estavacom o corpo coberto de hematomasproduzidos porsurras de cassetetes de borracha, a mãoesquerda aindainchada pelo golpe aplicado com o quebra-nozes, o ãnus eo pênis machucados por choques elétricos e objetos introduzidosdurante as sessõesde 118 tortura. Sabo tinhaas costas, os seios e as pernas cobertas porminúsculasqueimaduras feitas com pontas de cigarros elanhos por todo ocorpo, deixados pelas chibatadas quelhe aplicava umjovem policial alemão. Quandodecidiram finalmente iniciar os interrogatórios,a violênciaaumentou, mas não adiantou nada. Nemmesmo os pioressuplícios Foram suficientes para arrancar qualquerinformação de Ewert ou de Elise. Os policiais resolveramaplicar torturas alternadamente no marido e na mulher,deixando sempre um ou outro testemunhando. Elise eraviolentada por dezenas de soldados, aFrente do marido.Berger era submetido a um pelotão defuzilamento combalas de festim. Elise era colocada dentro de um caixão dedefunto e "enterrada" viva. Tudo issusem que qualquer umdos dois tivesse podido dormír umminuto desde o diada prisão. Quando as sessões detortura se interrompiam,de madrugada, para que outraequipe pudessereiniciar o trabalho, os dois eram obrigados a permanecer depé, impedidos de fechar os olhos,Em uma dessasnoites, como Ewert tivesse sido flagradocom a cabeça pendidapara trás, de olhos fechados, opolicial de plantãoficou furioso: correu até o escritóriudo presídio, apanhouuma pesada máquira de Escrever iamarrou-a ao pescoçodo preso. Ewert passou o resto danoite sem poder nemse eurvar, com a máquina ameaçando quebrar-lhe opescoço.Ele e a mulheracabaram por perder a noção do tempo que se passaradesde a captura. Os policiais ficavamintrigados com aobstinação dos dois em não falar absolutamente nada:afinal, os documentos encontrados nacasa revelavampraticamente todas as atividades de ambos no Brasil. Nocomeço de janeiro, Ewert arriou pelaprimeira vez. Foiquando dois policiais, um alemão e umbrasileiro,deixaram-no sem roupas, com as pernas e osbraços abertos emxis, algemados à grade de uma dascelas. O alemãotrazia nas mãos um pedaço de arame liso.de cerca de meiometro de comprimento, e ao agachar-seà sua frenteadvertiu-o, falando em seu idioma: 119 - Agora quero ver sevocê fala ou não fala, comunista filho da puta.Nós vamos assar você por dentro.Falou e enfiou umpalmo de arame dentrouretrade Ewert. O presoresistia, mas aí o policial brasileiroapareceu com umpequeno maçaríco para solda, com obico em chamas. Oalemão segurou com delicadeza upênis de Ewert, comoum médico o faria, e passou aesquentar com omaçarico o pedaço de arame que ficarapara fora. Dagarganta de Ewert o único som que os policíais ouvíram foi ummugido, como de um boi. Emseguida, seu corpodesabou, pendurado na grade pelas mãos.O policialbrasileiro parecia feliz em ver alguém tãoresistente e riuadmirado ao comentar com o nazista:- E doutvr... Pareceque desses teus patrícios aínós não vamosarrancar nada mesmo.Os investigadoresconvenceram os capitães FilintoMüller e MirandaCorreia de que o casal não falaria. Seus chefes quisessem,eles poderiam eliminá-los, masestava claro queEwert e Elise morreriam sem dizer umnome sequer. Nemmesmo o que a polícia já sabia. Nodia 6 de janeiroFilintv decidiu anunciar à imprensa aprisão efetuada onzedias antes. Para rechear o noticiário,selecionou algunsdos mil e trezentos documentos apreendidos na casa daPaul Redfern e apresentou aos jornalistas uma detalhada biografia do casalpreso como sendoo resultado deinvestigações da polícia brasileira - embora o único trabalhoque aquilo eustara à polícia política tivesse sido ode traduzir o material enviado peloIntelligenceService, a Gestapo e o Departamento deEstado. Ewert eraapresentado como "o orientador das alividades comunistasno Brasil e em toda a América doSul". Como apolícia vinha negando a existência de torturas aos presospolíticos, os jornalistas não puderamver o casal. Asfotografias publicadas pela imprensa nodia seguinte tinhamsido feitas momentos após a prisão emostravam um ArthurEwerx corado e robusto, vestindoum elegante ternobranco.Naquele mesmo dia,num lance de sorte, a políciaconseguiria pegaroutro ínímígo importante. O capitão 120 Miranda Correiaordenara que policiais disfarçados mantivessem sobrigorosa vigilância um prédio de apartamentos na avenidaPaulo de Frontin, sob suspeita deesconder um aparelhoutilizado por intelectuais comunistas- entre eles o jovemescritor baiano Jorge Amado. Umdos"tiras" encarregados de vigiar o edifício teve suaatenção atraída paraum morador cuja fotografia ele supunha ter visto nosarquivos policiais, e que circulavadespreocupado comsua jovem e bela mulher. Quando ocasal foi preso paraaveriguações, a polícia descobriu quetinha nas mãosninguém menos que o secretário-geral doPartido Comunista, obaiano Antõnio Maciel Bonfim, de31 anos, tambémconhecido como Adalberto de AndradeFeroandes ouMiranda. Até então nenhuma relação haviasido estabelecidaentre o Miranda citado nos documentosencontrados nascasas de Prestes e Ewert e o Bonfim cujaficha policial, decinco anos antes. dava-o modestamentecomo"identificado por crime de subversão - anarquismo". Junto comele foi presa sua companheira, ElviraCupelo Colônio, de20 anos, conhecida também como ElzaFernandes ou simplesmenteGarota. Analfãbeta, Elviracontou aos policiaisque era empregada doméstica atéconhecer Bonfim numapraia do Rio e se apaixonar porele- Ao declarar queviera a pé de sua terra natal até oRio de Janeiro, ospoliciais ficaram em dúvida se se tratava de uma louca oude uma experiente militante treinada por Moscou. Elaera de Sorocaba, no interior deSão Paulo, a 480quilõmetros de distância da capitalfederal.O material recolhidono apartamento do chefe do PCbrasileiro, emboramenos copioso que o das duas casasde Ipanema, eraigualmente comprometedor: dezenas decópias de cartasenviadas por Miranda aos comitês regionais do Partido,relatórios recebidos de todo o país e doExterior,questionários dirigidos por ele a dirigentes doPC em váriosestados, devidamente respondidos, manuaispara a fabricação debombas e indicações sobre comorecorrer ao SocorroVermelho Internacional, organizaçãocriada pela IIIInternacional para ajudar os comunistas 121 em apuros. No meiodaquela montanha de papel a políciaencontrou o"filé mignoti", segundo a expressão de umdelegado: minuciososbalancetes contendo a contabilidadedo Partido Comunistanos últimos meses. Ali estavamregistradas aentrada de recursos do Partido e, compormenores dignos deum caprichoso guarda-livros, todas assaídas: desde ossalários pagos aos dirigentes até o dinheirogasto na compra dejornais, roupas e no pagamentodos aluguéis, contasde água e luz dos aparelhos.A notícia da prisãode Miranda e Elza, divulgadaquatro dias depois,deixou Prestes e Olga ainda mais aprecnsivos: o secretáriodo Partido era uma das poucas pessoasque conheciam oendereço do aparelho onde se escondiamnaquele momento, emCopacabana. Era chegada a horade mudar de casaoutra vez. Como as prisões se multiplicavam em proporçãogeométrica, era preciso reduzir aomínimo o número depessoas que soubessem do novoaparelho. Por isso,decidiram eles mesmos procurar umanova casa. Depois depercorrer as páginas de anúncios doJornal do Brasil,Olga e Prestes se detiveram numapequena ofertapublicada na seção "Casas e cômodos nos subúrbios":Aluga-se por 220 milréis uma boa casa, limpa eencerada, com doisquartos, duas salas, fogão a gás, jardim,quintal com árvoresfrutíferas, própria para família detratamento. RuaHonório, 279. bondes de Cachambi Meyer.Parecia ser o ideal.Tudo indicava que a polícia concentrara suasinvestigações e vigilância na zona sul e nocentro da cidade. Seera assim, nada melhor do que trocar Copacabana peloMeyer, um bairro operário com 70mil habitantes - odobro da população conjunta deCopacabana eIpanema. Manoel dos Santos, sapateiro e militante do PC,foiencarregado de alugar a casa, sabendoapenas que seriadestinada a "um companheiro e suamulher ". Erauma casinha modesta, suficientemente discreta para receberPrestes e Olga. Além deles, o próprioManoel e sua mulher,Júlia dos Santos, iriam morar lá até 122 que o Partidodeterminasse o novo destino do "Cavaleiroda Esperança".Apresentando-se como chefe da seção delâmpadas da GeneralEletric, Manoel procurou o português José Gomes,dono do imóvel. Sem fiador para avalizar a operação,propôs ao proprietário pagar antecipadamente quatro mesesde aluguel e o negócio acabousendo fechado por800 mil réis. Dois dias depois ele semudava para o Meyer,esperando a chegada dos novoshóspedes. Casoalguém perguntasse, ele e a mulher diriamque, para diminuir opreço do aluguel, resolveram sublocar um dos quartos aum casal, a quem tambémforneceriam almoço ejantar.Apenas um dirigentedo Partido - cujo nome Prestesnão revelaria jamais- foi informado de que o aparelhode Copacabana estavasendo trocado por outro "situadopara os lados doMeyer". Em meados de janeiro Olga ePrestes valeram-seoutra vez da ajuda de Victor Barron- que não havia sidoimportunado pela polícia, e cujapresença no Brasilera aparentemente ignorada pelasautoridades - paramudar de esconderijo. Barronesperou queanoitecesse e discretamente levouos no GrahamPage até asimediações da casa da rua Honório. Além dedocumentos pessoaisem nome de Antônio e Maria Bergner Vilar, Olga ePrestes levavam pouca coisa para o novoendereço: umapequena bolsa de mão com meia dúzia depeças de roupa ealguns documentos do Partido. A partirdaquele momento,Prestes passaria a ter contato com adireção do Partido -Miranda fora substituído, depoisde sua prisão, porLauro Reginaldo da Rocha, o Banga- através demensageiros que ele mesmo escolheria. Suaprimeira recomendaçãofoi que a nova direção passassedesde então aprovidenciar outro aparelho para ele eOlga - caso houvessequalquer suspeita de que a políciadesconfiava damudança para o Meyer, eles deveriam sairde lá incontinenti.A pretexto de apurara origem dos passaportes norte-americanosutilizados por Ewert e Elise, o governo dos 123 Estados Unidosentrou para valer nas ínvestigações sobrea "conexãobrasileira" do movimento comunista internacional. O secretáriode Estado Cordel Hull exigiu que uminvestigador de seupaís passasse a trabalhar com a polícia brasileira naelucidação da "revolução comunista".R. C. Bannerman,chefe da "Seção de Agentes Especiais"do Departamento deEstado (um escritório de investigações que, àquelaépoca, exercia algumas das funções hojeatribuídas à CIA -Agência Central de Inteligência) transmitiu a ordem aoembaixador Hugh Gibson, no Rio deJaneiro. O"agente especial" escolhido foi o novaiorquinoTheodore Xanthaky,um ex-bancário de 38 anos que, entre1920 e 1922,trabalhara como "escrivão" da embaixadaamericana no Brasil.Xanthaky falava fluentemente português e espanhol.A primeira tarefa do"assistente especial" do Departamento de Estadofoi interrogar Ewert e Elise, presosno morro de SantoAntônio. No fim da tarde de 14 dejaneiro, devidamentecredenciado pelo embaixadoramericano, Xanthakyprocurou o capitão Miranda Correia "o encarregado de todo o departamentoanticomunista",diria o agente maistarde, em seu relatório enviado aWashington - paraacertar seu encontro com os presos.Provavelmente paraevitar a curiosidade dos jornalistasque passavam o diaem busca de notícias na delegacia,Correia pediu queXanthaky retornasse às 10 da noite.Na hora marcada oamericano foi levado pelo policialFrancisco Jullienaté o morro de Santo Antônio. No caminho, Jullien achou bom advertir oestrangeiro para asituação em que seencontravam os dois presos:- O casal está meioarrebentado pelo pessoal dointerrogatório, e hávários dias não temos permitidosequer que dormam.Nem sei se isso vai adiantar: até agoranem o alemão nem amulher pronunciaram uma só palavra. Nem mesmoadmitiram que são comunistas.No portão da prisãoXanthaky foi recebido pelo policial José TorresGalvão, que se apresentou como"carceiro-chefe"daquele xadrez. Sorridente, Galvão não  124 escondia suaadmiração pela resistëncia física de Ewert eElise:- Mister Xanthaky,eu nunca vi nada parecido emtodos esses anos depolícia. O alemão está apanhando hátrês semanas como umcão danado e não abriu o bico.Nem ele nem amulher. Sou obrigado a tirar o chapéu:esse comunista éfantástico. Mas o senhor vaí encontrá-losem um bom estado.Hoje à tarde o capitão MirandaCorreia mandoususpender o cacete até de noite, porqueia aparecer visitailustre. Pode entrar que eles estãobonitinhos.Theodore Xanthakyficou impressionado com o queviu na cela ondeGalvão o deixou. A pessoa que estava ali,sentada sobre umcaixote de madeira, não guardava amenor semelhança como alemão robusto cujas fotos examinara na embaixada.Ewert estava dramaticamente enfraquecido, tinha opolegar esquerdo roxo e inchado comouma fruta e asmarcas e cicatrizes espalhadas pelo corponão deixavam dúvidassobre o que Galvão lhe contara:o homem apanharacomo um animal. Ewert levantou osolhos e o visitantese identificou:- A embaixadarecebeu uma informação anônimade que o senhordesejava comunicar-se conosco. Comoestá de posse de umpassaporte amerícano, fizemos todoo esforço possíveljunto à polícia brasileira para que eupudesse vir até aquiouvir a sua história.Arthur Ewert foisincero, e respondeu em um inglêstão fluente quanto ode seu misterioso interlocutor:-  Não pedipara ver ninguém de nenhuma embaixada, mas não possodeixar de reconhecer que é bom verentrar alguém sem umchicote ou um porrete na mãoHá dias que não deixam a mim ou à minha mulher dormir um só instante,e temos sido violentamente surradosdurante todo essetempo. Qualquer pessoa que possa interceder para queacabe essa barbaridade será bem-vinda.- O fato do senhorpossuir um passaporte americano nos deixapreocupados com a sua sorte. O senhortem amigos ouparentes nos Estados Unidos com quemqueira comunicar-se?125Ewert sorriu pelaprimeira vez:- Sim. Tenho umamigo nos Estados Unidos. Seunome é Earl Browder.- O senhor gostariaque o Departamento de Estadose comunicasse com osenhor Browder?O alemão sorriu denovo, irônico e desconfiado:- Acho que não ouviudireito o nome do meu amigo.Earl Browder é osecretário-geral do Partido Comunistaamericano.Xanthaky era umprofissional. Logo entendeu queEwert sabia que,enquanto a visita dorasse, não haveriatorturas. E procuroutirar proveito da situação. Mudoude assunto, comentouuma entrevista publicada na revistaamericanaHarper"s sobre o incêndio do Reichstag, ocorrido em fevereiro de1933, falou de temas genéricos e semimportância. Quandoimaginou que havia espaço paraperguntasindiscretas, percebeu que o preso também eraum profissional. Auma indagação sobre o casamento delecom Elise e aobtenção de passaportes "extra-legalmente",Ewert cortou aconversa com uma pergunta seca, malhumorada:- O senhor estátentando me interrogar?- Não, eu não estoutentando interrogá-lo e o senhortem toda a liberdadede se recusar a responder a qualquerdas minhasperguntas. Mas se espera algum tipo de ajudanossa, seránecessário estabelecer, para além de qualquerdúvida, suaidentidade verdadeira e a de sua esposa.Mudando de tática, oagente americano fingiusinceridade einventou uma nova história:-.- Nós temosinformações definitivas de que seu passaporte foi obtido a partir de umacertídão de nascimento verdadeira eestamos, portanto, convencidos de que osenhor é mesmo HarryBerger. Em relação à mulher queo senhor diz ser suaesposa, porém, a situação é diferente:temos razões paraacreditar que ela não se chama MachlaLencrycki, comoconsta do passaporte.Ewert perdeu apaciência e falou pausadamente, comfirmeza: 126 - Senhor TheodorcXanthaky: eu e minha mulherestamos sendoespancados há vários dias por policiaisnazistas e porrussos brancos emprestados à polícia brasileira. Eles estãotentando obter nomes e endereços que,sob nenhumacircunstância, eu ou minha mulher daríamos. Nenhum de nósdisse rigorosamente nada à polícia.E muito menosdiremos ao senhor.- Mas se o senhor seabrir comigo sua situação aquina prisão poderámelhorar.- Não tenho nenhumarazão para me abrir com osenhor. Tanto ospoliciais brasileiros como os alemães jásabem que meu nome éArthur Ernst Ewert e o da minhamulher é EliseSaborowski Ewert. Eles já sabem do meupassado. E asinformações que não tém, não será de mimou de mínha mulherque as terão. Nem eles nem o senhor.- Mas quem financiouo movimento aqui no Brasil?Ewert falava comcuidado, procurando lembrar-sedas informações deque a polícia dispunha:- O senhor sabe queos partidos mais poderososajudam os maispobres, mas aqui nós não precisávamosde muito dinheiro.Elise e eu vivíamos muito modestamente. Vocês criaramum mito sobre a ação da LegaçãoComercial Soviéticaem Montevidéu, o Yuamtorg, nasrevoluções daAmérica do Sul. Aqui no Brasil as grandesdoações eram feitasà Aliança Nacional Libertadora porproeminentesbrasileiros - um único indivíduo, porexemplo, chegou adoar cem contos de réis à ANL.Xanthaky queriasaber mais informações sobre arevolta e oenvolvimento dos comunistas estrangeiros comos militares. Ewertfalou apenas o que era conhecido dasautoridades:- A insurreição noNorte foi uma surpresa tantopara mim como paraPrestes. Eu, pessoalmente, não tivequalquer contato comos militares brasileiros. Esta erauma tarefa que cabiaao próprio Prestes.O agentenorte-americano percebeu que Ewert estavaquerendo encerrar aconversa. Ao se levantar, o presofez-lhe um pedido: 127 - Se for possível,converse com os policiais para quetransfiram minhamulher para esta cela em que estou.Embora ela, como eu,seja membro do Partido Comunísta, não teve ncnhumpapel alivo no Brasil. E caso euvenha a serdeportado e a embaixada americana possainterferir nisso,não gostaria de ir para a Alemanha. Seriao mesmo que pular dafrigideira para o fogo. Prefirodesembarcar em algumporto francês.Ao sair, Xanthakydirigiu a Ewert uma insólita pergunta:-- O senhor e suamulher tém alguma religião?Ele sorriu de novo:- Quando nascemoséramos cristãosJá era de madrugada quando Theodore Xanthakyiniciou sua segundamissão daquela noite, mais simples emenos demorada que aprimeira: interrogar Elise Ewert.Logo ao entrar nacela notou que também ela havia sidomuito espancada emachucada, embora parecesse estarem melhorescondições que o marido. EducadamenteSabo repetiu aoagente da embaixada americana o que eleouvira de Ewert: oque os policiais nazistas e brasileirosnão conseguiram compancadas ele não obteria com bonsmodos. Xanthakyinsistiu em saber mais sobre as alividades dela no Brasile os contatos do casal com dirigentescomunistas emilitares. Ela reiterou que nada tinha adizer:- Mesmo que soubessealgum nome e quisesserevelá-lo ao senhor,pouco adiantaria. As pessoas com quemmantive contatosempre se apresentavam com seus codinomes. Alguém que eutenha conhecido como Adalberto·por exemplo,certamente não se chama Adalberto, e terámais meia dezena denomes.Xanthaky procuroumemorizar o nome: Adalberto.E voltou à carga:- O serviço secretoinglês nos informou que a senhora utiliza também os nomes de KatheGussfeld, EthelChilles e Edith Blaser. Isto é verdade? Essasinformações dãoconta também de que a senhora esteve nos Estados Unidosem 1926. Isto éverdade? 128 - Não. Nada disso éverdade. Nem usei osnomes citados pelosenhor nem estive nos Estados Unidos em 1926.Xanthaky sabia quedali não surgiria nenhuma novi dade e resolveu irembora. Na saída,transmitiu aos poli ciais Galvão e Jullien o pedido deEwert para que a mulher fosse transferida para sua cela. Foi Galvãoquem respondeu: -Podemos tentar: se na porrada não conseguimos arrancarnada deles, quemsabe tratando bem? Mas se eles pensam que vão passar anoite na farra estãoenga nados. Vamos botar seis tiras alemães ládentro, para evitarexcessos e cochichos. Ao entrar no carro de Jullien,de volta à PolíciaCentral, Xanthaky escreveu em letras miúdas num maçode cigarros:Adalberto. Quando leu o nome para o capi tão MirandaCorreia, o chefe dapolícia política puxou de uma pasta a foto de umhomem de bigodinhofino, preso dias antes: - O que a alemã lhe disse nãofoi um exemplo aoacaso. O tal Adalberto já foi engaiolado por nós: éAntô nio MacielBonfim, o secretário-geral do Partido Comu nista. Oamericano,impositivo, exigiu de Miranda Correia que as informações quelhe passava sobre aconversa com os Ewert fossem mantidas em sigilo"para que elesnão percam a confiança em mim". Miranda Correia concordou: - Não sepreocupe com isso, mister Xanthaky. Posso Lhe assegurarque o senhor é oprimeiro e será o único estranho aos quadros da nossapolícia a ter oprivilégio de falar com os presos. Aqui o senhor temcarta branca parainterrogar quem quiser. - E quanto a Prestes, o senhortem notícias dele? -Como misier Xanthaky representa um governo que énosso aliado na lutacontra o comunismo, posso dar-lhe em primeira mãouma informaçãoconfidencialí ssima: há dias prendemos um casal debelgas, Léon JulesVallée e sua mulher, Alphonsine. Eles levavam nabolsa 129 uma fortuna emdinheiro, cuja origem não souberam ex plicar. Nossoshomens acreditam queLéon nos levará até Prestes. Mandei colocar o casalem liberdade comdois homens seguindo seus passos. Acho que nos próximosdias vamos botar amão no chefe deles todos. A propósi to, doutor, tantoa ficha de Valléequanto qualquer outra que interesse, estão a suadisposição. O doutorJullíen fará cópias de tudo o que o senhor quiser.Xanthaky queriasaber mais de Prestes: - Que acontecerá ao capitão LuísCarlos Prestes? - Aordem que temos é de não trazê-lo vivo. As primeirasluzes do diaapanharam Theodore Xanthaky ao lado de um operador decódigos da embaixada americana, transmitindo um minucioso telegrama aoDepartamento deEstado sobre a conversa que mantivera com Ewert e Elise. 10."Miranda" e Ghioldi vão falar 131 Ajudada pelaGestapo, pelo serviço secreto do Depar tamento de Estado epelo IntelligenceService britânico, a polícia de Getúlio Vargas eFilínto Müller iaaos poucos fechando o cerco em torno de Prestes. Asarrobas de doeumentos apreendidos em aparelhos eram esquadrinha das,tabuladas econferidas com declarações arrancadas com cassetetes echoques elétricosnas prisões cariocas. Dois meses depois da revolta, ogoverno tinha ummapa expressivo da rede montada por comunistas emilitares no Brasil.Faltavam poucas peças para que o quebra-ca beçasestivesse completo.Nos papéis encontrados nos aparelhos de Prestes,Ewert e Miranda, asinstruções in ternas e comunicações entre os chefesdo Partido e osmilitares que liderariam a revolta eram assinados comuma sigla - G.I.N. Apolícia sabia que eram iniciais dos três homensmais importantes darevolta: "G" era Garoio, codinome de Prestes; "N"era Negro, codinomedado a Arthur Ewert. O "I" era a inicial de Indio.Mas quem era Indio?Em um dos muitos depoímentos feitos à polí cia, acontrovertidaElvira, mulher do secretário-geral do PC, disse que"achava que eraum estrangeiro". A polícia só via alguma relação entreum dos doiscodinomes e seu ciono: Prestes era uma pessoa miúda -natural, portanto,que viesse a ser chamado de Garoto. Mas no caso de 132 Ewert a tese nãovalia - afinal ele não era negro. E o Indio, quemseria? A informaçãoque permitiu chegar ao terceiro cabeça da revoltasurgiu de formainesperada: um amigo do delegado Jullien contou-lhe quesuspeitava docomporta mento de um jovem casal de latíno-americanos quese mudara há poucopara um prédio defronte ao seu, na zona sul do Rio. Apolícia apurou com oporteiro que o homem era Luciano Busteros,jornalista uruguaio,que ali vivia com sua mulher. Carmen. Embora nãohouvesse qualquerregistro sob o nome Busteros nos arquivos brasileiros, alemães,britânicos ou americanos, Jullien man dou vigiar opredio e, naprimeira oportunidade, fotogra far o jornalista. Quando oretrato do uruguaiomoreno, de cabelos negros e óculos de aro redondofoi exibido a ElviraColonio, ela não teve dúvidas em assegurar: - Éesse aí o Indio quevocês procuram. Rodolfo Ghíoldí e sua mulher,desconfíados de quea casa onde viviam estava sendo vigiada, decidiramfugir na noite de 22de janeiro. Tomaram um táxi na porta do prédio e,levando apenas umavalise de mão, tocaram para a estação de trens daCentral do Brasil.Sem saber que estavam sendo seguidos, compraram umbilhete para o tremnoturno com destino a São Paulo. Quando a composição começou a semover na plataforma, eles chegaram a supor quetivessem conseguidoenganar a polícia carioca. De madrugada o trem parouna cidade deJacareí, no Estado de São Paulo, e os dois desceram parafazer um lanche. Opróprío Jullien, que estava no trem, deu-lhes voz deprisão na escada dovagão. Rodolfo passou o resto da noite tentandoconvencer o policialde que algum engano havia sido cometido: ali estavaseu passaportecomprovando que ele não se chamava Ro dolfo Ghioldi nemera argentino. Masem São Paulo já o esperava um delegado enviado do Riopor Filinto Müllerem avião militar com a ficha completa do argentinoera bobagemcontinuar tentando confundir os policiais. Transportados noavião para o Rio deJaneiro, Rodolfo e Carmen foram imediatamentelevados à polícia 133 política e colocadosna ante-sala do càpitão Miranda Correia. ao lado deoutros presoscapturados naquele dia, todos guardados por investigadorese soldados armados.Do lugar onde estava sentada, Carmen podia ver,através de uma frestada porta entreaberta, parte do movimento na salado delegado.Subitamente ela arregalou os olhos, empalideceu e sussurrouao marido: -Rodolfo, você não pode imaginar quem está ali dentro,conversando com ospoliciais, e acaba de apontar na tua direção e dizera um deles que vocêé mesmo Ghioldi, o índio: Miranda. Ele estátrabalhando para apolícia. "Se Miranda está colaborando com a polícia",ima ginou Ghioldí,ao ser chamado a depor, "eles já devem saber de tudoa respeito de todosnós". Talvez tenha sido essa conclusão que o levou aidentificar tãoprontamente a fotografia que o chefe da polícia políticae o delegado Jullienlhe exibiram, Ele disse sem pestanejar: - Sim, euconheço este homem.É Léon Vallée, o responsável pelas finanças. Asesperanças dapolícia de que Vallée pudesse leválos até Prestes não sematerializavam. Duassemanas de rigoroso controle dos seus passos sórenderam uma pistafalsa: o endereço de um certo dr. Balestre - quedepois descobriu-seser o médico que tratava da flebite de Al phonsineVallée. Seis diasapós a prisão de Ghioldi, na noite de 28 de janeiro,Léon Vailéecominhava com sua mulher pelo Lido, no Rio de Janeiro,quando notou quedois homens os seguiam. Familiarizado com o centro dacidade, comínhou emdireção à avenída Rio Branco e à rua Gonçalves Dias,onde o intensomovímento de pedestres e uma seqüência de galerias entrea rua e a avenidapoderiam ajudá-los a escapar. Quando percebeu um levedescuido dosinvestigadores, entrou em uma das galerias, saiu pelaavenida Rio Branco,tomou um táxi e desapareceu. O casal mandou o carroseguir para oaparelho onde estava Eduardo Ribeiro Xavier, o Abóbora,membm da direção doPC, que semanas depois os tiraria do Brasd,embarcando-os paraBuenos Aires. Ao saber da fuga dos 134 Vallée, FilinioMüller, preocupado com a desenvoltura dos comunistas,não quis correr maisriscos e mandou que prendessem logo um talamericano residenteem copacabana, euju nome e endereço Ghioldifornecera, e queestava sendo seguido havia seis dias. Minutos depois puliciais invadiam oprédio número 972 da rua Nossa Senhora de Copacabanae levavam preso umjovem e esbelto norte-americano de quase dois metrosde altura: VictorAllcn Barron. A prisão de um autêntico cidadãonorte-americano caiudo céu para a embaixada dos Estados Unidos, queganhava, assim, umpretextu legalmente indiscutível para intrometer-seainda mais nasinvestigações da polícia bra sileira. Embora tivesseanunciado que estavatuberculoso, Barron foi impiedosamente surradopelos homens dotenente Eusébio de Queiroz Filho, que chefiava umbatalhão da PolíciaEspecial apelidado com deboche pela popula ção de"os cabeça detomate" - quinhentos lutadores pro fissionaís escolhidos adedo entre osefetivos militares e que se distinguiam das outras tropaspelo uso de um quépivermelho. Xanthaky foi destacado pela embaixadapara interrogar oamericano e encontrou-o em estado las timável - apesarde o capitão FilintoMüller ter-lhe assegurado que "ninguém tocara umdedo no preso".Durante o interrogatório, Barron tentou negar qualquerligação com omovimento revolucionário do final do ano anterior, edeclarou que estavano Brasil como representante comercial da JohnReiner Bz Co., umaindústria de motores de nova York. Ele tevedificuldades paraexplicar como mantinha o elegante apartamento, seufino guarda-roupa eum automóvel de luxo sem ter conseguido vender um sómotor da empresa quedizia representar. Além disso, tinha contra si oque Xanthakyconsiderava uma evidên cia clara de envolvimento político:os vistos de seupassa porte revelavam que ele fizera o trajetotradicional dosagentes do Comintern, com passagens obrigatórias porAmsterdã e Montevidéu,"importantes centros de trabalho comunista",segundo o relatóriode Xanthaky. Embora suspeito de ser militantecomunista, Barron 135 era um cidadãonorte-americano e merecia, portanto, eui dados maiorespor parte do agenteda embaixada. No extenso informe confidencialenviado aosecretário de Estado Cordel Hull e assinado pelo embaixadorGibson, Xanthakyprocurava eximir-se de qualquer responsabili dadequanto ao destinoque a polícia pudesse dar a Barron: Enfatizei àpolicia a gravidadede se tratar mal cidadãus americanos. Recebigarantiasdefinitivas de que Barron não será mais submetido a torturas eque, nas próximasvezes, suspeitos americanos serão entrevistados pelaEmbaixada antes deserem interrogados pela polícia e que não ha verámais interrugatóriosseveros em tais casos. Deram-me também garantias deque a Barron seráprovidenciado bom atendimento médico. EstouFrancamentepreocupado sobre como tratar estc caso. Depois de ter vistoo resultado dotratamento dado a Ewert e Elise, Xanthaky parecia prevero risco de se deixarnas mãos de Filinto Müller o homem que supostamente tinha notíciassobre o paradeiro de Luís Carlos Prestes: Ocaldeirão comunista estáfervendo aqui, e se houver algummodo de seestabelecer que Barrun não esteve en volvido, há certaurgência em tirá-lodo cenário. Ele, aparentemente, reluta ou é incapazde nos ajudar; suahistória não soa bem e, do jeito que as coisas estãono momento, apolícia tem razões de sobra para considerá-lu um gravesuspeito. Ele nãoparece disposto a contribuir para a elu cidação docaso. Sua situação esuas atitudes são menos uma manifestação de que éinocente do que umareitera ção da frase: "Eles não têm nada contramim". O próprioCordel Hull telegrafaria confidencialmente ao embaixadorGibson, dias depoisde receber o relatório, passando-lhe a ficha que oDepartamento deEstado levantara sobre os antecedentes de Barron: eleera filho do lídercomunista Harrison George, que segundo a mãe,divorciada dele,teria financiado a viagem do jovem à América do Sul. Aacusação da montagemde uma estação de rádio repetia o procedimentoadotado peloComintern em situações anteriores, como no caso da China, E 136 quanto ao altopadrão de vida que Barron levava no Brasil, não haviadúvidas: a empresaReiner declarara firmemen te que Barron nãoconseguira fecharqualquer negócio na América do Sul, o que aumentava assuspeitas de que ocontrato servia apenas para dar cobertura às suasativi dadessubversivas. E nem Barron nem sua família eram conhecidoscomo pessoas deposses, que pudessem fazer viagens de luxo.Provavelmente pordesconhecer a polícia de Filinto Müller, o secretáriode Estadonorte-americano encerrava seu telegrama tranqüilo quanto aodestino de Barron: ODepartamento transmitirá outras informações quandofor possível.Qualquer informação que você puder obter de Barron sobresuas atividades nomovimento comunista internacional serão bem-vindas.Em vista do que foidito e também em vista das garantias da policiabrasileira arespeito do futuro tratamento a ser dado a Barron, o Departamento pensa quenão há nenhuma necessidade atual de intervenção daEmbaixada a seufavor. Um dos informes remetidos por Xanthaky a Hulldava clarasindicações de que Barron havia sido traído por alguém antesde ser preso. Apolícia contou ao agente da embaixada americana quedispunha deinformações a respeito de "um americano, jovem, encarregadoda mon tagem de umaestação de rádio, e que era filho de um cerioHarrison George, quese divorciou várias vezes". E, no relatório enviadoa Washington noinício de fevereiro de 1936 seria possível perceber queBarron começava aadotar a mesma técnica utilizada por Ewert e Elise:falar apenas o queera do conhecimento da polícia. Ele reconheceu que defato viera ao Brasilpara montar a estação de rádio - que já tinha sidodesativada, em 27 deno vembro, e transferida para um aparelho nosubúrbio, cujoendereço ele desconhecia -, que estava a serviço doComintern e tinhatransportado Prestes até um ponto da cidade. "Alémdisso", elerepetiu dezenas de vezes a Xanthaky e aos policiais que oespancavam,"vocês não terão nem umavírgula a mais de mim". 137 Como a embaixadaparecia desinteressar-se por Barron, Xanthaky voltou àcarga sobre osEwert. Repetindo o que fizera algumas vezes, passou ànoite pela PolíciaCentral e de lá foi levado por Jullien ao morro deSanto Antônio. AgoraXanthaky não perguntava tanto pela "conexãobrasileirá",mas estava ávido de informações sobre o Partido Comunistaamericano. Elepassou rapi damente pela cela onde Elise estava presa,conversou com eladurante alguns minutos e dirigiu-se à de Ewert parainterrogá-lo.Xanthaky era obrigado a fazer horas de rodeios para obteruma informaçãomínima sobre algum acontecimento de cinco anos antes, naChina. Mas era opróprio Ewert quem o desanimava: - Senhor Xanthaky,essa informação apolícia de seu país já tem... Frustrado com a colheitainsignificante,Xanthaky preparava-se para sair quando Ewert dirigiu-lhea palavra: - Um dospoliciais disse-me que Laval, o primeiroministrofrancês, renunciouao cargo. verdade? - Sim, é verdade. O novo premiê éSarrault. - EDaladier é membro do novo gabinete? - Por que o senhorquer saber? Daladieré comu nista? Ewert sorriu: - Não, não é comunista,mas tem grandesinclina ções liberais, o que é melhor do que nada. Aobstinação de Ewertem manter silêncio absoluto sobre informaçõesimportantes, apesarda crueldade do tratamento que a polícia lhededicava, não era,porém, um comportamento generalizado entre os presos.Por terse passadopara o lado inimigo, como garantiram alguns de seusexcompanheiros, oupor ter sido massacrado nas sessões de tortura nosprimeiros dias apóssua prisão, Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, contoutudo o que sabia àpolícia. Falou demais na hora do choque elétrico edas surras comchicote de arame, falou demais na hora dos depoimentosformais, confirmou ereconfirmou o que 138 a policia sabia e oque ela queria saber. Ele contou que Bangu, seusucessor na direçãodo Partido, era Lauro Reginaldo da Rocha; que alémde Garoto, Prestesusava também o codinome Antônio, e que nessasocasiões só falavaem espanhol nas reuniões; que Negro, Berger e ArthurEwert eram a mesmapessoa: o representante da Internacional Comunista noBrasil, que dirigiaas reu niões do PC e ditava orientação aos demaislíderes. Embora nareunião que precedeu a insurreição Miranda tivessealardeado suacapacidade de "parar o país para apoiar a revoltá", napolícia ele dissehumildemente que "pouco poderia fazer o Partido quedirigia, para apoiara revolução, pelas poucas forças com que conta va".E identificou, umpor um, os donos dos codinomes encontrados nadocumentaçãoapreendida na sua casa, na de Ewert e na de Prestes, dandode quebra a posição quecada pessoa ocupava no Partido: Martins,Mílionário e Nicoeram nomes de Honório de Freitas Guimarães, membro dadireção do PC;Gurgel era o médico Josias Leite; Machado era LeôncioBasbaun, residentena Bahia; Gusrnáo era José Medina, membro do PC;Carlos e Júliv eramos codínomes da mesma pessoa, o ex-milítante AugustoBesouchet; Emma eAntonia eram os codinomes da mulher de Honório deFreitas Guimarães;Meo era a forma cifrada de referir-se a Montevidéu;Ismar ou Al meidaeram codinomes de Ilvo Meirelles; Costa, Carlos eFirrno eram nomesadotadvs no Partido pelo major Carios Costa Leite;todos os documentosencontrados com a letra "M", de Miranda, ao tinal,eram deresponsabilidade do Secretariado Nacional do Partido Comunista;Nai era o codinomeda escritora Eneida de Moraes; Ramalho era o codinomede Oswaldo Costa,jornalista e diretor do jornal A Manhã; quanto aMiranda, Adalberto,Adalberto cte Andrade Fernandes eram os codinomesdele próprio,Antônio Maciel Bonfim, secretário-geral do PartidoComunista, SeçãoBrasileira da Internacional Comunista. Cada calhamaçoque a políciacolocava à sua frente ia sendo traduzido, decodificado,exphcado eidentificado. 139 Mesmo sem ter traídoo Partido e sem que a polícia o tívesse tratado coma mesma brutalídadeaplícada em Bonfim, o argentino Rodolfo Ghiolditambém foi generosonas suas declarações. Anos depois, Ghioldi diria quea violênciautilizada pela polícia contra si resumiu-se a "ameaças ealguns golpes".Mesmo assim, ele identificou como sendo de Léon JullesVallée a foto quelhe era exi bida, mesmo sem saber se ele havia ou nãosido preso; trouxe àtona um nome desconhecido dos policiais, o doamericano VictorBarron; reconheceu como sendo de rlrthur Ewert váríosmanuscritosapanhados pela polícía; revelou o relacionamento existenteentre o prefeito doDistrito Federal, Pedro Ernesto, e Luís CarlosPrestes; deu oendereço do último aparelho de Prestes, na rua NossaSenhora deCopacabana, e disse que Prestes saíra de lá no dia 19 dejaneiro; contou queo dono dos apare lhos das ruas Sá Ferreira e ToséHigyno era BenjamimSchneider. E ofereceu de presente aos policiais umain formaçãoabsolutamente nova: Prestes estava casado com uma mulherclara, provavelmenteestrangeira - pois sem pre se comunicava com ele emfrancês - e queficava permanentemente a seu lado. Ghioldi ignorava osobreno me damulher, mas tinha absoluta certeza de seu nome: Olga. 11. Diante deFilinto, um nome: Olga de Tal 141 O número de presosdesde o dia 27 de novembro era tão grande e elesestavam espalhadospor tantos presídios que a própria polícia perdia anoção de quem aindaesta va solto ou quem já havia sido capturado.Certamente por isso,a partir das informações dadas por Rodolfo Ghioldi,o delegado AntonioCanavarro Pereira enviou, no mesmo dia do depoimentodo dirigentecomunista argen tino, o seguinte ofício ao capitão MirandaCorreia:  Exmo. Sr. Capitão Delegado Especial de Segurança Política eeSocial Solicito a V. Sa. providências no sentidu de que Olga de Tal, referida nas declarações de Rodolpho Ghioldi, compa reça a este cartório no dia 8 de marçu p. vindouro, às 12 horas, para prestar declarações. Saudações, O Delegado Miranda Correia não recebeu o ofício no mesmo dia.Ele tinha viajado aSão Paulo para assistir, no presídio "Maria Zélia",a uma acareaçãoentre dois dirigentes comunistas citados em depoimentosde presos do Rio dejaneiro. Embora o grosso da repressão seconcentrasse no Rio,São Paulo também fora varrida pela polícia 142 política. Com oscárceres entupidos, a polícia transformou numgigantesco xadrez avelha Fábrica Maria Zélia, no bairro do Brás, paraalojar centenas decomunistas, alian cistas e simpatizantes apanhadospelo arrastão que seseguiu a novembro. E foi para lá que o longo braçoda repressão deVargas acabou levando o milionário Celesti no Paraventi,denunciadoanonimamente por ter dado guarida a Olga e Luís CarlosPrestes em sua voltaao Brasil. Como ele próprio diria, entre ascentenas de presosdo "Maria Zélia" havia gente "envolvida até o fio docabelo na revolta egente que nem sonhava por que tinha sido preso".Longe de seatormentar com a prisão, Para venti se divertia. De manhãjuntava-se à massade presos e exibia seus dotes de tenor ao cantar comos colegas de cadeiao hino da Aliança Nacional Libertadora e a "Internacional". Efoi ali, no meio daquela confusão, que Paraventi começou adescobrir que"aquela histeiria de comunismo não me cheirava bem".Romântico, ele nãoconseguia entender como é que, vítimas da mesmaadversidade, oscomunistas dividiram-se, na cadeia, em tantas correntese tendênciasdiferentes, "cada um querendo comer o outro". Paraventitentava descobrir enão encontrava ali "a fraternidade e a compreensãoque Prestes medissera serem inerentes ao comunismo". Desolado, eledecidiu espiar umareuniãozinha de um grupo comunísta num canto daprisão, "paraver de que grupo etes falavam " mal". Quando chegou perto,um deles pediu silêncioe advertiu-o: - Isto não é uma célula. É umasessão espírita. Sevocê quiser pode assistir. Mesmo não acreditandonaquilo, Paraventientrou na roda, por falta do que fazer. Quando oespírito baixou, ohomem que o recebera bateu no ombro do jovem milionário: - Você éum médium muito forte, vai ser muito útil aoespiritismo. 143 Meses depois, ao serlíbertado, Paraventí não deixaría de ajudar osamigos comunistas,mas anunciava que havia trocado "o comunismo peloespiritismo".Miranda Correia Fora obrigado a deixar às pressasespíritas ecomunistas do "Maria Zélia" para retornar ao Rio e receber ainformação dada porGhioldi. Surpreso com a novidade, decidiu: sePrestes estavacasado, e com uma estrangeira, o capitão Filinto Müilertinha que saber daquiloimediatamente. Esta, aliás, era a ordem que circulava entre osdelegados e chefes de equipes na repressão aoscomunistas: qualquersuspeita, qualquer notícia ou mera citação do nomede Prestes emdepoimentos de via ser levada prioritariamente ao chefe dapolícia. Havia, naverdade, dois Filinto Müller perseguindo Prestes. Umera o temido eonipotente chefe de polícia da ditadura, de quem opróprio presidenteda República e seu ministro da Justiça, Vicente Rao,cobravam diariamente a prisão imediata do antigo chefe da Coluna. Asinvestigaçõesmostravam que não havia mais nenhum peixe graúdo à solta,com exceção dePrestes, o último e o mais importante cabeça da revoltade novembro. Emboraa Chefatura de Polícia do Distrito Federal fosse umcargo de baixoescalão na hierarquia da República, a in surreição denovembro acabara poratríbuir a Filínto Müller o poder e a importânciade um vice-rei, umprimeiro-ministro. Com agentes e espias infiltradosem todas asrepartições e gabinetes do governo, ele detinha infor maçõessobre as atividadesde todas as personalídades relevantes do país. Arepressão aoscomunistas de Moscou exigia armas, homens, equipamentos,veículos, e isto tornava a polícia do Rio um sorvedouro de verbas queele solícitava pessoalmentea Getúlio Vargas e para as quais não havialimites. A cadasemana os jornais noticiavam que o presidente haviaautorizado a dotaçãode mais al guns milhares de contos de réis para "ocombate à subversão". Filinto Müller era, de fato, um pouco ministro daGuerra, um poucoministro da Justiça e um pouco 144 ministro daInformação. E, sem ser ministro de nada, partici pava dasreuniões do gabinetee despachava pessoalmente com Getúlio Vargas. Comhomens, dinheiro einformações nas mãos, só o próprio Vargas reunia maispoderes que o chefede polícia do Rio. O outro Filinto que estava noencalço de LuísCarlos Prestes não era o policial caçando o comunista,mas o oficial daColuna Prestes à procura do antigo chefe para um acertode contas. Quase onzeanos antes, em 14 de abril de 1925, um boletim deguerra assinado pelogeneral Miguel Costa, um dos comandantes da Coluna,anunciava à tropaalgumas promoções por "bravura, inteligência ecapacidade decomando". O mesmo ato que elevava a tenente-coronel omajor OswaldoCordeiro de Farias pro movia o capitão Filinto Müller àpatente de major dasforças revolucionárias. Prestes justificou adecisão de mandarpromover Filinto com o argumento de que era necessárioter um oficialcamandando a artilharia dispo nível: dois canhões de 75milímetros e doiscanhões de montanha. E, além disso, todos os soldadose sargentos daArtilharia tinham se rebelado sob as ordens de Filinto,no quartel deOsasco, em São Paulo. Tanto a promoção quanto a própriapermanência deFilinto na Coluna, no entanto, durariam muito pouco.Foram necessáriosapenas nove dias para que Prestes desco brisse quemandara promover ohomem errado. Filinto escrevera uma carta a seusuperior imediato, ogeneral Miguel Costa, anunciando que iria aAssunção, no Paraguai, para uma visita à família, exilada naquelacidade e prometiajuntar-se novamente à Coluna no Estado do Mato Grosso.Mas mandou outracarta, dirigida aos sar gentos e soldados que oacompanhavam desde olevante de julho, em São Paulo, propondo a deserçãocoletiva. Na segundacarta ele dizia à tropa que para ele estava tudoacabado e que nãotinha mais esperanças no sucesso da Coluna. Cada umfizesse o que bementen desse, pois ele, a partir daquele momento, nãose responsa bilizavamais por nenhum dos seus subordinados. O que omajor Filinto Müllernão poderia imaginar é que as 145 duas cartas iriamcair nas mãos de Prestes. Quando o chefe da Colunatomou conhecimentodos documentos, o recém-promovido major das forçasrevolucionárias £ugira para a Argentina (e não para o Paraguai, comodis sera), levandonos bolsos 100 contos de réis da intendên cia daColuna. Furioso,Prestes exigiu do general Miguel Costa, comandante da I" DivisãoRevolucionária, que o desertor fosse destituído da promoçãorecebida na semanaanterior e que se distribuísse imediatamente outroboletim de guerra,expulsando-o da Coluna. No mesmo dia chegava às mãosde Lourenço Moreiraum secretário de campanha da Coluna, a execuçãoda ordem de Prestes:Boletim n:" 5 Acampamento de Porto Mendes, Estadodo Paraná, aos 25 deabríl de 1915. Para conhecimento desta Divisão edevida execução, publiCo o seguinte: Expulsão de Oficial. Seja excluídodo estado efetivüdas forças revolucionárias o capitão Filinto Miiller,por haver,covardemente, se passado para o território argentino,deixando abandonadaa localidade de Foz do Iguaçu, que se achava sob asua guarda,resultando que as praças que compunham a men cionada guardao imitaram, nestegesto indigno, levando armas e münições pertencentes àRevolução. Oxalá queesse oficial futuramente se justifique perante seuscompanheiros queainda lutam em defesa da República, dessa acusação quepesa na sua consciênciade filho desta grande Pátria. Ass. GeneralMiguel CostaComandante da 1.° Divisão Revolucionária Durante onze anos,Filinto nutriu o ódio pela acusa ção que Prestesmandara fazer-lhenaquele boletim: Covarde, desertor, indigno. Masagora, em fevereirode 1936, o destino se encarregara de inverter asposições, e era elequem tinha o poder, os homens, as armas. O chefe depolícia prometera aVargas entregar-lhe "em questão de dias" a cabeça doantigo comandante daColuna, e para isto valia tudo: mais dinheiro, maisarmas, mais algumascentenas de atletas para ampliar a tropa dos "cabeçade tomate" dotenente Eusébio Queiroz. Em uma reunião com seus chefes deturma de capturas,Filinto anunciou solenemente que aquele que chegasseprimeiro até Prestes 146 e o prendesse - oumatasse - receberia dele, pessoal mente, o prêmio de100 contos de réis.Ironicamente era a mesma quantia que, em 1925,Filinto subtraíra daColu na e levara para o exílio. O Rio entrava emfevereiro, mas nadahavia que identificasse a cidade com a "capitaluniversal da alegriae do Carnaval", como escreveu um cronista mundanoda épuca. Primeiropor causa da chuva, que caía intermitente há semanas,tirando das ruas ocolorido e a graça da de coração carnavalesca. Emseguida, porque ocapitão Fi linto Müller não media a aplicação de seupoder no cerco aPrestes e a sua recém-revelada esposa, a estrangeiraOlga de Tal. Nãoimportavam as leis: o que valia eram as portarias queele conseguiu fazercom que o Carnaval de 1936 entrasse para a históriacomo o maisacabrunhado e sem alegria de todos os tempos. Já no começodo ano Fi lintodecretara que durante a vigência do estado de sítioninguém poderia usarmáscaras nos bailes, festejos carna valescos eranchos. Parasubstituí-las, o carioca importou o colar de havaiana: nãoera a mesma coisa,mas pelo menos dava algum colorido às festas. Quandofaltavam poucos diaspara a "semana gorda", mais portarias com novasproibições: asbatalhas de confete só seriam per mitidas em clubes,desde que comautorização prévia da polícia. Cada clube poderia realizarno máximo três batalhas. As máscaras continuavam proibidas, assim comotodas as fantasiasconsideradas "atentatórias à moral das famílias". Osensaios de blocos eranchos só podiam ser feitos após a devidaautorização do chefede polícia, e teriam que se encerrarimpreierivelmente às22 horas. Filinto Müller tentava reger a "capitaluniversal da alegria e do Carnaval" com o regulamento de um convento defreiras. Mas mesmoum Carnaval sem fantasias, sem máscaras e com poucoconfete era umanovidade para uma alemã da Baviera. Através das frestasda janela do quarto,Olga se deliciava com os grupos que passavamdesafiando a 147 autoridade da polícia,sambando com os rostos pintados e pouquíssimaroupa sobre o corpo.O pesado rádio de vál vulas que haviam conseguidocom o sapateiroManoel dos Santos repetia dezenas de vezes os poucossucessos da queleano: "Querido Adão", marchinha cantada por Car menMiranda,"É bomparar", de Noel Rosa, cantada por Francisco Alves, e a"Marchinha dogrande galo", de La martine Babo, cuja interpretação deAlmirante arrancavagargalhadas dela no refrão em que o cantor repicavao có có có có có cócó. Havia muito pouco o que fazer ali no aparelho darua Honório, noMeyer. Mesmo habitua dos à clandestinidade imposta aeles desde a chegadaao Brasil, Olga e Prestes sabiam que daquela vezera impos sível sairde casa. Quando os alto-falantes dos corsos da ruaparavam, os dois sedeitavam no minúsculo quarto e Olga punha-se atraduzir paraPrestes poemas em alemão e trechos de Goethe e Schiller,seus autoresprediletos. A casa era muito modesta e os obrigava acuidados especiaispara não serem identificados pelos vizinhos. Dentroficavam duassalinhas pequenas, dois dormitórios e uma cozinha. Nosfundos, num cõmodoseparado da casa, o banheiro. Como os muros lateraisdo quintal erammuito baixos e havia vizinhos de ambos os lados, eles sópodiam ir aobanheiro à noite, atravessando o quintal pelas sombras ecom as luzes de foraapagadas. As roupas de Olga e de Prestes - oluxuoso enxoval dalua de mel, comprado em Paris - ficaram para trás, nacasa de Ipa nema, eforam obrigados a improvisar Uma peça de linhocomprada por donaJúlia, a mulher do sapateiro Manoel, acabou setransformando numelegante vestido para Olga - desenhado e cortado porPrestes e costuradopor ela. Mesmo submetidos a absolutaclandestinidade, osdois não estavam isolados do mundo e da política.Dentro dos jornaisque Manoel trazia diariamente para casa vi nhampequenos pacotesfeitos com papel de embrulhar pão, que o casal abria elia avidamente: eramas notícias mandadas pelos espiões que o PartidoComunista tinhadentro das prisões, nas délegacias de polícia e até nogabinete de FilintoMüller. Quando a Coluna Prestes chegou 148 ao fim, centenas desoldados, cabos e sargentos voltaram ao Brasil e nãotinham como arrumartrabalho. O tenente João Alberto, que participara daColuna e que em 1930decidira ficar com Getúlio, fora nomeado pelopresidente, entre1932 e 1933, para o cargo que depois seria ocupado porFilinto: chefe depolícia do Distrito Federal. E foi ele quem seencarregou decolocar como investigadores e comissários policiais osantigos combatentesda marcha a pé pelo Brasil - muitos dos quais, fiéisa Prestes e a suasidéias, atuavam como informantes do PC dentro damáquina policial dogoverno. Do prédio da rua da Relação, onde ficava ogabinete de Filinto,do morro Santo Antônio ou da prisão da rua FreiCaneca, os papéiseram mandados para Ilvo Meirelles, que os entregava aManoel dos Santos.Muitas vezes apareciam nos pacotes, junto com osresumos dedepoimentos ou revelações sobre uma "batidá" que a políciairia fazer, bilhetesde amigos de Prestes - que não tinham comolocalizá-lo, massabiam quem podia fazê-lo. O próprio Pedro Ernesto,prefeito do Rio,chegou a utilizar os misteriosos mensageiros paraoferecer a Olga ePrestes uma casa mais segura, para que os dois seescondessem. Tantoesta como outras ofertas de refúgios - Virgílio deMello Franco, umdeputado federal filho de liberais de Minas Gerais,ofereceu sua casa aeles por duas vezes - eram sistematicamenterejeitadas porPrestes, que justificava a recusa explicando seus temoresa Olga: - Eles sãogente muito boa, mas do ponto de vista de classe eunão posso confiarneles. Sem querer, podem ser instrumento de umaprovocação. Porquehoje não sabem onde estamos, mas saberiam para ondefôssemos. E se forempresos e torturados? Não podemos arriscar. Um dosjornais levados àrua Honório por Manoel deixou Olga e Prestesapreensivos. Umapequena notícia dava conta de que o delegado LineuCosta haviasolicitado ao capitão Filinto Müller a abertura de inquéritoadminis trativo paraapurar a responsabilidade pela violação dos autosdo processo sobre arevolta. Não havia dúvidas de que a polícia começavaa desconfiar dosespiões 149 comunistas dentrodas delegacias e nos cartórios especiais nelasinstalados paraouvir os presos da insurreição. E foi atra vés de umdesses informantesque Prestes ficou sabendo que Filinto Müller empessoa estavadirigindo, de seu gabinete, a operação policial-militarmontada para prendê-lo e a sua mulher. O relatório levado por Manueldos Santos dizia quenos últimos dias Getúlio Vargas tinha autorizado umnovo reforço dostais "cabeça de tomate" - e que os homens começariam arealizar uma"operação pente fino", revistando rua por rua, casa porcasa. Filinto sabiaque no tempo de garoto Prestes tinha vivido algunsanos no bairro daBoca do Mato, próximo ao Meyer, e decidira começar acaçada por ali. Oinforme garantia também que a polícia não tinha noçãodo endereço onde ocasal estava escondido - e que as duas únicas informações obtidas nessesentido, dadas por Barron e por um dirigente do PCdurante uma sessãode torturas, eram , muito vagas. Falavam apenas queOlga e Prestesestavam escondidos "para os lados do Meyer" - o que nãoaju dava muito àpolícia. Uma última notícia da operação soou como umapilhéria paraPrestes: Filinto obrigava o policial que estivessechefiando as batidasa levar pela coleira o cachorro policial"Príncipe",que dera de presente a Olga e que Fora deixado na casa darua Barão da Torreno dia da prisão de Ewert. A polícia acreditava que,pelo faro, o cãopoderia ajudar a localizar seus donos. Dias depois, umnovo relatóriochegava com informa ções mais precisas - e mais graves.Depois de bater todaa Boca do Mato sem resultados, a polícia começariana quela madrugada aesquadrinhar o Meyer. Comandando o trabalho,Filinto dividira omapa do bairro em quatro partes, ficando cada umadelas entregue a umpelotão de 50 "cabeças de tomate", chefiadosrespectivamentepelos policiaisJullien, Galvão (o mesmo carcereiro que levava Xanthaky parainterrogar os Ewertno morro de Santo Antônio), Carlos Lolotti e PauloBrasil. Além dosquatro chefes de grupo e dos 200 soldados da PolíciaEspecial, todosarmados de metralhadoras, algumas dezenas de po liciaiscivis rondavam asesquinas, entravam nos bares, 150 vigiavam qualquermovimento suspeito. As ordens de Fi linto eramexpressas: todas asruas seriam farejadas e, nelas, nem uma só casapoderia deixar deser vistoriada. Antes de bater à porta da casa, ossoldados deveriamcer cá-la também dos lados e pelo fundo para evitarfugas. A menorsuspeita de que tivesse sido localizada a casa de Olga ePrestes, deveria serdado um tiro para o alto e todos os grupos nasimediaçõesconvergiriam para o local. Encontrada a casa, a ordem eraentrar alirando paramatar. Duas semanas depois de iniciada no Meyer, aopera ção deraresultados pífios. Em uma casa pegaram alguns livrosconsideradossubversivos e, de outra feita, um homem que tentaraescapulir da políciachegou a causar certo alvoroço - mas era apenas umladrão comum, proeurado pelo delegado do bairro. Na madrugada do dia 5de março - sempresob uma chuva torrencial, que parecia não terminarjamais - 50 soldadose três policiais civis, comandados pelo comissárioJosé Torres Galvão,começaram a vistoriar as casas da rua Honório.Entraram pela pontada rua que começava no Engenho de Dentro, onde haviacalçamento e o chãoera plano. Por volta das duas horas da madrugadaocorreu um pequenoincidente: em uma das casas rastreadas morava um altofuncionário doTribunal do Júri, que considerou a invasão, àquela hora,um desrespeito aseus direitos individuais. Galvão comunicou-se pelorádio de campanha deum dos carros com o capitão Filinto Müller erecebeu uma ordemríspi da: "Prenda o sujeito e quem mais se opuser àsbuscas". Cadaquarto, sala, cozinha, banheiro e quintal era revista dorigorosamente.Velhos, mulheres e crianças eram des pertados para queGalvão pudesse verse "o homem" estava escondido ali. As quatro horas damanhã o grupo entrouna parte íngreme da rua onde o calçamento ainda nãohavia chegado. Odilúvio das últimas semanas tinha aberto um sulco nomeio da rua, poronde corria lama grossa e vermelha. Naquele trecho ossoldados tiveram quesubir a pé, pois os carros da polícia que alihaviam se aventuradoestavam atolados até o meio da lataria. As 151 cinco horas umapatrulha chegou à casinha do número 279. Repetindo o quevinham fazendomaquinalmente há tantos dias, cerca de dez soldados derama volta pelos fundose dos dois lados, enquanto um grupo, com Galvão àfrente, batia fortena porta de entrada. Dona Júlia acor dousobressaltada eperguntou antes de abrir o trinco: - Quem é? Galvão, dooutro lado: - Abra,é a polícia. Ela abriu uma fresta e se assustou coma quantidade dearmas apontadas contra seu rosto. Um dos soldados queestava de guarda naporta dos fundos gritou: - Galvão, tem alguémtentando abrir aporta aqui de trás! Era Prestes, ainda de pijama echinelos, quetentava escapar pelo quintal. Quando ouviu o grito, voltoue quis entrar noquarto, por cuja janela pensava saltar para a rua. Nãohouve tempo. Aoperceber quem era o homem que tentava escapar, Galvãodeu a ordem aossoldados que se espremiam na porta de entrada: - Entrematirando! é Prestes!Um número indefinido de soldados e policiais civisavançou sobre donaJúlia, de metralhadoras engatilhadas, em direção aopequeno corredor poronde Prestes entrara. Foi então que aconteceu algoinesperado. Umamulher alta pula na frente de Prestes, protegendo-o comseu corpo, e dá umberro para os soldados. Não era um pedido declemência, mas umaordem dada por Olga: - Não alirem! Ele estádesarmado! O gestoinesperado deixou-os paralisados. Talvez por sermulher, talvez porter gritado com tanta energia, a verdade é que sehouve oportunidadepara levar Prestes morto, ela não tinha sidoaproveitada. Galvãochegou à porta da rua e disparou seu revólver para océu - e se gundosdepois toda a rua Honório estava tomada por umexército depoliciais encharcados. Francisco Jullien apareceu trazendo"Príncipe"pela coleira e o cão logo reconheceu os donos. Sem revelarmedo, Prestes pediua Gal vão para mudar de roupa, mas não conseguiu: 152 - O senhor vai assimmesmo. Na rua, tentaram colocá-los em carrosseparados, mas Olgapercebeu que aquilo significaria a morte de Prestes.Agarrou-se ao maridocom tamanha força que não houve outra alternativasenão permitir queos dois fossem trans portados juntos para a sede daPolícia Central.Havia tan tos policiais guardando-os dentro do veículoque Olga teve que irsentada no colo do marido. O comboio atra vessou acidade despertandoos moradores das ruas por onde passava: sirenesligadas, tiros para oalto, garrafas de eachaça correndo nos caminhõesque transportavam os200 soldados molhados. A chegada do casal e de donaJúlia - que viera emoutro carro - transformaria a vida do prédio da ruada Relação. Homensarmados de metralhadoras guardavam todas as portas eos eruzamentos dasruas que davam acesso ao edifício e, no portãoprincipal, o capitãoMiran da Correia, protegido por forte escolta,esperava o eor tejo.Ele já comunicara a prisão de Prestes a FilintoMüller, que preferiunão estar presente à chegada de seu antigocomandante. Ao serinformado, Filinto telefonara ao presidente GetúlioVargas paratransmitir-lhe a notí cia e voltara a dormir. Quandodesembarcaram nosaguão do edifício, Olga e Prestes foram separados.Miranda Correiainformou que eles seriam ouvidos em salas diferentes.Prestes foi colocado dentro de um pequeno elevador, sempre acompa nhadopor policiaisarmados, e ela Levada para outra sala. Quando a portagradeada do elevadorse fechou, os dois se olharam pela última vez. 12.A polícia suicidaBarron 153 Foi o tenenteEusébio Queiroz Filho, chefe dos "cabeças de tomate", quemtransmitiu a notíciaa Prestes, mi nutos após sua chegada à PolíciaCentral. E o fez deforma provocadora e sorridente: - É bom que o senhorsaiba que foi oamericano Victor Barron quem o entregou. Mas parece quea cons ciência dogringo doeu muito e ele acabou de suicidar-se,saltando da janeladeste prédio. A primeira suspeita de que Barron nãoera um suici da, masteria sido morto pela polícia, viria em umadeclaração dopróprio capitão Filinto Müller, horas depois. Ao concederuma entrevista aosjornalistas, para contar deta lhes da prisão dePrestes e Olga, elecometeu um lapso e revelou que Barron tinha morridosem dar o endereçodo esconderijo do casal. A declaração do chefe depolícia comprovavaque, apesar da violência a que foi submetido, oamericano nadaacrescentara à vaga informação de que os transportara"para os ladosdo Meyer". Filinto Müller foi preciso ao eonversar com osjornalistas: -Barron obstinou-se em negativas. Era um homemexperimentado emsituações difíceis, acostumado a enfren tar edesorientarpoliciais. Além de repetir que havia 154 levado Luís CarlusPrestes de automóvel para o Jardim do Meyer, ele nãoquis adiantar maisnada. Se Barron não denunciara Prestes - versão que opróprio Prestessustentou desde que recebeu a notícia da sua morte - porque razão semataria? De onde viria o "arrependimento"? Entre osjornalistas queouviram o capitão Filinto estava um correspondente daagência no ticiosaamericana Associated Press, que, além dessas, faziaoutras perguntas semrespostas: como pode alguém suici dar-se pulando dosegundo andar, deuma janela que não dá para o solu, mas para um pátiosuperior interno, oque reduz a queda, na realidade, para um pavimento?O correspondenteestrangeiro publicaria reportagem em jornais dosEstados Unidos commais indagações desconcertan tes: ainda que saltandodo primeiro andar, amorte talvez se justificasse caso Barron tivesseeaído de cabeça nocimento e fraturado o crânio - mas o atestado deóbito assinado pelodr. Borges de Mendonça e entregue à embai xadaamericana dava comocausa mortis "fratura de costela, causando rupturados pulmões e rimesquerdo, acom panhada de hemorragia interna". Sempretender incriminar ninguém pessoalmente, os jornalistas comentavamentre si que aqueleseram ferimentos típicos de quem tinha sidoespancado. Prestesficara indignado com a notícia da delação se guida do"suicídio"de Barron. Ao ser qualificado, tratou delegados einvestigadores comrispidez. Reagia às per guntas com monossílabos, e àmaioria delasrecusava-se sequer a dar respostas. Quando o escrivãoperguntou qual erasua profissão, ele foi seco: - Capitão do Exército. Ofuncionário, provocativo,eorrigiu-o: - O senhor quer dizer ex-capitão,não? Ele irritou-se:- Ex-capitão, não! Sou eapítão do Exército brasileiro! Cercado pelos"cardeais" da polícia política - Bellens Porto,Hymalaia Virgolino,Miranda Correia, Canavarro 155 Pereira - Prestesdeixou claro, desde os primeiros minu tos da prisão,que não iriamarrancar qualquer informa ção dele, decisão que seriamantida até o últimoinstan te de seu longo período de prisão. Quando odelegado BellensPorto perguntou qual havia sido sua participação nomovimento de 27 denovembro, ele contou: - Não tenho qualquer declaraçãoa prestar nessesentido. - Mas onde o senhor esteve no dia 27 denovembro de 1935? -Não tenho qualquer declaração a prestar nessesentido. - Quais sãoas suas ligações com o senhor Harry Berger, ouArthur Ernst Ewert?- Não tenho nada a informar aos senhores. Só possofazer declarações arespeito da Coluna Prestes. Tudo quan to tinha adeclarar a respeitodo que fiz ultimamente está nos meus manifestospúblicos. Ao final,Bellens Porto entregou-lhe a última página do"depoimento"para que ele assinasse. Prestes irritou-se uma vez mais: -Não assino! Sóassinarei rubricando também as páginas anteriores.Evitarei assim quese possam fazer enxertos, atribuindo-me declaraçõesque não prestei! Eraa primeira vez que um preso se dirigia naquele tomà cúpula da polícia.Os delegados atenderam ao pedido. Quando acabou derubricar folha porfolha, assinou finalmente a última e declarou, em tomde enfado, para quemquisesse ouvir: - Tudo isso, afinal, não passa deuma palhaçada! Aúnica autoridade que não teve coragem de enfren tarPrestes cara a carafoi Filinto Müller. O chefe de polícia chegou cedo aseu escritório,espiou por uma fresta para dentro da sala onde Prestesera interrogado porseus principais subordinados, mas não quis ser vistopor ele. Duas únicasvisitas de estranhos à polícia foram permiti daspor Filinto: osmajores Cordeiro de Farias e Riograndino Kruel, quetinham participadoda Coluna, apareceram no prédio da Polícia Centrallogo de manhã e 156 conversaram algunsminutos com o antigo chefe. Após a saída dos dois,Prestes comentaria,amargo: - Eu sei que não vieram aqui parasolidarizar-secomigo mas para um reconhecimento: queriam certifi car-sede que sou eu mesmo.De seu gabinete, Filinto Müller saboreava avitória, Recebeu oministro da Justiça, Vicente Rao, que visitavaaPolícia Central pordeterminação do presidente da Repú blica, paraapresentar oseumprimentos de Vargas ao capi tão e aos policiais quetinham prendidoPrestes. A pedido dos repórteres, fazem uma pose ao ladoda mesa do chefe depolícia, sobre cujo tampo estavam vários caixotescontendo o maierialapreendido na rua Honório. LadD a lado estavam Rao,Filinto, Miranda Correia,Torres Gal vão e, aos pés do anfitrião. ocachorro"Príncipe". Termi nada a visita o chefe de polícia redige umtelegrama circulardirigido a todos os governadores de Estados: Tenho ahonra de comunicar aVossa Excelência que a polícia desta Capital, emdiligência realizadahoje, efetuou a prisão do chefe comunista LuísCartls Prestes,apreen dendo copioso arquivo. Cordiais saudações,Filinto Müller Chefede Polícia. Filinto nãoexagerava ao utilizar a expressão "copioso" para designar ofarto materialacumulado por Olga e Prestes em tão pouco tempo eapanhado pelapolícia na rua Honório. Eram caixas e mais caixas decartas, papéisdocumentos, manifestos e recibos, que um dos autos deapreensão resumia demaneira eloquente: (...) um mapa do DistritoFederal; umaproclamação aos soldados, cabos, sargentos e oficiaisconscientes do22." BC e da Polícia; uma proclamação aos operários, componeses soldados,estudantes, pequenos comerciantes, povo oprimido dePernambuco; umimpresso em papel rosa com o título "Aparemos as unhasdos ladrões dopovo"; um cartão de visitas em nome de "Antônio Vilar,Lishba"; umaproclamação em papel rosa sob o título "Lihertemos HarryBerger que sofre comsua companheira as piores torturas da PolíciaCentral e no patioda Polícia Especial"; uma proclamação impressa empapel verde aosoficiais e sargentos do Exército: cinco folhasmimeografadas com o 156 título "Começoua Revolução!"; um impresso em papel branco com o títulu"Harry Herger,um grande lutador antifascista e antiguerreiro; trêsfolhas mimeografadascom o título "Resoluções do CC sobre as tarefas dosco munistas napreparação e na realização da revolução na cional"; duasfolhasdatilografadas com o título "Contra as provocações policiaisdirigidas peloIntelligence Service e contra a reação fascista dogoverno traidor etirânico de Getúlio e comparsas, levantemos bem alto abandeira de luta dalibertação do Brasil; uma folha mimeografada com otítulo"Instruções para o trabalho sindical e preparação de greves naatual situação deestado de sítio; uma folha de papel almaço margeadapor linhas azuis,manuscrita a tinta, começando pela frase "reconhece umbilhete que escreveua Berger com o pseudônimo de Gin"; quatro folhasmimeografadas com ostermos de declara ções prestadas na polícia porAdalberto AndradeFernan des; uma folha de identificação para pedido devisto em passaporte,em nome de Antônio Vilar e de Maria Bergner, comduas fotografias àmargem, passada pelo consulado do Brasil em BuenosAires em 11 de abrilde 1935, acom panhada de dois atestados médicus edois certificados deantecedentes criminais, todos-com o carimbo doconsulado geral doBrasil em Buenos Aires; um passaporte da Repú blicaportuguesa concedidoa António Vilar e sua mulher, Maria Bergner Vilar,em oito de março de1935 em Roucn, na França; uma centena de cartas emfrancés e em português assinadas por "amigo Gaí , "amigo Cletd, "Amiguinha","Pradu", "Mel", "Souza", "G.","B." e "amigo S:; uma folhadatilografada com otítulo "Cópia do informe rece bido em 6 e datado de5, sobre aGamta"; duas folhas datilografadas com o título "Cópia doinforme sobre asrespostas da Garota ao último questionário , e assinadaa lápis por"M." duas folhas datilografadas com o título "Respostas daGarotá . Dinheironão havia muito na rua Honório: pouco mais de milgulden holandeses e162 dólares- Até aquele momento, somados os dólares,pesos, francosfranceses, gulden, marcos e libras apreendidos em váriosaparelhos ou empoder dos estrangeiros detidos, havia uma pequenafortuna nos cofresda polícia. Mas não era dinheiro o que a políciabuscava. No meio damaçaroca de papel recolhida no aparelho do Meyer,Filinto Müllerencontrou elementos para completar um quebracabeças quepermi tiria, mesesdepois, atribuir a Prestes uma pena muito maior doque a que lhe seriaimposta por chefiar a rebe lião comunista.Analisandoquestionários e relatórios 158 localizados na ruaHonório, a polícia começava a desenterrar o que aimprensa batizariade "o tribunal vermelho" - o processo através do quala direção do PartidoComunista condenou à morte e executou a jovemmulher de Miranda,Elvira Cupelo Colônio, a Garota, ou Elza Fernandes. Nunca ficariamuito claro se Elvira era apenas uma desequilibradamental ou, comoconcluiu a cúpula comu nista, uma traidora que havia sepassado para o ladoda polícia. Para muitas das presas da Casa deDetenção, onde elafoi recolhida,tratava-se apenas de uma adolescente dointerior,deslumbrada com o Rio de Janeiro e a notorie dade alcançadapelo fato de sermulher do mais impor tante dirigente do PartidoComunista. MariaWerneck de Castro, advogada que estava recolhida à alafeminina daDetenção, acusada de envolvimento na revolta, espantousequando viu a jovemrevelar, dentro da cela, o fim que costumava dar aodinheiro querecolhia dos militantes comocontribuição para o Partido. Asgargalhadas, Elviraescandalizava os outros presos ao falar: - Mària,sabe aquele dinheiroque fui buscar na sua casa, dizendo que era ordemdo Miranda? Não erapara o PC, mas para eu comprar toalhas novas para anossa casa. Não é amesma coisa? Nós não somos todos comunistas?Desequilibrada,despreparada ou agente infiltrada, a polícia tratou detirar proveito deElvira. Os registros de entrada e saída de presos daCasa de Detenção,manuscri tos num grosso volume de capa negra,guardariam parasempre pelo menos uma certeza: sem explicação aparente,a Garota foicolocada em liberdade inúmeras vezes, sendo repetidamentedetida pela políciadois ou três dias depois. Por mais duras que fossemas recomendações deCarmen Ghioldi, Maria Werneck de Castro, Nise daSilveira e outraspresas, de que a polícia fazia aquilo para transformá-la em isca edescobrir novos endereços de aparelhos, Elvira nãoparecia fazer casodas advertências. E, a cada saída sua, mais meiadúzia de dirigentescaía nas mãos de Filinto Müller. E como a polícia,em suspeita 159 generosidade,permitia que ela fizesse visitas regulares à cela ondeo marido estavadetido, na Casa de Correção, ele também passou a ficarsob a mira dopartido. Ainda durante o período em que Olga e Prestesesta vam na ruaHonório, a direção decidiu tirar a dúvida a limpo. Emuma de suas saídasdo presídio, o Partido agarrou-a, deixando-a sob acustódia deFrancisco Meirelles, em sua casa na estrada de Guaratiba.Por ser um dospoucos estrangeiros experientes ainda em liberdade, LéonJules Vallée foiencarregado de redigir os questionários a que Garotaseria submetidadurante o processo que se iniciava. Manuscritas porVallée em francês,as pergun tas eram levadas por mensageiros aos quatromembros doSecretariado Nacional encarregados do caso: osecretário-geralLauro Reginaldo da Rocha, o Bangu, Honório de FreitasGuimarães, oMilionário, Adelino Deícola dos Santos o Tampinlra, e JoséLago Morares, oBrito. O vaie-vém de perguntas e respostas durou duassemanas, ao fim dasquais a direção concluiu que Elvira tinha efetivamente colaborado coma polícia a troco da promessa de que ela e o maridoseriam libertados eenviados à terra natal dele, a Bahia, onde sonhavamviver juntos. Oresul tado do "inquérito" foi enviado à casa onde Olga ePrestes se escondiam,no Meyer. juntamente com dois bilhetes de Miranda,em que o dirigentepreso reclamava, preocupado, da ausência da mulher,que havia muitosdias não o visitava na cadeia. Sobre estes bilhetes, adireção do Par tidooptou por considerá-los falsos, "certamente escritospela polícia paranos confundir", como diria o Milionário. A respeito do"processo"de Elvira, Prestes foi duro: se o Partido concluíra que elade fato haviatraído, "por que tanta vacilação em executar a decisãotomada peladerição?", ele indagava em sua mensagem escrita: Fuidolorosamentesurpreendido pela falta de resolu ção e vacilação devocês. Assim não sepode dirigir o Par tido do Proletariado, da classerevolucionária.(...) Já formulei minha opinião a respeito do queprecisamos fazer.Por que modificar a decisão a respeito da Garota? Háou não há traiçãopor parte dela? 160 A sorte de Elviraestava lançada. A decisão de executar a sentença foifinalmente tomada emreunião de que participavam Honório de FreitasGuimarâes, oMilionário, Eduardo Ribeiro Xavier, o Abóbora, AdelinoDeícola dos Santos,o Tampinha, o novo secretário do PC, Lauro Reginaldo da Rocha, oBangu, Manoel Severino Cavalcanti. o Gaguinho, eFrancisco NatividadeLyra, o Cabeção. No final de fevereiro Elvira foitransferida daestrada de Guaratiba para uma casa situada em local ermo,próxima à estrada doCamboatá, no subúrbio carioca de Deodoro, onde já aesperavamMilionário, Gaguinho, Tampinha, Abóbora e Cabeção. Ao cair datarde, enquanto ajovem conversava com o grupo em uma salinha dos fundosda casa, Cabeção foiao quintal, cortou um pedaço de corda que servia devaral de roupas esentou-se ao lado de Elvira. Num gesto rápidopassou-lhe a cordaem volta do pescoço e apertou. Garota quis resistir etentou erguer-se dacadeira, mas Cabeção, um homem enorme, atirou-sesobre ela e jogou-ano chão. Subjugada, Elvira foi esttangulada pelogrupo. O único a nãoparticipar foi Abóbora, que diante da violência dacena pôs-se avomitar num canto da sala. O corpo foi carregado paraoutro cômodo, ondeCabeção, auxiliado pelos demais, dobrou-o em dois,juntando os pés àcabeça e aterrorizando o grupo com o ruído dos ossosque se partiam.Nessa posição o enfiaram dentro de um grande saco deaniagem, que foilevado até o quintal. Ali mesmo, ao pé de uma árvore,Elvira foisepultada. Se a suspeita de que Elvira tivesse sido mortaprovocou sensação naimprensa brasileira, francamente go vernista, amorte do americanoVictor Barron foi aceita pelos jornais do Rio e deSão Paulo sem que sequestio nasse uma sílaba sequer da versão policialque o dava comosuicida. Além da insistência da Associated Press emapurar asverdadeiras circunstâncias em que ele motrera, no entanto, suamãe, Edna Hill, evários intelectuais norteamericanos tanto fizeram quea notícia chegou àspri meiras páginas dos grandes diários dos EstadosUnidos. No dia 6 demarço Edna Hill recebeu das mãos do carteiro em suacasa em Oakland, naCalifórnia, um telegrama 161 expedido acobrar pelo secretário de Estado dos Estados Unidos,redigido em apenasum parágrafo: Lamento informá-la que o embaixadoramericano no Rio deJaneiro, Brasil, relatou-me telegraficamente que seufilho, Victor A.Barron, conseguiu evadir-se de sua guarda e suicidou-seno dia 5 de março,ao pular para a área pavimentada de um pátio doisandares abaixo.Cordel Hull Secretário de Estado. Se Edna Hill tivesselido o jornal The New York Times daquela manhã,teria sabido maiscedo da tragédia de seu filho, e de forma maisdolorosa. Seguindo otratamento dado inicialmente por toda a imprensaamericana para ocaso, o diário novaiorquino publicou a notícia conformea polícia brasileiraa diwlgara: Comunista trai seu chefe e depois semata. Victor AllenBarron, americano, diz à polícia do Rio de janeiroonde é o esconderijode Prestes. Rio de Janeiro, 5 de março -Desesperado pelofato de ter dado a informação que resultou na prisão deLuís Car losPrestes, suposto líder da rebelião radical de novembroüttimo, o americanoVictor Allen Barron, 27 anos, cometeu suicídio hoje,aqui, jogando-se dosegundo andar do quartel-general da polícia. Seucrânio fraturou-se eele foi levado a um pronto-socorro, onde faleceulogo após terchegado, Barron, de acordo com a Embaixada americanadaqui, era umcidadão de Poriland, Oregon, porém ulti mamente vivia noniunero SPl da ruaHaro, em São Fran cisco. Ele chegou ao Hrasil emjunho passadodizendo alternadamente ser operador de rádio ecomerciante, Apolícia local descreveo como um comunista que foi presohá um mês sob aacusação de haver participado da revolta, dirigindo umautomóvel para osrebeldes, sobretudo para Prestes, transportando-o de umlugar para o outro.A prisão de Prestes foi efetuada com a ajuda de seupróprio cão, que apolicia encontrou na casa de Harry Ber ger, supostocomunista americano,que prenderam em dezembro. O cão os levou até acasa onde Prestesestava, conduzindo-os até seu dono. Prestes, conhecidocomo o"Cavaleiro da Esperança", cortou a barba enquantu estavaclandestino. Ele foiencontrado por mais de cem policiais, entreuniformizados e àpaisana, que formaram um verdadeiro cordão deisolamento em voltado bairro. A notícia publicada pela Associated Pressmudou o curso dosfatos nos Estados Unidos. Reproduzida 162 inicialmente apenaspelo The Washington Star, a suspeita estava no diaseguinte em todos osjornais, e motivou uma ação fulminante contra ogoverno, no sentidode que se apuras se a verdadeira causa da morte deBarron. Acionado porEdna Hill, um senador, Albert Carter, procurou osecretário de EstadoCordel Hull pedindo providências em relação aocorpo diplomáticoamerícano no Rio. Não satis feita, Edna Hill colocouno correio, naquelemesmo dia, uma carta endereçada ao presidenteFrankün Roosevelt:Caro Presidente Roosevelt: Venho pedir ao senhor oFavor de mandarinvestigar a causa da morte do meu filho no Rio deJaneiro, Brasil. Demaneira alguma eu acredito que ele tiraria a própriavida, a não ser quea punição a ele infligida fosse muito dura de sersuportada. Sei quese houvesse uma chance de retornar para casa eleteria sacrificadoqualquer coisa em troCa disso. Ele amava sua casa. Eunão poSso enfenderpor que me contaram três his tórias a respeito de suamorte: uma daimprensa, uma do embaixador no Brasil e outra do senadorAlbert Carter. Osenhor poderia descobrir se ele deixou alguma mensagem para sua mãe? E outracoisa, Senhor Presidente Roosevelt, para aqual eu gostaria dechamar a sua aten ção: quando recebi o telegramasobre a morte do meufilho, a mensagem veio a cobrar - tive que pagá-laantes de ler. Alémde ter sido pesarosamente assaltada, fiquei numasituação embaraçosa.Estou escrevendo-lhe esta carta numa últimaesperança dedescobrir o que realmente aconteceu para causar a morte demeu jovem filho, quetinha apenas 26 anos. Gostaria também de saber Se ocorpo tem umacicatriz na perna, já que não tive qualquer chance deidentificá-lo comomeu filho, de modo algum. Muito respeitosamente sua,Sra. Edna Hill.441h, Avenue n 1023 Oakland, Calífórnia O que Edna Hillsupunha ser uma terceira versão, dada pelo senadorAlbert Carter, era,na verdade, o rol de suspeitas levantadas pelosjornais, comprovandoque não havia razões aparentes para Barronsuicidar-se e que,ainda que tentasse fazê-lo, sería impossível que umaqueda de pouco maisde dois metros de altura causasse 163 ferimentos tãograves. Tanto a carta de Edna Hill quanto asmanifestações feitasno Congresso Americano eram des pachadasincontinenti pelopresidente Roosevelt para o mesmo endereço: a mesa deCordel Hull,secretário de Estado. Uma grande comissão foi montada paraforçar o governo aapurar não só a verdadeira causa da morte de Barron,mas também a omissãoda embaixada americana no Brasil em proteger umcidadãonorte-americano. Chefiada pelo advogado Charles Arthur, neto deChester Arthur,ex-presidente dos Estados Unidos, a comissão erarecheada de grandesnomes: Jeanette Rankin, a primeira mulher a obteruma cadeira noCongresso americano, os escritores Malcolm Cowley, Johndos Passos, SherwoodAnderson, Crane Brinton, Lilian Hellman, TheodoreDrei ser e UptonSinclair, o compositor Aaron Copland, o his toriadorWaldo Frank e olingüísta Edward Sapir, entre outros. O grupo dirigiu aRoosevelt, aosecretário de Esta do e fez publicar como matéria paga nosjornais deWashington e Nova York um memorial em que o embaixador dosEstados Unidos noBrasil, Hugh Gibson, era acusado de ter prestadocolaboraçãoextra-oficial à polícia do Rio. "Estamos inclinados a julgaro embaixadorGibson", dizia o documento, "como, no mínimo, parcialmenteresponsá vel pelasrazões que causaram o "suicídio" do Sr. Barron". Oextenso manifestoterminava com acusações graves: A parte todas asversões, um fatofica claro e cristalino. Se Barron deu ou nãoinformações àPolícia que ajudaram a prender Prestes, ou se ele foisimplesmenteassassinado, ou se foi torturado e coagido até não podermais suportar viver,uma coisa é certa: ao invés de cumprir o seu deverpara com estecidadão americano, ao invés de protegê-lo dos métodos dapolícia, que eheiramà inquisição da época medieval, a Embaixadaamericana no Brasilrealmente ajudou ou tentou dar ajuda à policia de umgoverno estrangeirocontra um cidadão americano. A Embaixada americanano Brasil Fica,portanto, acusada de coadjuvan te no crime, em companhiada brutal polícia dopresidente Getúlio Vargas. Estão os americanosnegociando com osbrasileiros de modo livre e independente ou estãoengaja dos numaconquista? Será que na diplomacia é esta a politica daboa vizinhança? Opovo americano quer saber. 164 Por requerimento dodeputado VitoMarcantonio, o Capitólio aprovou a instalação de umaComissão Parlamentar de Inquérito para apurar as denúncias de que aembaixada americanano Rio de Janeiro se omitira ou mesmo haviacolaborado nosepisódios que envolveram a morte de Barron. Menos de umasemana depois o Congresso aprovava a resolução número 243, que obrigavao Departamento deEstado a transmitir, "com a máxima urgência", asseguintesinformações ao Congresso dos Estados Unidos, para instruir aComissão deInquérito: 1. Todos os fatos a respeito da morte de VictorA. Barron, cidadãoamerícano, que morreu sob a custódia da polícia doRio de Janeiro em 5de março de 1936. 2. O que foi feito pelo embaixadorHugh Gibson paraproteger o cidadão Victor A. Barron. 3. Se o embaixadorHugh Gibson ajudouou contri buiu para a prisão ou o interrogatório deVictor A. Barron. 4.Se o embaixador Hugh Gibson ou seus agentesinterrogaram oreferido Victor A. Barron enquanto sob custódia dapolícia brasileira,com o propósito de obter informações a respeito desuas atividadespolíticas. 5. Toda e qualquer informação a respeito dacondu ta doembaixador Hugh Gibson em relação à prisão e morte de VictorA. Barron. Odeputado Alexander Johnson, do Texas, um polí ticoconservador quetentara por todos os meios obstruir a constituição daComissão deInquérito, conseguiu con vencer o plenário a restringir asinvestigações,delineadas no questionário, à participação ou não daembaixada americanana morte de Barron, impedindo que o Congressobuscasse a verdadedo tema central: Barron se suicidara ou fora mortosob tortura? Aindaassim, o Congresso obrigou o secretário Cordel Hull aremeter ao deputadoSam McReynolds, presidente da Comissão de AssuntosEstrangeiros daCâmara, um minucioso calhamaço sobre o envolvimento daembaixada na chamada"conexão brasileira" do movimento comunistainternacional. Comoo que se apurava era apenas o envolvimento de HughGibson e seusagentes, as respostas do Departamento de 165 Estado foramconsideradas satisfatórias e, no dia 26 de março, oplenário aprovouresolução do texano Johnson, determinando oarquivamento doinquérito que sequer fora iniciado. Mas o esfriamento do"casoBarron" não tiraria o Brasil do centro das pressõesinternacionais. Anotícia de que Arthur Ewert e sua mulher Elise estavamsendo massacradospor torturas nas prisões brasileiras acabou va zandona imprensa. Naimprensa estrangeira, claro, já que os jornaisbrasileiros, semnenhuma exceção tinham se transformado em porta-vozesdo noticiáriooficial incluindo-se, aí, até os diários que não tinhamsimpatias porGetúlio Vargas. No afã de agradar ao governo, os jornaismetiam no mesmo sacoanticomunismo e anti semitismo e alimentavamdiariamente entre apopulação um verdadeiro ódio aos estrangeiros emgeral - e aoscomunistas e judeus em particular. E o estrangeiro que nãofosse judeu eraautomaticamente convertido pelo noti ciário dos jornais.Foi assim que anotícia da prisão de Ewert foi dada por O Globo em umaescandalosa manchete de oito colunas de primeira página: Filho de Israel eagente de Moscou! Num bangalow verde, em Copacabana,residia o emissáriodo Komintern, com dinheiro e instruções para arebelião vermelha!Harry Bergen, representante de Stálin! Apreendido emseu poder o arquivoda Aliança Nacional Libertadora e um salvocondutopara entrar emreparti ções públicas! Ewert não se chamavaBergen, não era judeu, não fora preso emCopacabana, eraadversário de Stálin e não tinha salvo-conduto paraentrar em repartiçãoalguma, mas nada disso tinha importância. Oessencial eraenvenenar a população com a monstruosa conspiração judaicacomunista que vinhade fora - não importava de onde para escravizar oBrasil. Além dassucessivas denúncias de torturas feitas por membros doCongresso Nacional,como o deputado para naense Otávio da Silveira e osenador do Pará AbelChermont - e que a imprensa nacional ignorava 166 publicamente - umincidente entre o capitão Filinto Müller e um pequenogrupo de inglesesajudaria a mobilizar a opi nião pública européia emdefesa dos Ewert.Nos primeiros dias de março desembarcaram no BrasilLady Marian CameronCampbell e Lady Christine Hastings, esposas de doismembros da Câmarados Comuns da Inglaterra. Acompanhadas de umsecretárioparticular, Richard Gavin Freeman, as duas senhorasanunciaram àimprensa, no cais do porto, que vinham ao Brasil apurar, emnome de instituçõesde seu país, denúncias sobre torturas a presospolíticos -especialmente estrangeiros. Avisado pelos repôrteres,Filinto Müller foiem pessoa até o hotel Glória, onde a delegação sehospedara e, depoisde deci dir que aquela viagem "era coisa de Moscou",prendeu as ladiesCampbell e Hastings num dos apartamentos do hotel,guardadas por doispoliciais, e mandou que o aterrorizado Freeman fosseatirado num dosxadrezes da Polícia Especial. A situação perdurou porquatro días até que,quando parecia transformar-se num incidentediplomáti co, oembaixador inglês no Brasil consegiu autorização paraque os três fossemliberados e imediatamente embarcados no navíoArlanza, que zarpavapara a Europa. A repercussão não poderia ter sidopior. Semanas depoisa revista britânica The New Statesman and Natíonpubli cava comdestaque o artigo intitulado "Uma desventura brasileira",em que osdesafortunados turístas davam a sua versão do tratamento querecebiam os presosno Brasil - versão devidamente apimentada pelodepoimen to sobre oque Richard Freeman vira nas celas do morro de SantoAntônio e sobre asituação dos Ewert. O artigo agitou os meios políticoslondrinos: umtelegrama confidencial do embaixador brasileiro emLondres, Régis deOliveira, informou ao chanceler José Carlos de MacedoSoares que aembaixada do Brasil, na Inglaterra continuava a receber"inümerascartas de membros do Parlamento e de outras pessoas de certaconsideração,insistindo sobre os rumores que dizem correr a respeito demaus tratamentosdados pela nossa polícia a um tal Arthur Ewert, antigomembro do Reich e asua mulher". 167 A campanha, dizia odiplomata, parecia inspirada "por uma tal MinnaEwert, residentenesta capital, e que se intitula irmã da suposta vítimadas nossasautoridades". Régis de Oliveira rogava a Macedo Soaresinformaçõespormenorizadas a respeito do casal. Embora Arthur Ewertestivesse à beira daloucura, preso num socavão de escada cujo teto erameio metro inferiora sua estatura, a carta do ministro das RelaçõesExteriores doBrasil, em resposta à consulta vinda de Londres, era umprimor de mentira edissimulação: Arthur Hwert e sua mulher, ElisaSaboruwsky Ewert. uuMachla Berger, estão presos no Rio de Janeiro desdedezembro do anofindo, sendo infundados todos os rumores que corremnessa capital sobreos maus tratos infligi dos a ambos pelas nossasautoridadespoliciais, que, agindo com a máxima energia, não necessitam,entretanto, fazeruso de meios violentos, tão ao agrado daqueles que,pleiteando medidashumanitárias, só conseguem vencer pela tirania.Cônscio da obranefasta levada a efeito em nosso país pelos agentesmoscovitas,nacionais e estrangeiros, o governo brasileiro trata apenasde defender-se com asegurança e a energia dos fortes, fazendo cumprir alei e perseguindo,em seus redutos, todos aqueles que tentam SUbVCrter aordem e ataCar aSnoSsaS Instituições. A Berger e a sua esposa, bem comoa todos os presoscomunistas no Brasil, concede a policia toda aassistência médica ejudiciária. Ainda assim, obstinou-se Bcrger emfazer greve de fome,receando ser envenenado. Desta forma, diminuiuconsideravelmente depeso, acusando natural enfraquecimento. Uma juntamédica foi nomeadapara examiná-lo, ficando comprovado que Berger seencontrava emperfeito estado de saúde, necessitando apenas alimentar-seconvenientemente. Quanto a sua esposa Elisa Ewert (aliás MachlaBerger) goza tambémde boa saúde, tendo ficado há dias ultimado o seuprocesso deexpulsão. A pseudo esposa de Luís Car los Prestes, MariaBergner Vilar, queusa também o nome de Olga Prestes, será tambémespulsa doterritório na cional. José Carlos de Macedo Soares Ministrodas RelaçõesExteriores 13. O embaixador doBrasil na Gestapo 169 Olga não ignoravaque corria o risco de ser depor tada. Durante os dezdias no prédio darua da Relação, ouvira notícias de que desde arevolta,Getúlio Vargasdevolvera à Europa centenas de "estrangeiros indesejáveis". Massabia também que havia algo a seu favor: ninguém conhecia suaverdadeiraidentidade. De verda deiro a polícia só tinha seu prenome,obtido durante odepoimento de Rodolfo Ghioldi. Em todos osinterrogatórios aque fora submetida nos primeiros dez dias de prisão,ela se recusara aprestar qualquer informação às autoridades e repetiaaté à irritação asmesmas respostas: - Nome? - Maria Bergner Vilar. -Nacionalidade? -Brasileira. Apesar do sotaque forte, ela dizia isso comfirmeza enaturalidade. Os policiais insistiam: - Como? Brasileira? -Sim, brasileira. Eusou a mulher de Luís Carlos Prestes, que ébrasileiro.Portanto, sou brasileira. A imprensa, a princípio,identificou-a comoOlga Meirelles, irmã do tenente Sylo Meirelles,companheiro dePrestes na revolta. Depois o noticiário garantia que seoverdadeiro nome eraOlga Berger, nascida em Ostende, 170 na Bélgica, e queconhecera Prestes quando trabalhava na legaçãocomercial soviéticaem Bruxelas. Os dois teriam se casado em Montevidéu,a caminho do Brasil.O jornal O Estado de S. Paulo garantia, em furo derepor tagem, que amulher com quem Prestes se casara era, na verdade,Olga JazikoffPandarsky, extremista presa em São Paulo meses antes edeportada pordecreto do presídente Getúlío Vargas. O mistério arespeito de seuverdadeiro nome e de seu passado, no entanto, durariapouco. A embaixadado Brasil em Berlim mantinha estreitas e amistosasrelações com ocomando da polícia secreta nazista, a Gestapo, e oembaixador JoséJoaquim Moniz de Aragão brindava seus superiores noBrasil com preciosasinformações que obti nha nos quartéis daorganização.Regularmente chegavam ao Itamaraty contribuiçõesespontâneas deAragão con tendo relatórios sobre as atividades dachamada "subversão internacional" na Europa. Era com especial deleiteque o diplomatabrasileiro identificava sobretudo os que fossem, comoele dizia, "daraça israelita". Poucos dias depois da prísão de Olga ePrestes, umalentador ofício de Moniz de Aragão chegava ao gabinete dochanceler JoséCarlos de Macedo Soares, protegido pela advertênciaconfidencial,desvendando o segredo que envolvia a mulher do chefecomunistabrasileiro: Senhor Ministro: Emaditamento ao meu olicio nR 136, de 16 do correntemês, enviei a VossaExcelência no dia 21 deste mês o telegrama de n.° 40resumindo uma sériede informações que me foram prestadas em caráterestritamenteconfidencial pelo serviço secreto alemão. O referidoserviço, ao mefornecer os aludidos dados, mais uma vez pediu quefizesse notar sobrea inconveniência de ser aí divulgada a ori gem dascomunicações feitasem caráter absolutamente confídencíal, pois íssopoderá prejudícar aação doS in formantes e expô-los à vingança porparte dos agentes daIII Internacional. As fichas de identificação deHarry Berger, queohtive do serviço secreto alemão, e que remeti anexasao meu ofícioconfidencial n.° 51, de 4 de fevereiro último, forampublicadas pelamaioria dos jornais do Rio 171.  de Janeiro ede diversos Estados, com a menção de terem sido fornecidaspela polícia alemã.Tratando-se de uma comunicação que me foi feita,como disse,confidencialmente, esse fato causou aqui desagradávelimpressão e confessoque fiquei surpreendido ao me mostrarem exemplaresde A Noite e de OGlobo com a reprodução das referidas fichas sem quenem ao menostivessem apagado as notas indicativas de serem provenientesda polícia deBerlim. Respeitosamente devo insistir, a pedido dasautoridades daGestapo, a fim de que no futuro esse fato seja evitado.Tratando de assuntode nosso próprio interesse, estou certo de que VossaExcelência intervirádo melhor modo no sentido indicado. Desde que tivenotícias pelos jornais da prisão de Luís Carlos Prestese de uma mulher que,segundo creio, até agora a nossa polícia não tenhaconseguidoidentificar completamente, tratei de comunicar-me com aGestapo,fornecendo-lhes algumas fotografias estampadas em jornaisnossos, da mulherque aí se faz chamar Maria Meirelles, Maria BergnerVillar e MariaPrestes. Depois de apuradas sindicâncias o serviçosecreto alemãoinformou-me ter podido identificar Maria Prestes, que aíse intitula esposade Luíz Carlos Prestes. Para que Vossa excelênciapossa avaliar otrabalho feito, é bastante indicar que a Gestapoconsultou 25 mil fotografiase 60 mil fichas até conseguir estabelecerprecisamente aidentidade daquela mulher. Tudo poderiaser mais simplificado se a nossa polícia pudesse atender ao pedido reinteradoque tenho feito deme serem remetidas fichas efotografias deagentes comunistas aí presos e bem assim dos que têm sidoexpulsos para que,talvez, possam melhor ser aqui identificados. Além domais, comoretribuição aos serviços que me tem prestado a Gestapo, epelo meu intermédio,seria justo, a meu ver, que conforme desejo que metem manifestado,comunicássemos as cópias de documentos apreendidos aíem poder deextremistas e que eventualmente se refiram direta ouindiretamente à açãodo comunismo na Alemanha. Pelas informações agoraobtidas, e comoreferi no meu telegrama númeru 40, Olga Meirelles, OlgaVillar, MariaBergner ou Maria Prestes, citada nos jornais brasileiroscomo esposa de LuísCarlos Prestes, pode ser identificada como sendoOlga Benario, agentecomunista da Iii internacional deveras eficiente,de grandeinteligência e coragem. Olga Benario é de raça israelita,tendo nascido em 12de fevereiro de 1908, em Munich, na Baviera. Desdedo ano de 1925 queOlga Benario é conhecida da polícia alemã como agentecomunistaextremamente ativa e eficiente. De 1926 a 1928 ela trabalhouna DelegaciaComercial dos Sovietes em Berlim, cujos escritórios estavaminstalados na sededa própria embaixada. Nessa ocasião ela também seentregou a serviçosde espionagens de caráter militar, 172 interessando àdefesa nacional. Em 1928 foi condenada à pena de trêsmeses de prisão porter provucado e conseguido com violência, em 11 deabril daquele ano, afuga do agente comunista Otto Braun, com quem viviae que estava presona prisão de Moabit. Olga Henário fugiu de pois decumprir aquela penapara a Rússia, tendo tomado parte no 5." CongressuInternacional daJuventude Comu nista, que se realizou em Moscou de 19de agosto a 18 desetembro de 1928. Até o ano de 1929 ela residiu nacapital soviética.As suas relações com Luís Carlus Prestes devem datardo ano de 1935,depois da reunião em Moscou du Congresso Mundial da IIIInternacional. OlgaBenario tem usado os seguintes nomes para as suasatividadescomunistas: Eva Krüger, solteira, nascida em Berlim em 12 demarço de 1909; OlgaBerger, solteira, nascida em ErFurt em 2 de abril de1904; Frieda WolfBchrendt, casada, nascida em Erfurt em 27 de julho de1903; Maria Vilar ouMaria Prestes, nascida em 1908. Há suspeitas aquide que ela tenhaservido de agente de ligaçãu entre Arthur Ewert, aliásHarry Berger, LuísCar los Prestes e a Legação Soviética em Montevidéu,e de que foiespecialmente encarregada de organizar a propaganda dajuventude comunistano Brasil. Considerando as liga ções que OlgaBenario manteve hátempos passados com Otto Braun, anteriormente citado,a polícia secretaalemã julgou útil fornecer-me informações detalhadassobre esse indivíduoreputado como perigosu elemento de propagan da doKomintern. OttoBraun, professor de curso elemen tar, nasceu emIsmaning, pequenacidade perto de Munich, em 28 de setembro de 1910 e-noano de 1921 foiidentifica do como agente comunista muito ativo. Viveuem companhia de OlgaBenario, na Alemanha, de 1926 a 1928, isto é, atéa sua fuga da prisãode Moabit, desta capital. No ano de 1926 Brauntornou-se muitoconhecido nos meios comu nistas alemãcs tendo exercido achefia daorganização do Partido Comunista na Hungria e dirigiu, emvárias cidades destepaís, cursos de formação de milícias vermelhas dechoque do PartidoComunista alemão, fazendo várias conferências sobre opapel da açãocomunista na luta de classes e em favor da revoluçãosoviéticainternacional. Em 1928 ele foi preso pela polícia alemã sob aacusação de crime dealta traição sendo, como disse, libertado à forçacom auxílio de OlgaHenario em 11 de abril de 1928. Na sua fugaatravessou a Bélgicae a Holanda, munido de falsos documentos, indorefugiar-se naRússia, onde Coi se juntar novamente com Olga Benario.Nessas condi ções émuito possível, como aliás supõe a polícia secretaalemã, que eletambém tenha agido no Brasil em contato com os demaisagentes de Moscou. 174 Aproveito o ensejopara renovar a Vossa Excelência os protestos de minharespeitosaconsideração. Moniz de Aragão. Aparentemente ochanceler Macedo Soares não levou a sério as reiteradasrecomendações deMoniz de Aragão de não dar publicidade às informações.Menos de 24 horasdepois da chegada do ofício ao Itamaraty, todos osdados sobre averdadeira identidade e os antecedentes políticos de Olgaeram estampados noCorreio da Manhã, do Rio, e na Folha da Manhã e noCorreio Paulistano,de São Paulo. Quem passou o furo aos jornais teve ocuidado, no entanto, de preservar a imagem pública do Itamaraty, omitindo as propostasanti-semitas de Moniz de Aragão e ocul tando,igualmente, aintimidade com que ele se referia às relações da embaixadabrasileira em Berlimcom a polícia secreta nazista. Os detalhes sobre opassado de OlgaBenario vieram a público no mesmo dia em que ela eratransferida da ruada Relação, onde ficara em uma cela improvisada, paraum presídiocoletivo. O temor reverencial que policiais de todos osníveis guardavam porPrestes parecia estender-se também a sua mulher:apesar das ameaças edo terrorismo psicológico, ninguém lhe tocara umfio de cabelo. Masdurante a mudança ela temeu que uma das promessas dapolícia poderiaestar sendo cumprida: como se recusasse a colaborar comseus interrogadores,os delegados tinham prometido mandá-la para umaprisão de criminosascomuns. O receio de ser colocada junto com ladras eassassi nasexplicava o ar de pânico que Olga Benario estampava no rostoquando foi deixadadentro de uma cela onde se encontravam mais dedez mulheres. O medo, entretanto, durou poucosminutos: ali estavammédicas, escritoras, atrizes, algumas operárias,duas advogadas e,para surpresa de Olga, sua amiga Sabo, a mulher deEwert. Todas, semexceção, estavam presas pelos mesmos motivos que ela -envolvimento darevolta de 27 de novembro: Maria Werneck de Castro, Niseda Silveira, Eneidade Moraes, Rosa Meirelles, Beatriz Bandeira, AntoniaVenegas, Eugê niaAlvaro Moreira, Francisca Moura, Armanda Alvaro I"!sAlberto, ValentinaBarbosa Bastos, Haidée Nicolucci, Ca tarina Besouchete Carmen Ghioldi.Através das grades da cela, que ficava no segundoandar de um pavilhãoem forma de U, Olga podia ver mais 48 cubículos,menores que o seu -o das mulheres era duplo - onde se apinhavam cercade dozentos rapazes.O grande número de militares podia ser facilmenteidentificado peloscabelos, cortados rente, acima das orelhas. E eramraros os queaparentavam mais de trinta anos. Olga sabia que ali estavauma ínfima parte dototal das vítimas da repressão que se abatera sobreo Brasil depois dafrustrada rebelião que seu marido chefiara. Navéspera de sertransferida para a Casa de Detenção, na rua Frei Caneca,ela ouvira umpolicial ler num dos jornais do Rio, para amedrontá-la, umbalanço dasatividades da polícia divulgado pelo capitão FilintoMüller. Em quatromeses a polícia realizara 3250 detenções paraaveriguações, 441buscas domiciliares (eufemismo utilizado para designaras invasões de residências, em geral à noite, sem mandado judicial), etinha deixado nosxadrezes um pouco mais de 3 mil pessoas, sendo 901civis e 2146militares. Tudo isso apenas na jurisdição oficial deFilinto, isto é, acidade do Rio de Janeiro. A cela dupla das mulheresficava na partemenor do U; ao lado de uma pequena enfermaria. A posiçãodava às suasocupantes o privilégio de divisar todo o presídio, àexceção das duascelas que ficavam exatamente sob o piso, no andartérreo. E como ochamado "salão das mulheres" havia sido originalmenteduas celas cujaparede divisória fora posta abaixo, as presas contavamcom confortodobrado, em relação aos homens: duas latrinas de barrovitrificado,instaladas ao rés do chão, e duas pias de ferro. Cortinas depano surrado, presasno alto em arames, garantiam a privacidade dasusuárias dastoiltettes improvisadas. Na parede oposta à que separava acela da enfermariatinha sido instalado um "guarda-roupas" - na verdadeuma armação de cabosde vassoura coberta com lençóis grudados portachinhas - e que,muito mais do que guardar o que quer que fosse,escondia um 176 orifício cavado naparede, possibilitando a comunicação com os presos dacela vizinha.Através do "periscópio" como chamavam o buraco, as presasque tivessem maridosou namorados na Detenção podiam passar algunsminutos por dia ali,depois do banho de sol dos homens, trocando rápidase furtivasdeclarações de amor. O pátio central do pavilhão, para ondedavam as portas detodas as celas e onde os presos tinham o direito decircular"livremen te" até às sete horas da noite, quando eram novamentetrancafiados nas celas,tinha recebido a denominação de "PraçaVermelha"- Eraali que se realizavam os comícios e os cursos demarxismo, dematemática superior, de alfa betização, de línguas, dehistória do Brasile, por exigência de alguns tenentes revoltosos,aulas de ginástica.Como a maioria dos presos estava ali desde novembro, Olga encontroua Casa de Detenção funcionando com organizaçãoprópria. Havia o"Coletivo", instância máxima entre os presos, eleitodemocraticamente portodos, que tomava a iniciativa de mobilizar apopulação dopresídio em suas reivindicações, nos protestos coletivos enas greves de fome.Como os presos estrangeiros e os que tinham vindo deoutros Estados nãopossuíam família no Rio de Janeiro, o Coletivo seencarregava derecolher e redistribuir, equitativamente, a comida extrarecebida dasvisitas: frutas, chocolates, bolos e doces. Olga aindaestava procurandoambientar-se com suas novas companheiras de prisãoquando apareceram naporta da cela, guardadas por dois soldados armados,as funcionárias dacantina do presídio,trazendo o caldeirão com o"rancho"daquela noite - uma comida intragá vel - e distribuindo ospratos de alumínio eas colheres entre as presas. àquela hora omovimento do finalda tarde na "Praça Vermelha" já terminara: às setehoras da noite oscarcereiros corriam cela por cela, trancando à chaveos pesados ferrolhosdas grades. Acabado o jantar, Olga ouviu umvozeirão anunciar deuma das celas do segundo andar, de modo a que todoo presídio ouvisse:- Agrade ou agrade, todos à grade! Vamos ouvir aRádio, a "Vozda Liberdade"! Ela logo se acostumaria ao jeito brasileirode enfrentar atragédia da prisão sob uma ditadura. Todos os dias,religiosamente apóso jantar, ela ouviria a mesma frase: estava no ar a"estação derádio" improvisada pelos presos. De pé, os presos cantaramprimeiro a Internacional e depois o hino da Aliança NacionalLibertadora, cujamúsica era a mesma do hino da Independência: Aliança,Aliança, Contravinte ou contra mil! Mostremos nossa pujança, Libertemoso Brasil! Este cantoé preciso que brade, Que não eesse o elamor destavoz! No Hrasil há dehaver liberdade, Conquistada nas ruas por nós!Ainda meiointimidada, Olga cantou junto os dois hinos - o primeiro emfrancês e o daAliança num por tuguês carregado de sotaque. Aí subiunuma das grades ojovem e gordo médico Manuel Venâncio Campos da PazJúnior, locutoroficial da "Voz da Liberdade", para trans mitir notíciassérias, que chegavamclandestinamente da rua, ou deboches e piadas queum dos presos, AparícioTorelli, o Barão de Itararé, hoje reconhecidocomo um dos maioreshumoristas brasíleiros de todos os tempos, passava odia inventando emsua cela. Em homenagem à chegada de Olga Benario,naquele dia o Barãotinha preparado uma "notícia" especial sobre odesafeto de seumarido- Campos da Paz, que tinha como chefe da claqueseu próprio pai, fezsuspense: - E atenção, atenção, companheiros ecamaradas, para umanotícia de última hora que nos chega da rua: minutosantes deenlouquecer, o presidente da República decidiu condenar àprisão perpétua oconhecido meliante Filinto "Mula"! Enquanto o programada "RádioLiberdade" se desen rolava, Olga ia reconhecendo mais algunsrostos familiaresentre as barras de ferro das grades ou ali mesmo, nasua cela. Ela conheciao "locutor" Campos da Paz Júnior de um encontrona praia com AméricoDias Leite, 178 quando ia buscar ascartas que chegavam de Paris para "Yvone Vilai".Embora entendessepouco português na época, ela pôde perceber a malíciada pergunta feita aDias Leite pelo médico rechonchudo: - Dias, vocêpensou que nosenganava, dizendo ter ido à Europa para estudar? Agora euvejo o belíssimucontrabando de olhos azuis que você trouxe da França. .. Entre suascompanheiras de cela, além de Sabo e Carmen Ghioldi, elareconhecia a jovemadvogada Maria Werneck de Casiro. Meses antes daprisão, Prestes recomendara que Olga procurasse o advogado Luiz Werneckde Castro, marido deMaria, para tentar legalizar oficial mente suapermanência noBrasil. E, no escritório de Werneck, conversararapidamente com ela,sem se identi ficar como a mulher de Prestes. Maspouco depois viria ofracasso da revolta, a clandestinidade, e os planosde per manecerlegalmente no Brasil se perderam. Os primeiros dias naCasa de Detenção Olgapas sou-os guardando uma certa reserva. Mesmosabendo que todas aspresas ali eram revolucionárias, comprometidas coma mesma luta, omelhor era tomar cuidado. Ela acompanhara de perto,junto com o marido,no aparelho do Meyer, as suspeitas que o Partidolevantara contraElvira e Miranda - e isso a deixava especialmentedesconfiada. FoiMaria Werneck quem a procurou para que brar o gelo,relembrando oencontro havido meses antes. Uma semana depois de terchegado à prisão darua Frei Caneca, Maria Prestes, como era tratadapelos presos, erauma figura popular na cadeia. Nos primeiros dias deabril, Olga começoua descon fiar que estivesse grávida, mas a princípioisso não a preocupoudemais. Tanto ela quanto as outras presas do salãode mulheres estavamàs voltas com os traumas men tais que Sabo trouxerado morro de SantoAntônio para a Detenção. Como uma das fórmulas paraabalar sua estruturaemocional, os torturadores da Polícia Especial,onde ela estiverapresa por três meses, aplicavam-lhe uma violenta surratodas as noites,pontualmente às três horas da madrugada. Essaregularidade natortura deixara Sabo 179 de tal formaneurotizada que ali, na Detenção, onde não havia castigosfísicos e estavaentre amigos, as seqüelas permaneciam. As três horas damanhã, em ponto,Sabo se punha a gritar, a pedir, em alemão, que não amatassem, queparassem de espancar seu marido. Na primeira vez que istoaconteceu, todo opresídio despertou supondo que de fato alguémestivesse sendotorturado ali dentro. Em poucos minutos começou o"canecaço"- cada preso agarrou sua caneca de lata e passou a baterritmada mente nasgrades, despertando até os detentos da Casa deCorreção, em outropavilhão. e atraindo centenas de soldados armados demetralhadoras queimaginaram tra tar-se de uma rebelião em massa. Com otempo os presos seacostumaram à gritaria da alemã. No começo as mulheres que dividiama cela com ela procuravam acudi-la em seu pesadelo,mas só Olga tinhacondições de acalmála. Falando em alemão,carinhosamente,conseguia fazê-la dormir de novo, até que, semanasdepois, Elisetivesse superado o trauma. Poucos dias após sua chegada àDetenção, OlgaPresenciou uma cena emocionante. Mais de cem presos quehaviam participadoda rebelião em Natal e Recife chegaram ao Rio a bordodo navio Manaos.Eram, exatamente, 114 homens e duas mulheres, quevieram no porão decarga do vapor, guardados por meia centena desoldados. A exemplodo que acontecia na Detenção, o Manaos trou xeraintelectuais,operários, camponeses, estudantes e muitos militaresjovens. Depois dealguns dias reservados aos interrogatóriospreliminares, ospresos foram levados para a rua Frei Caneca. No momentoem que os guardasabriram os portões de ferro do pavilhão para queentrasse a multidãode nortistas e nordestinos, os presos puseram-se depé em suas celas ecomeçaram a entoar os hinos: primeiro o Hino NacionalBrasileiro, depois aInternacional e finalmente o Hino da Aliança.Quando as grades dascelas foram abertas para que os novos hóspedespudessem seinstalar, o orador oficial do presídio, o argentino RodolfoGhioldi, foiencarregado pelo Coletivo de fazer a saudação aosrevolucionários quechegavam. 180 A orientação queGhioldi recebera era taxativa: tinha que ser umdiscurso otimista,triunfalista, para levantar o moral daquela gente quetinha viajado emcondições horrorosas. O argentino retrucou que arealidade nãopermitia muito otimismo: os tempos eram de Hitler, Mussolini, FilintoMüller. A direção não quis discutir: ele que usasse seutalento e fizesse umdiscurso animador. Ghioldi cumpriu a tarefa combrilho, e arrancavapalmas e lágri mas emocionadas enquanto, de euecas ependurado na sacadado segundo pavimento, anunciava em castelhanocastiço queFrancisco Franco, Hitler, Getúlio e Mussolini estavam comseus dias contados;que o glorioso Exército Vermelho de Stálin esmagariao nazi-fascismo comouma barata repelente. Provisoriamente estavam elesali na De tenção,mas, na verdade, detinham o futuro em suas mãos. Ohorizonte eravermelho e estava próximo da Humani dade. Não parecia umdiscursoburocrático,feito de encomenda, mas uma declaração sincera,lavrada com calor epaixão. Eram raros os presos - antigos ourecém-chega dos -que não tinham o rosto coberto de lágrimas ao aplaudiro argentino com arde galã. Ghioldi acabou de falar e recolheu-se, elepróprio emocionado,à sua cela. Em seguida entrou um dos nortistas, umjovem semicalvo, decabelos escuros e ar tenso, e se apresentou: - Muitoprazer, senhorGhioldi, meu nome é Graci liano Ramos. Estou muitocontente e ofelicito por suas palavras tão bonitas. Mas reconheça, aquientre nós, comsinceridade: o senhor não acredita em uma única vírgulado que acabou defalar, não? Disciplinado, Ghioldi foi obrigado amentir: - Não,senhor Ramos. Eu acredito em rigorosamente tudo o quefalei para vocês.Graciliano não se convenceu: - Não sei exatamente qualé a sua história,mas eu sou do Nordeste e conheço bem o meu povo. Eeste é um povo queestá tão atrasado, tão embrutecido pela miséria, quecreio que não poderáfazer a revolução jamais. O comunista argentinoinsistia,aparentemente con victo: 181 - Mas, senhor Ramos,o mujique russo era muito mais atrasado que onordestino e, noentanto, fez uma revo lução que vai mudar a face domundo. A revoluçãonão depende apenas do grau cultural de um povo. E semesses camponesesrussos, atrasados e embrutecidos, não teria existido aRevolução Russa.Graciliano Ramos deixou a cela de Ghioldi em silên cio,sem contestar. Oclima no presídio mudou com a chegada dos revolucionários doNorte. Não apenas porque a presença deles praticamenteduplicará apopulação carcerária, mas prin cipalmente pela alegria epelo deboche quefaziam com todos os temas. Até os militares que tinhamvindo no Manaos erammenos exigentes com a disciplina que os do Rio. Efoi com os nortistasque chegou à Detenção e foi implantada com festas aúltima maravilha dascomuni cações: o "merdafone"- A novidade - segundose soube, inventadapor um engenhoso sargento marxista-leninista dePernambuco -consistia em segurar a corda de des carga das privadas numdeterminado ponto,de forma a que o nível da água fosse mantido no fundodo vaso sani tário,como se ele estivesse seco. Duas latrinas de celasdiferentes, mantidasassim, transformavam-se milagrosa mente em umexcelente meio decomunicação, que exigia apenas que o usuário perdesseo nojo de meter orosto dentro daquele buraco mal cheiroso para falar eouvir o que era ditona outra ponta. O suposto autor da inven çãogabava-se, aosberros, ao anunciá-la aos presos: - Isto é muito maisavançado que otelefone. Não fosse o cheiro de merda, eu, e nãoAlexandre GrahamBell, passaria para a história! Olga integrou-se aoColetivo como sefosse uma bra sileira. Dias após sua chegada, aexibição do coralfemi nino ensaiado por ela passou a ser atraçãoobrigatória nosprogramas diários da P.R.ANL. As mulheres cantavam aInternacional emfrancês, a maioria lendo a letra que ela copiara váriasvezes em pedaços depapel, durante o dia, e encerravam a programaçãoentoando, emitaliano, o Bandiera Rossa: 182 Avanti popolo: A lariscursa! Bandiera Rossa! Handiera Rossa! BandieraRossa ehe irion(erá!E viva il comunisno per la liberlá! A últimaestrofe era cantadaem coro por trezentas e tantas vozes, num estrondoque muitas vezesvaleu puni ções aos membros do Coletivo: Viva Lenine,abasso il ré! VivaI.enine, abassu il ré! Um mês depois de ter sidotransferida para arua Frei Caneca, Olga anunciou às companheiras decela que não tinhamais dúvidas: estava esperando um filho de Prestes.Sua primeirapreocupação foi tentar comunicar isso ao marido. Elaprocurou o chefe dacarceragem, acompanhada da médica Nise da Silveira,presa como ela, parainformar que a partir daquele momento exigia oscuidados necessáriosa uma grávida. E quis saber se podia escrever aPrestes paracomunicar-lhe que seria pai ainda naquele ano. O policialnão fez muito caso edisse apenas que ela escrevesse que ele ia ver seera possível fazerchegar a carta às mãos do chefe comunista. Seguindo aorientação doguarda, ela escreveu não uma, mas dezenas de cartas aomarido, sempre emfrancês e sempre encer radas com um carinhoso Iatienne - a tua.Cartas que ele nunca receberia. A notícia da gravidez damulher de Prestestransformou o presídio. Todos queriam ajudar adiminuir asdificuldades de uma gestação dentro da ca deia. Os presosque recebiam visitascomeçaram a pedir aos parentes que trouxessemcomidas especiais evitami nas, sempre seguindo as prescrições de Niseda Silveira, que avida acabava de transformar de psiquiatra emgenicologista eobstetra. Cada um contribuía como podia. Carmen Ghioldi,exímia bordadeira,arranjou agulhas e linha de crochê e passou aproduzir umminúsculo guarda-roupa para o bebê. Por uma curiosa espéciede premonição,ninguém fazia roupas masculinas, mas sempre para menina.Rosa Meirelles, umadas presas, contou a Olga que o tenente 183 gaúcho José Gay daCunha, preso em uma das celas do térreo, eradesenhista. Olgahavia sido apresentada a ele de longe, através dagrade, por Rosa, ese lembrava do rapaz alto, de nariz adunco, que lheabanara a mão lá debaixo: - Muito prazer! Então você é a Maria Prestes?- Sim,sou eu. Evocê, é tenente do Tercêrro ou da Escôta? No seuportuguês tedesco,tercêrro era o 3.° Regimen to de Infantaria, e escôtaera a Escola deAviação Militar, de cujo levante o tenente-aviador Gayda Cunha participara. Dias depois ele fora à enfermaria, com suspeitade intoxicaçãoprovocada pelo jantar da noite anterior, e se valera dodescuido do guardapara chegar à grade da cela das mulheres. Olgaaproveitou aoportunidade para fazerlhe um pedido: queria que eledesenhasse, empequenos pedaços de papel, os aviões existentes naAviação Militar doBrasil, para que Carmen Ghioldi pudesse bordá-los nosbabadores ecamisinhas do bebê. Os desenhos foram fei tos com capricho,contrabandeados paraa cela das mulheres e, poucos dias depois, umpacotinho com roupasmi núsculas descia do salão das mulheres até o pisotério, através do"voador", para que Gay da Cunha conferisse se osbordados respeitavamseu traço original. O "voador", outro produto dainventividadenordestina, era um sistema de linhas e roldanas, feitascom os carretéis vaziosdas linhas de crochê de Carmen Ghioldi, queservia para otransporte de bilhetes e volumes pequenos, de pouco peso,entre a "PraçaVermelha" e as celas do primeiro andar. Em geral erautilizado para levare trazer mensagens que não podiam ser transmitidasaos gritos, ou paraa remessa e devolução dos "deveres de casa" doscursos de marxismo efilosofia que Olga e Rodolfo Ghioldi ministravam àmaioria dospresos.Quando era necessário fazer alguma comunicação entrecelas de um mesmopiso, o "voador" obrigava a uma operação dupla: ocarretel era atiradopara alguém no pátio, que recebia a mensagem erepetia transmissãopara a cela cujo número vinha indicado no bilhete. 184 Foi através do"voador" que Olga recebeu um minúsculo recorte do jornalO Globo com anotícia de que Prestes, ouvido na véspera pelo juiz BarrosBarreto, assumiaintegral responsabilidade pelo levante de 27 denovembro, eximindotodos seus companheiros, estrangeiros ou diri gentesdo PartidoComunista, de qualquer participação ná organização darevolta. Pelo mesmorecorte, Olga pôde perceber o medo que seu maridoinspirava aogoverno. O jornal publicava declarações de Eusébio deQueiroz, nomeadocomandante do quartel-general da Polícia Especial, emque o militarrevelava as medidas de segurança tomadas para guardar "ochefevermelho": - muito perigoso aproxímar-se do morro de SantoAntônio, que estáminado e eletrificado. Debaixo de um "chapéu de sol",no alto do morro,está instalada uma guarnição com três metralhadoras,tornando praticamente impossível a fuga do prisioneiro. As cercas dearame farpado estãoligadas a uma rede de alta voltagem, o que constituisério perigo para avida daqueles que tentarem contrafazer a ordemestabelecida. Quandoas notícias sobre o marido não vinham pelo"voador",Olga recebia instruções para estar a tal hora no guarda-roupade sua cela, porquealguém iria transmi tir-lhe pelo "periscópio"novidades vindas defora. Muitas vezes ela tinha que esperar horas nafila - especialmentese antes dela estivesse Valentina Bastos, suacolega de cela.Valentina era apaixonada pelo marido, o milionárioAdolfo BarbosaBastos, o Bebë Chorão, preso sob a acusação de tercontribuído com umaverdadeira fortuna para os cofres do PartidoComunista - emboranunca tivesse sido militante da agremiação. Valentinae Adolfo passavamhoras trocando declarações de amor através do"periscópio",ainda que o máximo que conseguíssem ali fosse acariciar aspontas dos dedos umdo outro. Para a utilização do "periscópio" semlevantar suspeitasdos guar das era preciso montar um dispositivo queenvolvia quase todosos presos. Durante as conversas ou namoros pelominúsculo orifícioda parede, pelo menos uma das descargas de privada dopresídio precisavaser acionada, para 185 que seu ruídoabafasse as vozes dos que falavam - arti fício que levou ajornalista HaidéeNicolucci a batizar aqueles momentos de "a hora dapororoca". Como passar das semanas, a gravidez de Olga ficava maisevidente. Em uma desuas muitas visitas ao cartório onde eram tomados osdepoimentos dospresos do levante, Olga dirigiu-se aos repórteres que acercavam em busca denotícias e anunciou que dentro de alguns mesesdaria à luz a umfilho de Luís Carlos Prestes. Um fato, entretanto,impedia que ela eseus companheiros de prisão pudessem desfrutar aperspectiva damaternidade. A ameaça de expulsão do Brasil era cada vezmais concreta. Nosprimeiros dias de maio o delegado Eurico BellensPorto, encarregadopor Filinto Müller de presidir o inquérito policialsobre a revolta,anunciava que seu trabalho chegava ao fim: centenas depessoas -brasileiros e estran geiros, civis e militares, - haviam sidoindiciadas comoparticipantes do levante, mas no que se referia às trêsmulheres presas na Casade Detenção, suas conclusoes eram ambíguas.Primeiro ele dizíanão ter como puni-las no Brasil, pois a nenhuma delashavia sido imputadoqualquer crime. "Não encontro elementos bastantesque permitam incluircomo indiciadas com atuação definida asestrangeiras ElisaEwert, Carmen Alfaya de Ghioldi e Maria BergnerPrestes",lamentava Betlens Porto em ofí cio dirigido a Filinto Müller.Mas se a lei nãoprevia qual quer punição para as três, pior para a lei.O inadmissível eracolocar em liberdade as mulheres dos três chefescomunistas. BellensPorto arranjou uma forma ainda mais dura depenalizar as três:"Trata-se evidentemente de elementos indesejáveis,cuja permanência emterritório nacional não é aconselhada. Por estasrazões, data venia,lembro a V. Excia. a conveniência de contra elasserem instauradoscompetentes processos de expulsão". 14. Uma"estrangeira nociva" 187 Embora a ameaça deexpulsão fosse cada vez mais iminente, uma ponta deesperança permitiaque Olga sonhasse ter seu fílho no Brasil: apesar doestado de sítío queacabava de ser renovado, apesar do clima de anticomunismo e dehostilidade aos judeus que se dissemi nava no Brasil,apesar daindisfarçada simpatia que o governo Vargas manifestava pelonazismo na Alemanha,a Constituição brasileira, que continuava em vigor,garan tia àsmulheres que estivessem esperando filhos de paisbrasileiros odireito de tê-los no país. Não lhe importava continuar naprisão, pois sabiaque um dia tanto ela quanto Prestes acabariam sendolibertados. O que aaterrorizava era a perspectiva de ser enviada aoseu país de origem.Cair nas mãos de Hitler, para ela que, além dejudia, eracomunista, seria o fim de tudo. Mesmo que as leis brasileiraslhe fossemfavoráveis, o noticiário que Olga recebia pelo "voador" ouatravés do"periscópio" era desanimador. De todos os casos de expulsãode estrangeiros"indesejáveis" de que tivera notí cia - e eram centenase centenas - um,particularmen te, Olga acompanhara de perto, ainda emliberdade, pelonoticiário dos jornais, e ficara estarrecida com seudesfecho. Depois demanter presa durante quatro meses, sob a vagaacusação de"subversão", o governo de Vargas 188 decidira deportaruma garota de 17 anos, Genny Gleizer, judia romena,apesar damanifestação de centenas de sin dicatos e associações deestudantes eintelectuais, tanto do Brasil como do Exterior. Durante oprocesso de expulsão de Genny, a opinião pública testemunhara algunsgestos comoventes desolidariedade- Quando se anunciou, por exemplo, quese ela casasse comum brasileiro as leis a protegeriam da deportação,vários escritores eintelec tuais se ofereceram como voluntários- AIumcomício pelalibertação de Genny, no centro de São Paulo - onde tinhasido presa - oestudante Paulo Emílio Salles Gomes anunciou que sairiado palanquediretamente para o car tório, em busca de um juiz queoficializasse seucasamen to com a garota. Chegou tarde. O jornalistaArthur Picci ninique acompanhava o "caso Genny" para o diário APlatéia, tomara-lhea frente e havia solicitado ao Juízo de Paz dobairro da Sé, nacapital paulista, a publicação dos proclamas para seumatrimõnio.Insensível a tudo isto, em outubro de 1935 o governodeportou Genny Gleizer para a Europa. Os comunistas brasileiros sabiamque esse poderia sero destino da mulher de Prestes e se preparavam parao pior. O ComitêBrasileiro do Socorro Vermelho Inter nacional conseguiufazer chegar aosnúcleos da organiza ção em todos os portos da Europamanifestos dandoconta dá situação política brasileira e das sucessivasdeportações que ogoverno vinha fazendo de "extremistas" europeus paraseus países deorigem - especialmente para os países dominados pela vaganazi-fascista.Assim, o apelo dos comunistas brasileiros era de que osestiva dores deportos europeus vistoriassem todos os navios procedentesdo Brasil para tirarde seus porões os estrangeiros deportados. A mobilização de umacategoria pro fissional tradicionalmente politizada,como os portuários,chegava a paralisar os portos da Europa cada vez queum navio vindo doBrasil atracava para reabastecer ou descarregar algumproduto. Quando asautoridades tenta vam impedir as buscas nos porõesdos navios, osportos entravam simultaneamente em greve até a revogação 189 da ordem. Numa únicaação, realizada no porto do Havre, na França,conseguiu-se retirardo convés de carga de um navio da Marinha Mercantedezessete deportadosalemães, italianos, portugueses e poloneses. Nosarma zéns e nos caisdos portos da Espanha ainda republicana um pequenopanfleto circulavade mão em mão, aos milhares, inspirado neste pedidofeito peloscomunistas brasileiros: Aus camaradas da Seção Espanhola doSocorro VermelhoInternacional. O reacionárío governo brasileiro, emguerra aberta e cruelcontra os antiimperialistas do país, vai deportardezenas e dezenas demilitantes estrangeiros. Nós vus parti cipamos essefato, para queestejais vigilantes em relação a todos os naviosprocedentes doBrasil e faciliteis o desembarque na Espanha dessasvítimas da reaçãobrasileira. Sobretudo, nós vos pedimos que façaístodos os esforços noSentido de evitar que os nacionais de paísesfascistas cheguem aestes. Eles querem desembarcar na Espanha ou naFrança, o que vossolicitamos providenciar-. Saldações Revolucionárias;Comifé Regional deSão Paulo do Socorro Vermelho Internacional. O endurecimento darepressão no Brasil justificava os temores do SocorroVermelho. Prestesestava ameaçado de ser processado como chefe darebelião, comomandan te da morte de Elvira Colônio e como desertor doExér cito. Por ordemde Filinto Mülier, o prefeito Pedro Ernesto, doDistrito Federal,havia sido preso. Antonio Maciel Bonfim, após saber dodesaparecimento damulher e que, provavelmente, ela teria sido executadapor ordem da direçãodo Partido Comunista, tornara-se ainda mais loquazem seus depoimentosà polícia. No mês de abril de 1936, Olga foiretirada de sua celae levada aos escritórios burocrátícos da Casa deDetenção para seracareada com o antigo secretário-geral do PartidoComunista. As duasfiguras eram tão importantes para o processo que odelegado BellensPorto dirigiu pessoalmente a audiência. Olga não só serecusou a reconhecerMiranda como sequer acei tou rubricar as folhas doauto dereconhecimento. Bonfim, ao contrário, disse sem hesitar quereconhecia aquela 190 mulher como a mesmaque encontrara em reuniões junto com Prestes, ArthurEwert e RodolfoGhioldi. Sem nenhum pudor, acrescentou que a políciapoderia encontrarmais declarações suas a respeito das atividades daalemã nasdeclarações que prestara anteriormente ao delegado AntônioCanavarro Pereira.Impassível, Olga ouvia tudo aquilo tentando de novoencontrar respostapara uma pergunta que fizera a si mesma e a Prestes:"Como aquelehomem conseguira chegar ao mais alto posto de um par tidocomunista?" Aorelatar aos companheiros de prisão, pessoalmente ou pelo"voador",o comportamento de Bon fim na acareação, ela percebeu que assuspeitas não eramapenas suas. Até o discreto e retraído GracilianoRamos, que pareciaparticipar pouco da vida do presídio e passava ashoras enterrado nacela,fazendo anotações em blocos de papel,jámanifestara espantopelo despreparo e o exi bicionismo suspeito deAntônio MacielBonfim. No final de maio Olga engordara bastante - abarri ga estufava ecomeçava a aparecer sob o vestido. Foi nessa épocaque o governodecidiu promover comemorações cívicas pela passagem dosprimeiros seis mesesda revolta de novembro, então batizada de"Intentona Comunista".Comandantes do Exército, da Marinha e da AviaçãoMili tar fizerampronunciamentos relembrando os episódios e organizaramvisitas aos túmulosdos militares mortos no levante. Os jornaisnoticiavam que asede nacional do Rotary Club dedicaria a suareunião-almoçodaquele mês, marcada para o dia 27,"ao estudo do problemada defesa contra oextremismo, havendo convidado o capitão Miran daCorreia, delegado deSegurança Política e Social para fazer umaconferência sobre oassunto". Como convidados de honra, compareceriam aoágape os ministrosVicente Rao, da Justiça, o general João Gomes, daGuerra, ocontra-almiranie Aristides Guilhem, da Marinha, e o chefe depolícia, capitãoFilinto Strümbling Müller. A partir de então o governopassaria a difundira versão de que os revoltosos tinham matado praças eoficiais Legalistas 191 durante o sono, namadrugada de 27 de novembro. O exame das necrópsiasdas duas dezenas demortos, no entanto, não oferecia qualquer indíciode que tal acusaçãofosse procedente. Mas as comemorações não se dariamapenas entre osvencedores. A sua maneira, dentro do presídio, osderrotados de 27 denovembro também receberiam presentes pela passagemda data. O autor dasurpresa seria o sar gento Júlio Alves, dono deincrível habilidademanual para o trabalho com metal. Nos últimos mesesJúlio Alvesrecomendaria a um capitão nascido em Minas Gerais quepedisse a seusparentes para aumentar as remessas de um certo queijo quelhe traziam depresente, quando das visitas, e que vinha acomodado emlatas redondas, dotamanho de uma bola de futebol. Menos que oconteúdo, JúlioAlves queria mesmo era as latas, de metal macio e fácilde trabalhar, queele transformava em fogareiros e panelas para uso nascozinhasclandestinas das celas. Dessavez, no entanto, elese superou. No fim da tarde de 27 de maio o"voador"funcionou sem parar, depositando em cada uma das 49 celas daCasa de Detenção umpequeni no embrulho de papel contendo o presente comque o sargento Alvescomemorava o meio aniversário da revolta: umagazua esculpida nometal das latas de queijo, capaz de abrir semdificuldadesqualquer uma das fecha duras das celas. Cada gazua vinhaacompanhada de umaadvertência rabiscada no papel de embrulho: "Só usarem caso de extremanecessidade. Se pegam isso conosco, pode darfuzilamento. Viva aRevolução proletária!" Aparício Torelli, o Barão deItararé, espalhoupelo presídio a notícia de que as gazuas, além deabrirem portas,tinham o condão de juntar marxistas e cristãos: - Elasforam feitas pelosargento Júlio Alves,indiscutivelmente comunista, eforam benzidas pelopadre Na cimento, aparentemente cristão. PadreNascimento era umadas figuras mais folclóri cas do presídio. Quandoentrou pela primeiravez no pavi lhão da Detenção, tinha a mão esquerdalevantada, com opunho cerrado, e na direita arrastava uma canastra de 192 frutas e queijospara os presos. Diretor de uma creche para órfãos nacidade de Niterói,foi preso por ingenuidade, enquanto percorria aslojas da cidadepedindo contribui ções aos comerciantes para "asfamílias dos pobrescomu nistas presos em novembro"- Alguém o denuncioue ele foilevadopreso ao Rio de Janeiro. Quando chegou à rua FreiCaneca, os policiaiso ameaçavam: - Agora, padre filho da puta, vamoscolocá-lo com oscomunistas e o senhor vai ver de perto quem são os demônios para quempedia dinheiro. A forma que a polícia encontrou paramartirizá-lo foiobrigá-lo a assistir a sessões de torturas na Casa deCorreção, pavilhãovizinho ao da Detenção. Depois de uma dessasexperiências, eleparou em frente à cela de Olga Benario, olhou fixopara a barrigaarredondada da alemã e jogou-se ao chão, de joelhos, comas mãos postas, perguntando pateticamente a ela: - Diga-me, senhora:haverá Deus? Entreas denúncias que havia contra ele, estava o crime deligar o rádio deondas curtas do orfanato nas transmissões da RádioMoscou e da RádioRepublicana da Espanha, após o jantar, e chamar osórfãos para ouviremos programas junto com ele. Naquela época, as transmissões da RádioMoscou começavam com a execução da Internacional. Osmeninos ficaram detal forma habitua dos que, quando padre Nascimento seesquecia, haviasempre um deles a puxá-lo pela batina: - Padre, está nahora de ouvir osamba! O samba era a Internacional comunista. PadreNascimento detinha otítulo de aluno mais assíduo de todos os cursosministrados nacadeia. Estu dava marxismo com Olga Benario, filosofiacom Ghioldi,aprendia russo e inglês com Raphael Kemprad, russo brancocriado na Alemanha epreso no Rio ninguém soube por quê, xadrez, damas,geografia política ehistória do Brasil com quem os ensinasse. Quandoduas turmas sereuniam ao mesmo tempo, ele pedia a alguém que lhefizesse um resumo daaula e o enviasse a sua cela pelo "voador "- Só umaclasse ele serecusava a freqüentar, 193 alegando"questões de consciência": as intermináveis sessões deginástica impostaspelos tenentes. Mas era preguiça mesmo. Como amaioria dos presos,padre Nascimento tinha especial predileção peloscursos ministradospor Rodol fo Ghioldi. O argentino, que planejarapassar o seu períodona cadeia "o mais discretamente possível", erabombardeado porpedidos de presos que queriam conhecer melhor a chamada"teoriarevolucionária". O que significa revolução antiimperialista? Oque quer dizerrevolução democrática? O que é a aliança operário-camponesa? O que querdizer que o proletariado é a classe dirigente e que oPartido Comunista éa vanguarda do proletariado? O que é o Apraperuano?O que foi a revolução mexicana? Encerrado em seu eubículo, ele recebiapelo"voador" as perguntas mais estapafúrdias, e não ti nha remédiosenão sair de seupretendido anonimato. Quando as celas estavamtrancadas, eleajudava os presos a fazer o "dever de casa", muitas vezespassado por Olga,através de bilhetinhos. Abertas as portas, ele falavaaber tamente, paratodos, algo que Olga nunca se animou a fazer. Emborafalasse sobreAmérica Latina, filosofia mar xista, revolução chinesa,ele preferiadissertar sobre o movimento camponês do Brasil. Ao cabo dealguns meses,falando um português sofrível, Ghioldi chegou a escreverum ensaio de mais decem páginas sobre o problema agrário brasileiro. Apartir dasentrevistas que ele fazia às dezenas com os revolucionáriosvindos do campo,havia se transformado em um especialista no assunto.Mesclandodepoimentos sobre o que testemunhara na União Soviética comrudimentos de teoriamarxista, Olga Benario preferia falar para gruposmenores, dentro dosalão das mulheres. A sua volta sentavam-se desdemodestos sapateirosaté oficiais do Exército e advogados, como HermesLima, que décadasdepois - em 1962 - viria a ser primeiro-ministro doBrasil, e depoisministro do Su premo Tribunal Federal, até ser cassadoem 1969. Olga dava suaaula e ditava, ao final, uma série de perguntaspara os alunos. Emtrês dias eles deviam devolver, pelo 194 "voador",os questionários respondidos. A aula seguinte seria dedicada adiscutir acompreensão que cada um tinha tido do tema ensinado. Asturmas eram tãoheterogêneas que, mesmo sendo estrangeira, em algumasdas sabatinas ela sedava ao requinte de fazer correções de erros degramática econcordância nas provas. A vida no presídio só setransformava nosdias de visitas, um domingo por mês. Havia presos quese prepara vamdurante três semanas para aqueles minguados 50 minutos.Ao chegar o dia, oshomens se barbeavam, as mulheres se perfumavam e aexcitação era tãogrande que às cinco horas da manhã a maioria estava depé, mesmo aquelesque não tinham quem os visitasse. Terminadas asvisitas, o clima defesta ainda se mantinha por algu mas horas: era atroca de notícias,uns querendo saber da saúde dos parentes dos outros,pais indicando com amão o tamanho dos filhos precoces. Depois vinha aredis tribuição doscigarros, chocolates, queijos e goiabadas vin das defora e em seguida umclima de cava depressão baixava sobre o presídio.Aos poucos os gruposiam se desfazendo, cada preso procurava o seucubículo e,acocorados sobre as camas toscas, punham-se a ler e relerdezenas de vezes asmesmas cartas. Quem apurasse o ouvido poderiaperceber soluçosvindos de dentro de celas de calejados revolucionários.Era o único dia domês em que a "Voz da Liberdade" não ia para o ar. Asvisitas permitiamtambém que o presídio fosse arejado por notícias defora. Foi num dia devisitas que se soube que o homem que prendera Olgae Prestes, JosuéTorres Galvão, fora assassinado com cinco tiros por umsoldado, no próprioquartel da Polícia Especial. Menos de 24 horasdepois do crime, oassassino, Hernani de Andrade, chefe de um grupo decapturas, sesuicidaria misteriosamente. Em surdina, diziam osvisitantes, anotícia que corria é que os dois haviam se desentendidosobre quem ficariacom a recompensa de 100 contos de réis prometida porFilinto Müller parao policial que pren desse Prestes. E foi também numdia de visitas queOlga Benario ficou sabendo que o governo estavafirmemente 195 decidido adeportá-la para a Alemanha. O Instituto dos Advogados tentaradesignar um advogadode seu Depar tamento de Assistência Judiciária,Dyonisio daSilveira, para defendê-la, mas este recusou-se a aceitar oencargo. Pelaprimeira vez, então, o governo permitiu que Olgaescrevesse uma cartaa Prestes. E só aí ele soube que sua mulher estavagrávida. Na respostaa Olga, fez-lhe duas recomendações: que procurasseum médico homeopatapara tratar-se durante a gravidez - Prestes semprese tratou pelahomeopatia - e que indicasse o Dr. Heitor Lima como seuadvogado. Emboraestivesse, como dis sera o Barão de Itararé, "grávida aolho nu", Olgateve que ser submetida a um exame ginecológico, feitopelo médico OrlandoCarmo, indicado pela polícia, para com provarformalmente seuestado. Mesmo não havendo dú vidas de que a Constituiçãolhe assegurava odireito de permanecer no país, estando para dar à luz ofilho de umbrasileiro, não faltaram juristas a teorizar sobre o acertoda decisão de Vargase Filinto Müller de expulsá-la do Brasil. Quandoalguém lembrava agarantia constitu cional, a resposta era sempre amesma: "Bem,mas estamos sob estado de guerra, não é?". Consultadopelos jor nais, ojurista Clóvis Bevilácqua foi obrigado a dar voltas evoltas parajustificar a decisão do governo: - A questão já foi estudadaem todos os seusaspec tos em face do Direito Civil. É, porém, diverso,o caso ora emdebate. Estamos agora no terreno do Direito Internacionalcom um caráterpunitivo. Essa punição, no entanto, visando a expulsá-la,vai atingir o nascituro.Além disso, estamos em um período de estado deguerra, e a expulsãode que se cogita envolve o ponto de vista dointeresse público,que está acima de todos os demais interêsses. Aquestão do"interesse público" a que se referia pomposamente ClóvisBevilácqua nãopassava, na verdade, de um despacho administrativoassinado porDemócrito de Almeida, um delegado auxiliar, e por FilintoMüller, um capitãona chefia da polícia, que entenderam que a expulsãode Olga "alémde justa, é necessária à comunhão 196 brasileira".Mesmo sabendo que a deportação significaria a morte de mãee filho, Bevilácquanão resistiu à ironia ao declarar que só via umasaída para impedir aexpulsão de Olga: - Só por questão de humanidade...No tempo em quehavia a pena de morte, não se executava a sentençaquando a pacienteestava grávida. Aguardava-se o nasci mento da criança.Era também umaquestão de humanidade... Conforme mandava a lei, Olgateve que manifestarpor escrito seu desejo de ser defendida por HeitorLima, que no mesmodia recebeu a comunicação dessa decisão, em ofícioque lhe foi dirigidopelo capitão Miranda Cor reia. Mesmo sendo umliberal sem a maisremota ligação com as idéías dos revoltosos denovembro, Limarespondeu ao policial afirmativamente: Senhor CapitãoAftonso de MirandaCorreia Del. de Segurança Polílica e Social Aresposta ao vossoofício comporta três ordens de considerações. Emprimeiro lugar, aconduta do governo facilitando a defesa dos indiciadosem crimes contra aordem política e social, quando o Estado de Guerralhe facilitaria, comaparências de legitimidade, a coarcitação dodireito de defesa,deve ser posta em relevo. Quero assinalar esse fato,que satisfaz aconsciência jurídica nacional. Em segundo lugar, se,salvo casosespecialíssimos, ao advogado não é lícito recusar o seuministério aquaisquer acusados, por mais hOrrendo que seja o delito aeles atri buído,mais imperativo, instante e compulsório é o dever deassistência, quandose trata de presos incomunicáveis, feridos pelorepúdio geral, numasituação adequada à infringência das fórmulas semcuja observânciatoda condenação será iníqua, porque não representará adedução lógica ejurídica dos debates livres entre acusação e defesa.Sobreleva ainda que,num período em que ao advogado não se outorgamimunidades, a recusado patrocínio redundaria em ato de covardiaEmterceiru lugar, efinalmente, é uma mulher que invo ca o meu nome.Bastaria talcircunstância para que eu, fiel à atitude de combate pelamitigação doinfortúnio feminino na face da terra, e empenhado emresgatar, em parcelamínima embora, os crimes da civilização masculinacontra a mulher, nosquais como homem tenho a minha parte deresponsabilidade,bastaria tal circunstância, 197 repito, para que euacudisse ao apelo. Leio, porém, nos jor riaiS, que aindiciada se preparapara o acontecimento culminante na vida da mulher:a maternidade. Istopor tanto, nimbada de uma auréola que a torna, porassim dizer,sagrada. Quaisquer, pois, que fossem os riscos da tarefa,eu os afrontaria,dedicando-me a ela enquanto en contrar na lei recursospara o desempenho daminha missão. Saudações, Heitor Lima. A primeiramedida tomada peloadvogado, três dias depois de aceitar a defesa deOlga - ou MariaPrestes, como ele insistiu em tratá-la durante todo oprocesso - foientrar com um pedido de habeas corpus junto à Corte Suprema. Não paracolocá-la em líberdade, que dísso nem se cogitava, maspara tentar impedirque se consumasse a expulsão já determinada peloministro da Justiça,Vicente Rao, com base na exposição de motivos quelhe fizera FilintoMüller. Quanto mais Heitor Lima remexia as montanhasde depoimentos edenúncias do processo da revolta, tanto mais sematerializava acerteza de que a decisão da expulsão se resumia a umavingança pessoal deGetúlio Vargas e Filinto Müller. Não contra ela, quenenhum dos doisconhecia, mas contra o marido e pai de seu filho, LuísCarlos Prestes. Nãohavia, em todo o processo, uma só acusação, umaúníca imputação dequalquer delíto que ela pudesse ter praticado noBrasil. Nem sequersua extradição havia sido pedida pelo governo deAdolf Hitler.Getúlio e Filinto tomavam espontaneamente a decisão deenviar ao Reichnazista uma judia, comunista e grávida de quafro meses.Contra aConstituição, exibiam o parágrafo de três linhas da Lei deSegurança Nacionalque o próprio Rao redigíra meses antes: A Uniãopoderá expulsar doterritório nacional os estrangeios perigosos à orempública ou nocivosaos interesses do país.199No mesmo dia, etambém de próprio punho,Heitor Limareplicava, feminista como sempre, ao pé do pedido: Se a justiçamasculina, mesmoquandu exercida por uma consciência do mais finoquilate, como oinsígne presídente da Corte Suprema, tolhe a defesa auma encarcerada semrecursos, não há a história da cívílizaçãobrasileira derecolher em seus anaís judícíáríos esta nõdoa: acondenação de umamulher, sem que a seu favor se elevasse a voz de umhomem no Palácio daLei. O impetrante satisfará as despesas do processo.Heitor Lima. Odesfecho do pedido não poderia ser mais trágico.Designado relator doprocesso, o minístro Bento de Faria indeferiu, umapor uma, todas assolicitações do advogado. E, alegando que o institutodo habeas-corpusestava suspenso pelo estado de sítio e pelo estado deguerra decretadospor Getúlio Vargas, decidiu simplesmente não , tomarconhecimento dopedido. Votaram com o relator o presidente da CorteSuprema e osministros Hermenegildo de Barros, Plínio Casado, Laudo deCamargo, CostaManso, Otávio Kelly e Ataulpho de Paiva. Os trêsminístros restantes- Eduardo Espínola, Carvalho Mourão e CarlosMaximiliano -criaram um artifício para evitar simplesmente desconhecero pedido:conheceram, mas negaram o habeas-corpus. Por unanimidade, otal "Palácio daLei", a que se referira Heitor Lima, condenava OlgaBenario à morte. 15.Rebelião na "Praça Vermelha" Nem nas noites que seseguiam às visitasse viu tanta depressão no presídio da rua FreiCaneca. A notícia deque a Corte Suprema decidira, por unanimidade,ignorar o pedido dehabeas-corpus para Olga estourou como uma bombaentre os presos. A"Praça Vermelha" estava deserta e pela primeira vez a"Voz daLiberdade" não iria ao ar num dia de semana. Havia, entretanto,uma diferença: destavez o choro tinha dado lugar ao ódio. Quem apurasseo ouvido na noite de17 de junlio na Casa de Detenção não escutariasoluços, mas vozesconspirando baixinho em todas as celas. O Coletivodecidira que Olganão seria levada sem resistência dos presos, e todostinham que sepreparar para isso. Um episódio ocorrido três ou quatrodias após a decisãoda Justiça serviu para mostrar que a polícia deFilinto Mülleresperava alguma forma de reação dos presos e estavavigilante. Às trêshoras da madrugada os presos foram despertados poruma barulheira demóveis e objetos caindo, ruídos que vinham de trás daenfermaria, ondeficava a pequena capela que separava o chamado"pavilhão dosprimários", ou Casa de Detenção, do outro, denominado Casade Correção. Obarulho que acordou os presos serviu para revelar, antesdo tempo, odispositivo de prontidão que Filinto Müller montara em tornodo  202  presídio, paraprevenir eventuais revoltas contra a decisão de deportar OlgaBenario. Em poucos minutos dezenas de guardas armados demetralhadorasocuparam a "Praça Vermelhá", com fileiras de bombas de gáslacrimogêniopenduradas nos cinturões. Três soldados receberam ordenspara entrar na celaonde estavam Hercolino Cascardo, Aleedo Cavalcanti,Agildo Barata e Sebastiãoda Hora, participantes de uma comissão nomeadapelo Coletivo parareivindicar melhores condições para os presos juntoao diretor daDetenção, Aloysio lveiva. Supunha-se que eles estívessemliderando umarebelião contra a saída de Olga. Os presos, por sua vez,acreditavam que todaaquela movimentação policial se devia exatamente aisto: estavamtentando isolar as lideranças para tirar Olga da cela semresistência dospresos, Mesmo desarmados, Agildo e Cascardo se atiraramsobre os soldados,tentando tomar-lhes os fuzis. Para generalizar aconfusão, começou,ensurdecedor, o canecaçv. Filinto Müller foi chamadoem casa e chegou àFrei Caneca camandando duas companhias de "cabeças detomate", queisolaram todas as ruas nas imediações do complexocarcerário. No salãodas mulheres Olga foi escondida dentro doguarda-roupa queprotegia o "periscópio" e suas companheiras de cela játinham decidido: sealguém entrasse para retirá-la, reagiriam com asúnicas armasdisponíveis - as unhas e os dentes. Só ao nascer do dia,quando as tropasconseguiram impor a ordem dentro do pavithão, é que sesoube a origem doruído que quase provoca uma tragédia: uma ratazanamovera uma peça demadeira do altar improvisado da capela, fazendo cairao chão turíbulos,imagens, garrafas de água benta e um pesado oratóriode madeira. Tanto anotícia da "rebelião" como a da decisão da CorteSuprema chegaram aoeubículo onde Prestes se encontrava encerrado, nomorro de SantoAntônio, através do mesmo mecanismo com que ele vinhá seinformando sobre oque se passava no país desde o dia de sua prisão -embora submetido aregime de rigorosa incomunicabilidade. Soldados ecarcereiros que oacompanharam na 203  Coluna - ouque simplesmenteadmiravam o mito do"Cavaleiro da Esperança" - ocultavam no meio dacomida que lhe eraservida, embrulhados em papel impermeável, minúsculoscilindros feitos comas colunas de jornais, cortadas cuidadosamente eque, depois deenroladas, passavam a ter a dimensão de um cigarro. Apósa comida ele seenfiava debaixo dos cobertores e, à medida quedesenrolava ospequenos tubos, lia os jornais do dia. Lia tudo, até osanúncios. Como suasolitária não possuía sanitário - ele era obrigado ausar o docomandante, sempre acompanhado de escolta - Prestessimplesmente aliravasob o colchão as tiras de jornais lidos. A cadaquinze dias ocomandante do  da Polícia Especial, tenente EusébioQueiroz, faziapessoalmente uma revista na cela do preso ilustre, eencontrava aquelemonte de papel sob o colchão. Talvez temendo levar umadescompostura dePrestes, nunca teve coragem de adverti-lo pela quebradaincomunicabilidade - Queiroz preferia fingir que nada vira. Minutosdepois da vistoria,aparecia um soldado para retirar os pedaços dejornais. Foram essescontrabandos de notícias que permitiram a Prestester informaçõessobre as condições de saúde e a situação jurídica de suamulher. Cada vez queOlga era levada do presídio para depor noscartórios onde sepreparava o processo, ele podia vê-la nas fotografias,permanentementeacompanhada de policiais e sempre elegante - o cabelopreso atrás, emcoque, uma pequena bolsa que recebera  de presente deuma amiga e o mesmovestido de sempre, cortado por ele naclandestinidade doMeyer. Ao ler as descrições que a imprensa faziadela, ou os diálogoshavidos entre ela e os repórteres, o coração dolíder comunista seapertava- Dizia o Correio da Mankã: Sorridente anteas perguntas daautoridade, Olga, no entanto, ficou um tanto perturbadacom a presença dosfotógrafos. Nas suas declarações, sempre calma, Olgafalou regularmente opOrluguês, fazendo pausaS antes de responder,evidentemente parapensar. Quando chegou à Chefia de Polícia, Olga foialvo da curiosidadegeral: trajava um vestido branco, estava sem chapéu,trazendo os cabelosrePartidos ao meio e atados atrás por uma fita.Sapatos  204  pretos, desalto baixo e uma bolsa de couro cinzentocompletavam amodesta foilette da bela extremista que usou vários nomescomo agente deMoscou em diversas cidades da Europa. No Diário daNoite, o tratamentoera semelhante: A sala do gabinete do delegadoDemócrito deAlmeida, Olga Benário foi interpelada por nosso repórter.Como sempre, fugiu atodas as perguntas sobre sua atividade e sobre oauxílio que hajaprestado a Luís Carlos Prestes. Revelando-sesentimental, disseque "levarei com honra, até o fim, o nome do meumarido . Como lheperguntássemos onde e de que forma se dera o seucasamento com LufsCarlos Prestcs, esquivou-se, dizendu apenas que deFato- era casada comele, acrescentando chamar-se Maria Bergner e contar28 anos de idade.Queixou-se de estar sendo vítima de perseguição porparte dasautoridades brasileiras, que procediam em relação a ela demaneira inclemente.Satisfazendo à curiosidade da reportagem, Olgadeclarou: - Apolícia vai praticar um ato absurdo contra uma mulher queestá para ser mãe.Mas Prestes não era, é claro, o único preocupado coma sorte da mulher eda criança. Desde o dia da prisão do casal, no Riode Janeiro, umagigantesca campanha vinha sendo conduzida na Europa pelamãe dele, donaLeocádia, e por sua irmã, Lígia. Na noite de 7 de marçoo apartamento dafamília Prestes em Moscou receberia de novo uma visitaimportante, destavez portadora de péssimas notícias. Dmitri Manuilskifora pessoalmente,em nome do Comitê Executivo do Comintern, informar àfamília que Prestese Olga tinham caído nas mãos de Getúlio Vargas eFilinto Müller. DonaLeocádia, que ignorava até que o filho tivesse secasado, resolveu namesma hora que não ficaria mais um dia sequer naUnião Soviética:partiria no primeiro trem para a Espanha, acompanhadade uma das quatrofilhas - e Lígia foi a escolhida. Decidiram-se pelaEspanha por ser umpaís que estava sob um governo de frente popular,democrático, quefacilitaria a entrada das duas mulheres com passaportesbrasileiros vencidoshá muito tempo, pois o Brasil não mantinha relaçõesdiplomáticas com aUnião Soviética. 205  Mãe e filhapercorreram oterritório espanholde ponta a ponta, organizando comícios nasprincipais cidades,pedindo a libertação dos presos políticos do Brasile, especialmente, dochefe do levante e dos estrangeiros ameaçados dedeportação. Em Madrio embaixador brasileiro, que resistia à idéia deconceder passaportesnovos para as duas, acabou capitulando quando umamultídão passou areunir-se todas as tardes à porta da embaixada,exigindo em coro"el pasaporte para Pa madre y ia hermana de Prestes". Acampanha durou maisde um mês, saindo de Madri e percorrendo todas ascapitaisprovinciais. Nas cidades maiores aparecia no palanque, paraencerrar oscomícios, a lendária figura de Dolores Ibarruri, LaPasionaria. DaEspanha as duas rumaram para a França, onde encontraramuma Paris coberta decartazes enormes, exigindo a libertação de Prestese de Olga,"reféns do nazifascismo brasileiro". Da França partiram paraLondres, onde aviscondessa de Hastings - a mesma que Filinto prendera eexpulsara do Brasil- hospedou as duas mulheres e organizou comícios, noHyde Park, paramilhares de pessoas. No dia da chegada à Inglaterra,dona Leocádia eLígia receberam a visita protocolar de Lord Listowell,membro da Câmara dosLordes, e um dos primeiros a subscrever, semanasantes, um manifestodirigido a Getúlio Vargas, pedindo aredemocratização doBrasil.  Lord Listowell apareceu à frente de donaLeocádia vestido acaráter, de fraque, cartola e bengalão, e trazendonos braços umacorbeztle de lírios brancos para as visitantes. MasLeocádia e Lígiasabiam que, para atingir o Brasil, a campanha teria quemobilizar apopulação dos Estados Unidos. Voltaram, então, a Paris, paratentarem obter umvísto de entrada nos Estados Unidos. Quando foramrecebídas peloembaixador amerícano, as duas mulheres perceberam que eletinha sobre a mesaum volumoso dossiê sobre a repercussão da campanhafeita por elas naEspanha, Inglaterra e França. O embaixador bateu a mãosobre a papelada eperguntou a dona Leocádia:  206  - A senhoraquer queeu lhes dê vistos deentrada para que possam fazer isto nos EstadosUnidos? O visto,evidentemente, foi negado. Tentaram de novo noconsulado americanoem Londres, insistiram em Brúxelas, voltaram atentar em Genebra,mas sempre sem resultados. Decidiram manter acampanha na Europa.O "Comitê de Paris" pela libertação de Prestes eOlga era um dos maisalivos e tinha como seus principais dirigentes osescritores AudréMalraux e Romain Rolland, que participavam de todos oscomícios e eramoradores obrigatórios nas manifestações de rua. Todos ospaíses da Europacontavam com pelo menos um comitê instalado, e tambémna América Latina,na Austrália e na hlova Zelândia havia mobilizaçôespela libertação docasal. Cada notícia que chegasse do Brasil eravertida para ofrancês e retransmitida para todos os comitês, pelo mundoafora. Manifestos,cartazes e volantes eram despachados para váriospontos do mundo,pedindo a instituições e personalidades quepressionassem ogoverno brasileiro para que Olga e Prestes fossemlibertados. Duranteo mês de julho os presos da Detenção foram mantidospor Getúlio Vargassob um macabro suspense. A expulsão de Elise Ewert ede Carmen Ghiolditinha sido decretada e ambas apenas aguardavam asprovidênciasburocráticas para que o ato se consumasse. Sobre Olga,contudo, nenhumamanifestação oficial. A tensão durou até o dia 28 deagosto, quando umrecorte de jornal introduzido clandestinamente nopresídio correu demão em mão até chegar ao salão das mulheres, trazendoa temida notícia: Opresidente da República assinou decreto na pasta dalustiça expulsandodo territóriu nacional, por se ter constituídoelemento nocivo aosinteresses do país e perigosa à ordem pública aalemã Maria BergnerVilar, que também usa os nomes de Frieda WolfBehrendt, OlgaBergner, Olga Mcireles, Eva Kruger, Maria Prestes e OlgaBenario. 207 Mas os dias forampassando e, para surpresa geral, Olgapermanecia na Casade Detenção, juntamente com Elise Ewert e CarmenGhioldi. A demora,na verdade, tinha uma explicação: temendo amobilização doSocorro Vermelho nos portos europeus, Filinto Müller nãoqueria correr orisco de ver toda sua trama para vingar-se de Prestes eagradar aos nazistasfrustrar-se num ataque de estivadores comunistas aonavio quetransportasse Olga à Alemanha. Em contato permanente com adireção do porto doRio de Taneiro, ele esperaria quanto tempo fossenecessário para queatracasse no Brasil algum navio que se dirigisse àAlemanha semescalas. O atraso no embarque permitiu uma última tentativapara salvar Olga esua criança, já no sétimo mês de gravidez. No dia 15de setembro oadvogado Luís Werneck de Castro, marido de Maria Werneck,a companheira decela de Olga, impetrou junto à Corte Suprema um novopedido dehabeas-corpus para suspender a expulsão. A petição explicavaque Olgaencontrava-se em adiantado estado de gravidez e solicitava quefossem sustadostemporariamente os efeitos do decreto de Vargas. Werneckde Castro pedia, naverdade, o adiámento da expulsão até que a pacientefosse examinada poruma junta médica de três membros, nomeados pelojuiz-relator dohabeas-corpus, para determinar se ela estava ou não emcondições deempreender viagem até a Europa. Com isto o advogadopretendia atingirdois alvos: se a Corte Suprema concedesse osolicitado, asonolenta burocracia judiciária brasileira acabariapermitindo que elativesse o bebê no Brasil. Deportá-la  depois, tendono colo um bebêrecém-nascido e çidadão brasileiro, seria outra questãopara o governoenfrentar, imaginava Werneck. Em segundo lugar, eleacreditava que,mesmo recusado, o pedido poderia estimular o presidenteda República, que sereuniria dali a alguns dias com seu Ministério, aindultar a penaimposta a Olga. A Corte Suprema, a exemplo do que fizeraanteriormente, desconheceuo pedido. E na reunião ministerial, de queparticipou o capitãoFilinto Müller, sequer se colocou o assunto  empauta. 208 A notícia de queo atraso no embarque de Olga se devia à espera de Filintopor um meio de transporte a salvo dos portuárioseuropeus acabouchegando aos ouvidos de Heitor Lima, autor do primeiropedido de habeascorpus. A única chance de impedir que Olga caísse nasmãos de Hitler eratentar embarcá-la num navio que fosse obrigado afazer escalas naEuropa - um navio de passageiros, de linha regular,portanto. O advogadopôs-se a arquitetar um plano, escrevendo umadramática carta àmulher do presidente da República: Exma. Sra- DarcyVargas Somenteimpelido por móveis relevantes ousaria um patrício vossoa dirigir-vos apalavra, sem prévia apresentação. Como advogado de MariaPrestes fui hojeincumbido por um grupo de mães brasileiras deencaminhar  àminha constituinte a importância com que possa adquiriruma passagem deprimeira classe, e ainda cercar-se, durante a travessiae no porto dedesembarque, dos cúidados exigidos pelo seu delicadíssimoestado de saúde,preservando assim a vida do filho que vai nascer.imediatamente dirigiao ilustrado Ministro da Justiça uma carta,solicitando-lhe queme facilitasse o desempenho de tão honrosaincumbencia.Todavia, por muito que confie na inteligência do professorViceme Rao, não devoesquecer que a mentalidade viril é a menos apta aperce ber osproblemas femininos. Desbastado e polido por muitos séculosde civilizaçãu,guarda o homem ainda, sob a pompa verbal e a hipocrisiadas maneiras, osinstintos cavernários que desde a noite dos tempos lhemostraram nacompanheira a escrava inerte, a serviço de seus prazeres ecaprichos. A fábulade que a mulher é um enigma foi inventadaprecisamente parajustificar as acrucidades da civilização masculinacontra ela. Não hánada mais facilmente acessivel que a alma da mulher.O homem, porém,finge não entendê-la a fim de furtar-se a uma soma deenormes deveres paracom ela. Neste episódio tinha eu, pois, de dirigirum apelo aossentimentos maternais da primeira dama da sociedadebrasileira, rogandoa sua intervenção junto ao nobre presidente daRepública,simplesmente para que se permitisse que o gestu dessas mãesque se cotizarampara mitigar o infortúnio de Maria Prestes não seperdesse. A mulherbrasifeira é inexcedível na dedicação, na piedade,na tolerância. Nãosabe odiar; o que mais sabe, o que sabe sempre éorientar, socorrer,acudir e perdoar. Numa palavra: só sabe amar. Euamesquinharia aatitude 209  dessas almassublimes se me atrevesse aqualificá-la; vós,porém, sentir-lhe-eis a grandeza suprema. Em nome dasmães brasileiras queme procuraram, insisto pela vossa interterência. OBraSil já sehabituou a considerar-vos uma figura tutelar, pronta semprea cooperar em todasas iniciativas humanitárias. Singela, despretensiosae natural como sois,não é o mundanismo que vos atrai aos lugares ondese cuida doinfortúnio alheio, mas o puro sentimento de solidariedadehumana, o vossoespirito harmonioso, o vosso fíno e comovído coração,Provai ainda uma vezque a vossa generosidade excede a vossa beleza:teteis sído, então,ímensamente generosa. Heitor Líma. Heitor Limaesperava que,envolvendo a mulher do presidente da República na trama,Filinto Müller nãoteria poderes para impedir que Olga embarcasse numnavio depassageiros. Mas, como não houve qualquer resposta à carta, asorte estavalançada. Agora só restava aguardar o dia da deportação. Nodia 21 desetembro de 1936 o capitão Filinto Müller chamou seusprincipaisassessores ao gabinete da rua da Relação, juntamente comAloysio Neiva,diretor da Casa de Detenção, para transmitir-lhes umainformação e uma ordem.Na madrugada do dia 23 atracaria no cais doporto do Rio deJaneiro o navio La Coruna, fretado pela companhianavegadora alemãHamburg-Südamerikanische Dampfschijfahrt-Gesellschafr,com uma únicafinalidade: recolher Olga Benarío Prestes e Elise Ewert. Ocargueiropermaneceria no Rio apenas durante o dia 23 e não haviaperspectivas, tãocedo, de que outro navio pudesse fazer o trajetoprevisto para o LaCoruna, que rumaria diretamente para Hamburgo, nonorte da Alemanha.Dois policiais brasileiros que falavam o alemãocorrentemente haviamsído destacados para acompanhar as presas durante aviagem. A vrdem,portanto, era retirar as duas rnutheres da Casa deDetenção. A força,se fosse necessário. Pouco depois do jantar apareceuà porta do salão dasmulheres o policial Carlos Brandes, homeminsinuante, quefreqüentava as rodas da alta sociedade cariocaapresentando-se como"alto funcionário do Itamaraty", e que a esquerdagarantia ser orepresentante do Intelligence210 Service no Brasil.Vinha acompanhado dedois funcionários graduados do gabinete de FilintoMüller e protegidopor três policiais armados. Apoiou as duas mãos nagrade da celafeminina e disse, delicadamente: - Boa noite. A políciasoube que dona Olganão passou bem o dia de hoje e fomos encarregados detransferi-la para umhospital com recursos. . . Se ela não tiver melhoratendimento, poderáter um parto prematuro... O homem não acabou decompletar a frase.Cerca de dez mulheres puseram-se de pé e começaram abater freneticamentecom as canecas na grade de ferro. Não se sabe sefoi Maria Werneck deCastro ou Beatriz Bandeira quem berrou em direção à"PraçaVermelha": - Levantem-se! O canalha do Brandes está aqui paralevar a MariaPrestes! Dentro de cada cela, o encarregado pelo Coletivotratou de pegar opresente que o sargento Júlio Alves distribuíra no dia27 de maio - agazua. Em poucos minutos as celas foram abertas, ospresos espalhados àscentenas pelo pátio central. Os que não conseguiramlocalizar, naconfusão, a preciosa chave falsa, não tiveram dúvidas:fizeram as camas empedaços e, com os travões de madeira, arrebentaramos ferrolhosenferrujados. Os presos saíam das tocas como animaisfuriosos, seminus,cada um deles levando nas mãos o que poderia serusado como arma:garrafas de leite vazias, tamancos de madeira, pedaçosde camas quebradas.Brandes tentou ser enérgico, mantendo porém a versãooriginal. Em frenteao salão das mulheres, gritou para baixo: - Eu nãovim aqui paradiscutir com os senhores, vim cumprir uma missão. Ossenhores estãoassumindo uma gravíssima responsabilidade ao tentar reteresta senhora aqui!Parece até que estão fazendo isto de caso pensado,para que ela aborte,perca o filho e depois a polícia sejaresponsabilizada portudo. Estou dizendo aos senhoies que ela vai paraum hospital. Umgrito mais forte se sobrepôs à zoeira que vinha debaixo: 211- Para um hospitalem Berlim, seu nazista filho da puta!Brandes e seusacompanhantes já estavam cercados pelos presos que tinhamarrombado ou abertoas portas das celas do primeiro andar, mas ele aindatentou parlamentar,dirigindo-se ao médico Campos da Paz, pai: - DoutorCampos da Paz, euapelo ao senhor para que acalme seus companheiros eexplique a eles queeu não seria capaz de uma ação menos digna! Comoresposta, maisgritos e insultos: - Fascista filho da puta! Para tirarMaria Prestes daquivocês terão que nos matar a todos, um por um! Orosto empapado desuor, Brandes insistia: - Eu lhes dou a minha palavrade honra que estamulher vai ser imediatamente internada numamaternidade! Estoudisposto a dar-lhes todas as garantias: já mandeibuscar umaambulância, a fim de transportá-la confortavelmente. Nãoposso de formaalguma submeterme à vontade dos senhores e deixar decumprir as ordensque recebi! O tenente Gay da Cunha - o autor dosdesenhos de aviôesnos babadores - chamou um grupo de colegas, militarescomo ele, da Escolade Aviação e do 3.° Regimento de Infantaria epropôs: - Apossibilidade de parlamentar com nossos carcereiros é nula.A violência ë aúnica alternativa que nos resta. O chefe da guarda dopresidio está ali emcima, ao lado do Brandes. Vamos pegá-lo e aos doisescoltas comoreféns, senão isto aqui acaba em poucos minutos. Um grupode oficiais subiu asescadas de ferro que davam acesso às celas doprimeiro andar.Levando nas mãos estiletes de metal feitos pelo sargentoJúlio Alves comlatas de goiabada, meteram-se no bolo que se formava emvoIta de Brandes e,de surpresa, agarraram pelo pescoço o chefe dagvarda e os doissoldados, que foram arrastados para o térreo. Os trêsreféns foramtrancados dentro de uma cela e guardados por um grupo deatléticos oficiais.O Coletivo se reuniu num canto e foi Rodolfo 212 Ghioldi quemanunciou o nome do preso que iria conduzir as negociaçôes apartir dali: -Hablará Valério Konder! Sozinho, o terceiro guarda queviera escoltandoBrandes tratou de salvar a própria pele e saiu correndopela porta por ondeentrara. Um grupo de presos aproveitou a confusão eocupou a cela dasmulheres, armados de estiletes. Lá dentro, Olga estavadeitada na cama,protegida apenas pelas cortinas ensebadas que tapavam o"periscópio."O médico comunista Valério Konder, enérgico, avisou aCarlos Brandes: - Osenhor pode se retirar daqui. A partir deste momentonós só conversamoscom o Dr. Aloysio Neiva, diretor do presídio. A menortentativa de tirarMaria Prestes daqui pela força, os reféns pagarão coma vida. Ninguémtinha a ilusão de que a resistência pudesse ter algumêxito, mas todossabiam que a agitação daria à polícia a impressão deque eles estavamdispostos a tudo. Os presos aliravam para a "PraçaVermelha" tudoo que havia dentro das celas, arrancavam as portas deferro das dobradiçasenferrujadas e jogavam-nas do primeiro andar aochão, num ruídoensurdecedor, enquanto os outros batiam as canecas nochão, nas paredes,nas grades, gritando como malucos: - Não levam! Nãolevam! Não levam! Umúnico preso não participava daquilo. Encolhidosobre a cama,acendendo um cigarro no resto do anterior, GracilianoRamos parecia queiria mesmo enlouquecer. Olhando fixo para o chão, coma cabeça presa entreas mãos, ele repetia, paralisado, com a voz quaseinaudível no meiodaquele inferno: - Não é verdade que queiram fazeristo... Para aAlemanha de Hitler? Ela é judia. . . Ela está grávida. .. O Brasil não podefazer isto com ela.. . No meio da noite a políciadeu mostras de quenão estava disposta a nenhuma forma de negociação.Chefiadas porFilinto Müller, tropas da Polícia Especial armadas demetralhadoras,lança-granadas de gás e até lançachamas  cercaram oconjunto carcerárioda rua Frei Caneca. 213 Um grupo deatiradores deelite isolou opavilhão conflagrado, todos aguardando ordens paraentrar. A tensãodurou a noite inteira. Embora armados de tamancos,garrafas vazias eestiletes inofensivos, comparados com o arsenal que oscercava, os presoscontinuavam falando grosso: - Para levar MariaPrestes daqui vocêsterão que matar trezentos brasileiros, cachorrosfascistas! Onervosismo tomou conta dos dois lados, e ninguém searriscava a tomarqualquer iniciativa. Passava do meiodia quando veio oprimeiro comunicadode fora. Autoritado pelo capitão Filinto Müller, odiretor do presídio,Aloysio Neiiva, mandava fazer uma propostaconcreta: OlgaBenário sairia dali diretamente para um hospital,acompanhada de umacomissão de presos eleita pelo Coletivo. A primeira aser consultada foi aprópria Olga, que concordou de imediato. Ela diziaque a resistênciaera uma manifestação heróica dos brasileiros, mas nãolevaria a nada.Seriam todos massacrados pelas tropas que cercavam oprédio. Além disso,Olga temia que Filinto Müller invertesse asituação,fazendo dePrestes o seu refém. Seu pavor era que, continuandoa resistência, elesacabassem por matá-lo. Para convencer os maisrenitentes, quepretendiam manter a rebelião até o fim, ela fez umapelo: - Deixem-meir para o hospital, quero ter meu filho aqui noBrasil. . . Quandofinalmente o Coletivo - por ingenuidade ou porreconhecer queaquela era uma batalha perdida aceitou a proposta dapolícia, a noitecaíra de novo. Depois de muita parlamentação, ficouestabelecido que a"comissão" que acompanharia Olga até o hospital seriacomposta, na verdade,por apenas dois presos, um indicado pelos homens,outro pelasmulheres. Os escolhidos foram Campos da Paz Júnior, por sermédico, e MariaWerneck de Castro, advogada que demonstrara grandefirmeza nas 24 horasde resistência. Acertou-se também que iriam os trêsde ambulância até ohospital e maternidade Gafrée Guinle e que osacompanhantes sósairiam do lado de Olga quando ela retornasse aopresídio. Quando 214  Maria Werneckcomeçou a descer as escadas ao ladodos funcionários quecarregavam a maca onde Olga fora acomodada, Camposda Paz gritou-lhe,de baixo: - Saio por baixo e encontro vocês duas noportão principal!Juntaram-se os três mas, antes que chegassem aosegundo portão, quedava para a rua, Maria percebeu que se tratava de umgolpe. Omédico"foi agarrado por dez policiais, separado do grupo emetido num camburão.Maria entrou na parte de trás de uma ambulância,junto com Olga, e ocortejo saiu pelas ruas, cercado por dezenas depoliciais armados demetralhadoras e protegido de todos os lados porjipes repletos desoldados. Pela fresta da ambulância, Maria Werneckpercebeu, surpresa,que estavam mesmo sendo levadas para o GafréeGuinle. Por algunsminutos, imaginou que Olga pudesse estar de fato aponto de ter o bebêprematuramente e que o governo não queria correrriscos. Olgasegurava na sua mão e dizia apenas: - Não se preocupe, tudovai terminar bem...Quando a ambulância parou, Maria olhou de novo pelasfrestas etranqüilizou Olga: - Você tinha razão: estamos em frente aoGafrée Guinle, queeu conheço muito bem. As portas se abriram e Mariafoi tomada deterror. O trânsito de carros e pedesires tinha sidointerrompido emtodas as ruas adjacentes para que não houvessetestemunhas, e aporta do hospital estava tomada por dezenas de veículosmilitares epoliciais, numa autêntica operação de guerra. Quem apareceuà sua frente foiKing-Kong, excarcereiro da Detenção, um negro enorme,trazendo umametralhadora pendurada no peito por uma alça de couro.Apontou para o camburãopolicial que encostava de ré, rente à porta desaída da ambulância,e ordenou a Maria Werneck: - Você entra ali. Elaresistiu: 215 - Não! Eu vou ficarcom a Maria Prestes! Eu tenho apalavra do dr.Brandes de que permaneceria em companhia dela e nãosairei daqui! Opróprio Brandes apareceu e Maria Werneck dirigiu-se aele: - Dr. Brandes,o senhor não me conhece apenas da cadeia. O senhorme conhece de fora éme deu a sua palavra de que eu a acompanharia até ohospital. Daqui eunão saio! Brandes foi cínico: - Ë, dona Maria, eu lhedei minha palavra,mas são ordens superiores. King-Kong sorriu,apontando-lhe o canoda metralhadora: - Eu não disse? Você entra ali.Olga Benariosegurou-lhe a mão com força e disse: - Vai, Maria, vai. Nãoadianta resistiraqui. As duas se beijaram e Maria Werneck foi colocadadentro do camburão,cuja porta se fechou em seguida. Lá dentro ela notouque não estavasozinha. Sentiu uma perna cutucando a sua e perguntouquem estava ali. umvozeirão respondeu: - Sou eu, Maria, o Campos daPaz Júnior. Não medeixaram retornar ao presídio, temendo que eudenunciasse a tramaaos companheiros. Olga sequer chegou a descer nohospital. O comboiomilitar seguiu até o cais do porto sob uma chuvafina e insistente.Quando foi retirada da ambulância, ainda deitada namaca, a caminho daescada do navio, Olga pôde ver, rapidamente, entre ospingos de chuva, onome La Coruna gravado no casco. Por um instante,teve esperanças deestar sendo embarcada num navio espanhol. Mas elamoveu a cabeça umpouco, virou os olhos para cima e viu, tremulando nomastro principal,uma bandeira com a suástica negra no centro. Era abandeira da Alemanhade Adolf Hitler. 16. Nos porões daGestapo.217  Dez quilosmais magra, apesar da gravidez de sete meses, levando consigoapenas os 150dólares encontrados pela polícia na casa da rua Honório euma trouxinha comroupas do bebê, Olga foi deitada na cama de umamínúscula cabine doLa Coruna, onde ficou absorta por alguns minutos,até que foidespertada pelo barulho de batidas à porta. Era JoãoGuilherme Neumann, oinvestigador encarregado por Filinto Müller deescoltá-la durante aviagem e entregá-la aos oficiais da Gestapo, emHamburgo. Neumannera um homem de 42 anos, neto de colonos alemães quecultivavam flores nacidade montanhesa de Petrópolis, no Estado do Riode Janeiro. Eletrabalhava na equipe de capturas da polícia política -fora o autor daprisão de Beatriz Bandeira, companheira de cela de Olga- e tinha sido oescolhido para acompanhá-la por falar alemão.Constrangido, o tiradisse à prisioneira que nada tinha contra ela ousuas idéias e queestava ali por estrito dever profissional: - Sou umpolicial que nãodiscute as ordens recebidas, a não ser que sejamabsurdas. Neumannfoi quem contou a Olga que não viajariam sozinhos paraa Alemanha: naquelemomento Elise Ewert estava sendo retirada da Casa deDetenção para serembarcada na cabíne ao lado da de Olga, acompanhada de 218  Luiz FelipePeixoto, outro policial escalado por Filinto. Tão logoela chegasse, o LaCoruna partiria com destino a Hamburgo. Quando foiretirada daambulância, Olga pôde ouvir uma discussão áspera entre ocomandante do navio,capitão Heinrich von Appen, e os policiaisbrasileiros ealemães. O barulho no porto a impedira de entender omotivo do bate-boca,que agora era esclarecido  por Neumann. Von Appen,ao vê-la com abarriga enorme, perguntou aos policiais: - Ela estágrávida de quantosmeses? - Sete meses - alguém respondeu. - Então nãoembarca -determinou, ríspido, o capitão. Eu recebi ordens detransportar duaspresas e dois policiais, mas ninguém me falou emgravidez de setemeses. Isto vai contra todas as leis internacionais denavegação. No meunavio mando eu. Um policial alemão, à paisana, exibiuuma carteirinha parao comandante do navio e apresentou argumentosconvincentes: - Aordem de embarque foi dada pelo presidente GetúlioVargas e aprisioneira é considerada de interesse máximo para o comandoda Gestapo. Se vocênão levá-la, acho melhor nem atracar seu navio emHamburgo: osoficiais estarão lá, esperando-a. Se ela não chegar, émuito possível que olugar reservado a ela seja guardado para você. Nãoera só o capitão VonAppen quem mandava no La Coruna: Olga foi embarcadacontra sua vontade econtra as leis de navegação. Ela aproveitou aconversa mole deNeumann e disse-lhe que seria preciso instalar umacampainha em suacabine, para a eventualidade de sentirse mal durante anoite. Neumannacedeu e explicou-lhe as limitaçôes que a condição deprisioneiras impunhaa ela e a Elise. Durante o dia poderiam circularapenas pelo pequenocorredor fronteiro às portas das quatro cabines -as de Olga e Eliseno meio, as de Peixoto e Neumann nas pontas. Como ascabines ficavam soba popa do navio, no fundo de um corredor, o capitãosó teve o trabalhode mandar isolar uma das pontas da passagem, 219 onde foi colocada umaplaca com letras pintadas em alemão: "Local ínterdítadopor ordem docomandante entrada proibida". Nas próximas semanas,portanto, a visãoque Olga e Elise teriam do mundo seria através dequatro escotiIhasdíspostas naqueles dez metros de corredor. O policialpediu que Olga serecolhesse ao quarto, poís segundo suas ordens durantea noite ela teriaque permanecer lá, com a porta trancada por fora. Casoprecisasse de algumacoisa, antes da instalação da compainha, deveriabater na porta queele a atenderia. Uma  hora depois de deitar, Olgaouviu um barulhoestrondoso, que fez tremer toda a cabine. Só aípercebeu que lhetinha sido reservada uma cabine ao lado dos motores donavio. Elise acabarade chegar e o La Coruna se preparava para zarpar. Aprimeira noite foide insônia e vômitos. A cada meia hora Olga eraobrigada a caminharaté a pia do pequeno banheiro para tentar aliviar anáusea. Além dobalanço do navio e do ronco do motor, a proximidade coma casa de máquinastransformava a cabine numa estufa, que tinha comoventilação apenasuma pequena entrada de ar no teto. Ao nascer do dia onavio estava jogandomenos - e só então conseguiu dormir. Olga passouseu primeiro dia abordo trancada na cabine, atendida por Sabo. Além dacampainha, que ocapitão mandou instalar de manhã, Neumann conseguirague o médico deplantão no navio arranjasse pastilhas contra náuseaspara que Olgapudesse ao menos livrar-se dos enjôos provocados pelagravidez e agravadospelas condições da viagem. Nos dias seguintes asduas colocaram ascadeiras de suas cabines no corredor, onde passavamhoras fazendo tricôe crochê, levantando-se a cada par de horas paraolhar o mar azulatravés das escotilhas redondas. A viagemtransformou-se numaprisão também para os dois policiais, obrigados apassar o dia inteiroali, cominhando do quarto para o corredor, docorredor para oquarto. Olga procurava tratá-los com polidez, masdirigia-se a elesapenas quando necessário e evitava conversás 220 mais prolongadas. Quantoa Elise, nem isso. Ainda sob o trauma das torturas esevícias aplicadaspor policiais brasileiros e alemães, ela simplesmentese recusava a falarcom qualquer um dos dois. Quando não havia outraalternativa, eladirigia a palavra a eles - mas para protestar contra aqualidade da comidaou do tratamento dedicado a Olga. Mesmo percebendoque a mulher dePrestes não queria muita conversa, Neumann insistia emaproximarse dela, àsvezes para reclamar da rispidez de Sabo "ela é umaferá", dizia opolicial - ou até para saber detalhes de sua vidapolítica e pessoal.De certa feita a conversa acabou caindo na questãoda deportação e eleperguntou,curioso: - Mas a senhora provou que eracasada com o capitãoPrestes? Ele era um policial, estava a serviço deFilinto Müller, iaestar com os homens da Gestapo em Hamburgo... omelhor eradespistá-lo: - Sim, casei-me com ele em Marselha, na França,mas não tínhamos ospapéis que comprovassem. Ao contrário do que haviasido dito pelapolícia, o La Corunha faria uma escala antes de Hamburgo,mas ainda emterritório brasileiro. No quarto dia de viagem o naviochegou a Salvador,na Bahia, com o porto inteiramente tomado por tropas- Filinto nãopretendia correr nenhum risco. Era uma parada rápida, osuficiente para quefosse embarcada uma carga de piaçava. Olga pediuautorização para queum marujo descesse à cidade e lhe comprasse, comalguns dos dólaresque levava, objetos para seu uso durante a viagem,pois embarcaraapenas com a roupa do corpo e um enxoval mínimo para obebê. Von Appenautorizou e o navio já avançava em direção ao mar alto,quando lhe trouxeramdois pares de chinelos - um para ela, outro paraElise -, pasta eescova de dentes, linha e agulhas de tricô e crochê. Nodia 30 de setembro onavio costeava a ilha de Fernando de Noronha, nolitoral norte doBrasil, e Neumann contou-lhe que o governo iriatransferir para láos presos da revolta de novembro que fossemcondenados 221 pela Justiça.Aproveitando o bom tempo e o mar calmo, ocomandante decidiurealizar ali um exercício de salvamento - durante oqual Olga e Elisepermaneceram trancadas em seus quartos. Três diasdepois, sob umanoite negra, cruzaram a linha do Equador. De madrugada,Olga percebeu sonsmuito familiares e imaginou que estivesse sonhando:ela ouvia músicas dasua infância em Munique, cantadas em alemão,Levantando-se,entendeu o que se passava: um grupo de marinheiroscomemorava apassagem para o hemisfério norte dançando e cantando ao somde uma gaita deboca, no convés principal. Duas noites depois, Olga eElíse receberiamautorízação para sair da cabine após o jantar e olharpelas escotilhas: oLa Coruna iria cruzar com o dirigível alemãoZeppelitt, que voavada Europa para a América do Sul. Quando o Zeppelinapareceu nohorizonte, o comandante mandou acender holofotes no convés,apontados para océu, para saudar a tripulação do dirigível e para queele ficasse aindamais visível aos passageiros do navio. Por algunsminutos o Zeppelinsobrevoou o La Corunn e fez evoluções à sua volta,voando tão baixo quedava a impressão de que trombaria com as chaminésdo navio. Correndode uma escotílha pará a outra, para pegar ãngulosmelhores, Olga eSabo puderam ver de perto os passageiros na amurada dodirigível alemão,homens e mulheres elegantes, de copos nas mãos,acenando para baixo.No fim da primeira semana de outubro, quandonavegava ao largo deFunchal, na ilha da Madeira, o capitão Von Appenrecebeu novasadvertências de que o navio não deveria atracar em portoseuropeus sob nenhumpretexto. Se isso ocorresse, lembravam osradiotelegrafistas,as duas mulheres seriam inevitavelmente levadas paraterra. O episódioocorrido no Havre era repetido com evidente exagero, eos 17 presos quehaviam sído deportados  do Brasil e libertados naqueleporto francêstransformavamse em "mais de uma centená ". Dizia-se tambémque o capitão VonAppen deveria preparar-se até para ataques piratas emalto mar, como partedas tentativas para libertar Olga e Elise. Eramessas, pelo menos,as notícias que 222 Neumann trazia paraOlga apóssuas incursões pelospavimentos superiores do navio. O La Coruna aindafervilhava com essashistórias, na noite de 12 de outubro, quando atripulação foisurpreendida pela presença, a pequena distância, de outronavio, de grandecalado, que fazia soar o apito solicitando socorro. VonAppen mandou que oimediato parasse as máquinas para verificar o queacontecia. O capitãosubiu  à ponte de comando, acompanhado de seusoficiais, e pôde verque se tratava de um enorme veleiro de dois mastrose que não era umnavio pesqueiro. No convés vários marinheiros tentavamem vão comunicar-seem espanhol com os alemães. Von Appen mandou chamarNeumann nacabine-cela das mulheres. Antes de subir, o policial abriu aporta do quarto deOlga para dizer-lhe que algo estranho estavaacontecendo: umnavio desconhecido estava parado ao lado do La Coruna eo capitão mandarachamá-lo à ponte de comando. Olga não teve dúvidas: osrepublicanosespanhóis estavam chegando para libertá-las em alto mar.Quando Neumannchegou ao topo do cargueiro, ouviu que do outro navioalguém gritava:"Portugués! Português!", indicando o idioma datripulação. Aosgritos o tira brasileiro acabou conseguindo decifrar oque pretendiam: oequipamento de navegação tinha quebrado e eles queriamapenas saber em quelongitude se encontravam. Ao retornar, Neumann abriunovamente aportinhola da cabine de Olga: - Dona Olga, ainda não foidesta vez. Eraapenas um barco português de recreio perdido em alto mar.O dia 16 de outubroamanheceu com o navio em pleno canal da Mancha; aoanoitecer podia-seavistar as costas da Bélgica. A temperatura caíramuito einesperadamente, o que levou o capitão Von Appen a autorizar aentrega de maiscobertores às presas e aos policiais que as escoltavam.No dia seguintenavegavam no mar do Norte, em cujas águas passaram todoo dia à noitinhaentravam no rio Elba, em território alemão. As seishoras da manhã dodia 18 de outubro alguém bateu na porta da cabine deJoão GuilhermeNeumann: 223 - Herr Neumann! HerrNeumann! Era um marujoque o avisava parasubir imediatamente ao camarote do capitão HeinrichVon Appen,acompanhado das prisioneiras. Neumann acordou Olga e Elise àspressas, chamou seucolega Peixoto e viu, por uma das escotilhas, que onavio estavaatracado em Hamburgo. Os quatro subiram até os aposentos docomandante do LaCoruna. Olga estacou, lívida, com o que viu: havia maisde dez oficiais esoldados, todos de fardas negras, com a inconfundivelinsígnia bordada nagola do dolmã. A SS, a tropa de choque nazista estaali para recebê-la.Enroladas em cobertores e calçando os chinelostropicais deSalvador, Olga e Sabo esperaram menos de dois minutos paraque a entrega sefizesse sem qualquer formalidade. Um dos militaresapenas seidentificou verbalmente, dando seu nome e a patente, e disseque estava ali"em nome do Führer para receber as duas criminosas".. Osquatro passageirosdo La Coruna separavam-se ali mesmo. João GuilhermeNeumann e LuizFelipe Peixoto tomaram um trem para Berlim, ondereceberiam, das mãosdo embaixador Moniz de Aragão, duas passagens devolta ao Brasil porum navio do Lloyd, e uma polpuda ajuda de eusto de250 librasesterlinas para cada um, devidamente autorizada pelaChancelaria, no Riode Janeiro. Olga e Elise não puderam sequer sedespedir: a mulherde Ewert foi colocada num carro de presos quearrancou em altavelocidade e Olga em outro, cercada de guardas SSarmados,desaparecendo no meio da neblina em direção a Berlim. Foramquase sete horas deviagem sob uma temperatura que beirava zero grau. Naescuridão do amplocompartimento de presos, as únicas imagens que osolhos de Olgadistinguiam eram vagos perfis de soldados, iluminados porbrasas de cigarrosou por instantâneas chamas de fósforos que seacendiamalternadamente. Com as mãos estiradas ao lado das pernas ealgemadas a argolassoldadas ao banco de metal do camburão, Olga passoua sentir fortescãibras a partir da primeira meia hora de viagem, masachou melhor nãofalar nada e resistir até 224 a chegada. Poucodepoisdo meio-dia oveículo chegou a Berlim sob chuva forte e com atemperatura aindamais baixa. As portas foram abertas e Olga percebeuonde estava: noprédio número 15 da Barnimstrasse, a temida prisão demulheres da Gestapo,uma construção de mais  de um século por onde haviapassado, duasdécadas antes, sua heroína Rosa Luxemburgo. Avisada pelopressuroso Moniz deAragão, a polícia secreta alemâ havia preparado umverdadeiro comitê derecepção para a prisioneira: além do aparatoenviado ao porto deHamburgo, uma cabeleireira esperava-a na enfermariada prisão, detesoura na mão. Olga sentou-se numa cadeira, semprealgemada, e ouviu umoficial dizer: - Vamos cortar seu cabelo paraevitar a propagaçãode piolhos. Você sabe, isto é muito comum em judeuse comunistas. Umuniforme listrado, que certamente fora utilizado poralguma prisioneiragorda foi-lhe entregue por uma funcionária. Olgasentiu-se ridícula:magérrima, barriguda, com os cabelos picados rente àcabeça e metida nummacacão que mais parecia um saco de batatas. Andandocom dificuldade pelopeso da barriga, com o corpo dolorido pelodesconforto daviagem foi conduzida até os fundos do prédio cinzento. Amedida que cominhavapara a cela, ouviu ruídos que a reanimaram: devários pontos doedifício de quatro andares, vozes e choros de bebêssaíam pelas janelasprotegidas por grades de ferro. Ela procurou seconsolar -"pelo menos não serei a única mãe neste inferno". A cela eraum eubículo de doismetros por dois, com o chão de cimento áspero, umcolchão fino,colocado sobre uma laje de concreto, um ralo cobertor deflanela - "eudevia ter tentado trazer o do navio", arrependeu-se -, umapia e uma latrina nochão. Esticando-se nas pontas dos pés ela conseguiaver o pátio internoatravés de uma pequena clarabóia cortada na paredee defendida porgrades de ferro. Antes que terminasse o reconhecimentodo lugar, acarcereira abriu a porta de ferro. Era um capitão-médico quevinha examiná-lapara certificar-se do estado em que se encontrava agravidez. 225 Após um examesumário durante o qual seu rosto revelavaum certo ar de nojo,o militar informou: - Sua saúde é ótima e o partodeve acontecerdentro de quatro semanas. Olga ainda não tinha chegado aHamburgo quandoLígia e dona Leocádia receberam em Paris, das mãos de ummarujo comunísta quechegara à França num cargueiro brasileiro, umacarta contando o quaacontecera à mulher de Prestes. Na verdade, só aí éque a família soubeque Olga estava grávida e que havia sido deportada.Horrorizadas com anotícia, trataram de mobilizar os comitês, a CentralGeral deTrabalhadores e o Partido Comunista francês para tentarem tiraras duas do navio queentão ainda se encontrava em alto mar e poderiaatracar em algumporto. Apesar da vigilância nos portos espanhóis efranceses, o LaCoruna passaria ao largo do litoral europeu. DonaLeocádia aindaconseguiu que um advogado fosse a Hamburgo tentar pelomenos um contato comOlga ou Elise, mas ele não pôde sequer ver o navío.Todo o caís forainterditado por polícíaís da Gestapo e tropas SS enaquele dia ninguémentrou ou saiu dali sem passar pela barreira desoldados. A mãe e airmã de Prestes não se deram por vencidas edecidiram ir àAlemanha, acompanhadas de um grupo de mulheres inglesas.No dia 11 denovembro chegavam ao quartel-general da polícáa secreta, narua Prinz Albrecht,onde foram informadas de que Olga passava bem e queo bebê ainda nãohavia nascido. Por mais que pedissem, não lhespermitiram visitar aprisioneira. A única concessão dos nazistas foiautorizar quedeixassem na portaria de Barnimstrasse  um pacote comalimentos e roupas.Lá dentro, Olga recebeu o pacote sem qualquer indi.cação de quem odeixara. Mas como soubera, por uma prísíoneirarecém-chegada, damovímentação da sogra e da eunhada na França e naInglaterra, deduziufacilmente a origem do presente. Lígia e donaLeocádia voltaram àFrança levando apenas uma vaga promessa dos alemães 226 de que seriamavisadas pela Cruz Vermelha quando o bebê nascesse.Desesperada, donaLeocádia batia em todas as portas possíveis, e a todosrepetia seu lamento:- Os nazistas encarceraram meu filho, agora queremmatar minha nora emeu netinho que ainda nem nasceu. Percebendo que emParis teriam poucaschances de obter informações, as duas decidiramviajar a Genebra, naSuíça, onde funcionavam as sedes da Cruz VermelhaInternacional e daSociedade das Nações. Nesta última foram recebidascom frieza e omáximo que conseguiram foi a promessa de que seriamremetidos telegramasao governo brasileiro. Telegramas que apenasindagariam sobre asituação judicial de Prestes - nada de protestos.Repetiram o apelo naCruz Vermelha e obtiveram o compromisso de que osrepresentantes daentidade na Alemanha fariam firmes gestões para quepelo menos anotícia  do nascimento da criança fosse comunicada às duas.Apesar das péssimascondições em que se encontrava na prisão berlinense,Olga não perdera aaltivez. Citando a legislação internacional e oscódigos alemâes,exigiu o direito de receber jornais regularmente. Comoa lei falavasimplesmente em "jornais", o pedido foi atendido: todas asmanhãs Olga passou areceber na cela o Vólkischer Beobachter, jornaloficial do PartidoNazista que só falava da "conspiraçãojudaico-bolchevique"e das supostas virtudes do nacional-socialismo deAdolf Hitler. Asnotícias que a interessavam - sobre a situação doscomunistas e dospaíses europeus que resistiam ao fascismo  acabavamchegando pela bocadas dezenas e dezenas de novas prisioneiras políticasque a cada semanaeram despejadas em Barnimstrasse. Como insistisse emsaber de que crimeera acusada, Olga acabou informada pela direção daprisão que não haviaqualquer imputação formal contra ela. A denúnciapela invasão armadade Moabit estava prescrita e a suspeita decumplicidade comOtto no caso de espionagem tinha morrido por falta deprovas. A 227 inexistência deacusação, entretanto, ao contrátio de tranqüilizá-la,dava-lhe a certeza de que não sairia dali tão cedo. Quemnão era acusado denada não tinha porque contratar um advogado e nemteria do que sedefender. Olga não ignorava que os crimes que a tinhamlevado à cadeia nãoprescreveriam jamais sob o nazismo: ser judia ecomunista. Namadrugada de 27 de novembro de 1936, um ano após afrustrada revolta doRio de Janeiro, Olga acordou com o colchãoencharcado. Correndoa nião pelo corpo, percebeu que a bolsa amnióticaestava arrebentando.Levantou-se correndo, tateou os cantos dacela,localizou acaneca de Lata e bateu-a contra a porta de ferroalgumas vezes - erao código combinado com as carcereiras para quandosuspeitasse daiminência do parto. O sol começava a romper a camada deneblina gelada queenvolvia a prisão quando a criança nasceu. Era umamenina e o nome,como sabiam algumas prisioneiras de Barnimstrasse,estava escolhido hávários meses: Anita Leocádia. Anita em memória daheroína brasileiraAnita Garibaldi, mulher de Giuseppe Garibaldi, orevolucionárioforjador da unidade da Itália, e Leocádia em homenagem asogra que nunca virapessoalmente, mas aprendera a amar e respeitaratravés de Prestes -e que agora cruzava a Europa mobilizando comitêspor sua libertação.A recém-nascida foi envolvida nas roupinhas tecidaspelas companheirasde cela, no Brasil e que tinham sido virtualmente aúnica bagagem deOlga na viagem até a Alemanha. As peças do enxoval, naverdade, eram tãograndes que acabaram servindo como mantas para AnitaLeocádia.Surpreendentementé para uma gestação ocorrida emcircunstâncias tãoadversas o bebê nascera gorducho e saudável. A chefedas enfermeirasinformou a Olga que com o nascimento da menina ela teriaa ração de alimentosalierada: às duas tijelas da rala sopa de ervilhasque recebia, seriamacrescentadas diariamente, durante os primeiros seismeses, uma caneca deleite e uma tijela de mingau de aveia. Mas a boanotícia veioacompanhada de uma advertência temível: 228 - As normas destaprisão determinam que os bebés sejam separados das mães aos seismeses e mandados aorfanatos do Partido - começou a mulher - mas no seucaso vamos abrir umaexceção. Nós sabemos que há pessoas na França e naInglaterrautilizando seu nome para fazer campanhas contra o Estadoalemão. Para provarque este é um regime humanitário, vamos permitir quea criança fique emseu poder enquanto estiver sendo amamentada. No meiodo pânico de que foitomada pela notícia, Olga viu uma ponta deesperança: a"concessão" feita pelos nazistas daria mais tempo à eunhadae à sogra para queintensificassem a campanha pela libertação de ambas.Ficar com AnitaLeocádia, agora, dependia apenas de seu organismo: dascanecas de leite edas tijelas de sopa de ervílha ela tería que extrairnutríção sufícíentepara produzir leite. Muito leite, por muito tempo.Só no começo defevereiro, quando Anita entrava no terceiro mês de vida,é que dona Leocádiae Lígia souberam pela Cruz Vermelha do nascimento.A organizaçãoinformava também que Olga tinha recebido as duas cartasenviadas por donaLeocádia a Genebra, e que a correspondência entre elasestava autorizadaoficialmente. mas seria submetida à censura pelaGestapo - teria queser, portanto, escríta em alemão. O ofício da CruzVermelha transmitiuà avó as notícias sobre o risco gue a garotinhacorria: quandosecasse o leite da mãe, elas seriam separadas. Junto àcarta vinha umpequeno envelope, carimbado com a águia nazista doserviço de censura,contendo um bílhete de Olga para a sogra, a quempassara a tratar de"mãe": Berlim, 31.1.37 Querida mamãe: Acabo dereceber suas cartasde 1 e 9 de janeiro. Você não pode imaginar a alegria queelas me trouxeram.Primeiro, quero informá-la de que você é avó. No dia27 de novembro dei aluz à pequena Anita Leocádia. uma menina saudável,que nasceu pesando3800 gramas. Ela 229  tem os cabelosnegros e grandes olhos azuis. A criança se desenvolve bem e o seu sorrisotira-me datriste situação emque estou. Faço todo o possível para que nada lhefalte. Estouamamentando-a e tentarei fazê-lo enguanto me seja possivel.Atualmente estou emuma "detenção de proteção" (Schufzha/r), maisprecisamente, naenfermaria de uma prisão feminina. No parto houvecomplicações eestive gravemente doente, mas agora já superei isso. Vocême perguntou quantasvezes pode escreve-me. Pelo regulamento da prisão,posso receber umacarta a cada 10 dias. Fico contente de poder colocá-laa par dodesenvolvimento da minha filha. Eu lhe peço que me escrevaquando possívelcontando o que sabe sobre a situação do Carlos. Desde 23de setembro, isto é,desde o día em que fui expulsa do Brasil, estou semnotícias dele.Depois do nascimento da pequena, eu lhe dirigi uma carta,mas até agora nãoobtive resposta. Eu queria que você me enviasse, emuma das próximascartas, uma Fotografia do Carlos, pois não tenhonenhuma aqui.Querida mamãe, espero com impaciência a sua resposta Commeus melhores votospor sua saúde...Eu te beijo. Sua filha,Olga. A campanhaorganizada a partir da França passou a reclamar desde então, alibertação dePrestes, no Brasil, e a de Olga e Anita, na Alemanha. Adona Leocádia e Lígiajuntou-se outra valente mulher, a alemã MinnaEwert, irmã deArthur Ewert, que se movimentava por toda a Europalutando pelaliberdade do irmão e da eunhada. Minna conseguira fazerchegar às mãos dopresidente Franklin Roosevelt, em Washington, umtelegramadenunciando as torturas de que Arthur era vítima nas prisõesbrasileiras epedindo a interferência do governo norte-americano. Aprimeira preocupaçãoda mãe e da irmã de Prestes passou a ser com asaúde de Olga: eranecessário garantirLhe alímentação substancíal a fímde que amamentasse amenina o tempo sufíciente para permitír ofortalecímento dacampanha pela líbertação de ambas. A cada duas semanasdona Leocádía eLígía enviavam pelo correio um fornido pacote de 20quilos para a prísãode Sarnímstrasse, contendo alimentos, chocolate ealguma roupa. Oímposto que os alemães cobravam pela entrada dos pacotesno 230 país chegava a serduas ou três vezes superior ao preço pagopelos artigos. Pelasraras cartas que recebiam, percebiam que apenas ametade das remessaschegava às mãos da prisioneira, mas ainda assim otrabalho produziaresultados: Olga se recuperava da desnutrição e tinhaleite abundante.Simultaneamente às remesas, o movimento pela libertaçãodas duas prosseguia.Lígia e dona Leocádia não admitiam a idéia deseparar a mâe dafilha e exigiam que Olga também fosse solta, lembrandoque era inocente enão havia denúncia ou acusação formal contra ela.Além disso, erapreciso arranjar alguma forma de transmitir a Prestes anotícia de que eleera pai de uma menininha. No Rio de Janeiro, o jovemadvogado HeráclitoFontoura Sobral Pinto, cristão militante, resolve porsua própria contadefender Prestes e Arthur Ewert perante o Tribunal deSegurança Nacional,uma corte de exceção criada especialmente parajulgar os envolvidosna insurreição de novembro de 1935. Sobral consegueentrar na cela ondeo capitão estava preso, para comunicar-lhe suadecisão e éfuriosamente rechaçado. Prestes rejeita a oferta de defesa,alegando que Sobral éum homem de mentalidade burguesa, sem capacidadeou desejo efetivo dedefendê-lo e sem condições de entender o pensamentodos comunistas. Oadvogado insiste e Prestes pede que ele se retire dacela, com umaameaça: - Qualquer iniciativa que o senhor tome em minhadefesa sem meuconsentimento vai lhe eustar caro: eu o denunciareiinternacionalmentecomo impostor! Sobral Pinto não se intimidou com areação do ilustrepreso. Embora anticomunista ferrenho, para defender umcomunista valia-sede um pensamento de Santo Agostinho pinçado doEvangelho -"odiar o pecado e amar o pecador". Sobral explicava aosamigos que sabia que"o comunismo nega Deus, afronta Deus, mascompreendo que oscomunistas façam isso por serem pecadores".Persistente, decidiurecorrer a uma das poucas pessoas que exerciaminfluência sobre opreso: a mãe, dona Leocádia. Semanas depois do ásperoencontro na cela,Prestes231 recebia, porintermédio do advogado, umbilhete de Paris, emque a mãe pedia que ele tivesse confiança em SobralPinto. As palavrasmaternas mudaram o comportamento do filho, e aprimeira providênciado defensor, como patrono da causa de Prestes eEwert,foi afrontar aditadura denunciando de maneira que se tornariacélebre o tratamentodado ao comunista alemão.Nos primeiros dias de 1937um jornal do Riohavia publicado uma noticia policial dando conta de queo cidadão MansurKaran, da cidade de Curitiba, fora condenado à prisãopor ter espancado umcavalo até a morte. Sobral valeu-se da decisão dojuiz que condenaraKaran e recorreu a um artigo da Lei de Proteção aosAnimais para tentarsalvar a vida de Ewert. A lei dizia que "todos osanimais existentesno país são tutelados do Esiadó" - e já que a lei doshomens erainsuficiente para impedir o flagelo do alemão, pelo menos quefosse protegido comoum animal para que as toriuras cessassem. Graças àintervenção deSobral, Prestes pôde receber cartas da mãe e da irmã.Embora ambastivessem remetido abundante correspondência, a polícia nãodeixara chegar aopreso uma única linha. A primeira caria que recebe dedona Leocádia vem deParis, datada de 6 de março de 1937. E através delaque Prestes ficasabendo do nascimento de Anita Leocádia. Meu queridofilha; Desejo detodo o coração que continues bem de saúde e ánimoforte. Até hoje nãorecebi nada de tua parte, embora muitas tenham sidoas carias enviadaspara a prisão onde te encontras desde março de 1936.Ignoro se asrecebeste. Hoje resolvi escrever-te de novo, esperaudodesta vez um melhorresultado, quero dizer, que re cheguem às mãos estastinhas, portadorasdo nosso amor e de nossas saudades, mas,principalmente, parate dar uma gratíssima notícia que acabamos deroceber. A 27 denovembro nasceu em Bertim, em um hospital de uma prisãode mulheres, tuafilhinha, a quem nossa querida Olga deu o nome de AnitaLeocádia, em honra àheroína brasileira Anita Garibaldi e em atenção atua máe. Quecriatura admirável é tua esposa e como é digna de ti.Congratulamo-nosefusivamente contigo peio auspicioso acontecimento.Depois dos transespor que passamos e da terrivel incerteza que 232 pesava sobre a sorteda heróica Olga e do precioso penhor que trazia emseu seio, podes bemimaginar a indescritível emoção que nos dominou e,ao mesmo tempo, aenorme alegria que encheu nossos corações ao termosconhecimento defeliz sucesso. A nossa heróica Olga, somente à sua calmae paciência com quesoube suportar os terríveis sofrimentos morais porque passou,revelou-nos tão feliz acontecimento. Junto vai a carta que delarecebi, respondendoàs que eu havia escrito em janeiro último, e assimficará a par dealguns detalhes sobre o nascimento de tua filhinha. Alémdessa carta de 31 dejaneiro, nenhuma outra recebi. Porem, tenho escritotrês vezes por mês,como determina o regulamento da prisão onde seencontra. Porintermédio de amigos, já lhe enviei um pequeno auxíliopecnniário,agasalhos, etc. Por esse lado podes ficar tranqüilo, que nãonos descuidaremosdesses dois entes queridos e tudo envidaremos para quenada lhesfalte.  Estamos terminando um pequeno enxoval, todo feito pornós (eu e Lígia, quemuito breve enviaremos para nossa muito queridaAnita- Já enviei àOlga as fotografias pedidas.  Meu queridofilho, vou terminarque esta já vai longa demais, porém antes querolembrar-te que sepuderes escrever a Olga, que se aflige sem noticiastuas, podes meenviar a carta que eu a transmitirei a ela. Tuas irmãs teabraçam e beijam-tecom imenso carinho. Com um apertado e saudosíssimoabraço, envio osmeus mais ardentes votos pela tua preciosa saúde. Tuaextremosa mãe,Leocádia Prestes 17. Dona Leocádiaenfrenta a Gestapo233A notícia de que erapai, de que Olga estava viva, de que a mãe e as irmãsestavam bem, encheude esperanças um Prestes às portas da condenação porum tribunal deexceção. Ele releu, dezenas de vezes, a carta da mulher ea da mãe no eubículoem que continuava preso. Quando Sobral Píntoinformou-o de quetinha obtído autorízação para que respondesse àcorrespondêncía deOlga, ele fez uma exigência. Sabendo que as cartaseram censuradas,primeiro pela polícia de Filinio Müller, no Brasil,depois pela Gestapo,em Berlim, pediu ao advogado que lhe comprasse umagramática alemã e umdicionário de alemão. "Pelo menos os nazistas daquiterão que arranjarum tradutor para censurar minhas cartas", desafiou.Munido de apenasdois livros e valendo-se dos rudimentos que aprenderacom Olga, passou aescrever em alemão à mulher. Semanas depois receberiaa primeira respostaum bilhetinho que, passando pelo crivo da polícianazista, foraremetido à Cruz Vermelha, em Genebra, e depois às mãos dedona Leocádia, naFrança, que o enviara ao escritório de Sobral Pinto,no Rio de Janeiro,pousando finalmente na cela de Prestes: Berlim, abrilde 1937 Meu Carti:Antes de tudo, quero falar da nossa menina, que játem 234 mais de quatromeses. Sua aparência física é uma mistura denós dois. Tem oscabelos escuros, como os teus, a tua boca e as tuasmãos. Os olhos sãograndes e azuis, mas não claros como os meus. Os delatém um azul devioletas. Tudo isso cercado por uma tez muito suave,branca, e porbochechas cor de rosa, muito bonitas. Como eu gostaria quetu a conhecesses.Mas o mais bonito é o sorriso. Sorri tão bonito quenos leva a esquecertudo o que há de ruim neste mundo. Imagino como tubrincarias com ela,puxando-llíe, tenho certeza, os cabelos alegrementearrepiados. Nossamãe mandou-me tua fotografia. é freqüente eu passarhoras, com a nossapequena Anita Leocádia no colo, a olhar a foto, comose estivesse a teulado. Já faz mais de um ano que estamos separados,mas acharei for çaspara esperar o dia feliz em que estaremos de novojuntos. A tua, Olga.Só dali a dois meses, em junho, Olga receberia novasnotícias do marido,em carta de dona Leocádia. Novas e más: no dia 8 demaio Prestes foracondenado pelo Tribunal de Segurança Nacional a 16anos e 8 meses deprisão; Arthur Ewert, a 13 anos. Como o juiz BarrosBarreto impusessetantas exigências para que os advogados dos presosentrassem no recintodo tribunal, Prestes pediu que Sobral Pinto seausentasse e fez elepróprio sua defesa - um libelo dirigido muito maisà população do queao corpo de jurados que estava ali com a incumbênciaprévia decondená-lo. Olga ficou sabendo que mesmo depois do julgamentoo rigor da prisãopermanecia. Objetos de uso pessoal que Sobral levavapara ele na cadeiaeram minuciosamente revistados. "Lenços sãodesfraldados contraa luz, o cós das euecas é desdobrado de milímetro emmilímetro para quepudessem os policiais ter a certeza de que nenhumbilhete, nenhumaserrinha de aço estivessem sendo remetidos pela mãe aLuís CarlosPrestes", denunciaria o incansável advogado. "Um sabonetefoi partido ao meio,paus de chocolate miudamente quebrados, gravatasforam viradas doavesso e o forro de um terno de casimira quase que foidescosido ".Olga soube também que dona Leocádia, preocupada com aameaça deinternamento de Anita num orfanato nazista, decidi 235 retornar a Berlimpara tentar a libertação das duas. A única notícia boaque chegaria aPrestes nesses meses seria uma nova carta de sua mulher,que tivera queesperar não mais dez, mas trinta dias, depois dobilhetinho de abril,para escrever-lhe novamente: 12 de maio de 1937Carlos: Não encontropalavras para dizer-te quantas alegrias meproduziram suaslinhas de 16 de marso. Querido: quero te falar dapequena. Sabes,minha própria vida está de certo modo refletida na dessepequeno ser.Diariamente há nela novas maravilhas para serem descobertase a cada dia elapenetra mais firmemente no meu coração. é tão belo quea menina se alimenteem mim, que eu possa dar-lhe o melhor da minhaforça vital, daforça que eu possuo. Geralmente está deitada em suacaminha, com aspernas no ar, e às vezes pega os pezinhos com as mãos.Quando alguém seaproxima dela, terias que ver como se ilumina a suacarinha. O maisalegre são os seus olhos azuis, tão claros e brilhantes.É surpreendentequanta expressividade pode haver num ser tão pequenino.Alegria,aborrecimento, fome, cansaço, tudo se reflete em sua carinha.Por sua vez, elasabe muito bem, quando me aproximo dela, se estoualegre ou se estouIriste. Quando dou-Ble o peito, apenas a tomo nosbraços e abre aboquinha, como um passarinhu faminto. E quando já nãopode mais, solta opeito, me sorri e volta a cabecinha para tomar oresto. Quando acoisa não vai bastante rápido se impacienta e começa abater-me com amãozinha. Ah, quanto eu gostaria que alguma vez elapudesse arrancar umamecha tua, como faz sempre comigo. Bem, eu poderiacontar-te muitasoufras coisas. Por exemplo, que fizemos ginástica,cantamos, mas tudoisso deixarei para uma próxima carta. No pátio há umaárvore e alianinhou-se uma família de passarinhos. Acabam de nascer osfilhotinhos. Sepudesses vê-los... Eles vão, voltam, regressam cominsetos e outrosalimentos. Passo horas olhandoos e penso em nós. Ah, sóos seres humanos sãocapazes de destruir uma família da Forma quefizeram conosco. Ummar imenso nos separa, e no entanto sinto queestamos muitopróximos. Da tua. Olga. Por volta de julho de 1937 a mãe dePrestes retornou àAlemanha, desta vez acompanhada das advogadasbritânicas May Milese Kathleen Kimber. Diante do rigor 236 da carceragem deBarnimstrasse, onde Olga sequer fora informada que a sograestava no país,dirigiram-se à sede da Gestapo. Os homens do serviçosecreto nãoaceitavam discutir a hipótese da libertação de Olga. Comrelação ao destino aser dado à menina, insistiam em que essa era umaquestão a sertratada apenas "com os parentes dela", condição que serecusavam areconhecer em dona Leocádia, alegando não haver qualquerpapel quecomprovasse o casamento de Olga com Prestes. Sem certidão, ogoverno nãoreconhecia o casamento e, por conseqüência, o parentescoentre dona Leocádiae Olga ou Anita. Os oficiais da polícia secretanazista afirmavamque só havia uma pessoa em condições legais de tratardos interesses deOlga e de Anita Leocádia: era Eugénie Gutmann Benario,a mãe de Olga, poiso compassivo advogado Leo Benario falecera anosantes. E toda vezque se referiam a Eugénie, frisavam pausadamente: -Esta sim, é uma boaalemã. Dona Leocádia não entendia: como é que umajudia poderia ser"uma boa alemã " aos olhos da Gestapo? Com essa dúvidana cabeça, decidiupartir para Munique. Era uma viagem longa e penosapara uma mulher de63 anos como ela, mas foi assim mesmo. Ascompanheiras ficaramsem saber se compensava fazer um esforço tãogrande, diante daintransigência da polícia, mas ela insistiu: - Se donaEugénie é a únicapessoa que pode fazer alguma coisa por minha nora eminha neta, eu vou.Após uma noite inteira de viagem de trem, as quatroestavam na elegantecasa da Karlplatz, na capital da Baviera. Quando umempregadointroduziu-as à sala de visitas, dona Leocádia surpreendeu-secom o luxo dosmóveis, tapetes e objetos de arte. A mãe de Olgaapareceu, ouviu poralguns minutos o que a brasileira dizia e nãopermitiu sequer queterminasse de falar: - Nesta casa não permitoabsolutamente que setrate desse assunto! Olga não é mais minha filha!Por favor,retirem-se daqui imediatamente! Perplexa, dona Leocádia aindainsistiu que a vidade Olga e de Anita estava nas mãos de Eugénie.Apontou 237 para uma fotografiade Olga adolescente, emoldurada numquadro, e tentou umavez mais: - Só a senhora pode salvar a vida de suafilha, dessa moçamaravilhosa. Por favor, não faça ísso! Eugénie foiclara: - Esta eraminha filha. Nada tenho a ver com a comunista que vocêdiz que está presaem Berlim! Ao perceber que a brasileira não sairiadali tão facilmente,a dona da casa chamou o filho Otto, oito anos maisvelho que Olga,explicou-lhe o que acontecia e pediu que ele convencesseaquelas pessoas asaírem. Otto Benario foi seco. Disse que era advogadoe exigia que asquatro deixassem sua casa imediatamente: - Minha mãe jádisse: nesta casanão se trata desse assunto. Portanto, retirem-se, DonaLeocádia não viuoutra alternativa senão partir, arrasada, para aFrança. Em Paris,ela e Lígia decidiram contratar um advogado paracuidar do aspectojudicial  do caso. Acabaram por escolher FrançoisDrujon, um dos maisafamados juristas franceses. Sequer um liberal - aocontrário, suasidéias conservadoras eram bem conhecidas -, Drujon nãoapenas aceitou acausa como, emocionado com a campanha de dona Leocádia,nada cobrou por seusserviços. Sua primeira iniciativa foi viajar aBerlim, sozinho,para sondar a Gestapo sobre as possíveis soluções parao caso. Drujon pôdefazer o que nunca permitiram a dona Leocádia eLígia: foi recebidopela oficialidade da polícia secreta e teveautorização para verAnita na prisão. Não viu a mãe, mas chegou a estarpor alguns minutoscom a garotinha em seu berço, na hora em que os bebêsdas prisioneirastomavam sol no pátio. Drujon recebeu do comando daGestapo a promessade que a menina seria entregue à avó paterna desdeque apresentassealgum documento oficial, passado no Brasil, em quePrestes assumisse apaternidade da criança. Não seria necessária acertidão decasamento, mas apenas o atestado de paternidade, para queficasse formalmenteassentado o parentesco entre dona Leocádia e Anita. 238 Quanto  a Olga,os alemães não lhe deram qualquer esperança. Diziamapenas que "ocaso dela é muito complícado". O absurdo jurídicoutilizado até entãopermanecia de pé e era suficiente para mantê-laeternamenteencarcerada, sem direito de se defender. Como não tivesseprocesso formalcontra si, Olga estava sob uma espécie de prisãopreventívapermanente. A notícia, levada à família de Prestes em Paris,aliviou um pouco aangústia da avó e da tia de Anita: se conseguissem defato arrancar amenina das mãos da Gestapo, teriam meio caminho andado.Depois era reforçara campanha e tentar alguma forma de expulsão oubanimento para amãe. O próximo passo, portanto, era pedir ao advogadoSobral Pinto quepegasse a declaração com Prestes na cadeia; assim, alibertação de Anitaestaria resolvida. Pelo menos era isso o queimaginavam Lígia edona Leocádia. Mas a coisa não era tão simples comoparecia. Poucassemanas após o nascimento de Anita Leocádia, Olga tinhamanifestado uma vezmais seu proverbial atrevimento, obtendo da Gestapoautorização paraenviar um requerimento à embaixada do Hrasil em Berlim,pedindo o registroda recêm-nascida como cidadã brasileira. Comojustificava,invocava a paternidade de Luís Carlos Prestes e a suaprópria condição de"brasileirá": Berlim, 9 de dezembro de 1936 AEmbaixada do Brasil&rlim Na qualidade de cidadã da RepúblicaBrasileira, solicitoque seja feito o registro de Anita LeocádiaPrestes, nascida em27-11-36, em Berlim, filha do capitão Luís CarlosPrestes e de suaesposa Olga Benario Prestes. Ao mesmo tempo desejosaber se me podemindicar o atual paradeiro de minha sogra, sra.Leocádia Prestes e,se possível, o seu endereçu. Peço que dirijam suaresposta à GeheimeStaatspotizei (Gestapo), sob o n. 242813 - II 1 A1, para O. BenarioPrestes. Com estima e consideração, O. BenaríoPrestes. 239 No dia em que Olgasolicitou autorização para fazer o requerimento, aGestapo antecipou-se a ela e pediu informações àembaixada brasileiraem Berlim sobre a data exata da prisão, no Rio deJaneiro, de Olga ePrestes, e da separação de ambos, como meio decertificar-se daalegada paternidade de Anita. Embora os dois pedidostivessem chegadoquase simultaneamente à legação brasileira, otratamento dado acada um deles revelaria, outra vez, a subsetviência doembaixador JoséJoaquím Moniz de Aragão aos comandantes da políciasecreta nazista. Asolicitação da Gestapo foi retransmitida ao Brasilhoras depois de terdado entrada na embaixada, através de telegramaassinado pelopróprio embaixador: Segunda-feira - 20hs. 16 - A políciadaqui pedeinformações às autoridades brasíleiras, urgentemente, sobre adata exata daprisão, aí, de Olga Benario e de Luís Carlos Prestes.Este pedido tem emvista estabelecer a paternidade da críança do sexofemíníno. Filha deOlga, nascida aqui em 27 de novembro findo, sendoindispensávelindicar até que data Prestes e Olga poderiam ter tidorelações. A criançaestá com sua mãe, presememente, no hospítal daprisão de mulheres,em Berlim. Pede, também, remter fotografia epossíveis indicaçõessobre a mulher do presumído secretário Ewert, quefugíu no momento daprisão deste para, possivelmente, ser aquiidentificada. Rogoresponder com urgência. Moniz de Aragão. Para agradarà Gestapo o servildiplomata rogava urgência. Para Olga, ainda que dasinformações pedidasdependesse o destino de um bebê, enviou um vago edesinteressadoofício - duas semanas depois do requerimento: A GeheimeStaatspolizei(Gestapo) Prinz.Albrechtstrasse 8 Berlim Ref. 2428/36 - II1 A 1 Para OlgaBenario O Departamento Consular da Embaixada do Brasilem Berlim comunica,em resposta à carta de 9 do corrente, que orequerimento pararegistrar sua filha foi encaminhado ao Ministério dasRelações Exteriores,no Rio de Janeiro, que decidirá sobre o assunto.Logo que seja dadauma resposta, será a mesma levada ao seuconhecimento. 240A sra. LeocádiaPrestes não é aqui conhecida e assimnão é possível sercomunicado o seu endereço. Berlim, 21 de dezembro de1936 Ao declarar, em21 de dezembro, que o requerimento "foi enviado" aoRio de Janeiro, aembaixada brasileira mentia. Só oito dias depois, a 29de dezembro (trêssemanas após receber a solicitação de Olga), é queMoniz de Aragãoremeteria ao Brasil, por carta (e não por telegrama,como fizera com opedido da Gestapo), um ofício dirigido ao ministrointerino dasRelações Exteriores, Mário de Pimentel Brandão, tratando doassunto. Oembaixador do Brasil na Alemanha, na realidade, pareciasaber a quem servia.O tratamento dado pelo Itamaraty ao caso nãodiferiu muito daorientação seguida pela representação brasileira emBerlim; tambématravés de telegrama, a chancelaria responderia umasemana depois àsolicitação feita pela Gestapo, informando: 1. Prestes eOlga foram presos acinco de março e viveram juntos até aquela data; 2.A políciaidentificou a mulher que conseguiu fugir no momento da prisãode Arthur Ewert comosendo a mesma Olga Benário. A resposta aorequerimento de OlgaBenario não seria expedida nem em uma semana, nemem um mês, nem em umano. O Ministério das Relações Exterioressimplesmente ignorouaquele assunto. O governo brasileiro de GetúlioVargas como um todo,na realidade, não parecia satisfeito com aspunições queimpusera a Prestes e a sua mulher. O comportamento damaioria dasautoridades dava mostras que se pretendia que as penas docasal setransmitissem por hereditariedade à filha de oito meses deidade. Quando SobralPinto tentou levar um tabelião até a cela dePrestes, para queeste assinasse o atestado de paternidade exigido pelaGestapo, foiinformado de que era necessária uma autorização especial dopróprio ministro daJustiça. E o ministro, recém-nomeado para o cargo,era ninguém menos 241 que José CarlosMacedo Soares, o mesmo que ocupavao Ministério dasRelações Exteriores quando da deportação de Olga.Macedo Soaresindicara "para cuidar do assunto" sua chefe de gabinete, aconsulesa Odette deCarvalho e Souza, uma carola fascinada pelaextrema-direita quese deliciava em publicar initermináveis e tediosos"estudos deproblemas espirituais, políticos e sociais ligados aobolchevismo" -entre os quais um alentado tratado sobre "A aliança entreos comunistas de1935 e os cangaceiros do Nordeste". Valendo-se do poderque o cargo lheconfería, dona Odette tentou, por todos os meíos,ímpedír que otabelião recebesse autorização para testemunhar aassinatura dePrestes no atestado de paternidade. Nem mesmo o empenhodo advogado CarlosLassance, recém-nomeado  diretor da prisão, para quea autorização fossedada e o documento assinado logo, conseguiudemovê-la daobstrução. O desespero de Olga, de dona Leocádia e Lígia,de Prestes e SobralPinto aumentava a cada dia. De um momento para ooutro a Gestapopoderia decretar que a amamentação havia chegado ao fime simplesmentedesaparecer com Anita Leocádia. Embora as gestõestivessem começado emjulho, em meados de setembro Sobral Pinto escreviaa dona Leocádia semuma solução para o problema. Rio, 1 de setembro de1937 Exma. Sra.Leocádia Prestes. Não é por descaso que não tenhoescrito a V. Excia.é por absoluta falta material de tempo. Paraconseguir aumentarmeus rendimentos de trabalho, venho sacrificandodiariamente, nestasúltimas semanas, duas horas do tempo que reservo,ordinariamente,"para o sono. E para agoniar ainda mais a minha vida játão sobrecarregada,fiquei hoje sem datilógrafa. Perdemos, o Dr.Lassance e eu, todoo dia de ontem no esforço, até agora vão, de levarum tabelião aopresídio onde está o filho de V. Excia., a fim de lavraruma escriturapública de reconhecimento, por parte de Luis CarlosPrestes, de suafilha Anita Leocádia. Só encontramos má vontade e medo.Todos temem sofrer acampanha, que já está sendo feita contra mim. deserem proclamadosdelegados do Comintern, a soldo de Stálin. CertamenteV. Excia. já se achainformada de mais esta perfídia inventada contra omodesto advogado,que, fiel discípulo de 242 Jesus Cristo, temsabido,até este instante,colocar os deveres de sua consciência religiosa acimade suasconveniências pessoais. Na impossibilidade de enviar a V.Excia., pelo aviãode amanhã, a escritura supramencionada, e que esperofazer pelo avião dequinta-feira, mando hoje os documentos oficiais queatestam nada terficado apurado aqui contra Olga Henario Prestes. FiZtraduzir taisdocumentos e legalizá-los no Consulado Alemão. Transmito,outrossim, a V.Excia., outra notícia triste: nada consegui no SupremoTribunal Militar,que confirmou a sentença de 1´  Instância. Vouempreender novoesforço, interpondo o recurso de embargos. Seremos,desta vez, maisfelizes? Alguns partidários do filho de V. Excia. nãose mostramsatisfeitos com a minha atuação no processo. Querem me darum ou maisassessores, que seriam constituídos por Luís Cartos Prestes.Na proxima carta, equando dispuser novamente da minha datilógrafa,exporeimiuuciosamente a V. Excia. mais esle episódio, que tanta mágoame causou. Consolo-me,porém, com as declarações do filho de V. Excia.feitas de público,de que "estando trancado, na Polícia Especial, só devermes,apareceu-lhe, afinal, um homem". Este horoem fui eu. Maisadiante, na suadefesa oral, acrescentou: "O sr. Sobral Pinto exerce aadvocacia coroo umsacerdócio". Que mais poderei eu ambicionar nestacausa, da partedeste meu cliente exótico? Da parte dos juízes e daadministração queromuito mais ainda, pois, até agora, não meatenderam no quevenho pleiteando: Justiça. Não podendo prosseguir, porfalta de tempo,envio a V. Excia. os protestos do meu mais alto apreço.Sobtal Pinto. Atortura duraria ainda mais alguns dias. E graças àpersistência deSobral Pinto, no dia 21 de setembro de 1937 o tabeliãoLuís Cavalcanti Filhofinalmente entrava na cela de Luís Carlos Prestespara que fosseLavrada a escritura mediante a qual o preso reconheciacomo sua filha amenor Anita Leocádia. No mesmo dia Sobral Pintodespachava acertidão diretamente para a Gestapo, em Berlim. A consulesaOdette de Carvalho eSouza perdera a batalha por uma diferença de dias:em 30 de setembroseria tornado público um certo Plano Cohen, segundo oqual estaria sendoarticulada tuma nova revolução comunista no Brasil. Oplano, cuja autoriao governo atribuiu ao Comintern, tinha sido, narealidade, inventadopelo 243  capitãoOlympio Mourão Filho, oficialintegralista efuturo detonador do gol pe militar de 1964, já comogeneral. A farsa foiutilizada para um novo e dramático endurecimentopolítico: na manhãde 1.° de outubro, Getúlio Vargas - que desde 1934era presídenteconstítucíonal,  eleito pelo Congresso para um mandatoque deveria duraraté 1938 - decretou novo estado de guerra. E no dia 10de novembro o Brasilentraria no Estado Novo, que instituiriaformalmente aditadura getulista. Se dona Odette tivesse conseguidoimpedir por maisalguns dias a lavratura do atestado, o cuidadoso planode dona Leocádiacertamente teria naufragado. Até porque uma dasprimeiras vítimas daprorrogação do estado de guerra viria a ser opróprio diretor dopresídio, Carlos Lassance, que logo no dia 1 ° deoutubro passava dacondição de carcereiro à de encarcerado da Casa deDetenção. Odocumento chegara à Gestapo, mas ainda restavam alguns mesesde sofrimento paradona Leocádia Prestes. Um advogado alemão,social-democrata eamigo do francês Drujon, prontificou-se a servir deintermediário entrea famílía Prestes, em Paris, e a polícia secretanazísta, em Berlim -o que facilitava muito a vida de Lígia e donaLeocádia, semcondições materiais de viajar a Berlim toda semana. Asautoridades alemãsprotelaram durante três meses a libertação da meninaaté que, em meadosde janeiro, o advogado Drujon reoebeu de seu colegaalemão umainformação definitiva: a tia e a avó tinham prazo até o fimdo mês para buscarAnita Leocádía, pois o leite da mãe chegara ao fim.Caso contrário, agarota seria entregue a um berçário nazista. As demaisproibições,entretanto, continuavam de pé: só seria libertada a criança,a mãe sequer poderiaser visitada. A notícia provocou um choque em Lígiae dona Leocádia,porque nenhuma das duas podía conceber a idéia dereceber Anita semOlga. Mas não havia outra alternativa: ou deveriamarriscar e deixar acriança por mais tempo nas mãos dos nazistas? 244  No dia 21 dejaneiro de 1938, acompanhadas por Drujon, Lígia e donaLeocádia entraram nopresídio feminino de Baruimstrasse, em Berlim. Semqualquerformalidade, um médico pediu-lhes que assinassem um recibo aopé de um atestado desaúde que ele redigira e onde as duas puderam, pelaprimeira vez, verduas fotografias da menina, grampeadas no papel:Atestado médico deprisão A filha Anita, de Olga Benario Prestes, foi hojeoutra vez,cuidadosamente examinada por mim. Trata-se de umamenina de quase 14meses de idade que apresenta um desenvolvimento fisicoexcepcionalmentebom. Tem 78 centímetros de altura e pesa 11,9 kg. Andadesde o 13´ mês. Temtodos os incisivos, os superiores e os inferiores.As mucosasapresentam uma coloração rosada. Os órgãos internos e asfunções corporatsestão completamente normais. Berlim, 19 de janeiro de1938. Aenfermeira-chefe da prisão entregou-lhes então, a menina. Anitaestava vestida comum capotinho branco de lã, uma das únicas peças deroupa que restavamda produção de Carmen Ghioldi, ainda no presídiobrasileiro. Lígia edona Leocádia auxiliadas pelo advogado parisiense,pediramencarecidamente para ver Olga, mas os oficiais da Gestapo foramirredutíveis. Omáximo que permitiram foi que dona Leocádia escrevesseum rápido bilhetepara a nora que, evidentemente, foi atirado à cestade lixo assim que osquatro cruzaram a porta de saída. Quando entravamno táxi parado àporta do presídio, os três adultos puderam perceber queAnita tinha setornado uma prisioneira popular em Baroimstrasse. Dasjanelas do prédio,dezenas de funcionários acenavam e se despediam damenina: I - AufWiedersehen, Anita! Auf Wiedersehen! A emoção deresgatar a garotinhae o medo de que pudessem criar novos problemas paraa saída deles dopaís se confundiram na cabeça de Lígia e dona Leocádia.Trêmulas, recusaramo convite de Drujon para que todos fossem comemorara libertação deAnita: da porta da prisão segtvram direto para a estaçãode trens de Berlim. 18. Com Sabo, na Fortalezanazi. Olga brincava deescondessconde comAníta sob os lençóis da cama quando a carcereiraabriu a porta dacela, acompanhada de três guardas armados. A policialnão fez rodeios: -Vista a garota com um agasalho grosso e entregue asroupas dela aospoliciais. Viemos buscá-la. De um salto Olga atirou-sesobre a filha,prendeu-a com as mãos contra o próprio peito e buscou comos olhos, em vão, umlugar onde pudesse proteger-se. Correu para umcanto da cela,comprimindo a criança contra a parede. Assustada, Anitacomeçou a choraralto. Tomada de desespero, Olga gritava: - Jamais!Vocês não podemfazer isto! O que vocês querem fazer é um crimeinominável! Saiam jádaqui! Só se me matarem levarão minha filha!Indiferente, acarcereira dava ordens aos guardas: - Recolham as roupasda criança. Vamostirá-la daqui imediatamente. Se precisar, podem usar aforça. Ao berreiroda criança juntou-se o choro da mãe, acocorada sobrea filha no canto doeubículo: - Um crime! Vocês estão cometendo um crimecontra um bebéinocente! Não! Vocês não podem separá-la de mim! Minhafilha não tem eulpade nada e não pode ser punida!Não façam isso!246  A policialordenou que os guardas tomassem Anita dos braços da mãe: -Levem a criançadaqui. Essa idiota está encenando. Há um ano ela jásabia: quando aamamentação chegasse ao fim, a menina seria transferidapara um orfanato.Dois  guardas agarraram violentamente os braços de Olgapor trás,imobilizando-a, enquanto o terceiro recoLhia Anita, queberrava cada vezmais alto. Olga tentava resistir e livrar-se dos homenschutando-lhes aspernas e ameaçando morder-lhes as mãos. Um delesaplicou-lhe um socona cabeça, por trás, e atirou-a sobre a cama. Ogrupo saiuapressado, trancou a porta e enveredou pelo corredor com amenina nos braços deum dos policiais. Os gritos de Olga, pendurada àporta de madeira,ressoavam pelas galerias do presídio: - Assassinos!Cães nazistas!Monstros! Minha filha, minha filhinha! Hitler vai matarminha filhinha de umano! Assassinos! Assassinos! Olga Benario esmurroua porta, gritou exingou por muito tempo. Quando de sua garganta nãosaía mais vozalguma, mas apenas um chiado rouco, desabou no chão decimento e ali ficou,imóvel, com os olhos arregalados, como em transe. Esó no fim damadrugada recobrou a consciência da tragédia que acabara deviver. Eladespertara com o corpo dolorido, como se tivesse sido surradacom porretes.Arrastou-se até a cama, deitou de costas e permaneceu deolhos abertos atéque a claridade do dia se infiltrasse pela janelagradeada da cela.Ela ainda passaria algumas semanas em Berlim. A comidaque as carcereirastraziam uma vez por dia voltava intacta no diaseguinte. Por trêsvezes foi levada, nesse período, à sede da Gestapo,na PrinzAlbrechtsirasse, para interrogatórios. Os policiais não lheperguntavam maissobre Neukôlln nem sobre a ação que arrancara OttoBraun da cadeia. Afuzilaria de perguntas mirava a imaginária "conexãojudaico-soviéticá"que pretendia enfraquecer o Reich, a origem dosfundos quefinanciaram  a 247  frustradarevoluçãono Brasil, as supostasligaçoes entre oIwria Bank e a "corja de judeus comunistas que corria omundo pregando arevolução". Mas Olga não lhes ofereceu uma sílaba deinformação quepudesse ajudar a decifrar aquela diabólica conjura contraHitler. Na cela,Olga ia aos poucos se recuperando. Voltou a comer e aarranjar atividadepara evitar que fosse tomada pela loucura. Com opassar dos diasconvenceu-se de que não poderia se debilitar física ouemocionalmente."Não posso desistir", repetia para si mesma dezenas devezes, caminhandopela cela. "Ainda tenho que ajudar a libertar meupaís, minha filha emeu marido. Não posso desistir". Mantida separadadas outras presas,como punição pelo "escândalo histérico" do dia em quelevaram Anita, Olgaesculpiu em miolo de pão um minúsculo jogo dexadrez. As pedraspretas eram identificadas pela cor do centeio e asbrancas forammarcadas com uma pitada de pasta de dentes no alto. Umestranho que alichegasse não saberia distinguir entre um peão e um rei,uma torre e umcavalo, mas ela conseguia passar horas e horas tentandoaplicar xeques-matesem si mesma. O "tabuleiro" eram alguns riscosfeitos no chão decimento com a asa de uma caneca, e as casas pretastinham sido pintadascom cascas de laranja. Durante aproximadamente ummês ela conviveusozinha com essa requintada forma de tortura - acerteza martirizantee brutal de que Anita estava em uma creche nazista,se é que aindaestivesse viva. Esse inferno pelo menos teve fim quandoOlga recebeu umacarta da sogra, escrita de Paris. Anita estava viva e asalvo, com donaLeocádia! O curto bilhete da mãe de Prestes fez Olgaressuscitar. Elareanimou-se, voltou a fazer ginástica, a sonhar com aliberdade. No dia emque Lhe deram autorização para voltar a escrevercartas, redigiu umpequeno bilhete a dona Leocádia e à filha. Lembrandode seus dias deagitação política em Paris, sugeriu à sogra que levasseAnita passear noslugares onde tinha estado. (...) Acho bom que façam umpasseio aoJardimBotânico, que é bunito em todas as estações do ano. Aviagem 248 até lá é algodemorada, mas muito interessante, de modo que vale a pena gastar25 pfennigs na passagem, sobretudo se conseguirem umbom assento. Quando,há alguns anos visitei pela pdmeira vez esse lindolugar, gostei muitoda disposição das numerosas espécies de plantas. Asestufas onde estãoalojadas as plantas tropicais e semitropicais sempreforam uma grandeatração. Dificilmente, no entanto, aguenta-se pormuito tempo o calorúmido e sufocante lá de dentro. E se vaes quiseremconhecer umamaravilha, visitem a planta aquática chamada Vitória Régia(...) Como o númerode linhas escritas era racionado pela direção daprisão, elaeconomizou palavras para escrever uma carta mais longa aomarido, no Brasil -a primeira carta desde a separação da filha. Berlim,tevereiro de 1938Carlos: Posso dizer-lhe que, junto com o 5 de março de1936, o 21 dejaneiro de 1938 foi o dia mais negro da minha vida. Frentea taisacontecimentos, fica-se diante da alternativa de sucumbir outornar-se mais dura.E voce sabe que, para mim só existe a segundaalternativa. Paraisto, felizmente, ajuda-me bastante o fato de que soucapaz de distinguirentre a insignificância das questões pessoais e osacontecimentoshistóricos mundiais do nosso tempo. Mas no meio de tudoisso há algo novo:todo o meu amor e o meu carinho não poderiamsubstituir, para apequena, o que ela precisa da vida. Lígia escreveu-mecontando que Anitabrinca com a bolsa dela, com a caixa de póde-arroz, otelefone e amaçaneta da porta, que anda pela casa, que tomou café damanhã novagão-restaurante de um trem. Tudo isso soa para mim como umconto de fadas deantigamente... Pedi a Lígia que fotografasse umsorriso de Anitapara você - o que se diz é que o sorriso dela encantaas pessoas. E é essedoce sorriso da nossa pequena que encerra um soprode Felicidade paraseus pais. Da tua, Olga. Ali mesmo Olga havia sidoinformada de queseria transferida do presídio feminino de Barnimstrassee a notícia damudança já havia chegado ao seu novo endereço: o campo deconcentração deLichtenburg, situado nas imediações da cidade dePrettin, 100quilômetros ao sul de Berlim, a meio caminho daThecoslováquia. 249 A portadora danovidade tinha sido Elise Ewert, quepassara três mesespresa em Bamimstrasse e ali ouvira que suacompanheira dedesventura no Brasil seria, como ela, enviada paraLichtenburg. A notícialogo correu as celas do campo de concentração demulheres. Alibertação de Otto Braun, a militância em Moscou, afrustrada revoluçãono Brasil e a separação da filha tinham feito deOlga Benario Prestesuma heroína. Não havia um só presídio ou ummovimento deresistência, na Alemanha, ou um movimento anti-fascista emoutros países daEuropa, que não conhecesse a sua saga em detalhes - epara receberprisioneira tão famosa as mulheres de Lichtenburg decidiramorganizar uma festaclandestina. Acumularam às escondidas, dias a fio, oque havia de melhornos pacotes de alimentos que os parentes dasdetentas traziam defora, para comemorar o dia de sua chegada. "Temosque dar a Olga umpouco de alegria e satisfação quando vier para cá",dizia CharlotteHenschel, uma das organizadoras da recepção. A festa, noentanto, não iriaacontecer. Nos primeiros dias de março Olga foiretirada deBarnimstrasse e colocada num carro de presos da políciasecreta, sem saberpara onde estava sendo levada. Na sua ficha detransporte, além donome, filiação e data de nascimento, iadatilografada arecomendação: "Comunista. Prisioneira  de altapericulosidade,detida à disposição do comando da Gestapo". No alio,escrita à mão comlápis vermelho, a advertência indispensável: judia.Além de comunistaperigosa,judia. quatro horas depois de deixar Berlim,ela era desembarcadasob forte vigilância diante das muralhas dafortaleza deLichienburg, um conjunto monumental construído pelas tropasde Napoleão àsmargens do rio Elba. A aparência do lugar eraassustadora: oenorme portão principal, em forma de arco, era emolduradopor leões rompantesem alto relevo. Sob as janelas fechadas por grades,garras de ferropontiagudo saíaro dos tijolos como uma advertênciapermanente aos quese aventurassem a fugir dali. Em cima dos muros,rolos de aramefarpado " eletrificado. " 250 Conduzida porcorredores de chão de pedra e teto baixo e abafado, Olga tinha a impressão deestarsendo introduzidanuma catacumba. A cada dez passos um novo portão deferro era aberto àsua passagem e ruidosamente fechado em seguida, atéque chegaram a umtúnel longo e escuro, com duas dúzias de portassimetricamentedistribuídas por ambos os lados. Pararam diante de umadas portas demadeira maciça, sem janelas. Um soldado ordenou: - Entre.Era uma solitária detrês metros de comprimento por um e meio delargura, protegidapor porta dupla, a externa de madeira e a interna deferro. Lá dentro,quase nada: uma pequena janela, a dois metros dealtura, dava para umestreito corredor lateral, de onde vinha uma pálidaclaridade. Uma gradede ferro quadriculado cobria a abertura em toda aextensão. A cama eraum bloco de cimento de meio metro de altura. Umpalmo abaixo dajanela havia um buraco retangular na parede, como setivesse faltado umtijolo à construção. Por ali Olga receberia a raçãodiária de água ecomida. No chão, um buraco com as bordas cimentadasservia de latrina.Sobre a cama, duas mantas de tecido leve completavamas acomodações deque ela disporia a partir de então. Sem pronunciar umasó palavra ossoldados trancaram as duas portas e se retiraram. Olgapassou a primeirameia hora vistoriando calmamente o cômodo e escolhendoo lugar onde iriadesenhar seu tabuleiro de xadrez. Concluiu que o idealseria a cama, paranão ter que passar o dia com as costas eurvadas nochão. Com a fivelada sandália passou a riscar os sessenta e quatroquadrinhos na lajede cimento sob as mantas. Sem cascas de laranja paraescurecer as casaspretas, marcou a diferença com um xis sobre elas eretiroucuidadosamente da sacola que levara consigo as minúsculas peçasmoldadas em miolo depão. Os primeiros dias na solitária foramterríveis: ela nãosabia se poderia continuar a corresponder-se com omarido e a sogra enão tinha a menor idéia de que tipo de prisão eraLichtenburg - umcampo de concentração  251  de judias, umpresídio político ou umapenitenciária dedelinqüentes comuns? Para atenuar o desespero e asaudade da filha edo marido, fazia ginástica e jogava xadrez, umapartida após aoutra. E para que o isolamento absoluto não a fizesseperder a noção dotempo, Olga assinalava todos os dias, ao acordar, umapequeninamarca  na parede, com a fivela da sandália, indicando mais umdia. Após o sextodía na solitária ela recebeu uma surpreendente visita.No meio da manhã, àhora em que normalmente entregavam a ração de sopa eo pedaço de pão, asportas da cela foram silenciosamente abertas e Olgaviu entrarsorrateiramente, para seu espanto, uma velha amiga deNeukálln, GertrudFrüschulz, que ela não via desde 1928. A porta foitrancada por fora eGertrud explicou à companheira a razão de tãoinusítado encontro.A comida vinda de fora para a "festá" de recepçãoque pretendiamorganizar fora utilizada no suborno de uma dascarcereiras, emtroca de permitir a entrada clandestina de umaprisioneira nasolitária. Por se conhecerem, Gertrud fora escolhida parapassar algunsminutos ali, trazendo-lhe informações sobre a prisão.Embora fosseimpossível ouvír dos corredores qualquer ruído produzidodentro da cela, omedo de ser apanhada obrigava a visitante a sussurrarno ouvido de Olga.Além da visita, ela trazia parte dos presentesreservados para afesta: torradas, um pedaço de queijo, um pouco degeléia e duas barrasde chocolate. E uma folha de papel com dezenas deminúsculos bílhetesescritos por várias prisioneiras. Olga queríainformações sobre aAlemanha e o que ouviu não foi muito animador:Hitler avançava cadavez mais as fronteiras do Reich e, internamente, apolícia caçavajudeus e comunistas sem parar. Alarmada, Gertrud temiaque a indiferençados governos da França e da Inglaterra com o fenômenonazista acabaria portransformar aqueles dois países em presas fáceis doapetite de AdolfHitler. Uma notícia deixou Olga em pânico: o apoío damaioria do povoalemão ao Führer, no poder desde 1933, era indiscutível.Seus comíciosatraíam multidões nunca vistas às praças públicas. Gertrudfalou-lhe também dafortaleza 252 de Lichtenburg: aliestavam mais de500 mulheres,indistintamente judias, comunistas e sociais-democratas.Sua amiga EliseEwert também estava ali - passara algumas semanas nasolitária e agoratrabalhava como empilhadora de carvão no fogão dorefeitório central.Olga contou que sua filha Anita havia sidorecuperada pela avópaterna e estava em segurança com dona Leocádia, emParis. Resumiu osinterrogatórios a que fora submetida em Berlim, falousobre a situação dePrestes e Ewert no Brasil, reclamou que só recebiacomida quente a cadatrês dias e que desde que chegara à fortaleza aindanão pudera ver a luzdo sol. No meio do cochicho, Olga assustou-se aoouvir três batidasna porta da cela. A amiga tranqüilizou-a: - E amaldita carcereiraavisando que acabou nosso tempo. Tenho que sair. -Obrigada pela visitae pelos presentes. Diga às companheiras para não sepreocuparem: agoraque minha filha está salva, está tudo bem comigo.Ainda posso agüentarmuito tempo aqui. A porta foi aberta e, tãosilenciosamentequanto entrou, Gertrud Früschulz sumiu no corredorescuro. Embora mortade fome, Olga estava mais interessada nos bilhetesvindos de fora doque no chocolate e nas geléias. Havia quase vintecaligrafiasdiferentes enchendo a folha de papel em toda a extensão. Nasmensagens não havianada de muito especial, além de saudaçôes, palavrasde estímulo econforto. O que preocupou Olga, porém foram asassinaturas, quedavam uma medida cabal da devastação que a polícianazista promoveraentre as forças de esquerda do país. Ela conhecia amaioria das mulheresque subscreviam os bilhetes - e eram todasmilitantesdestacadas do movimento popular em Berlim ou em outrascidades alemãs emuitas delas tinham sido suas companheiras de agitaçãoe propaganda nadécada anterior, em Neuktilln. Chocada com a duraconstatação, Olgaperdeu o apetite e simplesmente deixou num canto docubículo o embrulhofeito às pressas com papel celofane. 253 As duas semanasseguintes Olga passou-as sem receber qualquer notícia de fora dasolitária. Diariamenteela aguardava, ansiosa, a hora da ração, torcendopara que Gertrudvoltasse, mas logo perdia a esperança de rever a amigatão cedo. Passava osdias jogando xadrez, fazendo ginástica ousimplesmentecominhando pela cela. Andar e fazer ginástica, além demanter o corpo emmovimento, diminuía o risco de apanhar um reumatismonaquele lugargelado, servia para aumentar o cansaço físico e, com isso,ter sono mais cedo.O sono passou a ser o grande alívio para ela atéque, nos primeirosdias de abríl, decidíram libertá-la da solitária epermítir que ficassejunto com as outras prisioneiras, em celascoletivas. Olga saiudo eubículo assim como entrou: sem qualquerexplicação sobre porque tinha sido punida com o isolamento. Seuprimeiro desejo foirever SaBo. No pátio da fortaleza, onde as presas seencontravam todas asmanhâs para ouvir um intragável sermão político dodiretor da prisão,foi recebida pelas companheiras com as festaspermitidas pelascircunstâncias. Todas queriam vê-la, abraçála, ouvirdetalhes sobre arevolução frustrada  do Brasil e sobre sua fílhinha.Quando disse quequería ver a amiga, a pessoa que lhe trouxeramtinha pouco a vercom a Sabo do passado: tuberculosa, pesava menos de 40quilos e tinha umolhar opaco, distante, doentio. A moléstia não apoupara dostrabalhos forçados - e a delicada mulher de Arthur Ewerttinha nas mãos finase frágeis de outrora uma crosta de pele grossa,gretada pelo frio. Atristeza de ver a amiga naquele estado se sedissipou na hora doalmoço, quando foi chamada à sala do comando daprisão para receberum pequeno envelope contendo duas cartas da sogra euma de Luís CarlosPrestes. A do marido era curta e trazia trechos dedois poemasbrasileiros, para que ela matasse as saudades do Brasil. Asde dona Leocádia,entretanto, revelavam que ela agora estava ainda maislonge da filha.Preocupadas com o avanço do nazismo, após a anexação daAustria e da regiãodos Sudetos da Tchecoslováquía por Hitler (ocorrídadurante oconfinamento de Olga), dona Leocádia e Lígia 254 tinham sidoaconselhadas a deixarem a Europa e decidiram mudar-se com Anita para oMéxico. Visadas peladireita de todos os países por onde haviam passado,durante a campanhapela libertação de Olga e Anita, a mãe e a írmã dePrestes temiam serapanhadas na Europa pela guerra que pareciainevitável. Juntocom as cartas ela recebeu autorização pararespondê-las.Escreveu uma para a sogra e um pequeno bilhete para omarido. Prettin,abril de 1938 Querído Carlos: (...) Quero contessar-lheque me eusta muito,um grande esforço, pensar menos em nossa pequenafilha - este é,porém, o único caminho para suportar a minha dor. Asaudade é tão grandeque chego a ficar com raiva dos meus própriosbraços que atransportaram e de minhas mãos, que a afagaram. Quemaravilhosas sãos asduas poesias que você me mandou e o que você, comelas, desejadizer-me. Sou muito feliz por saber que os melhoressentimentos humanossão iguais em todos os povos da terra, e que essespovos só osexpressam de forma diferente por causa de suas eulturas e dexuás característicaspróprias. Tradttzi as duas poeSias para o alemão. Apoesia "Asvelhas árvores" enquadra.se perfeitamente em muitos dospensamentos quetenho tído nos últimos meses. Alcança-se uma grandematuridade íntima,que permite dizer: "Desejamos envelhecer sorrindo,como envelhecem asárvores fortes"... Da tua, Olga. Durante o ano e poucoque passou emLichtenburg ela seria levada meia dúzia de vezes a Berlim,para novosinterrogatórios. Cada vez que a Gestapo precisava conferírinformações sobre aação do Comíntern na América, Olga era transportadaao casarão da PrinzAlbrechtstrasse. Como não soubesse ou nãopretendesse dizerabsolutamente nada a seus algozes, as torturas eramfreqüentes. Mas nemos pontapés, açoites ou ameaças de fuzilamentoproduziam o efeitoesperado. Além do silêncio, os políciais da Gestapoirritavam-se com opermanente ar de superioridade que Otga mantinhadurante osinterrogatórios. "Vaca judia" era o tratamento mais brandoque 255 Lhe dedícavam.Embora o extermínío em massa ainda não tivessecomeçado, oanti-semitismo era política oficial no país e as prisões eperseguições dejudeus aumentavam a cada dia. As proibições decasamentosinter-raciais estavam em vigor havia três anos e nenhum judeupodia ocupar cargospúblicos ou dar aulas em escolas de qualquer grau,entre outras coisas.Se judeus eram as vítimas preferenciais do nazismo,tanto pior paraalguém, na Alemanha de Hitler, era ser, além de judeu,comunista. Olgaacumulava os dois delitos e somava a eles o fato de sermulher - condição deque se orgulhava pública e permanentemente. Nosegundo semestre de1938, depoís de passar três meses sem qualquernotícia de Prestesou da filha, Olga chegou a temer que algo de ruimpudesse ter-lhesocorrido. Ela sabia que o Brasil continuava sob estadode guerra e quenaquelas circunstâncias não seria difícil a FilintoMüller concretizar ofrustrado plano de matar Prestes. Seus receios sedissiparam em meadosde setembro, ao receber um pacote de quatro cartasdo marido e uma dasogra, que a direção da fortaleza, por puracrueldade, tinhadeixado jogadas num arquivo. Dona Leocádia, além denovidades, mandaraum verdadeiro tesouro - o que talvez explicasse adecisão dos guardasde reter a carta: uma fotografía de Anita,sorrídente, com umenorme laçarote de fita na cabeça. Olga responderiaao marido no mesmodia. Prettin, 15-9-38 Meu querido Carlos: Finalmenterecebi tuas gueridaslinhas de 30 de maio, de 14 e 27 de junho e de 27de julho, além deUma carta de 31 de agosto da nossa Mamãe. Pouco apouco começo areviver, após a pressão que pesava sobre mim pela faltade notícias duranteos últimos três meses. E que força e que calorexalam tuas cartasCertamente o fato de existirmos e estarmos Unidos épara nós uma fonteinezaurível de força e de esperança, todos os dias.E, assim, algumaspoucas linhas acabam significando muito e devovem umpoUco da bcoragemque o instinto de conservação envolve o coração.Mamãe escreveucontando que você falou com o doUtor Sobral Pinto. Ficofeliz por isso e porsaber que você 256 está com boa saúde,mas o que medeixou realmentefeliz é qUe você mostrou a ele a foto de Anita. Muitasvezes, aqui, pensoem seu desejo de viver dentro da mata virgem. Devodizer-lhe que osanos me ensinaram que não há nada impossível, e achoque continuareiassim por muito tempo. São fatos, e estamos acostumadosa contar com eles econviver com eles. Você escreveu-me também sobre o"enfantgãt~". Olhe, que bom que eu nunca mudei tanto quanto vocêpretendia, pois deoutro modo tudo teria sido muito mais difícil paramim. As observaçõessobre suas leituras deixaram-me muito feliz, mas nãoposso entrar maisnesse assunto para evitar que esta carta acabe sendoretida por exceder onúmero permitido de linhas. Quanto a minha saúde,não estou mal. Deresto, tenho estudado bastante francês e ingfês comuma ótima parceira.No dia 2 de setembro permitiram-me, finalmente,mandar para a nossaMamãe uma gravata que fiz para você. Espero quevocê a receba, poisela poderá te contar de todo o amor que não quero enão posso expressarnestas cartas. Por fim, confesso-lhe que, como você,afixei a suafotografia e a de Anita na minha porta - e fico muito tempocontemplando-as- MaSter Só iSso, e por tanto tempo, é muito pouco. Meuquerido Karli, eu tebeijo com todD amor. A tua, Olga. Os meses emLichtenburg forampassados intertnitentemente entre jornadas detrabalhos forçados erecolhimentos à solitária. A insistência de Olga emorganizarpoliticamente as prisioneiras Levou a carceragem a mudálaconstantemente decela, transferindo-a de um pavilhão para outro. Malela completavaalgumas semanas no alojamento das "judias indesejáveis" -ladras, mendigas eprostitutas -, era levada para o das "judiasburguesas",como eram tratadas pelos policiais as mulheres decomerciantes epequenos empresários judeus cujos bens tinham sidoconfiscados peloReich por infringirem as leis raciais. Mas, no pavilhãoem que seconceniravam as prisioneiras políticas, indistintamente judiasou não-judias, Olganunca teve oportunidade de passar um dia sequer. Decerta feita, quandotomou coragem e pediu que a transferissem para lá,recebeu comoresposta uma gargalhada da chefe de carceragem de plantão: 257  - Você estáaqui para ser punida, e não para ser premiada! O invernoem Lichtenburg erauma punição a mais. Situada às margens do rio Elba,poucos quitômetros antesda cidade de Torgau, numa região de topografíabaixa e plana, afortaleza teve seus porões invadidos pelas águasgeladas do rio e onúmero de casos de pneumonia e tuberculosemultiplicou-se. Asaúde de Elise piorava, mas os guardas, sabendo daantiga amizade entreas duas, insistiam em mantê-las separadas, de modoa que Olga passassemeses sem ver a amiga. E foi poucas semanas após  ofim desse inverno de1938 que novas prisioneiras trouxeram a terrívelnotícia: Hitlerhavia ocupado a Tchecoslováquia. Cada nova investida dastropas nazistasdeixava um previsível rastro de violência e perseguiçãocontra judeus,comunistas, socialistas e sociais-democratas,superlotando asprisões e os campos de concentração. A fortaleza deLichtenburg, quetinha capacidade para no máximo mil pessoas, estavaocupada por quase 4mil prisioneiras. Nessa época surgiram as primeirasinformações entre aspresas, trazídas pelas que vínham de fora, de queparte da populaçãocarcerária seria transferida para 250 quilômetros aonorte- nasimediações da cidadezinha de Fürstenberg, à beira do lagoSchwedt, o Reichestava terminando a construção de um campo deconcentraçãofeminíno em Ravensbrück, As dimensões do novo campo davam amedida aterradorados planos repressivos de Hitler: lá haveriaacomodações para 45mil mulheres.19. Escravidão emRavensbrück O comboio de quinzeônibus pintados de azul-marinho, com as janelasprotegidas porgrades de ferro, saiu de Lichtenburg depois dadistribuição daração noturna e só chegou a Ravensbrück na manhãseguinte. Guardadapor carros de combate e caminhões militares, acaravana atravessoumetade do território alemão, rumo ao norte, rodeouBerlim e seguiu emfrente sem nenhuma parada. Sentadas nos bancos demadeira, carregandopequenas trouxas de pano em que levavam seus parcospertences pessoais,iam junto com Olga Benario outras 859 prisioneirasalemãs e seteaustríacas. Dias depois os lugares que haviam deixado emLichtenburg seriamocupados pelas tchecas aprisionadas após a invasãonazista. O barulhodos veículos despertou a população de Fürstenberg,pequenina e pacatacidade do século XVI, seguiu mais alguns quilômetros,contornou o lagoSchwedt por uma estrada de terra e chegou ao novo campode concentração demulheres. Desde 1936, como parte dos projetos depreparação para aguerra, os nazistas haviam decidido mudar o sistemapenitenciário dopaís. O governo fechara os campos de prisioneirosexistentes -mantendo em funcionamento apenas o de Dachau, peMo deMunique, e o deLichtenburg -, e iniciou a construção dos novosCampos deconcentração 260  para judeus,inimigospolíticos e outros"indesejáveis" do regime. Os KZ, como eram chamados,foram construídosdentro de concepçôes mais "modernas", onde os presospudessem serutilizados de forma produtiva para a economia do Reich.Assim, surgiramprimeiro os campos de concentração de Sachsenhausen, emagosto de 1936,Buchenwald, em julho de 1937, Flossenburg, em maio de1938, e Neuengamme,construído nas imediações de Hamburgo em dezembro de1938. Nessa época,poucas semanas após o paroxismo de violênciaanti-semita queficou conhecido como a "Noite dos Cristais", o número dejudeus e comunistaspresos na Alemanha subiu para 60 mil. A construçãodo campo de Ravensbrück fora iniciada alguns meses antes, em fins de1938, por 500prisioneiros, homens e mulheres, vindos do campo deSachsenhausen.Utilizando uma espécie de projeto padrão adotadoinicialmente para aconstrução de Buchenwald, os presos trabalharam aliaté abril de 1939,quando dois comboios chegaram para ocupar o campo: oprimeiro veio deBurgenland, na Áustria, trazendo quase mil mulheresjudías, ciganas emembros da seíta Testemunhas de Jeová. O segundo vinhado campo de mulheresde Lichtenburg. Depois de passar um ano num lugarde aspecto tãoaterrador como a fortaleza de Lichtenburg, Olgasurpreendeu-se, aodescer do ônibus, com a aparência bucólica deRavensbrück. Aentrada do campo ficava espremida entre um bosque dechoupos e uma pontado lago Schwedt que parecia querer invadir a áreaconstruída. Aesquerda, sobre uma elevação do terreno, fícavam as casase os alojamentos,feitos de alvenaria, destinados ao comandante docampo, ao chefe desegurança, ao chefe de administração, aos oficiais daGestapo, aos médicose às enfermeiras da SS e, enfileirados lado a lado,os seis blocos onde se encontrava acantonado um batalhão de 600soldados da SS,divididos em quatro companhias de combate e 16 pelotõesde choque. Do mesmolado, pouco depois dos 261 alojamentos datropa, havia doze barracões para o arsenal e o almoxarifado dos soldados.Quinhentos metrosalém, à direita da entrada, na parte plana do terreno,estava o campo deconcentração propriamente dito: 60 enormes pavilhôesde madeiraconstruídos simetricamente um ao lado do outro e, ao fundo,cinco barracõesmenores, também de madeira, onde ficariam osprisioneiros do sexomasculino que eventualmente passassem porRavensbrück. Mais àdireita do campo, protegidos pelo lago e sob umpequeno arvoredo,vinte barracões de alvenaria onde as indústriasSiemens começavam aassentar as máquinas de uma de suas unidadesindustriais paranelas utilizar o trabalho das prisioneiras na produçãode bens destinadosao esforço de guerra nazista. O campo terminava, aofundo, em trezeblocos de madeira destinados às crianças presas pelapolícia nazista. Nocaminho entre o portão principal e os pavilhões demulheres estava obunker, a única edificação de dois pavimentos,construída emalvenaria, onde ficavam as celas-fortes e as solitárias.Do lugar onde estavaao chegar, Olga podia ver, além da eurva do lago esobre a copa dasárvores que circundavam os prédios da Siemens, aspontas dos telhadose as chaminés das casas da aldeia de Ravensbrück,onde viviam poucomais de 50 famílias. Em volta de toda a extensão docampo, das margensdo lago às árvores que cercavam os alojamentos da SS,rolos de aramefarpado ligados a fios elétricos exibiam, a cada 100metros, uma placa demadeira com uma caveira pintada e a advertência:"Não seaproxime! Alta tensão! ". Como a maioria dos outros campos deconcentração,Ravensbrück também tinha sido construído num lugar ermo,distante dezquilômetros da cidade mais próxima, Fürstenberg, que tinhaentão pouco mais de5 mil habitantes. E como nos outros casos, o lugarfoi escolhido porcausa ,do fácil acesso a estradas e ferrovias que oligassem aos grandescentros do país. Para escoar a produção gerada pelafábrica da Siemensdentro do campo, os presos de Sachsenbausenconstruíram umpequeno ramal ferroviário que atravessava todo o local ese ligava à linha detrens Oranienburg 262  IIeustrelitz,cujos trílhoscorriam bem atrásdas casas de alvenaria da oficialidade. As quase 900prísioneiras foram levadaspara o pátío principal do campo, guardadaspor soldados armadosde fuzís e colocadas em ordem, como uma tropa. Umaofícíal da SS faziaa chamada nome por nome e cada mulher ia recebendo ouniforme adotado emtodo o país para os campos de concentração - saia,casaco e turbantelistrados de cinza e azul - e uma braçadeira com umtriângulo numerado,Pela cor do triângulo a pessoa estava classificada,e pelo nümero,identificada. Os triângulos vermelhos para as que haviamsido presas pormedida de segurança  - na maior parte dos casos, porrazões políticas;triângulos azuis, para as estrangeiras, imigrantes eapátridas;triângulos roxos para as adeptas do eulto das Testemunhas deJeová, freiras ereligiosas em geral;  verdes para as ladras ecriminosas comuns; epretos para as "indesejáveis" ou "anti-sociais":ciganas,homossexuais e doentes mentais. As judias recebiam, além dotriângulo que asclassificava segundo uma dessas categorias, um outro,amarelo e com um dosvértices voltados para baixo, ao contrário dosdemais, que tinham aponta para cima. Assim, justapostos na manga docasaco, os doistriângulos formavam a estrela de Davíd. Sem surpresa,Olga recebeu otriângulo amarelo, das judias, e o preto, das"anti-sociais".Seria ilusão supor que aü em Ravensbrück, onde adisciplina e o rigoreram ainda muito maiores que nas prisõesanteriores,permitiriam que ficasse junto com as comunistas. Horasdepois ela erairistalada no bloco número 11, onde se encontravam poucomais de 100austríacas e cerca de 30 alemãs. Dentro do pavilhão, ocheiro nauseante quepairava no ar mostrava que a primeira providênciaera impor rigorosadisciplina quanto aos hábitos de higiene: o lugarfedia a fezes eurina. Designada pela Gestapo a responsável pelo blocodas judias"anti-sociais", Olga entendeu que, ou colocava ordem aIiimediatamente ou nãoo faria nunca mais. As seis da tarde, depois queuma sirene anunciouo toque de recother, ela reuniu as 263 prisioneiras parauma conversa. Das centenas de beliches de madeira tosca colocadoslado a lado, aolongo do corredor, começaram a surgir cabeças e corpos.A aparência dasmulheres era péssima: cabelos desgrenhados, semi; nuas,a maioria parecianão ver água há muito tempo. Olga falou duro: - Se nãocuidarmos do nossoproprio corpo, os nazistas farão de nós o quequiserem. Estamostodas nu mesmo barco e se quisermos ser tratadas comdignidade, temosprimeiro que nos comportar como seres humanos e nãocomo animais. Fuiescolhida para ser a responsável por este bloco e apartir de amanhã cedo as coisas vãomudar aqui. Do fundo do corredor uma voz protestoucom um palavrão: -Vá se esfregar na merda, comunista! O pavilhãoexplodiu emgargalhadas. Mesmo sabendo que muitas daquelas mulheres eramdelinqüentes ecriminosas, Olga não se intimidou. Avançou pelo corredorentre os belichesaté o lugar de onde tinha vindo o grito e desafiou: -Enquanto eu estiveraqui ninguém será denunciado à SS. Nossos problemasterão que serresolvidos entre nós. Agora quero saber quem foi quegritou: aquela que" disse o palavrão tem que aparecer e discutir suasobjeções aqui, caraa cara, na frente de todas. Havia um silêncio tensono bloco. Umasenhora ruiva, de cabelos tosquiados quase a zero, saiu debaixo dos cobertores: - Fui eu quem gritou. Desculpe-me, mas eraapenas umamolecagem, não tenho nada contra você. Pode dizer o queteremos que fazeramanhã cedo, que serei a primeira a saltar da cama." Olga nãorespondeu ao pedido de desculpas, e voltou para o seu lugar eretomou o sermão: -Amanhã cedo faremos uma faxina geral no paviIhão.Acordaremos uma horaantes da cbamada para ter tempo de límpar tudo.Depois da limpeza,todas terão que 264 iniciar um novohábito: banho diário obrigatório, faça frio ou calor. Pela reação geral, Olgapercebeuque as mulheresaceitavam sua liderança. Conversaram animadamente pormais alguns minutosaté que tocou a segunda sirene, que impunha silêncioobrigatório no campode concentração: eram oito e meia da noite. Duassemanas depois, obloco 11 estava transformado. Ao contrário do fedorque a sufocara nodia da chegada, ela podia sentir até o cheiro dastoras do eucaliptoainda verde utilizadas na construção. Como osprotestos contra aímposição do banho e da limpeza diária fossem poucos,Olga decidiu avançarum pouco mais e propôs que o pavilhão levantassetodos os dias meiahora mais cedo para que todas pudessem fazerginástica. Einstigou um sentimento comum a todas aquelas mulheres, dasadolescentes àssexagenárias - a vaidade: - Nenhuma de nós tem um grandeespelho aqui, maspodemos nos ver umas às outras para saber que estamosfeias e flácidas. Jáque não vamos ter ruge ou batom tão cedo, temos quenos preparar para aLiberdade. Quando sairmos daqui, teremos que estaresbeltas para nossosnamorados e marídos. E, num campo de concentração,a única maneira deconseguir isto é fazendo ginástica. Apesar daargumentaçãoconvíncente, muitas rejeitaram a proposta, alegando que osnazistas já as obrigavamà ginástica de trabalhar o dia inteiro. Paraevitar problemas,ficou acertado que apenas as que quisessem fariamginástica - as quepreferissem dormir um pouco mais que ficassem nacama. As que optarampela ginástica, porém, eram tão tuidosas que asoutras nãoconsegulam dormir - e dias depois os exercícios matinaisacabaram ganhandotodas as muiheres do pavilhão. Com o passar dassemanas Olga voltoua se preocupar com a falta de notícias da família.Nem dona Leocádianem Prestes haviam escrito uma só linha nos últimostempos e ela voltoua temer pela segurança do marído. 26566  No  fínalde julho, dois soldados apareceram no bloco 11 para acompanhá-la até a casado comandante docampo e Olga supôs que pudesse ser a chegada de algumacorrespondência doExterior. Não era: ela estava sendo convocada parauma nova e demoradarodada de interrogatórios em Berlim. Entregaram-lhesua trouxinha deroupas e ordenaram que se preparasse para viajar dali ainstantes aadvertência constante de sua ficha. de que se tratava  de"prisioneira dealta periculosidade", obrigou o comando de Ravensbrück apreparar escoltaespecial de seis soldados e dois agentes da Gestapopara acompanhá-la aSerlim, onde Olga passou seis semanas sem descobrirum único motivo quejustificasse sua vinda de tão longe: os agentes dapolícia secretanazista repetiram as mesmas perguntas de antes, e delaobtiveram a mesmaresposta - nada. De novo, em tudo aquilo, apenasalgumas fotografiasde presos ou de pessoas procuradas que os policiaislhe exibiram sem queela oferecesse qualquer informação valiosa. Apermanência nascelas de Baroimstrasse, onde passara um ano em companhiade Ãnita,aumentou-lhe a saudade da filha e do marido, mas ela acabouobtendo permissãopara escrever um pequeno bilhete para a sogra, noMéxico. 8erlim,agosto de 1939 Querida Mamãe, querida Lígia: Quandovocês me escreverem,por favor mandem as cartas para o velho endereçu -Polfcia Secreta doEstado, Berlim, rua Prinz-Albrecht, colocando sempreao pé "DivisãoII A I", Estou de novo apenas com meus pensamentos eminha imensa saudadede todos vocês. De novo os dias parecem não ter fim.Mas não sepreocupem, que eu não deixo o ânimo baixar. Que noticias medão dë Carlos? Jáfaz seis meses que eIe me escreveu pela úttíma vez, eísto me inquietamuito: por que ele não escreve mais? Ele está doente ouestá bem de saúde?Mamãe querida, voce não pode esconder-me nada. casoesteja acontecendoalguma coisa com ele. A minha querida Anita digam quea mãe pensa muitonela e que toda noite, ao dormir, imagina como seriabom pegar em suasmãozinhas e beijar seu delicado rosto. Abraçoas comtodo o meu amor.Otga 266  De volta aRavensbrück ela ainda seria retidapor mais alguns diasem Potsdam, à saída de Berlim, para novosinterrogatórios, eacabou retornando apenas nos primeiros dias deoutubro. O campo deconcentração estava transformado. Pouco depois desua partida para acapital tinha chegado uma leva de 400 novasprisioneiras alemãs,vindas de outros campos ou presas primárias - eentre elas estavasua amiga Elise Ewert, a Sabo, cuja saúde pioraraaínda maís. Nosúltímos días o exército nazista tinha invadido aPolônia, realizandono território ocupado a mais brutal razia contra osjudeus já vista desdea ascensão de Hitler ao poder. Era o começo do queseria a SegundaGuerra Mundial. As primeiras conseqüências da violênciapodiam ser vistas emRavensbrück, para onde tinham sido levadas mais demil mulheres feitasprisioneiras na tomada da Polônia. A prolongadaausência de Olga e achegada de novas detentas "antisociais" haviamtransformado o Bloco11 de novo em completa balbúrdia. Após algumassemanas e muitasbrigas, no entanto, ela conseguiria restabelecer obanho diário e afaxina obrigatória; atrair as mulheres para a ginásticalevaria mais tempo,por uma forte razão: a Siemens terminara aimplantação de suafábrica dentro do campo e as mulheres, obrigadas atrabalhar comooperárias por até 12 horas diárias, naturalmente nãosentiam ânimo paraflexões e saltos matutinos. O trabalho na unidade daSiemens eraobrigatório para todas as prisioneiras, independentemente daclassificação quetivessem, da idade ou do estado de saúde. Medianteacordo celebrado como governo, a indústria pagaria ao comando do campo30 centavos de marcopor mulher-dia, sem que isso implicasse em qualquerforma de remuneraçãoàs prisioneiras. As indústrias que, para preservarsua imageminternacíonal, preferissem não instalar fábricas dentro doscampos deconcentração, não tinham por que se preocupar: a SS seencarregava detransportar os prisioneiros até a sede da empresa- Foi 267  através decontratos como o da Siemens qae a fábrica da BayrischenMotorenwerke, queproduzia os veículos BMW, utilizava 220 presosalugados pelo campode concentração de Buchenwald; a indústria de lentesZeissIkon alugava900 homens do campo de Flossenburg; a siderúrgicaKrupp, 500 presos deBuchenwald; a indústria de veículos Daimler-Benz,fabricante dosluxuosos auiomóveis Mercedez-Benz, 110 presos deSachsenhausen; aVolkswagen, 650 prisioneiros do campo de concentraçãode Neuengamme; haviaaté uma misteriosa indústria Silva GmbH Poltewerke,que chegou a alugar2 mil mulheres de Ravensbrück, O campo onde esteveOlga, aliás, foi oque forneceu o maior volume de mão de obra escravaAotodo, 37500 mulheres- judias, comunistas, socialistas,sociais-democratas,ciganas e Testemunhas de Jeová - saíram deRavensbrück entre1938 e 1945 para trabafhar de graça para grandesindústrías alemãs.Em 1946, convocada a depor no Tribunal montado emNüremberg paraapurar crimes de guerra, a direção da Siemens, com triaironia, justificariaa sua presença em campos de concentração como umato benemérito."Afinal, nunca se fez qualquer restrição a que osprisioneiros, nasépocas mais frias do ano, complementassem suainsuficiente roupacom materiais existentes na indústria, tais comopapel paraisolamento e panos de limpeza", dizia o relatório da empresaapresentado aoTribunal  de Nüremberg. A unidade da Siemens deRavensbrückdestinava-se quase que exclusivamente à produção para oesforço de guerraque mobilizava a Alemanha. Uma indústria têxtil médiatabricava e vendia àSS os uniformes que eram utilizados por todos ospresos espalhados emcampos de concentração alemães ou de paísesocupados. A maioriadas prisioneiras de Ravensbrück, porém, erautilizada como mãode obra na fábrica de equipamentos bélicos montada nocampo, que produziadesde relés para camponentes de atznas, disparadoresespeciais edispositivos eletrônicos para submarinos, telefones decampanha e espoletasde dísparo retardado para bombas, até 268 componentes para osmortais foguetes V-2, concebidos pelo engenheiro Wernervon Braun. Mesmosabendo que o trabalho escravo que a Siemens impunha àspresas deixava-asextenuadas, Olga insistia em manter a ginástica, aindaque muitas das"antisociais"  se recusassem terminantemente a trocaralguns minutos dosono da manhã pelas acrobacias que ela organizavatodos os dias. Clandestinamente,pois tal ousadia poderia eustar-lheduras punições, Olgareunia-se com pequenos grupos de prisioneiras paratentartransmitir-lhes algumas noções básicas sobre as questõespolíticas que tinhamlevado o mundo à guerra. E foi em um dessesencontros furtivosque ela recebeu de uma jovem polonesa a tristenotícia: EliseEwert, a sua querida Sabo, morrera três dias antes. Com oinverno atuberculose voltara com violência redobrada e seu corpo nãoresistira à doença eaos trabalhos forçados. As amigas que tentaramsocorrê-la puderamouvir as últimas palavras de Elise, agonizante e emdelírio."Arthur, Arthur ", ela balbuciava, "eles estão chegando e vãotorturar-nos maisuma vez. . . Os choques elétricos vão começar de novo,Arthur". As marcasdeixadas pela polícia de Filinto Müller tinhamdesaparecido docorpo de Sabo, mas a tragédia de seus dias no Rio lheficara gravada namemória até o último instante de vida. Nos primeirosdias de janeiro de1940 a população de Ravensbrück, que era de quase 3mil mulheres, dobrouinesperadamente. Da Polônia, Ãustria,Tchecoslováquia e devárias cidades da Alemanha chegaram ao campo maisde 2940 mulheres. Efoi poucas semanas após a chegada dessa nova levaque se anunciou queRavensbrück receberia a visita de uma das maisilustrespersonalidades do Reich: Heinrich Himmler. Os oficiais da SSprepararam-se parareceber com toda a pompa seu chefe maior acima dele,apenas Adolf Hitler-Os três dias que antecederam  a chegada de Himmlerforam estafantespara as prisioneiras, obrigadas a tirar a neve das 269 estradas internas do campo, pintar paredes de alojamentos onde haviamanchas, varrer ospátios. Um grupo de oficiais passava o dia procurandoum toco de carvãoque fosse, perdido num canto de muro, e exigia, derebenque na mão, queas mulheres varressem de novo aquele lugar. Paraazar das presas, namadrugada que antecedeu a chegada de Himmler caiuuma tempestade deneve e quando o dia amanheceu o próprio Früz Suhren,comandante do campo,exigiu que se organizasse um mutirão com todas elaspara limparnovamente os pátios e corredores entre os pavilhôes.Finalmente o homemapareceu. Cercado de veículos militares e precedidode batedores demotocícletas, Himmler chegou a bordo de um reluzenieDaimler-Benzconversível, de capota fechada. Por razões de segurança,todas as 6 milprisioneiras foram mantidas em seus alojamentos, com asportas trancadas achave e ordens de não fazerem barulho durante avisita. Himmler foirecebido à entrada do campo pela alta oficialidadeda SS e levado até opátio central, em frente aos pavilhões das presas,onde passaria emrevista a tropa formada em sua honra. A um grito de"Sentido!"os soldados se perfilaram díante do chefe. Vestido com fardade gala, um sobretudocinza até o tornozelo, segurando as luvas de courona mão esquerda, eledeu os primeiros passos diante do batalhão emformação impecável.O silêncio era tal que, de qualquer ponto do campo,só se ouvia obarulho do vento assoviando entre as árvores e o ruído dosalto da bota docomandante nazista batendo forte sobre as pedras dochão. Quandofaltavam dois pelotões para terminar a revista, de umpavilhão que ninguémsoube identificar surgíu o berro, em voz fortíssíma,víndo do fundo dopeito, em sonoro alemão: - Heinrich Himmler, você éapenas um pederastaassassino! Gargalhadas incontroláveis arrebentaramdos quinze pavilhõesonde as prisioneiras estavam trancadas. Tenso,Himmler continuou acaminhada até o final da tropa, enquanto doispelotões de choque daSS saíam de forma e corriam desorientados entre osblocos, batendo comas 270  coronhas dosfuzis nas paredes de madeira,aos gritos de"silêncio, vacas judias!", "Nós vamos fuzilá-las, bando deestrume!","Silêncio! Silêncio! Quem der um pio vai ser fuzilada nahora!". Ocomando da SS em Ravensbrück foi tomado de verdadeirahisteria. Ninguém,muito menos uma judia, "um ser biologicamenteinferior",poderia insultar impunemente o Reichsfürer SS HeinrichHimmler, comissáriodo Reich para a integração das regiões anexadas,comandante  detodos os campos de concentração e chefe máximo da temidaSchutzstaffelre, aSS de Hitler. Furioso, Himmler retirou-se deRavensbrück antes dahora prevista, deixando ordens expressas para queas mulheres fossemduramente castigadas: açoites, punições coletivas,suspensão dofornecimento de comida, não importava a insolência tinhaque ser punida comrigor. A determinação começou a ser cumprida no mesmodia. O prédio dealvenaria onde ficavam as 80 solitárias foi aberto -até então elas sóhaviam sido utilizadas em casos raros e extremos, comoagressões de presasaos oficiais da SS e o comandante do campo ordenouque fossemescolhidas 80 mulheres para a punição exemplar, a critériodos soldados dopelotão de choque incumbidos de retirá-las das celas.Uma das escolhidasdo bloco 11, o das "anti-sociais", foi, naturalmente,Olga Benario. A elacaberia uma das celas da ala leste do pavimentotérreo do bunker,construída junto a um desnível do terreno e, por isso,sujeita a umidadepermanente. Para as outras mulheres do acampamento, apena eracomparativamente mais branda: três dias sem comida. Na hora dasrefeições, cada umadelas receberia uma caneca de água. Foram 30 diasterríveis para Olga.Aquele era um inverno duríssimo, com a temperaturadescendofreqüentemente a alguns graus abaixo de zero. Para se protegerna solitária elatinha umas poucas mantas de algodão e algumas folhas doVálkischerBeobachter, o jornal do Partido Nazista, que enrolava nospés.Semi-subterrâneo, o lado leste do prédio era tão úmido que uma dasparedes estavacoberta por uma gosma verde, como se nem o limo 271  pudessecrescer naquele lugar lúgubre. Olga não sabia se era apenas maisuma vingança da SScontra si ou se desconfiavam de que ela pudesse tersido a inspiradorado grito contra Himmler - o que era falso. Por uma ououtra razão, porém,ela passou a ser açoitada regularmente durante operíodo deconfinamento. A qualquer momento, os SS entravam na celatrazendo oPrügelbock - um cavalete de madeira com o tampo côncavo ecorreias de courocom fivelas nos quatro pés. Ela era deitada de bruçossobre o cavalete,com o ventre sobre a parte abaulada e tinha os pulsose os tornozelosamarrados às correias presas nos pés. Imobilizada, erasubmetida ainfindáveis sessões de chicotadas nas costas, nádegas,pernas, até fícarsemi-inconsciente. Por vezes, depois das surras, eradeixada ali,amarrada naquela banqueta, o dia inteiro. Quando ossoldados voltavampara retírá-la, aproveitavam para aplicar novaschibatadas.Libertada do bs~nker, debilitada fisicamente e ainda maismagra, ainda assimOlga foi obrigada a reiniciar o trabalho nas oficinasda Siemens. A noite,ao retornar ao bloco 11, agora superlotado,observou que metadedas presas que estavam ali eram desconhecidas,provavelmente vindascom as tchecas, polonesas e austríacas que chegaramao campo pouco antesdo insulto a Himmler. Corria  o mês de maio de 1940e o avanço dastropas nazistas nos últimos meses provocava a temívelsensação de que ocontrole total da Europa seria irresistível. Desde ocomeço do ano tinhamcapitulado e estavam sob controle do Reich nazista,além da Polônia, osterritórios da Dinamarca, Noruega, Luxemburgo,Holanda e Bélgica..Hitlerse preparava para atacar o próxímo e maísvalioso de todos osobjetivos, a França. Em suas conversas com ascompanheiras dopavilhão, na maioria mulheres rústicas, simples e semqualquer formaçãopolítica, Olga insistia  em injetar-lhes ãnimo,repetindo sempre quehavia na Europa um país que iria barrar o avançoalemão: a UniãoSoviética, Suas "aulas" começaram a interessar àsprisioneiras"indesejáveis", nem tanto por razões políticas, massobretudo porque amaioria tinha clara noção de que estava 272  ali comovítima daquele regime que pretendia dominar o mundo. A liberdade delasdependia da derrotado nazismo - então era preciso entender o que era onazismo e de queforma ele poderia ser sepultado, como prometia aquelaincansável alemã quetinha sido presa, torturada, separada da filha e domarido, tinhaperdido a melhor amiga, e continuava ativa e determinada.Olga resolveuilustrar as lições de política internacional que dava àscolegas do bloco.Com um lápis roubado nos escritórios da Siemens poruma prisioneiraholandesa  e utilizando pedaços de cartolina arrancadosdas tabelas deprodução da fábrica, aplicou toda sua habilidade emdesenhar mapas dasregiões conflagradas. Valendo-se apenas da memória,traçou primeiro ummapamúndi  que levou vários dias até ser completado.Para conseguir luzsuficiente para o trabalho, Olga precisava acordarmais cedo eaproveitar o tempo disponível caprichando no traço junto auma das janelas dobloco, usando como mesa um pedaço de tábua apoiadosobre os joelhos.Pronto o primeiro, ela passou a trabalhar nos outrosmapas, em quedetalharia país por país, região por região. Algumassemanas depois deiniciado o trabalho todo feito às escondidas,naturalmente - elaexibiu, orgulhosa,  às companheiras de prisão, nãoapenas um mapa, masum atlas completo, com quinze mapas, capa dura depapelão e atéíndice. Havia apenas um problema: para que pudessecircular entre asmulheres e ser ocultado facilmente debaixo de umtravesseiro ou sob aroupa,foi preciso fazer o atlas quase em miniatura,um pouco maior queuma carteira de cigarros, onde cada centímeiroequivalia a centenasde quilõmetros reais, nos mapas mais detalhados.Com aquelapreciosidade na mão, Olga dava aulas diárias às presas,explicando o ladopolítico da guerra. Sobre a União Soviética eladesenhou várioscírculos, partindo de Moscou e, utilizando oconhecimento quetinha da URSS, assegurou às companheiras que a tomadada capital era umsonho que os nazistas jamais realizariam. 273  De certa feitaOlga foi delatada por uma das presas, que não chegou a seridentificada- Adelação não era incomum nos campos. Em troca de umaração a mais decomida, ou de um cobertor extra, muitos prisioneiros seprontificavam adenunciar colegas que tivessem infringido osregulamentos. Olgafoi chamada ao comando da SS para que entregasse oatlas, quepermanecia em segurança sob a blusa da prisioneira TildeKlose, no pavilhãodas comunistas. O atlas foi salvo, mas Olga penoumais três semanas nasolitária e sofreu várias sessões de açoites. Osriscos doconfinamento e de repetidas surras não a intimidavam. Aocontrário, quantomaior fosse a brutalidade dos SS, mais ela pareciadecidida a continuaragi tando o campo de concentração. Semanas após apunição por causa doatlas ela resolveu montar uma peça de teatro dentrodo pavilhão, àsescondidas. O enredo foi criado pelas próprias presas,orientadas por Olga,e depois de alguns ensaios decidiram encenar ahistória. Quando o"espetáculo" estava para terminar, o pavilhão foiinvadido por umpelotão de soldados da SS. "Atrizes" e espec- tadorasforam arrastadaspara fora a socos e deixadas toda a noite sem dormir,de pé, no meio dopátio central do campo. Na manhã seguinte tiveram queseguir direto para otrabalho na Siemens. Quando encontrou algumasmulheres do seubloco que tinham conseguido esconder-se e escapar daspunições, Olga aindaencontrou ãnimo para brincar: - Da próxima veztemos que criar umapeça mais dramática. Assim, talvez a SS nos deixeencená-la em paz.  19. A caminhoda Morte 275   Asprisioneiras de Ravensbruck chegavam a passar meses sem noticias do mundo.Por isso, só nofinal de 1940 Olga ficou sabendo que as tropas deHitler haviam marchadosobre Paris, e meses depois tomado a Hungria e aRomênia. As péssimasnotícias, trazidas por um grupo de prisioneirasrecém-chegadas,pareciam desmentir o otimismo que ela tentavatransmitir àscompanheiras do campo: em uma reunião clandestina paraatualizar o atlas daguerra. Olga foi obrigada a reconhecer que osnazisstas jádominavam 11 países, mantendo sob seu poder quase doismilhões dequilômetros quadrados de território invadido. A propagação daguerra trazia-lhe umproblema adicional - a falta de informaçõessobre o marido e afilha. Nos últimos meses ela recebera apenas umacarta da sogra comuma nova fotografia da filha, uma carta de Prestes enada mais.No final daprimavera de 1941 Ravensbruck deixaria de ser um campo deconcentraçãoexclusivamente feminino. Além das quase 8000 prisioneirasque lá viviam, foramtransferidos do campo de Dachau, no sul do país,300 homens queimediatamente ocuparam os dois blocos construídos ao fundodos pavilhões dasmulheres e que permaneciam desocupados até então. Aeles se juntaria,semanas depois, uma centena de judeus polonesesvindos 276 das prisões deZamik, em Lublin, e Pawiak, em Varsóvia. Foi nessa época que Olga contraiu umvírus não identificado que quase a derruba. E, como continuasse trahalhandocomo carregadora detoras de madeira, na parte externa do campo. foi preciso montar a chamada"operaçãotermômetro" para que ela fosse transferidapara a fábrica daSiemens onde pelo menos, poderia trabalhar sentada. A SS tinhabaixado uma normadeterminando que qualquer mudança de local detrabalhopor razões de saúdesó poderia ser feita com autorização por escrito da médica-chefe áo campo, HertaObcrhcuev . EmmyHandke, velha amiga de Olga, encontrou asolução: pediu auxílio à theca Ilsa. Jolansky, que era especialista emfalsificação de assinaturas, para que "fabricasse" um atestadomédico da cila.Oberheuser. Mesmo sabendo que a "operação termômetro" - assimapelidada porque o atestado dizia que Olga tinha febre alta durante todo o dia- poderiacustar-lhe, semanasde solitária e surras no Prügelbock, as três levaram o plano avante. Olgacirculou várias semanas pelo campo levando no bolso o atestado falso,até que a virosepassou e ela retornou às toras de madeira.Durante os dias quepassou na fábrica, Olga ficou conhecendo a militante comunista alemãMargareteBuberNeumann, que por pouco teria sido sua companheira de aventurae infortúnio noBrasil, e que se encontrava em Ravensbrück desde o anoanterior. Casada comum também comunista Heinz Neumann,lembrava-sevagamente de ter visto Olga no saguão do hotel Lwcrawtmcou alguns meses apósa  ação deMoabbit. 277 Asdivergências dos eNumann com alguns dirigentes do Comintern, explicouMargarete, impediram que eles embarcassem - o que provavelmenteacabou por lhessalvar a vida.Tanto Olga quantoMargarete perceberam a enormidade que haviam dito naquele instante: como é quealguém em Ravensbrück poderia dizer que estava com a vida salva?Pelo contrário, asituação das prisioneiras parecia cada dia mais grave. Um corredor de murosaltos junto ao arsenal das tropas SS, na entrada no campo, tinha sidotransformado emparedão de fuzilamento, e um belo dia cinco mulheres foram executadas a tirospor um pelotão militar, por motivos absolutamente fúteis, como roubaruma garrafa de leitena enfermaria ou responder a admoestações. As cinco eram judias e comunistas. Oterror que começava a tomar conta do campo aumentou ainda maisquando circularamnotícias de que os novos médicos que haviam chegado estavam ali para realizar experiênciasgenéticas com as prisioneiras. Os médicos Otto Grawitz,Karl Gebhardt,Martin Schuhmann e o casal de médicos Klaus e Gerda Weyand-Sonntag, estavam hávários dias ocupando o salão de uma das casas do comando do campo emintermináveisconferências. Além disso, dizia-se que os dois prédios de alvenaria que ospresos vindos de Dachau estavam construindo ao lado da solitária seriamdestinados àinstalação de uma câmara de gás e um forno crematório. Hitler teriadecidido e anunciaria em breve, comentava-se, a "solução final" parao que ele consideravao"problema" judaico: a eliminação pura e simples de todos os judeusdos territórios tomados pela Alemanha. O mês de outubro chegou com o campo deRavensbrück mergulhadono mais absolutopânico.Foi nesse outono depavor que a prisioneira alemã Charlotte Henschel - que havia estado com Olga emLichtenburg - foi levada à enfermaria do campo com suspeita detuberculose. Diasdepois chegava à enfermaria a presa Lina Bertam com a mesma doença e uma semanadepois a terceira. O número de tuberculosas crescia - assim comoa suspeita de que obacilo da terrível 278 moléstia estivessesendo deliberadamente disseminado pelos médícos como parte das taís experiênciasde que se falara antes. Correndo o risco de fuzilamento sumário,Olga e KateLeichner, militante social-democrata austríaca presa em Viena durante aocupação nazista, se esgueiravam todas as noites entre os blocos de madeiraparair até a janela daenfermaria municiar as doentes com pedaços de pão e margarina, roubados dorefeitório da Siemens, e às vezes até com poemas clássicos rabiscadosem pedaços de papel.Em poucas semanas havia cerca de vinte mulheres tuberculosas. Quando o surtotomou proporções tão grandes, as doentes simplesmente começarama desaparecer daenfermaria, para desespero das que ficavam. Foi aí que a direção do presídioanunciou ofícíalmente que as mulheres tíradas das enfermarias estavamacometidas de"doença incurável" e que os médicos, por clemência, tinham decididoabreviar-lhes o sofrímento, "praticando a eutanásia". Para justificara decisão,o comandante docampo mandou afixar numa das paredes a decisão do Reich, segundo a qual"alguns médicos, previamente autorizados para tal finalidade, podemconcedera um doenteincurável, após uma análise clínica, a morte por clemência". Era alegalização do extermínio.Charlotte Henschel,que sobrevivería milagrosamente a Ravensbrück e ao nazismo, pôde ver de perto oritual macabro que envolvia a "morte por clemência" das tuberculosasretiradas daenfermaria do campo. Um dia levaram a polonesa Anne-Marie Zadek, que estava nacama ao lado da sua. Quando saía, Anne-Marie pediu a Charlotte que escrevesseuma carta a sua mãe,em Varsóvia, relatando-lhe o seu fim. No final da tarde, com a carta nas mãos,Charlotte decidiu caminhar até a sala aonde a amiga tinha sidolevada para ler oque tinha rabiscado no papel. Então havia ninguém vigiando a porta e ela quasedesmaíou com o que viu: Anne-Marie tinha sido morta com a aplicaçãode alguma substâncíaem sua veia, tinha a cabeça raspada e os dentes de ouro haviam sído arrancadosà força. Seu rosto sem vida exibia uma máscara de terror. 279 As experiênciaspassaram a ser feitas abertamente com mulheres e homens do campo deRavensbrück. Karl Gebhardt, amigo íntimo e médico particular de HeinrichHimmler,foi destacado pelocomandante-geral da SS para executar ali uma experiência de"acompanhamento do desenvolvimento de bacilos de tétano, de estafilococose de doençasvenéreas emmulheres". As injeções eram aplicadas nas partes inferiores das pernas dasmulheres, escolhidas ao acaso, provocando feridas que iam até os ossos.Muitas vezes ainfecção era induzida por assistentes do  dr. Gebhardt - ele próprio sóaparecia no dia daaplicação dasinjeções e de tempos em tempos para "acompanhar a experiência" -através da introdução de estilhaços  de vidro ou de madeira nas feridas.Como a aplicaçãodeanestésicos poderia,segundo os médicos, "comprometer o caráter científico dasexperiências", tudo era feito a frio, submetendo as pacientes asofrimentos aindamaisbrutais. Em todos oscasos, sem exceção, o acompanhamento da evolução da doença era feito apenas"para observação", nunca para tratamento. As mulheres escolhidascomo cobaias eramexecutadas ao final dos experimentos.Aos homens estavareservada outra contribuíção às "experiências genéticas" dosmendicos nazistas:alguns presos tinham os testículos expostos aos efeitos de raios-X durante 20 a 30minutos e depois retornavam ao trabalho. Duas semanas depois eram chamados devolta à enfermaria, onde lhesextraíam os testículos para observação. Depois, um dos médicos"concedia-lhe a morte por clemência", conforme mandava a lei deHitler. A insânianão tinha limites.Um grupo de ortopedistas de Berlim viajou, a Ravensbrückespecialmente para escolher entre as mulheres do campo algumas cobaias paraexperiências de transplantes de membros ou de ossos: uma perna, um braçoou uma clavícula eraretirada do corpo de uma mulher e implantada em outra, com a mera finalidade dese observar o grau de rejeição acusado. A doadora compulsória era eliminadaimediatamente após a cirurgia. ,A receptora, setivesse sorte, sobreviveria mais alguns dias ou semanas. Ravensbrück tinha sidotransformado num 280 laboratório demonstruosidades semelhante ao campo de Auschwitz, na Polônia, onde asexperiências eram conduzidas pelo doutor Josef Mengele.Mas as perversõesanunciadas como pesquisas médicas não seriam o fim da loucura nazista. Atéentão as execuções praticadas em Ravensbrück vinham sendo feitasindividualmente.No começo do invernode 1942 começaria a eliminação sistemática de judeus e comunistas. Nosprimeiros dias do ano mudou-se para o campoo médíco FritzMennecke.Segundo notícia quecorreu entre os presos, ele teria a função de selecionar, a seu juízo, asprisioneiras que ainda poderiam ser utilizadas como mão-de-obra noesforço bélico doReich - Hitler preparava o "ataque final" à União Soviética - e asquedeveriam serenviadas à câmara de gás e aos fornos crematórios. A partirdaquele momento, omédico disporia da vida e da morte de 8 mil mulheres e 500 homens. Paraauxiliá-lo na escolha dos que viveriam e dos que iriam morrer, ficaram à disposição docomando do campo as médicas Gerda Weyand-Sonntag e Herta Oberheuser.Os primeiros lotesde mulheres retiradas de Ravensbrück depois da chegada do dr. Mennecke deixaramem dúvida as que lá permaneceram: afinal, elas estariam sendo levadas para câmarasde gás ou para outros campos de trabalho? A indagação continuou sem respostauma semana depois da partida da primeira leva, quando um caminhão trouxe de volta aocampo apenas as roupas das escolhidas pelo médico. Na segunda viagem,combinou-se uma forma de saber para onde elas estavam sendo levadas: algumas das que fossemselecionadas pelo médico Mennecke levariam consigo um toco de lápis eminúsculos pedaços de papel. Cada localidade que pudessem identificar, nocamínho, deveria ter seu nomeescríto num papel, que seria enfiado na costura da barra da saia. Assim, quandoas roupas retornassem para reaproveitamento no campo, seria possível identificarcom precisão o destino que vinha sendo dado a elas. A volta docaminhão 81  trazendo asroupas usadas a Ravensbrück não elucidou as dúvidas sobre a sorte das mulherestransferidas docampo. Os pedacinhos de papel retirados da barrade várias saiasrepetiam o mesmo nome: Bernburg. O que significaria aquilo?Situada a pouco maisde 100 quílômetros a sudoeste de Berlim, Bernburg era uma cidadezinha de 40 milhabitantes, cortada ao meio pelo rio Saale. Em 1942, quase todaa população dacidade vivia em função da Solvay, indústria belga de potássio, e de mais duasou três fábricas de cimento álcalis e pequenas máquinas agrícolas. Naépoca o prédio maisimponente do lugar, depois da centenária igreja luterana, era uma grandeconstrução de tijolos vermelho-escuros que abrigava desde o começo do século oLandes-Heil-Und Pfleg-ansalt, um hospital provincial para tratamento de doençasmentais, para onde se dirigiam os pacientes da micro-região compreendida entre as grandescidades de Leipzig e Magdeburg. A partir do outono de 1939, entretanto, aplacidez da cidade foi quebrada por uma decisão tomada em Berlim. Seisdos 15 prédios decinco pavimentos do hospital psiquiátrico foram ocupados por determinação deHimmler e transformados em "Propriedade do Reich" - uma camuflagempouco convincentepara esconder as atividades que a SS passaria a exercer ali. Um paredão decimento, construído às pressas, separava o resto do hospital da parteocupada, que foiimediatamente tomada por 150 soldados e oficiais da SS, sob a direção do médicoIrmfried Eberl e de sua enfermeira-chefe Kãthe Hackbarth.Experimentalmente eem segredo o dr. Eberl mandou construir, no subsolo do hospital, amplos cômodoscom as paredes e o chão revestidos de azulejos brancos e de cujoteto pendiamchuveiros. À primeira vista, o lugar dava a impressão de ser uma sala de banhoscoletivos, mas de fato ali seria testada mais uma invenção macabra donazismo: a primeiracâmara de execução em massa de prisioneiros através da asfixia por gásvenenoso. E o 282 primeiro ensaio dacâmara de gás seria feito com um grupo de alemães não-judeus. Quando o hospitalfoi tomado pelo Reích encontrava-se preso em Berlim, há algunsmeses,um grupo de 20pilotos da Legião Condor, que Hitler enviara à Espanha para lutar ao lado dasforças fascistas do general Francisco Franco. Os pilotos se recusarama bombardearposíções republicanas, pousaram seus aviões junkers e se entregaram ao generalHugo Sperrle, comandante-geral da Legião, que os devolveu à Alemanhacomo desertores.Quando Trmfríed Eberl informou ao comando da SS que a câmara de gás de Bernburgestava pronta para ser testada, Himmler não hesitou em propor queas primeiras cobaiasfossem "os covardes da Legião Condor". A experiência funcionou acontento. Sem tiros, sem sangue e sem gritos, os pilotos alemães foramexecutados.Nem mesmo o destinoa ser dado aos corpos tinha escapado ao imaginoso dr. Eberl: ao lado da câmarae com acesso pelo subsolo, sem que fosse necessário sair à luzdo dia, tinha sidoconstruído um forno crematório movido a óleo. Naquela tarde um macabro rolo defumaça negra saiu das chaminés do hospital e cobríu Bernburg. Quandoa guerra terminasse,em 1945, teriam sído executados nos porões do dr. Irmfried Eberl nada menos de30 mil cidadãos judeus, comunistas, socialistas e sociais-democratas. E foi o"sucesso" do experimento em Bernburg que levou o Reich a montar naAlemanha campos de extermínio idênticos em Grafeneck, Brandenburg, Harteim,Sannenstein e Hadamar, quepassaram a receber presos egressos de Buchenwald, Flossenburg,Mauthausen-Gusen, Dachau, Sachsenhausen e Gross-Rosen.Logo no começo defevereiro de 1942, um pouco antes do dia em que Olga completaria 34 anos, asmulheres foram reunidas no pátio central de Ravensbrück para ouvirnos alto-falantes docampo a relação das 200 prisioneiras que na manhã seguinteseriam"transferidas para outros campos de concentração". As mulheres eramchamadasem ordem alfabéticae não pelos números. 283 As que tivessem sidoselecionadas deveriam afastar-se do grupo e formar novamente em outro bloco, aolado. Já haviam sido chamadas mais de 150 quando o nome ecoou:- Olga BenarioPrestes!Junto com ela iriamsuas amigas Tilde Klose, RuthGrünspun, IreneLanger e Rosa Menzer. Ao entrar no Bloco 11 para pegar suatrouxa Olgaencontrou duas velhi nhas judias em prantos, eurvadas e rezando em üdiche.Agachou-se ao ladodas duas, que conhecera logo ao chegar em Ravensbrück, e tranquilizou-as:- Não chorem, nósvamos apenas mudar para outro campo, onde a vida certamente será melhor. Aguerra vaichegar logo ao fim,os nazistas serão derrotados, nós vamos ter paz dentro de pouco tempo. Fiquemtranqüilas efirmes, nós vamoscomemorar a paz juntas. Acomodou-as num beliche e ao passar por uma dasjanelas do bloco viuque estacionavam no pátio os quatro  ônibus azul-marinho daGerkat, umasociedade beneficente de Berlim,especializada em transportar indigentes e que nos últimos anos prestavaserviços à SS e à Gestapo.Eram oito horas danoite quando os alto-falantes do campo  deram o último aviso:- As prisioneirasrelacionadas na chamada de hoje têm 30 minutos para recolher seus pertences ese apresentar à oficial, junto aos ônibus.Meia hora: temposuficiente para escrever uma carta  à filha e ao marido.Dez dias depois, quandoo caminhão voltou a Ravensbrück com as roupas das mulheres embarcadas naquelanoite, Emmy Handke correu a procurar o vestido de Olga.; Apalpousofregamente a barra e dela tirou um pequenino pedaço de papel onde estavaescrita apenas uma palavra: Bernburg.São Paulo, BrasilJulho de 1945Depois do almoço nacasa de Tuba e Hirsch Schor, um jovem casal de militantes do Partido, a altadireção do PC brasileiro se reuniu naquela tarde de 15 de julhopara um balançorápido dos preparativos do comício que começaria dentro de minutos no estádiode futebol do Pacaembu. Esta seria a primeira manifestação de massasdos comunistas emSão Paulo desde o fechamento, em 1935, da Aliança Nacional Libertadora. Deterno escuro, barbeado e bem disposto, Luís Carlos Prestes é o secretário-geraldo Partido, cargopara o qual tinha sido escolhido em 1943 na clandestina "Conferência daMantiqueira", a II Conferência Nacional do PC. Ele chama seus camaradaspara uma pequenasala e ouve de Milton Cayres de Brito e de Diógenes de Arruda Câmara algunsinformes sobre outra manifestação de rua, ocorrida na véspera em SãoPaulo. Comoadvertência ao PC, a Igreja Católica organizara na noite anterior, um sábado,uma "novena de Nossa Senhora", levando milhares de fiéis às ruas paravenerara imagem de NossaSenhora Aparecida, a padroeira do Brasil, e "jurar de joelhos o repúdio aocomunismo ateu". Ao final da manifestação, mobilizada pelo cardeal CarlosCarmelo deVasconcellos Motta, o público juntouse em frente à Catedral da Sé e repetiu emcoro aspalavras que erampronunciadas por um bispo: 286 - Juro ser fiel àIgreja, repudiar e combater o comunismo!Para a direçãocomunista reunida na modesta casa da rua Arapuã, no bairro da Bela Vista, eranatural que os setores mais conservadores da Igreja reagissem assim.Afinal, em trêsmeses o Brasil vivera uma verdadeira voragem de transformações políticas. Nosprimeiros dias de abril, enquanto os marechais soviéticos Tobulkhine Malinovskyretomavam Viena e Bratislava das mãos dos alemães, e 150 mil soldados nazistaseram cercadospelos Exércitosamericanos na bacia industrial dovale do Ruhr, osefeitos do fim da guerra começavam a chegar ao Brasil.O embaixador CarlosMartins Pereira de Souza, representante do Brasil em Washington, entrega aoembaixador soviético nos Estados Unidos, Andrei Gromyko, uma curtanota de dez linhasem que o governo brasileiro solicita o reatamento de relações diplomáticas coma União Soviética. No plano interno a reviravolta é ainda maisdinâmica. Enquanto ogoverno informa ter decidido extinguir a censura telefônica que durava dezanos, mulheres, estudantes, trabalhadores e profissionais liberais organizam comíciosem todo o país exigindo a concessão imediata de anistia política aos presos e exilados.Em todas as manifestações, as bandeiras do Brasil são vistas tremulando aolado de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo, sem que a políciaimportune ninguém. Os políticos Armando de Salles Oliveira, Paulo Nogueira Filho e Luiz deToledo Piza decidem não esperar a decretação da anistia, voltam do exílio naArgentina e desembarcam livremente no Brasil. Da prisão, Prestes telegrafa ao presidenteGetúlío Vargas eumprimentando-o pelo restabelecimento de relações "com oheróico povo soviético", e exige a decretação da anistia, "ainda que,se necessário,corn a exclusão domeu caso pessoal". Começa o degelo.O retorno ao Brasildos primeiros expedicionários de um contingente de 25 mil soldados que o paísmandara para lutar na Itália contra o nazi-fascismo traz um novofermento à campanhapela redemocratização nacional. 287 Quinhentos praças eoficiais morreram combatendo em defesa da liberdade e a população exige,"em respeito à memória dos nossos mártires", que o Brasil rompa deuma vez por todas seustraços autoritários. O operário Veriano Jelén, ferido na frente italiana, voltaao Brasil antes da tropa e, em entrevista coletiva concedida ainda no cais do porto doRio de Janeiro, exige eleições diretas para presidente da República:- Os soldadosamericanos que estavam na Itália participaram das eleições presidenciais dosEstados Unidos votando junto dos tanques e das trincheiras. Os nossossoldados viram istode perto e não compreendem, não aceitam que lhes seja negado o direito de voto.Não podemos manter aqui no Brasil um regime igual ao que combatemosna Itália com onosso sangue.Getúlio Vargaspromete convocar eleições para a sua sucessão ainda naquele ano. Seu ministroda Guerra, o mesmo general Eurico Gaspar Dutra que havia chefiado o cerco aos rebeldesde Agildo Barata no 3.° Regimento de Infantaria, dez anos antes, apresenta-secomo candidato governista à presidência e inclui entre a sua plataforma uma inacreditávelbandeira: a legalização do Partido Comunista. Ao perceber que Getúlio Vargascomeça a ceder, a oposição avança mais e passa a lutar não apenaspelo direito deeleger o presidente. Agora a reivindicação das ruas é pela anistia e pelaconvocação de uma Assembléia Nacional Constituinte.Em 18 de abril, GetúlioVargas assina o decreto que concede anistia aos presos políticos. Antes mesmoque o ato fosse publicado no Diário Oficial, os cinco primeirosbeneficiários damedida deixam as prisões. Da Casa de Detenção do Rio de Janeiro saem LuísCarlos Prestes, ocapitão TrifinoCorreia e o tenente Ivan Ribeiro. Dopresídio da ilhaGrande vão de barco até o Rio de Janeiro Carlos Marighella, o capitão AgildoBarata e o tenente Antônio Bento Tourinho. Como o mais importante preso político do país,Prestes recebe atenções especiais: quem lhe dá a notícia da assinatura daanistia é o seu antigo camandado Orlando Leite Ribeiro, com quem viveraem 288 Buenos Aires, e queagora servia ao Governo Vargas como diplomata -no Itamaraty. Prestes é levadode carro por Ribeiro para a casa do escritor Leôncio Basbaum,e no caminho pedeinformaçôes sobre o destino de Olga e sobre seu amígo Arthur Ewert, que tinhasido beneficiado pela anistia, mas que talvez não tivesse condiçõesde desfrutar aliberdade: arrebentado pelas torturas, Ewert estava ínternado numa clínica deloucos no Rio de Janeiro. Quanto a Olga, não havia qualquer informação a respeito. Prestespede que as agências internacionais de notícias sejam mobilizadas para tentarlocalizá-la nos campos de concentração libertados pelos aliados na Europa. Um doscomandantes das tropas brasileiras na Itália, o majorEmygdio Miranda,ex-oficial da Coluna Prestes, recebe a incumbência de tentar localizar OlgaBenario e trazê-lade volta ao Brasil. Em sua primeira declaração à imprensa, Prestes expressa suagratidão ao general Lázaro Cárdenas, ex-presidente do México,pelo tratamentodedicado a Anita e a dona Leocádia, que falecera dois anos antes, com o filhopreso. Nessa ocasião, Cárdenas, que era então ministro da Guerra de seu país, se oferecea Getúlio Vargas como refém para que Luís Carlos Prestes deixe a prisão e possair ao México assistir aos funerais da mãe - mas a proposta sequer é considerada pelogoverno brasileiro. Quando um repórter pergunta sobre suas relações com Vargas,Prestes oferece o primeiro indício de que colocava a luta política acima das questõespessoais, ao anunciar claramente:- O senhor GetúlioVargas tem dado provas de suas boas íntenções.Quem tivesseacompanhado a trajetória do clandestino Partido Comunista nos últimos anos nãose surpreenderia com as palavras de Prestes. Nos primeiros meses de 1938, após o frustradoputsch integralista materializado na tentativa de tomada do Palácio Guanabarapelos "camisas verdes" de Plínio Salgado, os comunistas apoiaramformalmente, em seu jornal AClasse Operária, a reação do governo de Vargas à tentativa de golpe direitista.A adesão do Brasil às forças que lutavam contra o289 nazifascismo, em1942, contribuiria para reduzir a hostilidade do PC a Getúlio. Naquele momento,porém, quem elogiava o presidente da República era Luís Carlos Prestes,que tinha sidopessoalmente vitimado pela repressão dirigida por Vargas - não apenas com dezanos de prisão, mas sobretudo pelo martírio a que o ditador submeterasua mulher e suafilha, entregando-as aos nazistas. A primeira reação contra o apoio de Prestesa Vargas parte de seu antigo advogado, Sobral Pinto, que condena"qualquer uniãonacional com o senhor Getúlio Vargas, nos moldes sugeridos pelo senhor Carlos Prestes".Sobral é duro e pessimista:- Fortalecer dequalquer forma e sob qualquer pretexto a autoridade governamental do sr.Getúlio Vargas é preparar para os dias de amanhã, em nossa infortunada pátria,uma guerra civil semprecedentes no continente americano.Poucas semanasdepois, falando em seu primeiro comício público para 80 mil pessoas no estádiodo Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, Prestes é ainda mais preciso noapoio ao governo:A oposição exige queo Sr. Getúlio Vargas abandone o cargo para que seja mantida a paz interna. Masserá esse realmente o caminho democrático da ordem, da paz eda união nacional?Ao contrário, não terá razão o sr. Getúlio Vargas ao afirmar que o seu dever émanter a ordem para levar o país a eleições livres e honestas e entregar o poder aoeleito da Nação? Sua saída do poder nestemomento  , seria uma deserção e umatraição que não contribuiria de forma alguma para a uniãonacional: pelo contrário, despertaria novas esperanças entre os fascistas e reacionáriose aumentaria as dificuldades, tornando mais ameaçador ainda operigo de golpes deestado e de guerra civil. Assim como em agosto de 1942 voltou-se o nosso povopara o sr. Getúlio Vargas, na esperança de que o antigo chefe domovimento popular de1930 quisesse dirigi-lo na luta de morte contra o agressor nazista,o  que nosso povo espera agora do sr.Getúlio Vargas, prestigiadocomo está pelavitória das nossas armas na Itália, são eleições realmente livres e honestas.Este o seu dever de homem e cidadão. Apesar de todas as divergênciaspolíticas que já nossepararam de Sua Excelência, contra cujo governo já lutamos de armas na mão,não temos o direito de duvidar do patriotismo do chefe da Nação. 290 Apesar depublicamente defender a legalização do PC, o governo não ocultava oanticomunismo acumulado ao longo dos tempos de ditadura. Assim, dois diasdepois ogeneral Dutrademitia da direção do DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda do governo,o major Amilcar Dutra de Menezes por ter emprestado o equipamento de som daquelarepartição para que Prestes falasse ao povo. Esta seria, porém, a menorrepercussão do comício do Vasco. O apoio a Getúlio Vargas custaria caro aPrestes dentro do próprioPC. Em São Paulo um grupo de intelectuais do partido seopõe à orientação dadireção, liderada no Estado por Jorge Amado, a quem chamavam "o Rasputinda linhajusta". Em manifesto distribuído à imprensa, os escritores Oswald deAndrade, Rossine Camargo Guarnieri e Afonso Schmidt se insurgem contra adetermínaçãoprestista, afirmandoque "a ditadura estava em plena decomposição, e ao formular elogios ao sr.Getúlio Vargas, Luís Carlos Prestes abriu-lhe créditos imensos deconfiança, de queele andava mais necessitado do que nunca". O jornal Vanguarda Socialista,dirigido pelo intelectual trotsquista Mário Pedrosa, fazia cruel ironiacom o fato de queVargas tivesse sido o autor da deportação de Olga para a Gestapo, sugerindo queos militantes do PC deveriam dirigir-se ao presidente da República,indagando:"Getúlio Vargas, que fizestes de Olga Benario Prestes, entregando-a aHitler?"Indiferente àsacusações e à polêmica, Prestes se preparava para o grande comício do Pacaembu,em São Paulo. A mobilização fora iniciada com várias semanas de antecedência. Havia comítês deengenheiros, professores, dentistas, operários têxteis, metalúrgicos,motoristas, garis. Na semana que antecedeu o dia 15 foram realizadoscomícios-relâmpagos em vários bairros dacidade, convidando o povo a ir ao Pacaembu. Em cada um deles, o encerramentocabia a um líder político, operário ou intelectual do partido. No bairro da CasaVerde o último a falar foi o físico Mário Schenberg; no Belém, o líderestudantil Joâo Beline Burza; na Moóca, o escritor Jorge Amado; no Tucuruvi, o dirigente estadualdo PC Joaquim 291 Câmara Ferreira; noBrás, o jornalista José Tavares de Miranda. A organização parecia impecável: apopulação se encontraria em vários pontos do centro da cidade,de onde partiriapara a praça Buenos Aires e dali seguiria em passeata até os portões doestádio. Da casa de Tuba e Hirsch Schor, onde se encontrava, Prestes podiaver o movimento dos grupos que subiam a avenida Nove deJulho, em direção aoPacaembu.Pouco depois dastrês da tarde, Prestes decidiu sair.Levado em carroaberto, ele era aclamado pelos manifestantes que se dirigiam ao comício. Aochegar ao Pacaembu, foi ovacionadopor milhares de pessoas - no estádio com capacidade para 60 mil espectadoresnas arquibancadas, calculava-se que havia mais de 100 mil pessoas, que tinham tomadotambém todo o gramado. Na tribuna oficial, aguardando o chefe comunista,estavam o general Miguel Costa, o jornalista Júlio de Mesquita Filho, representando a UDN,o poeta e senador comunista chileno Pablo Neruda, os capitães Agildo Barata eTrifino Correia, o comandante Roberto Sisson. Durante duas horas desfilaram pelapista de atletismo do estádio delegações de cidades do interior, de outrosestados e de várias categorias profissionais. Um grupo percorreu a pista levando uma bandeirado Brasil esticada pelas pontas, pedindo ao povo contribuiçôes para as famíliasdas vítimas do cruzador brasileiro Bahia, afundado em acidente no final da guerra.Das arquibancadas choviam moedas e cédulasamassadas. Aberto ocomício, falaram o general Miguel Costa e o secretário estadual do PC, MárioScott. Doentee impedido de estarno palanque, o escritor Monteiro Lobato enviou uma mensagem gravada. Depois daexecução do hinonacional do Chile, foi dada a palavra a Pablo Neruda, que em lugarde fazer um discurso, declamou um poema que compusera em homenagem a Prestes,comovendo a multidão com seus últimos versos:Hoy pido un gransilencio de volcanes y rios. Un gran silencio pido de tierras e varones. Pidosilencio a America, de la nieve a la pampa. Silencio: la palabra al Capitán del Pueblo.Silencio: que el Brasil hablará por su boca. 292 Emocionada, a massahumana não parava de aplaudir. Bem humorado, Neruda voltou ao microfone erepetiu a última linha do poema:- Silencio: gue elBrasfl kablará por su boca. Tocaram o hino nacional brasíleiro e Prestes faloudurante uma hora e meia. Fez uma longa análise da situação mundíal, da derrota donazi-fascismo e de suas conseqüências na vida brasileira. Relembrou que a AliançaNacional Libertadora mal vivera um trimestre, referiu-se à derrota de 1935 e à"brutalidade infame contra nós empregada pela polícia fascistizante deFilinto Müller", discorreu longamente sobre a crise econômica vivida peloBrasil e, embora não tivessecitado uma só vez o nome de Getúlio Vargas, voltou a tocar no ponto que tantapolêmica provocava - os comunistas apoiavam o presidente:Lutamos e lutaremospela União Nacional. O governo vem há muito cedendo no sentido da democracia emarcha, por isso, em sentido inverso daquele por que levava o país nos anosanteríores à grande guerra pela independência e libertação dos povos. Senaquela época soubemos empunhar armas em defesa da democracia, agora tambéma defenderemos,apoiando o governo em defesa da ordem e desmascarando sem vacílações os agentesda desordem, todos aqueles que pregam os golpes salvadores e a guerracivil falando emdemocracía, mas que não passam, na verdade, de instrumentos da provocaçãofascista.Era noite fechadaquando Luís Carlos Prestes deixou o Pacaembu em direção à estação Roosevelt,onde tomaria um trem de volta ao Rio de Janeiro. Cercado de amígosele se preparavapara subir a escada do vagão-leito, quando um jovem chegou correndo, abrindopassagem entre os que se despediam do chefe comunista:- Capitão Prestes!Capitão Prestes! Um momento, não embarque!Temeu-se umatentativa de agressão, mas o rapaz se identificou:- Sou repórter daagência de notícias United Press. Nós tínhamos pedido às sucursais européiasque buscassem mformações sobre Olga Benario, e acabamos de 293 receber estetelegrama sobre ela, enviado pelo correspondente em Berlim.Ansioso, Presteslevou o pedaço de papel aos olhos e leu-o com o rosto crispado, diante dosilêncio dos amigosque o fitavam. Levantou a cabeça e disse apenas trêspalavras:- Olga está morta.Era um despachocurto, sem muitos detalhes:Berlim - Asautoridades aliadas acabam de informar que entre as 200 mulheres executadas nacâmara de gás da cidade alemã de Bernburg, na Páscoa de 1942, estava a senhora Olga BenarioPrestes, esposa do dirigente comunista brasileiro Luís Carlos Prestes.Prestes entrou notrem que já começava a se movimentar rumo ao Rio de Janeiro, caminhou por entreas poltronas em silêncio sentou-se e leu mais uma vez a notícia, antes de guardar opapel no bolso do paletó.Só muitos anosdepois é que ele receberia a última carta que Olga escrevera a ele e à filha,ainda em Ravensbrück, na noite da viagem de ônibus para Bernburg.Queridos: Amanhã vouprecisar de toda a minha força e de toda aminha vontade. Porisso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são mais carasque a minha própria vida. E por isso me despeço devocês agora.  Étotalmente impossível para mim imaginar, filha querida, que não voltarei aver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quiserapoderpentear-te, fazer-teas tranças - ah, não, elas foram cortadas. Mas te fica melhor o cabelo solto,um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou fazer-te forte. Devesandar de sandáliasou descalça, correr ao ar livre comigo. Sua avó, em princípio, não estará muitode acordo com isso, mas logo nos entenderemos muito bem. Devesrespeitá-la equerê-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãsfaremos ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueçoque esta é a minhadespedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia de que nunca maispoderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a morte. 294 Carlos, querido,amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bomque me destes?Conformar-me-ia, mesmo que não pudesse ter-te muito próximo, que teus olhosmais uma vez meolhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tãoagradecida à vida, por ela haver-me dado a ambos. Mas o que eu gostariaera de poder viverum dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei. Será possívelque nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por nossa filha?Querida Anita, meuquerido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça,pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportaralgo tão terrível. Éprecisamente por isso que esforçome para despedir-me de vocês agora, para nãoter que fazê-lo nas últimas e difíceis horas. Depois desta noite,quero viver paraeste futuro tão breve que me resta. De ti aprendi, querido, o quanto significaa força de vontade, especialmente se emana de fontes como as nossas.Lutei pelo justo,pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até oúltimo instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero queme entendam bem:preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhefrente quando ela chegue. Mas, noentanto, podem aindaacontecer tantascoisas... Até oúltimo momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir paraser mais forte amanhã. Beijo-os pela última vez.Olga EpílogoOlga Benario Prestesdá nome a ruas de sete cidades e a 91 escolas, fábricas e brigadas operárias naRepública Democrática Alemã. Na cidade de Ribeirão Preto, emSão Paulo, há umarua com seu nome.Luís Carlos Prestesvive no Rio de Janeiro. Rompeu com o Comitê Central do Partido ComunistaBrasileiro em fevereiro de 1980 e três meses depois foi destituido do cargo desecretário-geral da organização.Anita Leocádia vivecom sua tia Lígia Prestes no Rio de Janeiro, onde é professora universitária.Afastou-se do PCB junto com o pai.Anistiado em 1945,Arthur Ewert foi levado um ano depois à então zona de ocupação soviética naAlemanha. Morreu em 1959 na República Democrática Alemã sem ter recuperadoa razão.Otto Braun retornouà URSS em 1939. Dez anos depois mudou-se para Berlim Oriental, onde morreu comotradutor do Instituto de Marxismo-Leninismo.Rodolfo Ghioldimorreu em julho de 1985 em Buenos Aires. 296 Agildo Baratadesligou-se do PCB em 1957. Dez anos depois teve patente militar cassada pelogoverno. Morreu aos 63 anos no Río de Janeiro, em 1968.Anistiado em 1945,Antonio Maciel Bonfim, o Miranda, caiu na mais completa obscuridade política.Morreu tuberculoso em Alagoinhas, interior da Bahia.Sobral Pinto éadvogado no Rio de Janeiro.Miguel Costa morreuem dezembro de 1959.Filínto Mültermorreu em julho de 1973, em desastre aéreo no aeroporto de Orly, na França. Naépoca era senador pela Arena e líder do governo militar no Senado.O embaixador JoséJoaquim Moniz de Aragão aposentou-se do serviço diplomático em 1952 e morreu em1974, aos 87 anos, no Rio de Janeiro.O médico nazistaIrmfried Eberl e a enfermeira Kãthe Hackbarth foram fuzilados pelas tropas queocuparam o campo de extermínio de Bernburg.Há poucas notíciasdo destino dos militantes da UJC que participaram do assalto à prisão deMoabit. Rudi Kónig morreu na Espanha, lutando junto às Brigadas Internacionais.Margot Ring foiexecutada em uma câmara de gás no campo de concentração de Dachau. Preso pelaGestapo, ErichJaszech passouvários anos preso e foi executado emuma câmara de gás em1943. Erick Bormbach foi fuzilado por tropas SS. Klara Selcheim morreuna "Marcha damorte", no campo de concentração de Sachseroausen.O campo deconcentração de mulheres de Ravensbrück foi libertado pela49´ Divisão deInfantaria do Exército Vermelho em 30 de abril de 1945, oito dias antes darendição alemã,I II Depoimentos tomadós I  peloautor- Anna Pikarski- Anni Sindermann- Anita LeocádiaPrestes - Beatriz BandeiraRyff (*)- Carmen Ghioldi- CelestinoParaventi - Dora Mantay- Emmy Handke -Gabor Le~~in- Helmut F. Spáte -Herta Lewin- Ilze Hunger- José Gay da Cunha- Klaus Martin -Kurt Seibt - Ligia Prestes- Luís CarlosPrestes - Manoel Batista Cavalcanti- Maria Werneck deCastro- Milton Cayres deBrito - Rodolfo Ghioldi- Tuba Schor- Wilfried Rupert -Zuleika Alambert(*) Depoimentoconcedido a Paulo César de Azevedo.~ A ~~~~ .Fontes PesquisadasInstituições- LAmicale desAnciennes Déportées a Ravensbrück (Paris, França)- Archivio Storicodel Movimento Operaio Brasiliano Fondazione Giangiacomo Feltrinelli (Milão,Itália)- Arquivo EdgardLeuenrofh - Unicamp (Campinas, São Paulo)- Arquivo do Estadode São Paulo (São Paulo - SP) - Arquivo Hermínio Sacchetta (São Paulo - SP) -Arquivo Histórico do Ministério das RelaçõesExteriores do Brasil(Rio de Janeiro - RJ) - Arquivo Nacional (Rio de Janeiro - RJ)- Arquivos daPenitenciária Lemos de Brito (Rua Frei Caneca) - (Rio de Janeiro - RJ) -Bernburg Stadtarchiv(Bernburg, RepúblicaDemocrática Alemã) - Biblioteca Municipal Mário de Andrade (São Paulo - SP)- BibliotecaMunicipal Presidente Kennedy (São Paulo - SP)- BibliotecaNacional (Rio de Janeiro - RJ)- British NewspaperLibrary (Londres - Inglaterra) 300 - Centro de Pesquisae Documentação de Hístória Contemporânea do Brasil - FundaçãoGetúlio  Vargas -CPDOCjFGV  (Rio de Janeiro, RJ)- Comitêde ResistentesAntifacístas da RDA  (Berlim,República Democrática Alemã) - Departamento de Documentação da EditoraAbril  (São Paulo - SF) -DokumentationszentrumderDDR  (Berlim, RepúblicaDemocrática Alemã) - Iconographia, Pesquisa de Texto, Imagem eSom  (São Paulo - SP) - Institutfür Marximus-Leninismus-Zentrales  Parteiarchiv (Berlim,República Democrática Alemã) - Muséé Air France (Paris, França) - I~IationalArchives (Washington, Estados Unidos) - I~IationaleMahn-undGedenkstãtte  (Ravensbrück,República Democrática Alemã) - Public Record Office (Londres, Inglaterra) -Superior Tribunal Militar (Brasília, DF)- Supremo TribunalFederal (Brasília, DF) - Yad Vashem - Martyrs and HeroesRemembrance  Authority(Jerusalém, Israel)Jornais, Revistas ePeriódicos- Amnistia(Argentina) - Berliner Zeitung am Mittag (República Democrática Alemã) -Classe Operária, A -Correio da Manhã - Correio Paulistano - Correspondance Internationale,Le (França) -Cruzeiro, O - Daily Worker (Inglaterra) - Diárío de S. 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Xavier.Eduardo Ribeiro) 133, 160ABREU, AmandaAlberto 107 ALBERTO, Armanda Alvaro 175 ALBERTO João 148ALMEIDA (v.Meirelles, Ilvo) 138ALMEIDA, Demócritode 195, 204ALMIRANTE I47 ALVES,Francisco 147 ALVES, Júlio 191, 210, 211 AMADO, Jorge 120, 290 AMIGUINHA 1S7ANAHORY, Israel Abrahão 56 ANDERSON, Sherwood 163 ANDRADE, Hernanide 194 ANDRADE, JoséPraxedes de 95 ANDRADE, Oswald de 63, 290 ANTóNIA 138ANTÕNIO (v. Prestes,Luís Carlos) 138APPEN, Heinrich von218, 220, 221, 222, 223ARAGAO, José JoaquimMoniz de 170, 174, 223, 224, 239, 2ã0 ARTHUR, Charles 163 ARTHUR, Chester 163ASTAIRE, Fred ó7AZEVEDO, AglibertoVieira de 82, 104BABO, Lamartine 147BAGÉ (v. Campos, JosuéFrancisco de) 111dr. BALESTRE 133 BANCOURT, Annie (v. Ewert,Elise Saborowski) 69BANDEIRA, Beatriz 174, 210, 217 BANGU (v. Rocha,Lauro Reginaldo da) 122, 138, 159, 160 BANNERMAN, R.C. 123 BARATA, Agildo 82,97, 102, 103,104, 105, 115, 202,287, 291 BARRETO, Barros 184, 234 BARRON, C. N. 75BARRON, Victor Allen68, 74, 75, 79, 80, 97, 100, 109, 115, 122, 134, 135, 136, 137, 139, 149, 153,154, 160, 161, 162, 163, 164, 165, 276BARROS, Hermenegildode 199 BARROS, Quintíno de 95 BASBAUM, Leôncio (v. Machado) 138, 288BASTOS, Abguar 82BASTOS, Adolfo Barbosa 184 BASTOS, Valentina Barbosa 175, 184BEHRENDT, Arthur (v.Braun, Otto) 21, 34, 173 BEHRENDT, Frieda Wolf (v.Benario, Olga) 21,34, 172, 206 BELL, Alexandre Graham 181308BENARIO, EugénieGutmann 16, 236, 237BENARIO, Gutmann 20BENARIO, Leo 16, 17, 34, 35, 236 BENARIO, Olga (v. Behrendt,Frieda Wolf;Benario, Olga Gutmann; Berger, Olga; Bergner, Maria; Kruger, Eva; Meirelles,Maria; Meirelles, Olga; Prestes, Maria; Prestes, Maria Bergner; Prestes, Olga Benario; Sinek,Olga; Vilar, Maria Bergner; Vilar, Olga; Vilar Yvone) 03, 04, 05, O6, 15, 16,17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 27, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 39, 40,41, 42, 43, 44, 45, 46, 49, 50, 51, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62, 64,67, 68, 72, 74, 77, 78, 79, 83, 85, 86, 87, 88, 91 92 95, 96, 97, 98, 99, 107,108, 109, 112, 114, 115, 121, 122, 139, 141, 142, 146, 147, 148, 149, 150, 152,153, 156, 159, 169, 170, 17I, 172, 173, 174, 175, 176, 177, 178, 179, 181, 182, 183,184, 185, 187, 189, 190, 192, 193, 194, 195, 196, 197, 199, 201, 202, 203, 204,205, 206, 207, 208, 209, 210, 211, 212, 213, 214, 215, 217, 218, 219, 220, 221, 222,223, 224, 225, 226, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 233, 234, 235. 236, 237, 238,239, 240, 241, 243, 244, 245, 246, 247, 248, 249, 250, 251, 252, 253, 254, 255, 256,257, 259, 260, 261. 262, 263, 264, 265, 266, 267, 268, 270, 271, 272, 273, 275,276, 277, 278, 282, 283, 288, 290, 292, 293, 294BENARIO, OlgaGutmann (v. Benario, Olga) 20, 30, 34 BENARIO, Otto 237 BERGER, Harry (v.Ewert,Arthur Ernst) 68,73, 74, 75, 98, 109, 111, 112, 116, 117, 118, 125, 138, 155, 156, 157, 161,165, 167, 170, 172BERGER, Machla (v.Ewert, Elise Saborowski) 167 BERGER, Olga (v. Benario, Olga) 169, 172, 206BERGNER, Maria (v.Benario, Olga) 167, 171, 204BERNARDES, Artur daSilva 08, 11BERTAM, Lina 277BESOUCHET. Augusto (v. Carlos) 138BESOUCHET. Catarina175 BEVILÃCQUA, Clóvis 195, 196 BEZERRA, Gregório 82 BLASER, Edith 127 BLEMKE,Gunnar 01 BOMBACH, Erick 04 BONFIM, Antônio Maciel (v.Fernandes, Adalbertode Andrade; Miranda) 65, 88, 120, 128, 137, 138, 139, 189, 190BRANDAO, Mário dePimentel 240BRANDAO, Octávio 74BRANDES, Carlos 209, 210, 211, 212, 215BRASIL, Paulo 149BRAUN, Otto (v. Behrendt, Arthur; Hua Fu; Landeburg, Hans; List, Albert; LiTeh; Resch, Erwin; Schumann, Oscar; Wagner, Karl) Ol,02, 03, 04, 05, 06,15, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 29, 30, 31, 32, 33, 34, 35, 36, 37, 39, 40, 41,42, 43, 44. 55, 72, 172, 173, 226, 246, 249BRAUN, Werner von268 BRINTON, Crane 163BRITO (v. Molares,José Lago) 159BRITO, Milton Cayresde 284 BROWDER, Earl 69, 125 BROWN, Arthur (v. Ewert,Arthur Ernst) 69,111 BUBER-NEUMANN, Margarete 276, 277BUKHARIN, Nicolai70, 71 BURDETT. Willian C. 113 BURZA, João Beline 290 BUSTEROS, Luciano (v.Ghioldi,Rodolfo) 68, 73, 132CABEÇAO (v. Lyra,Francisco Natividade) 160CABELLO, Benjamin81, 82 CAMARA, Diógenes de Arruda 285CAMARGO, Laudo de199309CAMPBELL, MarianCameron 166CAMPOS, JosuéFrancisco de (v. Bagé) 111CAMPOS, Siqueira 64CANDU, Leonardo 85 CARDENAS, Lázaro 288 CARLOS (v. Besouchet,Augusto) i38 CARLOS(v. Leite, Carlos Costa) 138CARMO, Orlando 195CARPENTER, Luís 106 CARTER, Albert 162 CASADO. Plínío 199 CASCARDO, Hercolino80, 82, 115, 202CASTRO, Luiz Werneckde 178, 207CASTRO, MariaWerneck de 107, 158, 174, 178, 207, 210, 213, 214, 215CATERVAS 104CAVALCANTE, Ilcon 84 CAVALCANTI, Alcedo 202 CAVALCANTI Filho, Luís 242CAVALCANTI, Manoel Severino(v. Gaguinho) 160CAVALEIRO DA ESPERANÇA (v. Prestes, Luís Carlos) 08, 51, 67, 85, 122, 161, 203CHERMONT, Abel 165CHILLES, Ethel 127 CHU TEH 73CLETO 157COLõNIO, ElviraCupelo(v. Fernandes, Elza;Garota) 120. 131, 132, 158, 159, 160, 178, 189COPLAND, Aaron 163CORREIA, Affonso de Miranda 92, 116, 119, 120, 123, 124, 128, 133, 141, 143,152, 154, 156, 190, 1%CORREIA, AndréTrifino 97, 101, 287, 291COSTA (v. Leite,Carlos Costa) 138COSTA, Lineu 148COSTA, Miguel 07,08, 10, 82, 92, 93, llb, 144, 145, 291COSTA, Oswaido (v.Ramalho) t38COUTINHO, Lamartine95 COWLEY, Malcom 163CRUZ, Paulo Krugerda Cunha 87CRUZ, Vitor Cesar daCunha 99, 100, 107CUNHA, José Gay da183, 211DALADIER 137 DAVIS,Monnet 117 DIMITROV, Georgi 89 DREISER, Theodore 163 DRUJON, François 238, 243,244 DUTRA, Eurico Gaspar 103, 104, 105, 287EBERL, Imfried 281,282 EISLER, Gerhardt 70 ELIAS, Deolinda 88, 112 EMMA 138ENGELS, Friedrich12, 24 ERNESTO, Pedro 116, 139, 148, 189ERXLEBEN, Gunter 27ESPfNOLA, Eduardo 199 ESTEVAO 94EWERT, Arthur Ernst(v. Berger, Harry; Brown, Arthur; Negro) 67, 68. 69, 70, 71, 72, 73, 74, 76,78, 79, 83, 86, 88, 95, 96, 98, 107, 108, 109, 110, 111, 112, 113, 116, 117, I18, 119,120, 122, 123, 124, 125, 126, 127, 128, 129, 131, 132, 135, 136, 137, 138, 139,149, 155, 165, 166, 167, 172, 174, 190, 223, 229, 230, 231, 234, 239, 252, 253, 268,276, 288EWERT, EliseSaborowski (v. Bancourt, Annie; Berger, Machla; Leczycki, Machla; Sabo;Saborowski, Elise) 67, 69, 72, 78, 79, 88, 108, 109, 112, 117, 118, 120, 122, 123, 125, 126, 127,128, 129, 135, 136, 137, 149, 165, 166, 167, 185, 206, 207, 209, 217, 218, 219,220, 221, 223, 225, 249, 252, 253, 266, 268, 276EWERT, Mina 167, 229FARIA, Bento de 199FARIAS, Oswaldo Cordeiro de 144, 155310FERNANDES, Adalbertode Andrade (v. Bonfim,Antônio Maciel) 120,127, 128, 138, 157FERNANDES, Elza (v.Colônio, Elvira Cupelo) 120, 121, 158 FERNANDES, Rafael 94 FERNANDÉZ, Pedro (v.Prestes,Luís Carlos) 53FERREIRA, Affonso 103 FERREIRA, Joaquim Câmara 291FIRMO (v. Leite,Carlos Costa) 138FLORES 104 FONTOURA,Lauro 84 FOSTER, William 69 FRANCO, Francisco 180, 281 FRANCO, Virgílio deMello 148 FRANK, Waldo 163FREEMAN, RichardGavin 166 FRIEDA 32FROTA, Sílvío 84FRUSCHULZ, Gertrud 251, 252, 253GAGUINHO (v.Cavalcanti, Manoel Severino) 160 GALVAO, João 95GALVAO, José Torres123, 124, 128, 149, 150, 151, 156, 194 GALVAO, Patrícia 63GAR 157GARIBALDI, Anita227, 231 GARIBALDI, Giuseppe 227 GAROTA (v. Colônio, ElviraCupelo) 120, 157,158, 159, 160 GAROTO (v. Prestes, Luís Carlos) 115, 131, 138, 294GEBHARDT, Karl 277,279 GEIST, Raymond 117 GEORGE, Harrison 74, 75, 135, 136GHIOLDI, CarmenAlfaya de 68, 74, 75, 79, 132, 133, 158, 175, 178, 182, 183, 185, 206, 207,24~1, 276GHIOLDI, Rodolfo (v.Busteros, Luciano; Indio) 12, 73, 74, 75, 79, 84, 88, 89, 91, 95, %, 101, 132,133, 134, 139, 141, 143, 169, 179, 180, 181, 193, 190, 192, 193, 211. 276GIBSON, Hugh 117,123, 135, 163, 164GIN 157 GIVON 62GLEIZER, Genny 188 GOETHE 147GOMES, Eduardo 103,105 GOMES, João 190 GOMES, José 122GOMES, Paulo EmílioSalles 188 GRAWITZ, Otto 277 GROMYKO, Andrei 286 GRUBER, Erika 68, 75, 79, 99,113, 276GRUBER, Paul Franz68, 75, 79, 88, 99, 109, 112, 113, 276 GRtINSPUN, Ruth 283 GUARNIERI, RossiniCamargo 290GUILHEM, Aristídes190 GUIMARAES, Honório de Freitas (v. Martins; Milionário; Nico) 138, 159, 160GURALSKY, Augusto(v. Kleiner; Rústico) 13, 71GURGEL (v. Leite,Josias) 138 GUSMAO (v. Medina, José) 138 GUSSFELD, Kathe 127HACKBARTH, Kathe 281HANDKE, Emmy 03, 276, 283 HASTINGS, Christine 166, 205 HELLMAN, Lilian 163HENRIQUES, Dinis 94 HENSCHEL, Charlotte 249, 277, 278HILL, Edna 75, 160,161, 162, 163 HIMMLER, Heinrích 268, 269, 270, 271. 2T9HITLER, Adolf 71,78, 180, 187, 197, 212, 215, 226, 246, 251, 253, 255, 257. 268, 270, 275, 277,279, 290HOLLIS, Roger 73HOOVER, J. Edgard 117 HORA, Sebastião da 202 HORTA, Oscar Pedroso 47 HUA FU (v.Braun, Otto) 72 HULL, Cordel 113, 117, 123, 135,136, 161, 162, 163,l64IBARRURRI, Dolores(vFasionaria, La) 89, 205311INDIO (v. Ghioldi,Rodolfo) 131, 132, 133ISMAR (v. Meirelles,Ilvo) 138 ITARARE, Barão de (v. Torelli, Aparício) 177, 191, 195JAZOSCH, Erich 04JELEN, Veriano 287 JOHNSON, Alexander 164, 165 JOLANSKY, Ilsa 276JULIO (v. Besouchet,Augusto) 138JULLIEN, Francisco112, 123, 128, 129, 132, 133, 137, 149, 151 JUNGHANS, Heinz 34KAI-CHECK, Chiang 72KARAN, Mansur 231 KELLY, Otávio 199 KEMPRAD, Raphael 192 KIMBER, Kathleen 235KING-KONG 214, 215 KLEINER (v. Guralsky,Augusto) 12 KLING 33KLOSE, Tilde 273,283 KOJEVNIKOVA, Tamara 45 KONDER, Valério 213 KtSNIG, Rudi 04KRUEL, Riograndino155 KRUGER, Eva (v. Benario, Olga) 44, 45, 49, 172, 206KUHN, Bela 89LACERDA, Carlos 82LAGO, Lauro 95 LANDEBERG, Catharina 107 LANDEBURG. Hans (v. Braun, Otto) 173LANGER, Irene 283LASSANCE, Carlos 241, 243 LAVAL 137LEAO, Souza 113LEICHNER, Kate 278 LEITE, Américo Dias 59, 87, 177, 178LEITE, Carlos Costa(v. Carlos; Costa; Firmo) 138 LEITE, Josias (v. Gurgel) 138 LENCZYCKI, Machla(v. Ewert,Elise Saborowski)68, 73, 125 LENIN, V. I. 11, 24, 25; 41. 48 ~.EWII~, Gabor 03, 31, 42. 43LIEBKNECHT, Karl 22,24 LIMA, Heitor Ferreira 195, 196,197, 198, 199, 208,209 LIMA, Hermes 193LIMA, LourençoMoreira 11, 145 LIN PIAO 73LINS, Edumundo 198,199 LIST, Albert (v. Braun, Otto) 73 LISTOWEL 205LI TEH (v. Braun,Otto) 72, 73 LOBATO, Monteiro 291 LOLOTTI, Carlos 149LOPES, Isidoro Dias08 LOVESTONE, Jay 69, 70 LUIS, Washington 13 LUXEMBURGO, Rosa 22, 224 LYRA,Francisco Natividade(v. Cabeção) 160MACEDO, José 95MACHADO (v. Basbaum,Leôncio) 138MACHADO, Dyonélio 82 MALINOVSKY 286 MALRAUX, André 206 MANGABEIRA, Francisco82, 106MANSO, Costa 199MANTAY, Dora 27 MANUILSKI, Dmitri 48, 49, 50,54, 76, 189, 204MARCANTONIO, Vito 164 MARIGHELLA, Carlos 287 MARIZ. Dinarte 98 MARTINS (v.Guimarães,Honório de Freitas)138 MARX, Karl I1, 24 MAXIMILIANO. Carlos 199 MAXIMO, Luís 102 McREYNOLDS, Sam164 MEDEIROS, Maurício de 106 MEDINA, José (v. Gusmão) 138 MEIRELLES, Francisco 159MEIRELLES, Ilvo (v. Almeida;Ismar) 138, 143MEIRELLES, Maria (v.Benario, Olga) 171MEIRELLES, Olga (v.Benario, Olga) 168, 171, ~06 MEIRELLES, Rosa 174, 182, 183 MEIRELLES, Sylo 82,95, 169 MEISSNER Junior, Carlos 173 MEL 15i3i2MENDONÇA, Borges de154 MENEZES, Amílcar Dutra de 290MENGELE, Josef 280MENNECKE, Frítz 280 MENZER, Rosa 283 MESQUITA Filho, Júlio de 291 MILES, May235MILIONARIO (v.Guimarães, Honório de Freitas) 138, 159, 160MIRANDA (v. Bonfim,António Maciel) 65, 76, TI, 88, 91, 95, %, 97, 98, 101, 120, 121. 122, 131,133, 137, 138, 158, 159, 178, 189MIRANDA, Carmen 147MIRANDA, Emygdio 288 MIRANDA, José Tavares de 291 MOLARES, José Lago (v. Brito)159MORAES, Eneida de(v. Nat) 138, 174MOREIRA, EugêniaÁlvaro 174 MOTTA, Carlos Carmelo de Vasconcellos 2fi4MOURA, Francisca 174MOURAO, Carvalho 199 MOURÃO Filho, Olympio 243 Mt7LLER, Filinto Strümbling 89,92, 106, 107, 109,I10, 111, 112, 113, 114, 115, llb, 117, 119, 131, 132, 134, 135, 136, 143, 144,145, 146, 147, i48, 149, 150, 152, 153, 154, 155, 156, 157, 158, 166, 175, 177, 180,185, 189, 190, 194, 195, 197. 201, 202, 2D4, 207, 208, 209, 210, 212, 213, 217,220, 233, 255, zás, Zá2MüLLER, Wilhelm 22.27, 36 MUSSOLINI, Benito 180NASCIMENTO, Padre191, 192, 193~IAT (v. Moraes,Eaeida de) 138 NAVA. Pedro IOiNEGRO (v. I:H~ert,Arihur Ernst) 131, i38NEIVA, Aloysio 202,209, 212, 213NEKIEN, Rudolph Ol,02 NERUDA, Pablo ?.9I, 292 NEUlkIAPdN 35 NELtMANN, Heit~ ~7á, 277NEUMANN. JoãoGuilherme 217, 218, 219, 220, 222. 223NICO (v. Guimarães,Honório de Freitas) 138NICOLUCCI, Haidée175, 184 NOGUEIRA Filho, Paulo 286OBERHEUSER, Herta276, 280 OLIVEIRA, Armandv de Salles 286OLIVEIRA, Régis de166, 167 OTERO, Francisco Leivas 102PAIVA, Ataulpho de199 PANDARSKY, Olga Jazikoff 170 PARANHOS, Manuel 60 PARAVENTI, Celestino (v.Salvador) 63, 64,77, 142 PASIONARIA, La (v. Ibarrurri, Dolores) 89, 205PASSOS, John dos 163PAZ. Manuel VenâncioCampos da 82, 211PAZ Junior, ManuelVenâncio Campos da 177, 213, 214, 215 PEDROSA, Mário 290 PEIXOTO, Ernâni doAmaral 103PEIXOTO, Luiz Felipe218, 223 PEREIRA, Antonio Canavarro I1, 141, 154, 155. 190PEREIRA. AstrojildoI1, 12. 13, 54, 74PICCININI, Arthur188 PINTO, Heráclito Fonioura Sobral 230, 231, 233, 234, 238, 240, 241, 242,255, 289PIZA, Luiz de Toledo286 PORTO, Eucico Bellens 154, 155, 185, 189PRADO 157 PRADO,Edwar 84PRADO Júnior, Caiofi0, 82, 83, 92PRESTES, AnítaLevcádia 227, 228, 229, 23I, 232. 234, 236, 237, 23R, 239, 241, 242, ?43, 244,245, 24b. 247, 248, 252. 254, 255, 25á, 265, 88, 294PRESTES, Clotilde 4óPRESTES, I,eloísa 4b, 4? PRrSTES. Júlio 13313PRESTES, Leocádia09, 46, 47, 49, 53, 55, 204, 205, 225, 226, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 233,234, 236, 237, 238, 240, 241, 243, 244, 247, 252, 253, 255, 264, 288PRESTES, Lígia 46,53, 204, 205, 225, 228, 229, 230, 232, 237, 238, 241, 243, 244, 248, 253, 265PRESTES, Lúcia 46PRESTES, Luís Carlos (v. Antônio; Cavaleiro da Esperança; Fernandéz, Pedro;Garoto; Villar, Antônio) 07, 08, 09, 10, 11, 12, 13, 46, 47, 48, 49, 50, 53, 54, 55, 56,57, 58, 59, 60, bl, 62, 63, 64, 65, 67, 68, 71, 74, 77, 78, 79, 80, 81, 82, 83,84, 85, 86, 87, 88, 89, 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99, 101, 102, 104, 105, 108,109, 112, 113, 114, 115, 116, 120, 121, 122, 126, 128, 129, 131, 133, 135, 136,138, 139, 142, 143, 144, 145, 147, 148, 149, 150, 151, 152, 153, 154, 155, 156, 157,159, 161, 163, 167, 169, 170, 171, 172, 178, 182, 184, 185, 187, 188, 189, 190,194, 195, 197, 198, 202, 203, 204, 205, 206, 207, 213, 220, 22S, 226, 227, 229, 230,231, 233, 234, 235, 236, 237, 238, 239, 240, 241, 242, 243, 247, 248, 252, 253,254, 255, 264, 265, 275, 285, 286, 287, 288, 289, 290, 291, 292, 293 294PRESTES, Maria (v.Benario, Olga) 171, 172, 178, 183, t97, 198, 206, 208, 210, 211. 212, 213, 215PRESTES, MariaBergner (v. Benario, Olga) 185 PRESTES, Olga Benario (v.Benario, Olga) 167,238, 242, 244, 249, 283, 290, 293`T.!FTRf)? Filho,Eusébio dc ;.1~, 1;. 184. ?03~tAMALHO (v. Costa,Oswaldo) 138RAMOS, Graciliano180, 181, 190, 212RANKIN, Jeanette 163RAO, Vicente 116,143, 156, 190, 197, 208REBELO, Castrv 106REIS, Dinarco 104RESCH, Erwin (v.Braun, Otto) 173REZENDE, Leônidas106 RIBEIRO, Ivan 104, 287 RIBEIRO, Orlando Leite 64, 287, 288RING, Margot 04ROCHA, LauroReginaldo da (v. Bangu) 122, 138, 1S9, 16t1 RODó, Carmona 07, 11 ROGERS, Gínger87 ROLLAND, Romain 206 ROMANO, Emílio 106 ROOSEVELT, Franklin 162, 163, 229ROSA, Noel 147RÚSTICO (v. Guralsky, Augusto) l~, 71 RUTH 25SABO (v. Ewert,Elise Saborowski) 69, 86, 88, 107, 108, 109, I10, 117, 118, 127, 174, 178, 179,219, 220, 221, 223, 253, 266, 268SABOROWSKI, Elise(v. Ewert, Elise Saborowski) 68 SALAZAR, Antônio Oliveira 56 SALGADO, Plínio85, 288 SALVADOR (v. Paraventí, Celestino) 63SANTOS, AdelinoDeícola dos (v. Tampinha) 159, 160 SANTOS, Júlia dos 120, 147, 151, 152SANTOS, Manoel dos121, 122, 147, 148, 149SAPIR, Edward 163SARRAULT 137 SCHEMBERG, Mário 290 SCHILLER 147 SCHIMDT, Afonso 290 SCHIMDT,Ernst Ol, 02 SCHNEIDER, Benjamin 139 SCHOR. Hírsch 284, 291 SCHOR, Tuba 284 SCHUMANN,Martin 278 SCHUMANN, Oscar (v. Braun, Otto) 173SCOTT, Mário 291SEIBT, Kurt 25314SELEHEIM, Klara 04SILVA, Sócrates Gonçalves da 104SILVA, TimotheoRibeiro da 80, 81SILVEIRA, Dyonísioda 195 SILVEIRA, Nise da 1S8, 174, 182 SILVEIRA, Otávio da 85, 86, 165SINCLAIR, Upton 163SINEK, Olga (v.Benario, Olga) 40, 45, 48, 49, 50, 53SISSON, Roberto 82,98, 106, 115. 291SOARES, Tosé Carlosde Macedo 166, 167, 170, 174, 241 SOMMER, Eurisch 78SORGE, Richard 72SOUZA 157SOUZA, AlvaroFrancisco de 104 SOUZA, Carlos Martins Pereira de 286SOUZA, Odette deCarvalho e 241, 242, 243SPERRLE, Hugo 282STÁLIN, Joseph 69,70, 71, 72, 73, 76, 89, 165, 180, 241 STASOVA, Elena 48, 54 SUHREN, Fritz 269TAMPINHA (v. Santos,Adelino Deícola dos) 159, 160TEIXEIRA, Anísio 106THAELMANN, Ernst 70 TOBULKHIN 286 TOGLIATTI, Palmiro 89 TORELLI, Aparício (v.Itararé,Barão de) 177, 191TOURINHO, Antônio Bento 287 TSE-TUNG, Mao 72, 73, 89, 111 TUMA, Nicolau 64TWARDOWSKI, von 43ULBRICHT, Walter 44UNGER, Ilze 44, 45VALLEE, Alphonsine68, 75, 79, 112, i28, 133, 134, 276VALLBE, Leon-Jules68, 75, 79, 92, 112, 128, 129, 133, 134, 139, 159, 276VARGAS, Darcy 209VARGAS, Getúlio 13,67, 85, 86, 97, 98, 102, lti4, 105, 116, 131, 142, 143, 144, 145, 148, 149,152, 157, 163, 165, 169, 170, 180, 187, 195, 197, 199, 204, 205,206, 218, 240, 243,286, 287, 288, 289, 290, 292VENEGAS, Antonia 174VIANNA, Oduvaldo 87 VILAR, Angela Glóría 56 VILAR, Antônio (v. Prestes,Luís Carlos) 56, 57,59, 60, 62, 67, 78, 79, 87, 115, 116, 122, 156, 157VILAR, José 56VILAR, Maria Bergner(v. Benario, Olga)56, 58, 59, 60, 62, 67, 78, 79, 122, 157, 167, 169, 171, 172, 206VILAR, Olga (v.Benario, Olga) 171VILAR, Yvone (v.Benario, Olga) 87, 178VIRGOLINO, Hymalaia154 VOGT, Franz 05, 06, 30, 32, 33, 35WAGNER, Karl (v.Braun, Otto) 173WEISER, Martin 25WEYAND-SONNTAG, Gerda 277 WEYAND-SONNTAG, Klaus 277, zsoXANTHAKY, Theodore123, 124, 125, 126, 127, 128, 129, 134, 135, 136, 137, 149XAVIER, EduardoRibeiro (v. Abóbora) 133, 160ZADEK, Anne-Marie278! "Além de ser um retrato decorpo inteiro de Olga Benario, o livroacabou sendo uma história completa darevoltacomunista de1935." (O Globo) ,, "Estou impressionado com aqualidade do texto e com o belo profissionalismocom que o trabalho foi encarado. É,sem sombra de dúvida, uma excelente obrae um livro indispensável."(Tarsode Castro - TribunadaImprensa) "Ao fim da leitura, fica a sensaçãode que Olga é muito mais viva e inquietante doquea Julia de LilianHelmann." (Flávio Moreira da Costa -Fatos) "Não é apenas o relato da vida eda morte de Olga Benario,mas trazrevelações inéditas e polêmicas sobre arevolta comunista de1935." (Jornal O São Paulo)"Oautor alcançou umfeitoraro: num livro de reportagem, conseguiuum nível de envolvimento doleitor característicoda melhorficção."! (Renato Pompeu - Voz da Unidade)"O livro sobreOlga Benario e o vídeo sobre Sonia Angel são dois momentos de paixão,arrebatamento e dilaceração emocional e política."(Affonso Romano deSantAna - Jornal do Brasil)"Só agora afascinante história de Olga é contada de verdade para nós - e de formaapaixonada." (Marília Gabriela - TV Bandeirantes) "Fernando Moraisdevolve-nosuma Olga mais rica ecomplexa e, com ela, um passado perturbador." (Marco Aurélio Garcia -Leia) 
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